<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106</id><updated>2012-01-22T07:37:15.206-08:00</updated><category term='Depoimentos'/><category term='Acontece'/><category term='Sobre Rodrigo Petronio'/><category term='Crítica'/><category term='Poética'/><category term='Cursos'/><category term='Cinema'/><category term='Edições Rumi'/><category term='Entrevistas'/><category term='Da Leitura'/><category term='Gabinete Dos Cínicos'/><category term='Filosofia'/><category term='Ensaio'/><category term='Biografia'/><category term='Decálogo: Dez Superstições da Modernidade'/><category term='Maiara Gouveia'/><category term='Enciclopédia'/><category term='Poesia'/><category term='Disparos'/><category term='Diálogos'/><title type='text'>ESSA REALIDADE INATINGÍVEL</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>69</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-7682878244966830045</id><published>2012-01-17T10:09:00.000-08:00</published><updated>2012-01-17T10:10:39.355-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesia'/><title type='text'>O BARRO DO ÉDEN:A POESIA DE ALFREDO FRESSIA</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="background-attachment: initial; background-clip: initial; background-image: initial; background-origin: initial; background-position: initial initial; background-repeat: initial initial; line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-fV40l_aewl8/TxW3QCiuYSI/AAAAAAAAALo/TtozbnMGYgg/s1600/ag29fressia1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/-fV40l_aewl8/TxW3QCiuYSI/AAAAAAAAALo/TtozbnMGYgg/s1600/ag29fressia1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Primeiro filho de Adão e Eva, e,por conseguinte, primeiro homem nascido naturalmente sobre a Terra, pesa sobreCaim a cifra de um enigma e de um destino, ora individual ora coletivo. Emborao seu nome signifique &lt;i&gt;lança&lt;/i&gt; e denotea sua origem agricultora, pode ser entendido também, de modo perifrástico, como&lt;i&gt;obter para si&lt;/i&gt;, ou seja, &lt;i&gt;ganhar algo para si&lt;/i&gt;. Isso que oprimogênito tem para si, como depois sabemos, é a inveja. A necessidade de ter,por parte de Deus, a dignidade que ele julga que lhe compete, fato que nãoocorre. Por isso o fato último do assassinato. “E porei inimizade entre a tua semente e a sua semente” (Gênesis3:15), diz Deus, referindo-se à serpente e a Eva. Ora, quer dizer que o mal quenasceu do pecado entre Eva e a serpente se estenderia à semente de Eva (Caim) ea toda a descendência deste (a humanidade).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Porém, alguns comentadoreseruditos sugerem que um dos sentidos simbólicos desse personagem seria o de &lt;i&gt;redentor. &lt;/i&gt;Ele teria vindo ao mundo, apóso pecado, para matar a serpente e restituir a integridade da vida. Por isso asua urgência de obter &lt;i&gt;reconhecimento&lt;/i&gt;(e aqui a ambiguidade semântica da palavra é oportuna) por parte de Deus. Deacordo com essa leitura heterodoxa, haveria um sentido subliminar na figura deCaim. Ele seria o descendente (a semente) que teria vindo ao mundo paraaniquilar o mal. Teria sido o primeiro ungido. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Obviamente, na doutrina cristã, aideia de regeneração da humanidade pela remissão do mal é atributo divino, e sóse deu com Jesus. E trata-se de restauração total, não de mera extinção dassuas causas mundanas (a serpente). Por isso, Jesus foi aquele “segundo Adão”,de acordo com as palavras do apóstolo Paulo, ou seja, aquele que restaurouintegralmente o mundo e o ser por meio de sua encarnação e de sua palavra.Entretanto, não deixam de ser curiosas algumas outras associações simbólicasdaquele personagem bíblico. Sabemos que Caim não apresenta arrependimento, maspadece de remorso. Esse fato vem inscrito na famosa “marca de Caim”, que foiestabelecida por Deus, mas cuja execução e natureza não vêm expressas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Paradoxalmente, essa marca éregistro de proteção e de estigma. Denota ao mesmo tempo a eleição divina e achaga de uma ação ocorrida no passado. É aquilo que distingue Caim comodescendente adâmico, marcando um limite de proteção para que ele não sejamorto, e o que assinala o seu crime. Essa dupla natureza, protegida e espúria,preservada e infame, tem o intuito de fazer de Caim um dos protagonistas daneutralização do mal do mundo. Afinal, há que se suspender de vez a cadeia dasmortes, interromper as quedas que se inauguram com a Queda, das quais Caimrepresenta uma das mais profundas, logo depois da perda do Paraíso, pois em simesmo mostra a todos a mácula de sua escolha. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-xS7QVRGGocA/TxW3p0Myb_I/AAAAAAAAALw/AgNl4OpaO-Y/s1600/211539_813124818_82285_n.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/-xS7QVRGGocA/TxW3p0Myb_I/AAAAAAAAALw/AgNl4OpaO-Y/s1600/211539_813124818_82285_n.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Os desdobramentos do enredo, do&lt;i&gt; mythos&lt;/i&gt;, muitos de nós sabemos: oexílio, a Terra da Fuga (Nod), a edificação de cidades, uma das quais leva onome de seu filho Enoc, os primeiros trabalhos com a metalurgia, o crescimentoda poligamia e da violência, a suspeita referência ao assassino de Caim, Lemec,que será vingado setenta vezes aquelas que Caim seria vingado, ou seja, setentavezes sete. Ora, descendem de Caim, passando por Noé, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Cam e Nemrod, ofundador de potências como Babilônia e Nínive, além de outras grandes cidades.A descendência de Caim, por outro lado, não é só o dos que constroem e manejama metalurgia, mas também a dos que tocam cítara e flauta. Além de autores demuralhas feitas à custa de sangue e ferro, são também patronos da cultura e seurefinamento. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Em palavras polidas, teria inícioentão a “civilização”, que nada mais é do que a luta dos homens uns contra osoutros? A edificação das cidades e, portanto, a ruptura com a relação com anatureza começou pelas mãos do primeiro fratricida? Não cabe discutir aqui oslimites tênues entre essas esferas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;A despeito do que o leitor possaestar pensando, essa introdução um tanto idiossincrática se justifica, poisacredito que ela se relacione diretamente à experiência de leitura da poesia deAlfredo Fressia. Poesia rigorosamente edênica, ela não o é no sentido de propora restauração de uma unidade primeira entre linguagem e mundo, de uma &lt;i&gt;Ursprache&lt;/i&gt; poética, como tantos grandespoetas o fizeram e o fazem. Não é também poesia “profana”, no sentido de apagaras marcas da origem que tanto a linguagem quanto a vida trazem em si, nomovimento centrífugo da Criação. A cena que se sustenta como pano de fundo detodos os poemas de Fressia é uma&lt;i&gt; cena deintervalo&lt;/i&gt;. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-WzzWH_WRhEo/TxW30zD2g3I/AAAAAAAAAL4/svDSw3uFjpE/s1600/FRessia+%25281%2529.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/-WzzWH_WRhEo/TxW30zD2g3I/AAAAAAAAAL4/svDSw3uFjpE/s1600/FRessia+%25281%2529.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Baseia-se na consciência de que apoesia, no seu sentido inicial e dir-se-ia até iniciático, nasce de uma origempura, porém perdida para sempre, e toma para si a responsabilidade de edificaro mundo, mas apenas depois de estabelecer o seu compromisso com o mal. O poetaé aquela “rosa condenada” (“Mas a rosa”) ao eterno exílio, sempre no limiar,para sempre no umbral. Essa condição intervalar, de radical &lt;i&gt;indecidibilidade&lt;/i&gt;, para usar o conceitode Blanchot, faz da via poética uma impossibilidade sustentada. Mais do que umconfesso deslocado social, essa situação estrangeira é ontológica. Diz-nos quea poesia, por ser linguagem, está fora do Paraíso, mas, por ser poesia,tampouco compartilha da completa ausência de sentido. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Tanto nos conjuntos de poemas &lt;i&gt;O futuro&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;Veloz eternidade&lt;/i&gt;, quanto no magistral &lt;i&gt;Eclipse &lt;/i&gt;e nesta antologia &lt;i&gt;Cantodesalojado&lt;/i&gt;, recolhida, traduzida e organizada cuidadosamente por FábioAristimunho Vargas, a cena caimita não é acessória, tampouco referencial. Aocontrário, pode-se dizer que ela é a estrutura mítica sobre a qual se ergue apoesia de Fressia, é a sua matéria-prima e a sua bússola. Eleito e maldito,assim é a descendência do poeta e assim é a descensão sugerida pela instauraçãopoética. Em termos arquetípicos, tais modulações da Queda são flagrantes até napassagem de um poema a outro. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;De saída, já se vê esse movimentonos dois primeiros poemas do livro. Apresentando-se como um “mal-entendido comoa alma” e como um “traidor”, desde o poema de abertura, não por acasointitulado “A última ceia”, o percurso poético é sempre o da reminiscência, coma nostalgia do abandono (a derelicção, como diz Heidegger), e a certeza daredenção impossível. Inútil “como a poesia” é a própria existência do poeta, omais exilado dos exilados, e, entretanto, marcado com a chancela divina. Daceia se passa ao diálogo com o pai, em “O medo, pai”, no qual o filhoespanta-se ao se reconhecer “preso no corpo”, e define os homens como “filhosobedientes da espécie”, mesma expressão que reaparece no belo e fortefechamento do poema “Obediência”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Esse fundo mítico, que traz em sisempre a chancela de um mal inexorável e vem na abertura do livro tematizado emforma de remorso, ganha espessura na cena edênica e não se preserva no níveldas formas e dos arquétipos. Toma corpo na própria vida, enraizada nocotidiano. Seja ao dizer, de modo babélico, que “todos os idiomas sãoincompreensíveis” na vasta tristeza noturna, seja mostrando os amantes como“títeres do tempo”, em quartos iluminados de néon (“Noturno na Avenida SãoJoão”). Esta paisagem desolada de perda e carência pode se dar na ausência derosto, que fôra por “sete dias postergado”, no “segredo dos ossos”, no xadrezdas vértebras jogadas pela morte (“Domingo à tarde”), na sinfonia da carne, naruína dos corpos durante o amor e no regresso de cada um desses até “a suaausência”. Esses corpos não são inodoros ou distantes, não são paisagem,tampouco estáveis permutações de um amor ameno. Eles se dilaceram e sedissipam, deixam marcas, cheiros, pegadas, passos, sêmen, odores, cortes, suor,sangue. Amam-se como peixes, amam-se e se odeia, atravessam-se e se esfolam aosolhares sorridentes da morte. Depois, se por acaso o seu o próprio corpo tomaciência de si, ele dobra-se e se contrai na posição de feto, em seu retornoprimevo ao ventre da Criação, como lemos no impecável “Liturgia”. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-FF2kvDy14HA/TxW4mve7D2I/AAAAAAAAAMA/7CyHpkP4hhY/s1600/p1010036.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="239" src="http://3.bp.blogspot.com/-FF2kvDy14HA/TxW4mve7D2I/AAAAAAAAAMA/7CyHpkP4hhY/s320/p1010036.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Esse barro original de ondeFressia modela os seus corpos, além de manchado e impuro, traz algo também desingular. Se observarmos, por exemplo, a temática homoerótica de sua poesia,sinto que podemos desentranhar dela algumas variantes, não só do homoerotismo,mas também da androginia. O enigma da sexualidade, um dos enigmas da vida, éposto de maneira emblemática, entre outros, no poema “Final”. Ao dizer que“encerra todo o ciclo” e que em si “se acaba” e, logo em seguida, “Tirésiascontempla o travesti em silêncio”, Fressia passa de uma dimensão literária, defechamento dos poemas, a uma sexual e existencial, do voltar-se sobre si mesmo,ou seja, do amor ao próprio sexo e do amor a si, como fundo autotélico dodesejo que &lt;i&gt;não quer se perder no outro&lt;/i&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Ora, o adivinho Tirésias, talcomo se diz de Empédocles, havia experimentado em outras vidas a forma demulher. Esse feminino que vem inscrito na interioridade do personagem, aliado àcegueira que o veda ao mundo das formas exteriores, é o que promove ovisionarismo. O mesmo visionarismo que terá Édipo em Colono, depois de cegado edepois de, na tragédia de Tebas, ter selado seu pacto com a mãe, que é Jocastae o segredo do eterno feminino. Tem início então o segundo movimento dasinfonia trágica, o conhecimento que se exerce depois da peripécia doreconhecimento. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;&amp;nbsp;A função edipiana é subvertida aqui de maneiraquase bufa. O cego Tirésias contempla o travesti &lt;st3:personname productid="em sil￪ncio. Quer" w:st="on"&gt;em silêncio. Quer&lt;/st3:personname&gt;dizer: as próprias estruturas interiores e exteriores foram embaralhadas, postonão haver aqui mais ambivalência produtiva. Em outras palavras, não háassimilação dos opostos, &lt;i&gt;anima &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;animus&lt;/i&gt;, mas um profeta cego que“contempla” um travesti (o poeta), cujo feminino interior já foi totalmenteexteriorizado, posto &lt;st3:personname productid="em pot￪ncia. Nesse" w:st="on"&gt;em potência. Nesse&lt;/st3:personname&gt; sentido, não há tragédia, pois a tensão dosopostos se resolveu por dissolução. O mesmo modo bifronte de união dos corposse dá no poema “Belo amor”, no espelhamento de sexos idênticos. Dessasdescrições chegamos por fim às de poemas como “Obediência”, verdadeira cidadeda carne, onde o corpo e o sexo são pensados em termos puramente negativos, emuma noite que desmorona junto com as coisas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-QSsmZ0nhUac/TxW4zZ3uvaI/AAAAAAAAAMI/oX_ras9CLPk/s1600/6+Alfredo+Madrid+Escorial+1982.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="238" src="http://1.bp.blogspot.com/-QSsmZ0nhUac/TxW4zZ3uvaI/AAAAAAAAAMI/oX_ras9CLPk/s320/6+Alfredo+Madrid+Escorial+1982.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Belo porque estéril, esse amorque se descreve é propriamente uma tentativa de não procriar a vida fora doslimites do Éden, de deixar-se ali até que a salvação venha cumprir seu destino.Ou não venha nunca. Se a tradição cristã mais ortodoxa viu na sodomia um ato &lt;i&gt;contra naturam&lt;/i&gt; é por ela não gerarfilhos que possam trabalhar o linho da vida até a redenção da espécie. Emoutras palavras, até a completa purificação da marca de Caim que nós herdamos.A boa poesia é sempre violenta, e no caso de Fressia o é, na medida em quepropõe um retorno à cena do crime, não para corrigi-lo, mas para revivê-lo emostrar-nos um espelho, no qual todos nós nos reconheçamos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Esses corpos não estão presentesapenas em um de seus livros. O que dizer deles, senão que são corpos edênicos,moldados no barro original e no pecado irresoluto que nos funda? Não há aquiintervenção do puro espírito ou o corpo sutil dos místicos. Não há sublimidade,altitude espiritual, pois se não há salvação, tampouco há tragédia. A suaencarnação simbólica em poesia se dá como experiência-limite da própriamaterialidade, da falta de transcendência que irriga todos os poros deste mundoque &lt;i&gt;ainda&lt;/i&gt; não foi salvo. Eprovavelmente &lt;i&gt;nunca&lt;/i&gt; será. E nestesadvérbios temporais parece residir todo mistério. Ou melhor, reside um dosenigmas que nunca foram resolvidos: o futuro. No futuro do pretérito de suapoesia, o mundo ainda está para ser salvo. O “futuro era o de antes” era o do“tempo dos meus quinze anos”. Pessimismo cujo tom é um dos mais interessantes,com matizes judaizantes, pode-se dizer, a poesia de Fressia é tão exilada doslugares nos quais se radica que vê a própria utopia sob a luz do luto. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;De fato, em seu livro intituladojustamente &lt;i&gt;O futuro&lt;/i&gt;, em especial noengraçado “Teorema”, mais do que uma projeção utópica frustrada, uma distopiaou uma falta de enquadramento social, o que se lê é uma&lt;i&gt; atopia&lt;/i&gt;. Não aquela enfadonha, insossa e insone, dos aeroportos(“Aeroportos”), que estão mais para aqueles &lt;i&gt;não-lugares&lt;/i&gt;de que nos fala o sociólogo Marc Augé, e são tratadas comicamente.Trata-se, por outro lado, de uma condição estruturalmente incondicional, dopoeta e da poesia. Sob essa ótima, que é a de um exílio ontológico, não maisuruguaio ou brasileiro, os lugares e os projetos estão sempre ainda por serealizar. Não existem, e, portanto, nunca existirão. Serão sempre diversos desi mesmo, sendo o centro luminoso de irradiação de sua verdade eternamenteinacessível para nós. Por isso, não podemos dizer que algo será salvo por algoou alguém que ainda não existe nem por aquilo que ainda não há. Se aperspectiva edênica marca seu vínculo com o tempo de antes da salvação, essasalvação que se mostra sempre por vir é eterna. Sendo assim, é também infinita.Não se consuma nunca. É, portanto, inexequível e assim carece de essência. Essaé sua&lt;i&gt; parcialidade&lt;/i&gt;. Em outraspalavras, pode-se dizer que a vida humana está e sempre estará sob o signodessa parcialidade. Por isso, o centro de toda a poesia de Fressia chega enfima um termo: o eclipse. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-0MVbPdEj3sM/TxW5Fse9THI/AAAAAAAAAMQ/LOUJIJK2ddk/s1600/eclipse+de+sol+29.3.06-1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="173" src="http://3.bp.blogspot.com/-0MVbPdEj3sM/TxW5Fse9THI/AAAAAAAAAMQ/LOUJIJK2ddk/s320/eclipse+de+sol+29.3.06-1.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif; line-height: 150%; text-indent: 14.2pt;"&gt;O eclipse como fenômeno natural ésimples. Consiste na sobreposição de um dos astros, que oculta a parte luminosade outro astro, seja o Sol ou a Lua. Mas se eu me surpreendo “ferido pelosastros”, eles impregnam minha carne, misturam-se ao meu sangue. Em uma palavra,são o meu corpo astral, a circulação de meu sangue e de minha linfa, a matériaestelar de que sou feito, como diz a teoria platônica. No poema “Eclipse”, umdos melhores poemas da poesia contemporânea, essa dimensão vem muito marcada:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Não nosatenhamos a detalhes, isso&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;era o futuro,já o sabias refugiado no ventre do bisão:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;eras homem emulher, e o céu foi um deserto&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;onde ardeumeia hora a fogueira fria dos teus ossos,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;e estavaescrito que não tivera margens nem destino&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;nemesperança de morrer cercado de teus filhos, o &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;semicírculoacossado&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;desde antesde nascer. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;A marca da origem é anterior àcena mundana, é anterior à próprio proveniência da espécie. Vem inscrita noocultamento dos próprios astros, que sempre produzem a sua marca profética esão mais fortes do que a nossa vontade ou do que a triste sociologia dasrevoltas sociais ou de nossas ocupações. Trata-se de uma marca mais profunda: oEstrangeiro dos gnósticos, que nunca pertence a este mundo. Ele vem marcadodesde a origem edênica, nos mitos primordiais que fornecem a miséria e aliberdade necessária ao exercício de nossa finitude. Mais que isso, de nossafatalidade. O poeta, e aqui não falo em termos literários, mas falo sim deAlfredo Fressia, de carne e osso, já fora “acossado desde antes de nascer”. Ofuturo “era o de antes”, era o que ainda não existiu e não existirá nunca, poisnão tem essência. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-CyO8HlyPSMI/TxW5OcTmeGI/AAAAAAAAAMY/4Mc0PzGS1gc/s1600/fressia.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/-CyO8HlyPSMI/TxW5OcTmeGI/AAAAAAAAAMY/4Mc0PzGS1gc/s1600/fressia.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Homem e mulher, conjunção de sole lua, de masculino e feminino, de gregos e persas, queimado em meio a umgélido deserto, sem esperança de deixar descendência que não a poesia e o signode Caim que traz consigo e não se limpa, seja no eclipse de Tebas, no dabatalha de Salamina ou no de Montevidéu. O retorno à cena primordial ganhaainda mais espessura, pois agora retroage ao fundamento metafísico e cósmicodos astros, em sua conjunção maléfica. Como diz Fernando Pessoa em um dossonetos ingleses, o seu eu é anterior ao mundo e anterior até mesmo a Deus. Porisso, vive a desolação de saber-se sempre alheio a tudo que o cerca. O intuitodo poeta é refazer essa peregrinação inversa, essa reminiscência às origensobscuras de onde provém a sua verdade. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Tal recuperação não é vivida comomiséria, como desespero ou como autoglorificação; não estamos diante de umdândi que se apostasia anacronicamente na transgressão, nem de uma mistificaçãoinócua do lado oposto da vida. O resultado último do percurso levado a cabo porFressia é uma espécie de &lt;i&gt;desilusãoessencial&lt;/i&gt;. O remorso prossegue, porque não há redenção; mas, por maior queseja o peso do nefasto eclipse que nos condena, não há sequer tragédia, porqueo destino&lt;i&gt; quis&lt;/i&gt; que nós nosdesviássemos e nos transviássemos para virmos a conhecer a vida e edificar omundo, com suas torpezas e maravilhas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;O rito final dessa &lt;i&gt;mise-en-scène &lt;/i&gt;prossegue nos belíssimospoemas inéditos: “Nugatória”, “Inveja” e “Rua Rondeau”. Estes, somados a poemascomo “Liturgia” e “Obediência”, bem como a quase todos os poemas selecionadosde &lt;i&gt;Eclipse&lt;/i&gt;, estão entre os melhorespoemas escritos nas últimas décadas, no Brasil e quiçá &lt;st3:personname productid="em castelhano. No" w:st="on"&gt;em castelhano. No&lt;/st3:personname&gt;magistral “Penitência”, lemos:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 268.75pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Quero &lt;st2:hm w:st="on"&gt;voltar&lt;/st2:hm&gt; ao &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;ventre&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;e &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;velo&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;imóvel&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;sobre&lt;/st1:verbetes&gt; a &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;teia&lt;/st1:verbetes&gt; de&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;aranhas&lt;/st1:verbetes&gt; venenosas. Conto-as&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;uma &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;por&lt;/st1:verbetes&gt; uma, &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;até&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;que&lt;/st1:verbetes&gt; sucumbam famintas &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;como&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;pensamentos&lt;/st1:verbetes&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Rezo. A &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;goteira&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;não&lt;/st1:verbetes&gt;cede na &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;cozinha&lt;/st1:verbetes&gt;. Recostado&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;sou &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;branco&lt;/st1:verbetes&gt; e &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;gigante&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;como&lt;/st1:verbetes&gt; o &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;arrependimento&lt;/st1:verbetes&gt;.&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;Vivo&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st2:dm w:st="on"&gt;para&lt;/st2:dm&gt; &lt;st2:hdm w:st="on"&gt;pedir&lt;/st2:hdm&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Perdão&lt;/span&gt;&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;pela&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;memória&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;porosa&lt;/st1:verbetes&gt;da &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;areia&lt;/st1:verbetes&gt;, &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;perdão&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;se afundo &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;meu&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;ouvido&lt;/st1:verbetes&gt; no &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;travesseiro&lt;/st1:verbetes&gt; de &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;plumas&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 70.8pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;e me&lt;span style="color: red;"&gt; &lt;/span&gt;ouço &lt;st2:hm w:st="on"&gt;flutuar&lt;/st2:hm&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;atrás&lt;/st1:verbetes&gt; da &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;muralha&lt;/st1:verbetes&gt;,&lt;st2:dm w:st="on"&gt;Amém&lt;/st2:dm&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;O retorno ao ventre se dá nãocomo aconchego, mas como úlsão de morte, pois o ventre é “o &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;velo&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;imóvel&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;sobre&lt;/st1:verbetes&gt; a &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;teia&lt;/st1:verbetes&gt; de&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;aranhas&lt;/st1:verbetes&gt; venenosas”. E se o poeta é “&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;branco&lt;/st1:verbetes&gt; e &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;gigante&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;como&lt;/st1:verbetes&gt; o arrependimento”, por ter ciênciada sua marca fundadora, sua vida e sua escrita não deixa de ser, por seu lado,também um extenso “perdão &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;pela&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;memória&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;porosa&lt;/st1:verbetes&gt;da areia”. Nesta série, o tema bíblico, praticamente apenas sugerido nosprimeiros poemas e aprofundado nos demais, toma corpo e vem à luz com todas asletras em “Nugatória”, com a “quebra da inocência”, porque “é &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;polpa&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;amarga&lt;/st1:verbetes&gt; o &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;coração&lt;/st1:verbetes&gt; do fruto” e também porque chegamos “tarde à &lt;st2:dm w:st="on"&gt;colheita&lt;/st2:dm&gt; dos &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;filhos&lt;/st1:verbetes&gt;de Eva”. E, mais adiante, em “Poeta no Éden”, lemos a bela abertura:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 106.2pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Não, Senhor,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 106.2pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;nuncafugirei do Paraíso, tenho em mim&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 106.2pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;o leiteeterno dos pais e dos filhos, &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 106.2pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;e escrevopoemas para a saudade. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Em seguida, o poeta nos fala do“menino imenso” que docilmente escreve “no barro do Éden”, passando logo emseguida a um colóquio entre ele mesmo e o invejoso, “estendidos sobre a grama”e “fingindo certa glória”. A visão caimita ora é a do outro ora a do própriopoeta, mas nunca sai de cena. Caim aparece, seja como o próprio poeta, seja emforma dialogal, neste poema intitulado justamente “Inveja”. Essa glória é umartifício, uma tentativa de isenção e soberania que não há. Porque depois doParaíso confiscado, resta-nos apenas o modelo histriônico e postiço, desenhadoem “serpentes de néon”: &lt;i&gt;Next Paradise&lt;/i&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Resta-nos simplesmente o futuro,que não se sabe utópico e exequível ou uma mera &lt;i&gt;boutade &lt;/i&gt;para aliviar um remorso sem cura. Em seguida, o desejo devoltar às “nêsperas da infância” (“Rua Rondeau”). Mas o retorno não consente umacesso à veracidade das coisas, pois o tempo passado também é um mundo. Este,por sua vez, é um pião de mentiras, girando na “vista noturna do tempo da minhainfância” (“Cartão postal”). O poeta em estado natural está no Éden e ao mesmotempo caminha pelas ruas e é corrupto. A linguagem é seu Paraíso, mas a suanatureza é modelada no barro impuro da Criação. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Para finalizar o livro, nadamelhor do que “Rua Rondeau”. O caminhar leve pela rua, levando “os filhos quenão tivera sob o casaco”, faz Fressia sentir todas as virtualidades, o que nãohouve, mas persiste, entrelaçado eternamente à sua vida. O mito, nesse sentido,também é um misto de virtual e atual, de presença pura e de origem para sempreperdida em um passado irrecuperável. A consciência do poeta é a de que não háreconciliação possível. Mas há a tentativa de ao menos dignificar a suacondição neste mundo manchado:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 90.0pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Ou &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;desde&lt;/st1:verbetes&gt; as &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;abóbadas&lt;/st1:verbetes&gt;da &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;cidadela&lt;/st1:verbetes&gt;,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 90.0pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;onde&lt;/span&gt;&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;agora&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;me&lt;/st1:verbetes&gt; refugio, &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;embalo&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 90.0pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;os &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;meus&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;filhos&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;não&lt;/st1:verbetes&gt; nascidos&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 90.0pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;e &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;abraço&lt;/st1:verbetes&gt; os &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;joelhos&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 90.0pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;de todas as &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;estátuas&lt;/st1:verbetes&gt; na &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;estação&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;central&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 108.0pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;st2:dm w:st="on"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;para&lt;/span&gt;&lt;/st2:dm&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;que&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;não&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;me&lt;/st1:verbetes&gt;expulsem, nem impregnem &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;minha&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st2:dm w:st="on"&gt;terra&lt;/st2:dm&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;com&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;sal&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;estéril&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 90.0pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;nem&lt;/span&gt;&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt; maldigam &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;outra&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;vez&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;minha&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;estirpe&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 90.0pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;st2:dm w:st="on"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;para&lt;/span&gt;&lt;/st2:dm&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt; as &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;sete&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;gerações&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 90.0pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;que&lt;/span&gt;&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt; vigiam &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;meu&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;poema&lt;/st1:verbetes&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 90.0pt; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;e torne a &lt;st2:hm w:st="on"&gt;cumprir&lt;/st2:hm&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;minha&lt;/st1:verbetes&gt; &lt;st1:verbetes w:st="on"&gt;cerimônia&lt;/st1:verbetes&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;O tom elegíaco e passional éproporcional ao tema, corolário do livro e de uma poética. E aqui é introduzidoum novo &lt;i&gt;leitmotiv&lt;/i&gt;: o tema igualmentebíblico da mulher de Loth. Pois senão, de onde surgiram essas referências aosal como elemento estéril e punitivo? Ao ser convocada a deixar Sodoma, cidadeda devassidão, sem olhar para trás, ainda assim a mulher de Loth não pôdeconter-se e foi transformada em uma estátua de sal. O mesmo mitema de Orfeu échancelado aqui para o poeta, mas em outra chave. Impelido a sair do Paraísocomo a mulher o fora de abandonar Sodoma, o poeta (Caim) se recusa,deliberadamente, a fazê-lo. Ao contrário, afronta o destino que se lhe pesa.Quer a sua cidade, a sua estirpe, a sua vida de volta. Quer livrar-se da culpaeterna, na qual ele, tal como Caim, se vira marcado por “sete gerações”, tambémtal como a referência bíblica. Os deuses que vigiam o seu poema tornarão acumprir a cerimônia. Esta é a cerimônia do exílio. E este, a essência daradicação última do poeta e da poesia no mundo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Abraçado às estátuas e à cidadela,ou seja, às edificações que a maldição o levou a executar. E depois, a amar. Osingênuos chamam enfaticamente esses signos de “cultura”. Para o poeta, eles sãoo seu destino, o seu alimento e a sua fatalidade. Sabe que estabeleceu umcompromisso com o mal para escrever cada um de seus versos e para erguer cadaum dos tijolos de sua cidade. Mas depois, aprendeu a amá-los, como ama apoesia, que é a inscrição de sua expulsão e de seu irremediável destino. Em seufracasso, sente-se no mais íntimo de si mesmo. Pois a poesia é &lt;i&gt;pharmakon&lt;/i&gt;, remédio e veneno, &lt;i&gt;mysterium tremendum &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;mysterium fascinans&lt;/i&gt;, como reza toda arigorosa aproximação com o sagrado, que une em si o fasto e o nefasto, aexperiência do puro e do impuro, em proporções iguais. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif;"&gt;Ao fim e ao cabo, decifro aEsfinge. Nesse umbral, vejo Alfredo Fressia, bifronte. Diz-nos que o passado éirremediável e o futuro não existe. O que você nos pede, não é o alívio doarrependimento, nem a suspensão da miséria original que nos constitui, a mim, atodos nós e a você, Fressia. Pois ela é o barro fundamental do que somos. O quevocê pede é que a sua cerimônia nunca deixe de se cumprir. E que sempresaibamos que nossa vida não começou no dia de nosso nascimento, mas muitoantes, em uma caminhada a leste do Éden, no primeiro eclipse ou no lado escurodas estrelas. E pode acreditar que assim será, em sua poesia, &lt;i&gt;in saeculum saeculorum&lt;/i&gt;, indefinidamente.&amp;nbsp;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-7682878244966830045?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7682878244966830045'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7682878244966830045'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2012/01/o-barro-do-edena-poesia-de-alfredo.html' title='O BARRO DO ÉDEN:A POESIA DE ALFREDO FRESSIA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-fV40l_aewl8/TxW3QCiuYSI/AAAAAAAAALo/TtozbnMGYgg/s72-c/ag29fressia1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-2597300467895429915</id><published>2012-01-16T06:11:00.001-08:00</published><updated>2012-01-16T06:12:34.133-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gabinete Dos Cínicos'/><title type='text'>NELSON RODRIGUES E O AVESSO DA VIRTUDE</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif;"&gt;Impressionante como Nelson Rodriguescompreendeu o desejo humano. Que seus personagens sejam obcecados pelo pecado epela transgressão, é um fato. Parecem seguir assim toda uma tradição sobre odesejo, de Sade a Freud e de Bataille a Lacan. Eles nos revelam à contraluz umadas fontes desse enigma humano: o desejo se move no limiar entre a luz e a autoaniquilação.O desejo só se realiza plenamente na ambivalência entre a lei e a exceção. Paraele, a lei não é um imperativo, mas justamente algo a ser superado: nissoreside a dinâmica do desejo, que os personagens de Nelson exploram à exaustão eà patologia, perdidos num lodaçal que os leva de pecado a pecado. O homem é umanimal infrator. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif;"&gt;Mas há algo de mais grave ainda nomundo de Nelson: nele a própria virtude se apresenta como uma patologia. Hánele uma infectologia da lei. Uma perversidade na ordem. Uma demênciacompulsiva pela caridade. Os seus personagens são tarados pela fidelidade.Poluídos pela pureza. Infectados pelo vírus sem cura da honestidade. Destruídospela esperança. Manchados pela bondade. Arruinados por serem sinceros. Corroídospela graça. E devastados justamente pelo mais nobre e humanizante de todos osafetos: o amor. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif;"&gt;Essa cadeia de paradoxos é a fonte dagrandeza de Nelson. Se ele tivesse se detido em uma análise da transgressão dalei, já teria fornecido uma grande contribuição à anatomia da alma humana. Masele foi além: virou do avesso o próprio mecanismo da bondade e da virtude,trazendo à luz as suas vísceras apodrecidas. Por isso, ao contrário do quequereriam as boas almas, virgens em seu casto culto do mal e absolutamentedevassas em sua fé cega na bondade, o avesso do crime não é a virtude. Asuspensão do mal não é a sua contrapartida. É apenas uma maneira ainda maismaliciosa de mascarar a substância maligna de que somos feitos. Pensem nisso,humanistas.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-2597300467895429915?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/2597300467895429915'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/2597300467895429915'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2012/01/nelson-rodrigues-e-o-avesso-da-virtude.html' title='NELSON RODRIGUES E O AVESSO DA VIRTUDE'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-7072581938195350726</id><published>2012-01-15T09:23:00.000-08:00</published><updated>2012-01-15T09:28:39.668-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Disparos'/><title type='text'>NIILISMO A QUEIMA-ROUPA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="background-color: white; line-height: 14px;"&gt;Acabei de ver na internet um texto de um professor cotejando Aristóteles com Michel Teló. A classe média fica horrorizada com o funk carioca, mas acha normal que um professor crie um esgoto teórico que me autorize cotejar Aristóteles e Michel Teló. E aí o cara da perifa, que fica 3 horas no busão, pra trabalhar 12 e ganhar um salário mínimo, quando faz seu churras de domingo, tem que ter bom gosto&lt;/span&gt;&lt;span class="text_exposed_show" style="background-color: white; display: inline; line-height: 14px;"&gt;. Mas o professorzinho de classe média tem o direito de criar uma enciclopédia teórica pra legitimar sua estupidez sem se comprometer. Continuará gozando da mesma autoridade, pois ela é fornecida por eles próprios, pedagogos e classe média, que se autolegitimam a si mesmos. E depois vocês ainda me perguntam o que é niilismo? Francamente, se isso não é niilismo, não sei o que possa ser.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-7072581938195350726?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7072581938195350726'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7072581938195350726'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2012/01/acabei-de-ver-na-internet-um-texto-de.html' title='NIILISMO A QUEIMA-ROUPA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-6752642958405140286</id><published>2012-01-15T05:51:00.000-08:00</published><updated>2012-01-15T05:52:02.696-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Acontece'/><title type='text'>NOVOS CURSOS</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;Seguem aqui alguns links com programações das oficinas. &lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;&lt;br style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;&lt;span style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;Uma oficina de férias na Casa do Saber:&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;&lt;br style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;&lt;a href="http://www.casadosaber.com.br/curso.php?cid=2922" target="_blank" rel="nofollow nofollow" style="cursor: pointer; color: rgb(59, 89, 152); text-decoration: none; font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;http://www.casadosaber.com.br/&lt;wbr&gt;&lt;span class="word_break" style="display: inline-block; "&gt;&lt;/span&gt;curso.php?cid=2922&lt;/a&gt;&lt;br style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;&lt;span class="text_exposed_show" style="display: inline; font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;&lt;br /&gt;E o Núcleo de Escrita Criativa que estou desenvolvendo na Fundação Klabin, agora com 4 meses de duração, de manhã e de noite:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://projetocultura.com.br/linksinternos/2012_Nucleo-Escrita-Criativa_08-Mar-Tarde.html" target="_blank" rel="nofollow nofollow" style="cursor: pointer; color: rgb(59, 89, 152); text-decoration: none; "&gt;http://projetocultura.com.br/&lt;wbr&gt;&lt;span class="word_break" style="display: inline-block; "&gt;&lt;/span&gt;linksinternos/&lt;wbr&gt;&lt;span class="word_break" style="display: inline-block; "&gt;&lt;/span&gt;2012_Nucleo-Escrita-Criativa_08&lt;wbr&gt;&lt;span class="word_break" style="display: inline-block; "&gt;&lt;/span&gt;-Mar-Tarde.html&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://projetocultura.com.br/linksinternos/2012_Nucleo-Escrita-Criativa_08-Mar-Noite.html" target="_blank" rel="nofollow nofollow" style="cursor: pointer; color: rgb(59, 89, 152); text-decoration: none; "&gt;http://projetocultura.com.br/&lt;wbr&gt;&lt;span class="word_break" style="display: inline-block; "&gt;&lt;/span&gt;linksinternos/&lt;wbr&gt;&lt;span class="word_break" style="display: inline-block; "&gt;&lt;/span&gt;2012_Nucleo-Escrita-Criativa_08&lt;wbr&gt;&lt;span class="word_break" style="display: inline-block; "&gt;&lt;/span&gt;-Mar-Noite.html&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Klabin, haverá também um intensivo em janeiro/fevereiro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://projetocultura.com.br/linksinternos/2012_Oficina_Escrita_Instensivo_30-Jan.html" target="_blank" rel="nofollow nofollow" style="cursor: pointer; color: rgb(59, 89, 152); text-decoration: none; "&gt;http://projetocultura.com.br/&lt;wbr&gt;&lt;span class="word_break" style="display: inline-block; "&gt;&lt;/span&gt;linksinternos/&lt;wbr&gt;&lt;span class="word_break" style="display: inline-block; "&gt;&lt;/span&gt;2012_Oficina_Escrita_Instensivo&lt;wbr&gt;&lt;span class="word_break" style="display: inline-block; "&gt;&lt;/span&gt;_30-Jan.html&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-6752642958405140286?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/6752642958405140286'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/6752642958405140286'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2012/01/novos-cursos.html' title='NOVOS CURSOS'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-4990019328724363688</id><published>2012-01-15T05:21:00.001-08:00</published><updated>2012-01-15T05:28:05.252-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gabinete Dos Cínicos'/><title type='text'>É PRECISO DUVIDAR DE TUDO</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:14.2pt;line-height:150%"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; "&gt;Se não existe crítica sem alguma margem de dúvida, tampouco existe dúvida sem uma margem de crença. A crença é tão ou mais importante do que o ato de duvidar pra se chegar a qualquer conhecimento aproximado da realidade. Como diria o grande Vilém Flusser, em &lt;i&gt;A Dúvida&lt;/i&gt;, se a dúvida metódica se transformasse em dúvida existencial, ou seja, em dúvida da dúvida, só nos restaria uma saída: a morte. E este seria um suicídio filosófico. Ou seja: uma insípida autoaniquilação. Essa é a crítica mais comum ao ceticismo de tipo pirrônico. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:14.2pt;line-height:150%"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; "&gt;Porém, não acredito que a dúvida, diferente da crença, seja uma exceção no processo cognitivo. Acho que duvidamos como respiramos. Ortega diz algo nesse sentido com seu conceito de "razão vital". Se a crítica da crítica oferece problemas epistemológicos, a fé na dúvida também os oferece, talvez em quantidades ainda maiores. Todos aqueles que criam botes salva-vidas e mecanismos de neutralização, nos quais ao criticar não se vejam também eles no objeto criticado, agem ou por ingenuidade teórica ou por malícia estratégia. Querem se mostrar ou menos conscientes do que poderiam ser ou mais lúcidos do que realmente são. Qualquer conhecimento da realidade só existe de modo &lt;i&gt;encarnado&lt;/i&gt;. Nunca como conceito abstrativo. Nesse sentido, toda a realidade e tudo o que existe, de pior e de melhor, não passa de um espelho. É apenas isso o que somos: um espelho. E não por acaso só a partir desse momento começa de fato a&lt;i&gt; especulação&lt;/i&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-4990019328724363688?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/4990019328724363688'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/4990019328724363688'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2012/01/e-preciso-duvidar-de-tudo.html' title='É PRECISO DUVIDAR DE TUDO'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-5871795413057556376</id><published>2012-01-14T13:13:00.000-08:00</published><updated>2012-01-14T13:14:51.977-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gabinete Dos Cínicos'/><title type='text'>NÓS E O BBB</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:14.2pt;line-height:150%"&gt;&lt;span style="line-height: 150%; text-indent: 14.2pt; font-size: 12pt; "&gt;Só uma coisa me dá mais preguiça do que gente inteligente: gente inteligente falando mal da cultura de massas. E a enxurrada de lugares-comuns da imprensa nos últimos dias atingiu o nível mais gritante da Escala Richter da estupidez. É nessas horas que eu descubro algo fundamental. Só há uma coisa mais baixa do que o BBB: os críticos do BBB. Querem negar que eles também fazem parte do &lt;/span&gt;&lt;i style="line-height: 150%; text-indent: 14.2pt; font-size: 12pt; "&gt;reality show&lt;/i&gt;&lt;span style="line-height: 150%; text-indent: 14.2pt; font-size: 12pt; "&gt;. Inútil. Por quê? Pelo simples motivo de que no atual estágio de capitalismo avançado, de globalização e de hipermodernidade, &lt;/span&gt;&lt;i style="line-height: 150%; text-indent: 14.2pt; font-size: 12pt; "&gt;tudo&lt;/i&gt;&lt;span style="line-height: 150%; text-indent: 14.2pt; font-size: 12pt; "&gt; faz parte do BBB. Tudo é &lt;/span&gt;&lt;i style="line-height: 150%; text-indent: 14.2pt; font-size: 12pt; "&gt;reality show&lt;/i&gt;&lt;span style="line-height: 150%; text-indent: 14.2pt; font-size: 12pt; "&gt; no Palácio de Cristal. Por mais que alguns perfeitos cínicos e outros tantos falsos ilustrados queiram nos fazer crer que eles são imunes a tais baixezas. Compreensível. Desde o Paleolítico a hipocrisia é uma das melhores estratégias de sobrevivência da espécie. Porém, mais cedo ou mais tarde, toda Bela Adormecida acaba tendo que despertar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:14.2pt;line-height:150%"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; "&gt;A lógica desse tipo de crítica chega a ser infantil de tão previsível. Como se sabe, as crianças adoram a repetição. A repetição é o Paraíso da infância. Um idiota nada mais é do que uma criança ao quadrado. Ou seja, uma criança que vive se repetindo duplamente, pois repete a infância e se repete a si mesma. Repetição da repetição. É basicamente essa a impressão que tenho quando ouço gente inteligente criticar a sociedade de massas. Claro que é bom falarmos do povo, não é? A coisa que os inteligentes mais gostam de fazer é emitir opinião sobre o povo, por mais que, como dizia Nelson Rodrigues, nunca tenham visto ao vivo um torcedor do Flamengo. Não é à toa que o intelectual, como categoria histórica, nasceu junto com a publicidade. Do púlpito aos palanques, intelectual é aquele tipo de animal que adora falar em nome de sua espécie. Curioso animal, este. Um animal que fala em nome do povo. Mas desde que o povo aja conforme os inteligentes e intelectuais acham que ele deve agir. E seja como os inteligentes querem que sele seja.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:14.2pt;line-height:150%"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; "&gt;Ah, sim. A cultura deveria ser dirigida por um programa do Estado. Claro. Vamos criar leis que obriguem todos os botecos e puteiros do Brasil a só tocar Villa-Lobos e Pixinguinha. E quem vai definir o que é cultura elevada? No meu projeto de cultura elevada, por exemplo, 90% da história da literatura brasileira não entraria nos currículos escolares. Muito menos violeiros, como Chico Buarque e Caetano Veloso, ícones de todos os inteligentes. Você aceita assiná-lo? Ou vou ter que apertar o gatilho? Nada mais imbecil do que uma cultura feita de atos institucionais. Bom gosto? Goebbels era apreciador de música clássica e Hitler teve ninguém mais do que Leni Riefenstahl dirigindo a propaganda cinematográfica do Reich. A gravidade da situação de hoje se deve ao fato de as relações humanas estarem absolutamente estropiadas, e não ao fato de não se ler Montaigne. Não há Shakespeare que cure isso. Não há Mozart para esse câncer. Não há Chopin para essa metástase. Não há Homero para esse esgoto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:14.2pt;line-height:150%"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; "&gt;O que quer então essa maldita classe média que reivindica bom gosto? Nossa, como é terrível o BBB e o funk carioca, não é? Pois o Facebook não passa de um BBB pra pseudointelectuais. Com o agravante de reter informações privadas com uma eficácia que a KGB, o Wikileaks ou a CIA jamais sonharam. Vamos emancipar as massas? Sim. Mas desde que elas sejam dirigidas por nós, que somos inteligentes e sabemos o que é elas não sabem sobre si mesmas. Por isso, sabemos também o que é bom para elas. Parafraseando Bernard Shaw, toda revolução não é nada mais do que uma maneira de transferir a tirania para outros donos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:14.2pt;line-height:150%"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; "&gt;Pois bem. A cultura de massa não é nada mais do que o reverso de todo o discurso de emancipação popular defendido por todos os progressistas demagogos de todos os quadrantes. Valores? O erro começa ao se usar a palavra no plural. Não existem valores. Tampouco há duas nem mil fontes de valor. Mas apenas uma. O valor é um só. Porque a moral é uma só. Transcendê-la, como fez Nietzsche, não é negar o bem ou o mal, mas simples e sumariamente negar qualquer viabilidade para ambos. Isso quer dizer que se você quer estabelecer dois pesos e duas medidas, pregando a distinção entre uma emancipação boa e uma ruim, você estará apenas hipocritamente moralizando a amoralidade, ou seja, quer dizer que você não passa de um fascista do bem.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:14.2pt;line-height:150%"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; "&gt;Quem fica garganteando valores contra um eventual desvalor da sociedade de consumo, não compreendeu ou finge não compreender que a dinâmica do mundo, há pelo menos dois séculos, &lt;i&gt;não&lt;/i&gt; produz mais&lt;i&gt; valores&lt;/i&gt;. Produz &lt;i&gt;ações&lt;/i&gt;. E uma ação que conduz a outra ação não é nada mais do que a nadificação de todo e qualquer valor. Quem não compreendeu ou finge não compreender isso, não sabe o que é niilismo. Quem não atravessou o niilismo, não entende absolutamente nada do que está acontecendo. Quem quiser continuar criticando as massas e as tecnologias e a defender valores, procure algum grotão sobre a face da Terra onde não exista energia elétrica e fique plantando batatas e fazendo tricô. Agora, com licença que eu vou voltar pro meu Bach. E não encham o meu saco.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;line-height: 150%"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; "&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;line-height: 150%"&gt;&lt;span style="font-size:12.0pt;line-height:150%;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;mso-ansi-language:PT-BR;mso-fareast-language:PT-BR"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-5871795413057556376?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/5871795413057556376'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/5871795413057556376'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2012/01/nos-e-o-bbb.html' title='NÓS E O BBB'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-1925229543821327708</id><published>2011-03-21T10:46:00.000-07:00</published><updated>2011-03-21T10:48:15.694-07:00</updated><title type='text'>OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-_38Tg43Aolk/TYePQdS2tII/AAAAAAAAAI8/OuIMRNWDaeA/s1600/newsletter-rodrigo1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5586591375680779394" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-_38Tg43Aolk/TYePQdS2tII/AAAAAAAAAI8/OuIMRNWDaeA/s400/newsletter-rodrigo1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-1925229543821327708?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/1925229543821327708'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/1925229543821327708'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2011/03/blog-post.html' title='OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-_38Tg43Aolk/TYePQdS2tII/AAAAAAAAAI8/OuIMRNWDaeA/s72-c/newsletter-rodrigo1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-4873737946712195613</id><published>2010-09-06T12:05:00.000-07:00</published><updated>2010-09-06T12:07:35.911-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Sobre Rodrigo Petronio'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Entrevistas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poética'/><title type='text'>ENTREVISTA A CELUZLOSE</title><content type='html'>ENTREVISTA A VICTOR DEL FRANCO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;REVISTA CELUZLOSE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://issuu.com/celuzlose/docs/celuzlose_03"&gt;http://issuu.com/celuzlose/docs/celuzlose_03&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-4873737946712195613?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/4873737946712195613'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/4873737946712195613'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2010/09/entrevista-celuzlose.html' title='ENTREVISTA A CELUZLOSE'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-1557259143565970822</id><published>2010-09-02T10:05:00.000-07:00</published><updated>2010-09-02T10:07:30.188-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Filosofia'/><title type='text'>FILOSOFIA BRASILEIRA</title><content type='html'>Caros&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns devem saber que estou organizando as Obras Completas do filósofo Vicente Ferreira da Silva. Terminei o terceiro e último volume, mais de 700 páginas, que está indo pra gráfica. Estou trabalhando em um quarto, só de fortuna crítica sobre VFS. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parte da Introdução Geral foi publicada na revista Desenredos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.desenredos.com.br/6dss_petronio2_199.html"&gt;http://www.desenredos.com.br/6dss_petronio2_199.html&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preparei também um dossiê sobre VFS para a mesma revista:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.desenredos.com.br/2_santa_teresa_66.html"&gt;http://www.desenredos.com.br/2_santa_teresa_66.html&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe Cherubim está fazendo um trabalho excelente também sobre Filosofia Brasileira:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.dicta.com.br/a-redescoberta-da-filosofia-no-brasil-i-panorama-geral/"&gt;http://www.dicta.com.br/a-redescoberta-da-filosofia-no-brasil-i-panorama-geral/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse sentido mais amplo, há o projeto magistral de Luiz Alberto Cerqueira:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://filosofiabrasileiracefib.blogspot.com/"&gt;http://filosofiabrasileiracefib.blogspot.com/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe Cherubim também aborda o genial Mário Ferreira dos Santos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.dicta.com.br/a-redescoberta-da-filosofia-no-brasil-ii-mario-ferreira-dos-santos/"&gt;http://www.dicta.com.br/a-redescoberta-da-filosofia-no-brasil-ii-mario-ferreira-dos-santos/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E publicou uma entrevista sobre Vicente Ferreira da Silva, que iria sair no Estadão, mas a pauta caiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.dicta.com.br/a-redescoberta-da-filosofia-no-brasil-iii-vicente-ferreira-da-silva/"&gt;http://www.dicta.com.br/a-redescoberta-da-filosofia-no-brasil-iii-vicente-ferreira-da-silva/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso: a pauta caiu. Se dependermos das universidades e de muitos setores da impressa, dois dos maiores pensadores da língua potuguesa e tantos outros estariam ainda soterrados. Mário totalmente ignorado em vida, Vicente vítima de um sem-fim de preconceitos ideológicos e de uma morte prematura e trágica em um acidente automobilístico, em 1963, o que obstruiu ainda mais a divulgação de sua obra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos possíveis interessados e àqueles que queiram divulgar, seguem aqui esses links. Desculpem o incômodo com essas informações. Mas acho que muita coisa na área da cultura ainda funciona como trabalho de formiga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ex Corde&lt;br /&gt;Rodrigo&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-1557259143565970822?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/1557259143565970822'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/1557259143565970822'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2010/09/filosofia-brasileira.html' title='FILOSOFIA BRASILEIRA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-3404277835110037057</id><published>2010-08-25T10:06:00.001-07:00</published><updated>2010-08-25T10:07:59.050-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Disparos'/><title type='text'>DINASTIA PETISTA, CHAVISMO BRANCO E MEXICANIZAÇÃO EM MARCHA</title><content type='html'>BOLÍVAR LAMOUNIER - A 'mexicanização' em marcha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O processo sucessório presidencial em curso comporta dois cenários marcadamente assimétricos, conforme o vencedor seja José Serra ou Dilma Rousseff. Se for José Serra, não é difícil prever a cerrada oposição que ele sofrerá por parte do PT e dos "movimentos sociais", entidades estudantis e sindicatos controlados por ele - e, provavelmente, do próprio Lula. Se for Dilma Rousseff - como as pesquisas estão indicando -, o cenário provável é a ausência, e não o excesso, de oposição. Para bem entender esta hipótese convém levar em conta dois fatos adicionais. Primeiro, o cenário Dilma não se esgota na figura da ex-ministra. Ele inclui, entre os elementos mais relevantes, o controle de ambas as Casas do Congresso Nacional pela dupla PT e PMDB. Inclui também uma entidade institucional inédita, personificada por Lula. Semelhante, neste aspecto, a um aiatolá, atuando de fora para dentro do governo, Lula tentará, como é óbvio, influenciar o conjunto do sistema político no sentido que lhe parecer conveniente ao governo de sua pupila ou a seus próprios interesses. Emitirá juízos positivos ou negativos, em graus variáveis de sutileza, sobre medidas tomadas pelo governo e regulará não só o comportamento da base governista no Congresso, mas também os movimentos de sístole e diástole da "sociedade civil organizada" - entendendo-se por tal os sindicatos, segmentos corporativos e demais organizações sensíveis à sua orientação. O segundo fato a considerar é a extensão da derrota que Lula terá conseguido impor à oposição. Claro, a eventual derrota será também consequência das ambiguidades, das divisões e dos equívocos da própria oposição, mas o fator determinante será, evidentemente, a ação de Lula e do esquema de forças sob seu comando. Deixo de lado, por óbvio, as condições econômicas extremamente favoráveis, o Bolsa-Família, a popularidade do presidente, etc.José Serra ficará sem mandato até 2012, pelo menos. No Senado - a menos que sobrevenha alguma reorganização das forças políticas -, Aécio Neves fará parte de uma pequena minoria parlamentar, situação em que ele dificilmente exercerá com desenvoltura as suas habilidades políticas. Nos Estados, os governadores eventualmente eleitos pelo PSDB, sujeitos ao torniquete financeiro do governo federal, estarão igualmente vulneráveis ao rolo compressor governista. Longe de mim subestimar lideranças novas, como a de Beto Richa, no Paraná, e a de Geraldo Alckmin, em São Paulo. Mas não é por acaso que Lula já se apresta a batalha por São Paulo, indicando claramente a sua disposição de empregar todo o arsenal necessário a fim de reverter o favoritismo tucano neste Estado. Resumo da ópera: no cenário Dilma, o conjunto de engrenagens que Lula montou ao longo dos últimos sete anos e meio entrará em pleno funcionamento, liquidando por certo período as chances de uma oposição eficaz. A prevalecer tal cenário, parece-me fora de dúvida que a democracia brasileira adentrará uma quadra histórica não isenta de riscos.É oportuno lembrar que o esquema de poder ora dominante abriga setores não inteiramente devotados à democracia representativa, adeptos seja do populismo que grassa em países vizinhos, seja de uma nebulosa "democracia direta", que de direta não teria nada, pois seus atores seriam, evidentemente, movimentos radicais e organizações corporativas. Claro indício da presença de tais setores é a famigerada tese do "controle social da mídia", eufemismo para intervenção em empresas jornalísticas e imposição de censura prévia.Na Primeira República (1889-1930), a "situação" - ou seja, os governantes e seus aliados nos planos federal e estadual - esmagava a oposição. Foram poucas e parciais as exceções a essa regra. Mas a estratégia levada a cabo por Lula está indo muito além. É abrangente, notavelmente sagaz e tem um objetivo bem definido: alvejar em cheio a oposição tucana. Para bem compreendê-la seria mister voltar ao primeiro mandato, ao discurso da "herança maldita", sem precedente em nossa História republicana no que se refere ao envenenamento da imagem do antecessor; à anistia, retoricamente construída, a diversos corruptos e até a indivíduos que se aprestavam a cometer um crime - os "aloprados"; e aos primórdios da estratégia especificamente eleitoral, ao chamado confronto plebiscitário, em nome do qual ele liquidou no nascedouro toda veleidade de autonomia por parte de quantos se dispusessem a concorrer paralelamente a Dilma Rousseff. A Ciro Gomes Lula não concedeu sequer a graça de uma "sublegenda", para evocar um termo do período militar.Para o bem ou para o mal, a única oposição político-eleitoral potencialmente capaz de fazer frente ao rolo compressor lulista é a aliança PSDB-DEM-PPS. No horizonte de tempo em que estou pensando - digamos, os próximos quatro anos -, não há alternativa. Portanto, a operação a que estamos assistindo, com seu claro intento de esterilizar ou virtualmente aniquilar essa aliança, coloca-nos nas cercanias de um regime autoritário.Sem a esterilização ou o aniquilamento político-eleitoral da mencionada coalizão, não há como cogitar de um projeto de poder hegemônico, de longo prazo e sem real alternância de poder. A esterilização pode resultar de uma estratégia deliberada por parte do comando político existente em dado momento, de uma conjunção de erros, derrotas e até fraquezas das próprias forças oposicionistas - ou de ambas as coisas.Sociologicamente falando, não há funcionamento efetivo da democracia, quaisquer que sejam os arranjos constitucionais vigentes, num país onde não exista uma oposição eleitoralmente viável. Haverá, na melhor das hipóteses, um autoritarismo disfarçado, um "chavismo branco" ou, se preferem, um regime mexican style - aquele dominado durante seis décadas pelo PRI, o velho Partido Revolucionário Institucional mexicano.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-3404277835110037057?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/3404277835110037057'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/3404277835110037057'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2010/08/dinastia-petista-chavismo-branco-e.html' title='DINASTIA PETISTA, CHAVISMO BRANCO E MEXICANIZAÇÃO EM MARCHA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-3157749992656742331</id><published>2010-07-19T18:24:00.001-07:00</published><updated>2010-07-19T18:25:57.450-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cursos'/><title type='text'>OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA</title><content type='html'>OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA&lt;br /&gt;FUNDAÇÃO EMA KLABIN&lt;br /&gt;PROJETO CULTURA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.projetocultura.com.br/index.php/component/content/article/37-arte/169-oficina-de-escrita-criativa"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;http://www.projetocultura.com.br/index.php/component/content/article/37-arte/169-oficina-de-escrita-criativa&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oficina de Escrita Criativa&lt;br /&gt;Professor  Rodrigo PetronioDuração  5 encontros semanaisDias  terças-feiras, das 14:30 às 16:30 horasDatas  10, 17, 24, 31 de Agosto, 14 de Setembro Local  Fundação Ema Klabin - Rua Portugal 43, Jardim Europa&lt;br /&gt;Valor  R$ 150,00 na inscrição + uma parcela de R$ 170,00&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-3157749992656742331?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/3157749992656742331'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/3157749992656742331'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2010/07/oficina-de-escrita-criativa.html' title='OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-2775915342876264470</id><published>2010-07-19T18:24:00.000-07:00</published><updated>2012-01-17T17:01:28.992-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cursos'/><title type='text'>OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA</title><content type='html'>&lt;div&gt;OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;FUNDAÇÃO EMA KLABIN&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;PROJETO CULTURA&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://www.projetocultura.com.br/index.php/component/content/article/37-arte/169-oficina-de-escrita-criativa"&gt;&lt;font size="1"&gt;http://www.projetocultura.com.br/index.php/component/content/article/37-arte/169-oficina-de-escrita-criativa&lt;/font&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Oficina de Escrita Criativa&lt;br /&gt;Professor | Rodrigo PetronioDuração | 5 encontros semanaisDias | terças-feiras, das 14:30 às 16:30 horasDatas | 10, 17, 24, 31 de Agosto, 14 de Setembro Local | Fundação Ema Klabin - Rua Portugal 43, Jardim Europa&lt;br /&gt;Valor | R$ 150,00 na inscrição + uma parcela de R$ 170,00&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-2775915342876264470?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/2775915342876264470'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/2775915342876264470'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2010/07/oficina-de-escrita-criativa_19.html' title='OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-7870984049575174500</id><published>2010-07-19T18:20:00.000-07:00</published><updated>2010-07-19T18:23:51.198-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cursos'/><title type='text'>RELIGIÕES: UMA INTRODUÇÃO TEMÁTICA</title><content type='html'>RELIGIÕES: UMA INTRODUÇÃO TEMÁTICA&lt;br /&gt;&lt;div&gt;CURSO NA FUNDAÇÃO EMA KLABIN&lt;/div&gt;&lt;div&gt;PROJETO CULTURA&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://www.projetocultura.com.br/index.php/component/content/article/37-arte/173-religioes"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;http://www.projetocultura.com.br/index.php/component/content/article/37-arte/173-religioes&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Religiões: uma introdução temática&lt;br /&gt;Professor  Rodrigo PetronioDuração  7 encontros semanaisDias  quintas-feiras, das 20:30 às 22:30 horasDatas  12, 19, 26 de Agosto, 02, 09, 16, 23 de Setembro Local  Fundação Ema Klabin - Rua Portugal 43, Jardim Europa&lt;br /&gt;Valor  R$ 200,00 na inscrição + duas parcelas de R$ 145,00&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.projetocultura.com.br/index.php/component/content/article/37-arte/169-oficina-de-escrita-criativa"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-7870984049575174500?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7870984049575174500'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7870984049575174500'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2010/07/religioes-uma-introducao-tematica.html' title='RELIGIÕES: UMA INTRODUÇÃO TEMÁTICA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-8368909516562680228</id><published>2010-06-22T20:58:00.001-07:00</published><updated>2010-06-22T21:03:44.489-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cursos'/><title type='text'>CURSO: A ARTE E OS ARQUÉTIPOS</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/TCGGklcViyI/AAAAAAAAAGc/l594gU_SbpM/s1600/arquetipos-gde.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5485813784198351650" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 160px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/TCGGklcViyI/AAAAAAAAAGc/l594gU_SbpM/s400/arquetipos-gde.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.projetocultura.com.br/index.php/component/content/article/39-historia/146-a-arte-e-os-arquetipos"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;http://www.projetocultura.com.br/index.php/component/content/article/39-historia/146-a-arte-e-os-arquetipos&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Arte e os ArquétiposProfessor Rodrigo PetronioDuração 4 encontros na mesma semana- Início dia 05 de JulhoDias segunda à quinta-feira, das 20:30 às 22:30 horasDatas 05, 06, 07 e 08 de Julho&lt;br /&gt;Valor R$ 125,00 na inscrição + uma parcela de R$ 125,00Local Fundação Ema Klabin - Rua Portugal 43, Jardim EuropaInscrições pelos telefones 2307-0767 e 8128-5521&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O conceito de arquétipo pode ser entendido sob diversas perspectivas, tendo em vista uma ênfase na filosofia, na literatura, na arte, na antropologia, na teologia, na psicologia, na história das religiões ou na sua dimensão estritamente formal. Até na biologia, na física e na química há estudiosos que propõem teorias arquetípicas.Em todos esses contextos é possível compreender a sua estrutura e as suas funções, em uma perspectiva histórica, mas também atual. Basicamente criada por Platão, a noção de arquétipo se revestiu de diversos sentidos e amalgamou em si uma série de conceitos de natureza próxima: mito, símbolo, signo, figura, tipo, protótipo, alegoria, imagem, entre outras.&lt;br /&gt;No século XX, foram criadas algumas novas abordagens para o arquétipo, que têm ganhado cada vez mais o campo de estudos e aberto novas frentes de interpretação. O tema é imenso. A proposta deste curso é apenas abrir algumas janelas e lançar luzes sobre este conceito produtivo, partindo da arte, da literatura, do cinema e de temas contemporâneos em evidência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aula 1 - Introdução. Aarkhé de Platão e o mundo das Formas: essência, forma, real, eidos e aparência. A era cristã e o sentido figural e revelado da interpretação: entre os arquétipos e a história. Arquétipo e Alegoria, Tipos e Protótipos: a leitura cristã do mundo das Formas. A visão arquetípica da Academia Platônica do século XV. Modernidade e esvaziamento arquetípico. O debate nos séculos XX e XXI. A Escola de Eranos: Eliade, Kerényi, Corbin. Jung e a Psicologia Analítica: as bases da teoria arquetípica na psicologia moderna. O renascimento do pensamento arquetípico: Guénon, Coomaraswamy, Burckhardt, Lings, Schuon e a Filosofia Perene. O Instituto Aby Warburg: Frances Yates e Edgar Wind. Dois gênios brasileiros na cena mundial: Mário Ferreira dos Santos e Vicente Ferreira da Silva. O debate atual: Gilbert Durand, a “teoria geral dos arquétipos” e as “estruturas antropológicas do imaginário”. A nova Antropologia do Imaginário. Teoria dos arquétipos literários: Frye e Mielietinski.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aula 2 - O arquétipo nas artes. Princípios de geometria sagrada. Formas elementares do mundo e da consciência: a Forma das formas. O “naturalismo” grego: uma aberração? Leonardo e a literalização da arte arquetípica. A Alquimia: fonte inesgotável da ação arquetípica. O princípio de matematização do espaço. Marcel Duchamp e a crítica da “arte retiniana”: abertura arquetípica ou fraude? Retorno de novas formulações sobre a arte. Paul Klee, Paul Delvaux, Balthus, Bacon: o deslocamento arquetípico. Anselm Kiefer: os dons malignos de Lilith. Alguns contemporâneos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aula 3 - Os arquétipos na literatura. O poema sumério Gilgamesh e o fundamento das estruturas imaginárias da ficção. O Hino de Purusa do Rig-Veda: o Homem entre o Céu e a Terra. Orfeu e o orfismo. Do Céu e do Inferno. Dante e a estrutura arquetípica da Divina Comédia. O Quixote: equivocidade dos signos e loucura − a oficina cansada dos arquétipos. Fausto de Goethe: a oclusão da alma e o pacto com a Sombra. Dostoiévski: as bases arquetípicas do Homem e a consciência do Mal. Alguns poetas arquetípicos do século XX. Guimarães Rosa: entre Deus e o Diabo, a “matéria vertente” do Homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aula 4 - Os arquétipos e o mundo contemporâneo. Imanência, materialismo e construtivismo: a Santíssima Trindade da modernidade. A cruzada dos chimpanzés contra as religiões. O simbólico, o imaginário e o real: as tramas do inconsciente. Do arquétipo ao Estado. A assimilação das estruturas arquetípicas pelo Leviatã: a redução à Ideologia. O sagrado reduzido a ideologia e a “ciência”: do fascismo ao holismo. A ditadura dos oprimidos: a oclusão das formas arquetípicas e o criptofascismo contemporâneo. Cultura de massas e Sombra Coletiva. O conceito de “desejo mimético” de René Girard e a violência sagrada. Violência, desejo mimético, bode expiatório. Crise dos “ciclos sacrificiais” e declínio das instâncias de mediação simbólica. O eu, os simulacros e os bloqueios à ação arquetípica. Os arquétipos e o cinema: alguns filmes e diretores: Lang, Murnau, Bergman, Tarkovski, Von Trier, Pasolini, Sokúrov, Dreyer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rodrigo Petronio é editor, escritor e professor. Formado em Letras Clássicas e Vernáculas pela USP. Professor do curso de Criação Literária da Academia Internacional de Cinema (AIC), professor-coordenador do Centro de Estudos Cavalo Azul, fundado pela poeta Dora Ferreira da Silva, e coordenador de grupos de leitura do Instituto Fernand Braudel. É membro do Nemes (Núcleo de Estudos de Mística e Santidade) da PUC-SP. Autor dos livros: História Natural, Transversal do Tempo, Assinatura do Sol, Pedra de Luz e Venho de um País Selvagem, entre outros.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-8368909516562680228?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/8368909516562680228'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/8368909516562680228'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2010/06/curso-arte-e-os-arquetipos.html' title='CURSO: A ARTE E OS ARQUÉTIPOS'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/TCGGklcViyI/AAAAAAAAAGc/l594gU_SbpM/s72-c/arquetipos-gde.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-4144596355735991158</id><published>2010-06-22T20:54:00.000-07:00</published><updated>2010-06-22T21:04:33.022-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cursos'/><title type='text'>CURSO: DANTE E A DIVINA COMÉDIA</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/TCGFuAbEt5I/AAAAAAAAAGU/zXdPKFTwtoI/s1600/dante-gde.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5485812846548006802" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 160px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/TCGFuAbEt5I/AAAAAAAAAGU/zXdPKFTwtoI/s400/dante-gde.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.projetocultura.com.br/index.php/component/content/article/62-dante-e-a-divina-comedia"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;http://www.projetocultura.com.br/index.php/component/content/article/62-dante-e-a-divina-comedia&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dante e a Divina Comédia&lt;br /&gt;Professor Rodrigo PetronioDuração 4 encontros na mesma semanaDias segunda à quinta-feira, das 20:30 às 22:30 horasDatas 12, 13, 14, 15 de JulhoLocal Fundação Ema Klabin - Rua Portugal 43, Jardim EuropaValor R$ 125,00 na inscrição + uma parcela de R$ 125,00&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das obras mais traduzidas e comentadas no mundo depois da Bíblia, a Divina Comédia de Dante é um dos maiores poemas da humanidade e um acontecimento espiritual e literário basilar do Ocidente. Porém, para entendermos a sua raiz e a sua estrutura, é necessário não apenas ir além do que se designa modernamente como literatura, mas também adentrarmos domínios como o da história das religiões, da filosofia, da teologia e da hermenêutica dos símbolos sagrados. Mesmo as fronteiras geográficas e culturais disso que chamamos de Ocidente cristão devem ser postas entre parênteses, pois, sendo também uma das obras mais eruditas da história da literatura, é um mosaico que sintetiza referências antiquíssimas e de procedência vária, tanto a Oriente quanto a Ocidente, seja por meio de assimilação direta ou indireta.&lt;br /&gt;Dante pode ser considerado o maior poeta órfico de todos os tempos. Ao propor, ele mesmo, várias camadas de leitura (literal, moral, alegórica, anagógica) e vários níveis de temporalidade, conseguiu uma proeza de ser um dos poetas mais humanos, na pintura dos afetos, dos vícios, das virtudes e das paixões, e ao mesmo tempo um dos mais transcendentais, ao capturar nossa condição e nossa fisionomia sempre sob um fundo de eternidade. O curso pretende levantar os principais elementos da obra, suas questões nucleares, bem como sinalizar os episódios mais importantes, como forma de orientação de leitura. Para tanto, pretende-se fazer menção a temas que vão desde assuntos históricos de época até concepções religiosas, poéticas e filosóficas que subjazem à sua estrutura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aula 1 - As origens da representação da vida após a morte. Poesia e Revelação: o poeta como vate-sacerdote. A invenção da imortalidade. A concepção órfico-pitagórica e a escatologia judaica: origens do conceito de imortalidade cristã. Platão e a alma imortal. As origens e as principais concepções de Inferno e Paraíso. Terra e Céu, Inferno e Paraíso. O Purgatório e os corpos intermediários. Virgilio e Platão: filtros das doutrinas esotéricas antigas. Dante e os poetas visionários arcaicos. A Divina Comédia: a poesia como gnose e a fundamentação tomista do Universo. Síntese entre poesia extático-visionária e arquitetura conceitual escolástica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aula 2 - Inferno: a estrutura do Inferno de Dante. Comparação com outros infernos. O problema do Mal. O Mal entre a privação e a potência: duas visões excludentes. A superação do maniqueísmo. A Mal como ausência de unidade ontológica. A divisão dos pecados e das punições e a hierarquia metafísica. A doutrina da apocatástase e o problema insolúvel da realidade do Mal. Principais episódios e personagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aula 3 - Purgatório: uma “psicanálise em grande em estilo”. Transformação interior e redenção: metanoia e conversio. O sentido dos pecados de acordo com a “falta de amor”. Entre a obra humana e a graça eficaz. O processo de transformação e o sentido simbólico dos graus objetivos da natureza. O Paraíso Terrestre e a Árvore da Vida: redenção da natureza e regeneração da vida. Principais episódios e personagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aula 4 - As visões edênicas e o sentido arquetípico do Paraíso. De Jardim a Cidade, de Cidade a Templo e de Templo a Eternidade: as diversas metamorfoses da concepção de Paraíso. Protologia e escatologia. A inversão dos vetores temporais: da Origem Perdida ao Fim do Tempo. Dos mitos cosmogônicos à Redenção Universal. A estrutura dos céus na Divina Comédia, os principais personagens e seus sentidos simbólicos. O Paraíso da Divina Comédia e a escatologia islâmica: Dante e Ibn ‘Arabi. Os graus do Uno. Retorno da alma ao Uno e confronto com o além-ser. Teologia negativa, mística da luz e apofatismo na ascensão do Paraíso. O Empíreo e o Primo Mobile. A reintegração de tudo em tudo e a unidade transcendente de Deus. Deus como Face e como Espelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rodrigo Petronio é editor, escritor e professor. Formado em Letras Clássicas e Vernáculas pela USP. Professor do curso de Criação Literária da Academia Internacional de Cinema (AIC), professor-coordenador do Centro de Estudos Cavalo Azul,fundado pela poeta Dora Ferreira da Silva, e coordenador de grupos de leitura do Instituto Fernand Braudel. É membro do Nemes (Núcleo de Estudos de Mística e Santidade) da PUC-SP. Autor dos livros: História Natural, Transversal do Tempo, Assinatura do Sol, Pedra de Luz e Venho de um País Selvagem, entre outros.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-4144596355735991158?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/4144596355735991158'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/4144596355735991158'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2010/06/curso-dante-e-divina-comedia.html' title='CURSO: DANTE E A DIVINA COMÉDIA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/TCGFuAbEt5I/AAAAAAAAAGU/zXdPKFTwtoI/s72-c/dante-gde.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-305845537806923355</id><published>2010-06-07T23:00:00.001-07:00</published><updated>2012-01-16T15:46:23.271-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Disparos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cinema'/><title type='text'>NÓS, OS FEMINICIDAS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-u1MqU7MPL9o/TxS2sjZuSEI/AAAAAAAAALg/lo4HjrbVoko/s1600/homensquenaoamavammulheres_1.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="213" src="http://3.bp.blogspot.com/-u1MqU7MPL9o/TxS2sjZuSEI/AAAAAAAAALg/lo4HjrbVoko/s320/homensquenaoamavammulheres_1.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif; font-size: 12pt; line-height: 150%; text-indent: 14.2pt;"&gt;O filme &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif; font-size: 12pt; line-height: 150%; text-indent: 14.2pt;"&gt;Ohomem que não amava as mulheres&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif; font-size: 12pt; line-height: 150%; text-indent: 14.2pt;"&gt; é bom sob diversos pontos de vista. Com umritmo bem marcado, suspense, enredo cheio de minúcias e tramas que vão sendocriadas e desmanchadas em grande velocidade. O eixo da estória são homens deidades e procedências distintas que violentam mulheres. Dentre eles, há um &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif; font-size: 12pt; line-height: 150%; text-indent: 14.2pt;"&gt;serial killer&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif; font-size: 12pt; line-height: 150%; text-indent: 14.2pt;"&gt; que precisa serencontrado. Claro, tem também o mocinho e a mocinha que acabam ficando juntos,como se supõe, com direito aos clichês toleráveis em nome do amor. Enfim, umfilme que trata de todas as formas de violência, física, moral, sexual esimbólica, contra as mulheres, chegando ao seu limite, ou seja, ao feminicídio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12.0pt; line-height: 150%; mso-ansi-language: PT-BR; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif;"&gt;Mas o grande pecado do filme, se é quepodemos dizer assim, ou a lacuna grave que ele deixa escancarada ao espectador,é que ele nos mostra apenas os frutos dessa violência, a sua gratuidade, sem emnenhum momento apontar para as suas origens ou se indagar sobre as suas bases.Assim, ao ocultar as motivações internas do feminicídio, transforma seuspersonagens em marionetes, em doentes mentais monstruosos e não-humamos. O quenão deixa de dar o doce sabor da vingança pelo preço que eles pagam no final,ou seja, uma bela (e merecida) recompensa às mulheres, que saem do filmefelizes por terem sido “justiçadas” e “redimidas”. Mas, assim, o filmetransforma os acontecimentos em performances cinematográficas com um valormeramente moral, sem dimensioná-los sob um ponto de vista da estrutura mesma dasociedade contemporânea. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12.0pt; line-height: 150%; mso-ansi-language: PT-BR; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif;"&gt;No fundo, caímos no velho mito damonstruosidade do Mal, e esquecemos a sua indefectível banalidade. Em outraspalavras, é muito fácil fazer um filme sobre Jesus em que todos os cristãos sesintam comovidos com a “injustiça” cometida contra o Salvador. Mas no qualesses mesmos cristãos não se deem conta de que eles próprios, nas mesmascondições, com certeza salvariam Barrabás. De gota em gota, esquecemos que oMal tem os traços do nosso rosto. Como nos lembra Drummond, em seu belo poema,em todas as manhãs do mundo despertam os “ferozes leiteiros do mal” e os“ferozes padeiros do mal”. É aquela “ração de crime” cotidianamente distribuídaem casa. Está tão perto que nos é estranha, tão próxima que se faz invisível,tão imperceptível que nos alimenta, sem nos darmos conta. O Mal nos é maisfamiliar do que nossa roupa, do que a nossa pele, do que os nossos gestoscotidianos. Ele é aquele “pó da morte” de que fala o filósofo cristão Bernanos,que vai se infiltrando e se sedimentando em nós, no ar que respiramos, até anossa completa (e inconsciente) aniquilação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12.0pt; line-height: 150%; mso-ansi-language: PT-BR; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif;"&gt;Se nos indagarmos sobre o movimento mesmo deliberalização sexual, ele corre em mão dupla e se dirige a ambos os sexos. Aomesmo tempo em que temos a emancipação legítima da mulher e cada vez mais e emmaior grau uma “igualdade” de direitos entre os sexos, ambicionada por todas aspessoas razoáveis, temos, dentre outras coisas, a consequente desfeminilizaçãodas mesmas, para que elas possam de fato adquirir a sua “igualdade”. Por outrolado e de maneira complementar, há uma progressiva e evidente “castração”simbólica do homem, de que não tratarei aqui, mas que está no cerne de algunsdos problemas do nosso tempo. Bom, até aí, tudo bem. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-3oecL2lxQlo/TxS2VP70T2I/AAAAAAAAALY/Ow06RLCYvxE/s1600/os+homens+que+n%25C3%25A3o+amavam+as+mulheres.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="213" src="http://3.bp.blogspot.com/-3oecL2lxQlo/TxS2VP70T2I/AAAAAAAAALY/Ow06RLCYvxE/s320/os+homens+que+n%25C3%25A3o+amavam+as+mulheres.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size: 12.0pt; line-height: 150%; mso-ansi-language: PT-BR; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif;"&gt;Mas o que pouca gente ressalta é que, afinal,nessa igualdade entra de tudo. Pois se durante tantos séculos coube ao homem opapel de poder sobre si mesmo, sobre os mais fracos e sobre o outro sexo, hojeesse “poder” está se diluindo velozmente por todos os indivíduos do planeta. Seeu “posso” vender meu corpo para uma revista gay, para uma agência de turismosexual para senhoras ou para uma empresa de embalagens eróticas, as mulherestambém “podem” ser atrizes de filmes pornô, prostituir-se ou serem consumidasem algum horário vago da agenda de um grande executivo. E nesse sentido, nãovalem argumentos sociológicos de boteco ou uma pseudofilosofia da &lt;i&gt;condition humaine&lt;/i&gt;. O problema que secoloca é claro. Os desdobramentos sucessivos da modernidade implicam essa duplacondição: liberdade autossustentada que traz mais liberdade autossustentável,hipoteticamente regulada pelos expedientes da razão pública e da moral privada.Esse complexo movimento, por sua vez, vem salvaguardado pela tênue e paradoxalpelícula de uma coisa extremamente abstrata chamada lei.&amp;nbsp; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12.0pt; line-height: 150%; mso-ansi-language: PT-BR; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif;"&gt;Então, torna-se muito bonito, ou seja, muitomoral, no sentido raso da palavra, falar de espancadores e de assassinos demulheres, dos feminicidas em última instância. De fato, não deixa de serimportante tratar disso, como uma forma de alerta ou termômetro, para assegurardireitos conquistados e deixar a sociedade em vigilância para uma eventualregressão democrática. Mas colocar o problema assim implica em reduzi-lo à suasuperfície. Porque esse sexo “frágil” é hoje composto por profissionaisliberais, milionárias, executivas, taxistas, boxeadoras, professoras,prostitutas, bancárias, empresárias, caminhoneiras, traficantes,contrabandistas, criminosas, assassinas, todas elas “consumidoras”, dentreoutras coisas, de homens, seja de fato ou em potencial. Todas mais ou menosinseridas nas malhas do “poder”, palavra que só é usada em sentido pejorativopelos idiotas ou pelos hipócritas, para produzirem no leitor uma falsaneutralidade e a impressão de que eles, que a pronunciam, não o desejam. Comose diz em filosofia: o ser sempre deseja persistir em sua essência. Até aspedras “desejam” exercer algum “poder” sobre as outras pedras. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12.0pt; line-height: 150%; mso-ansi-language: PT-BR; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif;"&gt;Então, qual seriam os traços básicos dofeminicida do futuro? Ele certamente será bem diferente do assassino principaldo filme, um jovem que “aprendeu” com o pai a estuprar a própria irmã. Talvezpossamos vê-lo como aquele tipo de jovem tímido, feio, esquisito, fedido,avacalhado pelos colegas. Talvez ele ainda novo tenha bons sentimentos, e possaaté ter alguma sensibilidade. Um adolescente pacato, meio boçal, e queamadurecerá sem conseguir criar recursos para sair de sua boçalidade. Quem sabefilho de uma mãe promíscua, prostituta ou mesmo incestuosa? Mas segundo odiscurso vigente, isso pouco importa. Podemos muito bem continuar dizendo que omachismo é um dos maiores problemas do mundo desde há milênios. Podemoscontinuar encontrando novos expedientes de equanimidade entre os sexos. Podemoscontinuar repetindo que os corpos são construídos. Podemos continuar celebrandoa Mãe Natureza e salvando as baleias. Podemos criar uma nova mitologia para aGrande Mãe, uma nova religião das energias da Anima e pôr um ponto final em todaessa história de patriarcado e repressão. Basta que sejamos todos “iguais”. Oumelhor, que façamos o percurso de “integração do feminino”, como dizem ospsicólogos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12.0pt; line-height: 150%; mso-ansi-language: PT-BR; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif;"&gt;Esse mesmo adolescente virará um homem. Provavelmentea sua “integração do feminino” possa não funcionar muito bem, e então ele seráconsumido pelas mulheres, talvez por muitas delas, muitas vezes, impiedosamente.E estas provavelmente o trocarão bem rápido por algum outro objeto um poucomais selvagem, performático ou aerodinâmico. Nessa voragem da circulação doscorpos, na apoteose do amor líquido, entre nádegas boiando na televisão e osilêncio desse personagem, sozinho em seu quarto, talvez lhe ocorra um dia umaideia. Nada nova, nada original, desde os neandertais. Talvez ele sinta algo semover do fundo de sua impotência, do fundo de seu ódio, do ponto mais recônditoda podridão que povoa os seus pensamentos. Talvez ele sinta, pela primeira vez,as suas veias, o seu sangue, os seus músculos. Sim. Finalmente há &lt;i&gt;algo&lt;/i&gt; que o diferencia daqueles “seres”que são a razão de seu mal. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12.0pt; line-height: 150%; mso-ansi-language: PT-BR; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif;"&gt;Da clava às cavernas, da navalha aos matagaisurbanos, a cena não mudou muito em milhões de anos. E do estupro aofeminicídio, é um pulo. Isso demonstra que a complexidade do momento em quevivemos consiste no fato bem plausível de que esses jovens estejam semultiplicando. Quem sabe não vivamos sob a gestação de um exército de futurosfeminicidas? E então? De quem é a “culpa”? Alguma feminista mais cara-de-paupoderia se perguntar se a “culpa” não continua sendo do machismo, que não seextinguiu de todo. Tese difícil de ser defendida nos dias de hoje, praticamenteindefensável daqui a algumas décadas ou séculos. A “culpa” é da liberação dasmulheres? Da emancipação dos indivíduos? Da modernidade? Do feminismo? Dademocracia? Do progresso? Da igualdade? Obviamente, não. Afinal, do ponto devista darwinista, a sobrevivência se dá mediante uma seleção natural dos maisfortes, não é? Não há premissa moral que regre a desmesura do devir históricoem suas sínteses objetivas e na efetividade concreta de todas as suas escolhas,individuais, irreversíveis e sempre contingentes. É muito mais provável eplausível pensarmos que a “culpa” é desses próprios adolescentes, que não seadaptaram ao funcionamento da engrenagem. E que possivelmente enlouqueceram poracreditarem em coisas inviáveis, inexistentes ou simplesmente obsoletas. Tipo,o amor.&amp;nbsp; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-indent: 14.2pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-305845537806923355?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/305845537806923355'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/305845537806923355'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2010/06/eu-feminicida.html' title='NÓS, OS FEMINICIDAS'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-u1MqU7MPL9o/TxS2sjZuSEI/AAAAAAAAALg/lo4HjrbVoko/s72-c/homensquenaoamavammulheres_1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-7793752403803256484</id><published>2010-06-07T22:57:00.000-07:00</published><updated>2010-06-07T23:01:37.482-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Disparos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cinema'/><title type='text'>DEMO, CRACK &amp; CIA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim. O problema do mundo são os mendigos. Na verdade, gostaria de falar do filme Hadewijch, de Bruno Dumont, ambientado nos dias de hoje, mas inspirado na vida da mística homônima do século XIII, e que passou na mostra de cinema francês que ocorreu em São Paulo esta semana. Mas me vi subitamente interpelado por uma série de artigos de jornal tratando do crescimento do consumo de crack, carinhosamente conhecido como “raspa da canela do diabo”. Como se sabe, os traficantes, como em qualquer iniciativa privada com fins lucrativos, controlam o ciclo da droga. Agora acabaram de aumentar o valor da grama de maconha de 2 pra 5 reais. Em um bom funcionamento capitalista, essa é a melhor forma de tirá-la do mercado. Mas, claro, a estória não acaba assim. Eles estão começando a mesclar pequenas doses de crack à maconha, para paulatinamente começar a formar seus futuros clientes. Os novos viciados em crack serão os atuais consumidores de inofensivos baseados. Esse é o projeto da década.&lt;br /&gt;Seu filho ou sua filha, leitor e leitora, que gostam de queimar um baseadinho no Centro Acadêmico da universidade, sabe? Então. O demônio mora ao lado. Já dizia e continua dizendo, firme e forte, minha avó. E olha que ela nunca leu Hannah Arendt. Em termos logísticos, o crack é quase igual à cocaína. Em termos de lucro, a balança pesa desfavoravelmente: 300% de lucro na coca, 200% de lucro no crack. Mas não se engane. Isso se compensa em outras frentes. O que é interessante, na verdade, é ver como a distribuição dos números funciona. Porque a cocaína passou a ser droga de elite, e a maconha, droguinha de intelectual parasita. Então o crack tomou imensas projeções na balança comercial. Podendo atingir potencialmente classes que vão de A a E, tem um público consumidor virtual de 164 milhões de brasileiros. Exatamente isso. Mais de 90% da população.&lt;br /&gt;Neste momento, levanto-me da cadeira e vou à janela. Leitor, moro no Largo do Arouche, centro de São Paulo. Na minha porta, todos os dias, moleques caídos, mendigos atravessados, neuras na fissura. Olho pela janela, e tudo dorme. Alguns trapos humanos vagam pela rua. Uns zumbis, com seus cobertorzinhos. É muito comum no centro de São Paulo esses trapos vagarem assim, ainda mais agora, que é madrugada. Uma pedra de crack, e você já está na nóia, no vício. Como a heroína, não há usuário de crack. Só há viciados. Porém, é muito diferente, um pobre-diabo desses, trapo do capeta, vagando na noite, e um drogado que tenha estrutura. Lembra do seu filho, falando de Marx, de libertação sexual, de surrealismo, no Centro Acadêmico? Então.&lt;br /&gt;Nesta mesma semana, uma longa matéria sobre Billy Clegg, agente literário em Nova York, com carreira brilhante junto às mais importantes editoras dos EUA. Acabou de escrever sua autobiografia, na qual narra a sua passagem por mais de um ano numa clínica de desintoxicação. Orgias, rituais macabros, quase-morte, estado vegetativo. Clegg chegou ao fundo mais pardacento do poço, com consumo diário de várias doses de crack. Não chegou à morte, convenhamos, porque tinha estrutura. Estrutura. Essa é a palavra. Estrutura. A mesma estrutura que o filho do querido (ou querida) leitor (ou leitora) tem. A estrutura que o maldito guri que observo agora pela janela, arrastando seu cobertorzinho fedido, não tem. Azar o dele. Então. Vejamos. O filho ou a filha da minha querida ou querido leitor estão fumando seu baseadinho em paz. Eles são progressistas, desinibidos, já passaram por n revoluções sexuais. Coisa de 68 é passado distante. Hoje em dia o que rola são surubas cultas com os colegas e drogas variadas: ecstasy, LSD, pó, haxixe. Nada de ideologia. De romantismo revolucionário. Felizmente. Ao menos nisso, o progresso existe. E presta. Trepar sem ideologia foi o primeiro grande avanço da humanidade. Trepar sem amor será o segundo. Depois, vão se dedicar a alguma profissão liberal, seja nas ciências humanas, nas exatas, no direito, na medicina ou que tais. Eles têm escolhas, e as realizam. Leitor, isso se chama: cidadania. Eles têm a escolha da profissão, assim como têm a escolha de votar na Dilma. Eles têm a escolha de beber uma cerveja, de tomar uma coca-cola ou de fumar um baseado-pedra. Quantia mínima. Você nem percebe, cara. E dá uma brisa boa. Leve. Diferente. Escolha. É esta a palavra. Quanto mais opções de escolha, mais democracia.&lt;br /&gt;Entretanto, façamos uma estatística em nada assombrosa ou mirabolante. Se o público-alvo do crack está projetado em torno de 160 milhões de pessoas, obviamente isso é uma estimativa meramente numérica. Disso se excluem todos os aposentados, donas-de-casa, avós, avôs, religiosos, padres, crianças, virgens, debutantes, energúmenos, doentes, parasitas e tantos e tantos quejandos. Chutemos a cifra de 20 milhões de usuários em potencial, 1/8 do número original. Que metade deles (10 milhões) seja mais efetiva enquanto usuários, e que 1/5 (2 milhões) desta cifra o seja de fato. Não serão usuários de crack puro, obviamente, querida leitora. A senhora acha que seu filho se parece com esse trapo humano que olho pela janela? Está ficando louca? Justo seu filho, que sabe línguas, fez estágio no exterior, balé, piano, natação, ginástica olímpica, e que hoje fuma placidamente seu baseadinho na universidade? Que coisa. Quem diria, seu filho, de trapinho nas costas, todo vegetal, se arrastando, entre merda e urina, no esgoto das noites, no centro de São Paulo? Aqui, justo na minha calçada? Então.&lt;br /&gt;Como amante incondicional das palavras, nunca entendi por que a palavra demônio e democracia têm a mesma raiz. Os manuais escolares nos ensinaram direitinho: democracia é a cracia do povo, o governo do povo. Mas o que o povo tem a ver com o demo? Mais que isso, nunca compreendi por que a palavra demo, sozinha, quer dizer algo de consumo fácil, gratuito, distribuído para teste. É o seu sentido de povo. Mas e o seu sentido de Demo, Capeta, Fuinha, Cujo, Dito, Diabo, Caititu, Fominha, Abutre, Nego, Pindéu, Banguela, Satanás, Ó, Cabrito, Belzebu? Pensei logo que essas coincidências tinham sido invenção de algum neonazista. Ou de algum Capeta. Mas não. Como dizia minha avó, que nunca leu Hannah Arendt, o demônio mora ao lado. É tudo uma questão de escolha. De opção. A democracia é demo, porque é uma oferta quase gratuita, sempre à mão. Um sem-número de possibilidades. E de escolhas. Quase grátis. Demo. Escolha. Essa é a palavra, leitor. Memorize. A democracia é demoníaca, porque lida com a liberdade humana como quem lida com um manual, com uma bula, com um antibiótico, com uma pomada, com um revólver, com um tônico capilar, com um absorvente, com um guia de ruas. Na planificação democrática, tudo assume função de projeto a ser efetivado. Tudo tem um destino, como se tivesse um desígnio. Que bom, assim temos acesso aos bens de consumo, não? Ventiladores, celulares, GPS, cigarros, pornografia, prostitutas, maconha, crack. Já pensou, 2 milhões de usuários de crack soltos pela rua? Mesmo em um país desse tamanho, na concentração de uma grande metrópole, isso seria um arrastão de zumbis por todas as ruas e avenidas centrais. Mas esse arrastão já existe. E talvez exista um batalhão de futuros pedreiros (como são carinhosamente conhecidos) nos bancos universitários. Futuros assassinos? Não só da ridícula esquerda liberal. Mas também executivos e estelionatários de luxo. Futuros pedreiros. Todos eles são os moleques aqui da minha porta, leitora. Mendigos e demônios. Todos: Demo. Esse lixo humano, fedorento, que eu detesto. E detesto mesmo. Escória. Asco. Lixo humano. Resto biológico. Sobra das fezes de algum plebeu. Isso que eles são.&lt;br /&gt;Então. O filme de Bruno Dumont fala de uma figura extremamente pura, que devotou sua vida a Cristo. Virgem. Ela não consegue tocar em um homem. E se diz amante de Deus. Amante de Cristo, em carne e osso. Amante. Simplesmente isso. A atriz, amadora. Não profissional. Amante. Filha de um ministro francês, é uma menina de alta sociedade. Não suporta a família. Nenhuma indireta pra você, leitora. Só estou narrando o filme. E então ela se interna em um convento. E o convento a expulsa. Vai encontrar Deus nas ruas – diz a freira. Ela não encontra Deus nas ruas. Encontra o demo. O Islã. Envolve-se com dois irmãos árabes. Um, bandidinho desnorteado. Outro, futuro homem-bomba. Um, falso religioso. Outro, verdadeiro. E em plena missão. Ela segue o religioso verdadeiro, correto? Sim. Porque ela é verdadeira. E no nosso tempo parece que a verdade sempre tem algum compromisso com o Mal. Não está a fim de meias-verdades ou de planos quinquenais. Tipo a sua família, bolsa-escola, ministros, baseadinhos em universidades, conversas fiadas, orgias, papos progressistas, esquerdismo liberal, PT, falta de vergonha na cara, ONGs, lixo marxista, besteirol intelectual, vagabundagem. Claro que sim. Depois da conversão, todos os preparativos para o que fica em suspense: ambos se explodirão no metrô de Paris. Quanto mais próxima do Terror, mais ela fica bela. Mais cresce como mulher. Então, leitor, será que seu filho vai estar com a moçada da uni nessas férias na França? Ou será que vai estar aqui na porta da minha casa? Não. Não. Acho que ele não viajou com os colegas maconheiros nessas férias pra Europa.&lt;br /&gt;Hadewijch encontra Nassar no metrô. Ambos de jaqueta. Como são tristes as fisionomias no metrô, não? Como são tristes os dias repetidos de nossa rotina, essa rotina, espécie de arte de conduzir à morte com sussurros e palavras brandas. É isso: democracia. Império da Escolha. Liberdade do Demo. Cadeia de Satanás. Se Tudo é permitido, Nada é permitido. O Absoluto da Liberdade é o Absoluto da Opressão. Ainda não caiu a ficha, truta? Salve São Marquês de Sade! Padroeiro da modernidade. Seria isso? O pacto com o Cujo, lembra? Não é no redemoinho, não. Na encruzilhada. Não. Não é no fundo sem fundo do Inferno de Lúcifer. Não é com o titânico Satã de Milton. Não é fáustico. Nem mefistofélico. O pacto com o Demo. Escolha. Democracia. Opção. Liberdade. Crack. Cracia do demo. Isso. Palavras brandas. Opção. Escolha. Dá um trago desse seu baseado, truta? Canela do Demo. Arte de conduzir ao túmulo. Não com palavras gregas, como dizia Hipócrates. Mas com palavras suaves. Dir-se-ia quase doces. Como as fezes do menino na sarjeta, queimando uma pedra, agora, de madrugada. Como as doces manhãs de Paris, à margem do Sena. Enquanto o metrô não explode. Enquanto o metrô explode. Explode. Bem debaixo do Arco do Triunfo. O metrô explode.&lt;br /&gt;Ato contínuo, Hadewijch aparece no convento. Cristo a salvou do suicídio? Estaríamos vendo sua alma? Em que plano se passa a ação? Ou ela desistiu no último segundo e correu, porta afora, antes da explosão? Nada se explica, como em todo bom cinema. Mas ela não suporta. Viver entre vermes, entre gente pardacenta, de meias-verdades, meias-patacas, meias-palavras. O meio-termo é uma ilusão dos sentidos, dizia eu outro dia a mim mesmo, em um momento de pura filosofia. Sim. Resta o suicídio. Nem mosteiro, nem rua. Nem casa, nem sarjeta. O meio-termo é uma ilusão dos sentidos. Sim. Na larga campina, no bosque do mosteiro. Ofélica, ela se lança, no lago. Afunda. Afunda. Gruda-se às raízes das árvores, submersas, álacres. Mas uma figura surge do fundo para desfazer o equívoco. Salva-a. É o carpinteiro. Acabara de sair da prisão. Homem de dentes podres, comidos pela vida. Semblante aceso. Tranquilo. Puro. Parece um animal em sua docilidade. O abraço de ambos sela um novo pacto. Fim.&lt;br /&gt;Vou à janela. Penso: o novo pacto é a conivência com a fatalidade? É a aceitação de nosso destino miserável? Esse foi o pacto de Hadewijch? Primeiro com o Terror, desfeito? Depois com um pobre-diabo, consumado? Mas este não seria o demo? Ou seria Cristo, em sua mais abjeta (e bela) humilhação? Ela fez o pacto com Cristo, o Artífice da Glória? Ou com apenas mais um carpinteiro? Com um qualquer? Seria um pacto de glória, não de perdição? Seria essa figura bruta o emblema da nossa triste precariedade? Mas então era isso o Cristo que ela tanto amava? Vou de novo à janela. Atônito. Nervoso. Hesitante. Mais um trapo, sombra, fezes, fedor e nojeira. Corre de um lado pra outro, em alucinações. Não. Não. Não posso interromper minha missão nesse momento. Aperto o cachimbo e pingo dois gramas de veneno. Desço as escadas, escuras, paulatinamente. Ao sair, ninguém na rua. Só vultos e fantasmagorias do que virá a ser o amanhã. Vem cá, meu irmão. Vem cá, brother. Eu posso te ajudar na sua fissura. Segura aqui. Essa é na faixa. De cortesia. Ele acende a brasa do cachimbo e cai estático. Arrasto o corpo para o lado, pra não atrapalhar a passagem. Afinal, logo amanhece. É preciso deixar espaço pros pedestres. Levarão junto com o lixo. Democracia. Pedestres. Opção. Escolha. Fiz por amor. Foi por amor ao seu filho, leitora. Quanto antes, menos sofrimento. Faço o sinal da cruz. Volto para casa. No céu, a lua crescente do Islã. O problema do mundo são os mendigos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-7793752403803256484?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7793752403803256484'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7793752403803256484'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2010/06/demo-crack-cia.html' title='DEMO, CRACK &amp; CIA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-4837154256530435962</id><published>2010-05-06T07:00:00.001-07:00</published><updated>2010-05-06T07:04:06.963-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cursos'/><title type='text'>CURSO: A ARTE E OS ARQUÉTIPOS</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/S-LL2CZ8EhI/AAAAAAAAAGM/tvaqBrShUF8/s1600/news_rodrigo.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5468157026800243218" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 112px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/S-LL2CZ8EhI/AAAAAAAAAGM/tvaqBrShUF8/s400/news_rodrigo.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A ARTE E OS ARQUÉTIPOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RODRIGO PETRONIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O conceito de arquétipo pode ser entendido sob diversas perspectivas, tendo em vista uma ênfase na filosofia, na literatura, na arte, na antropologia, na teologia, na psicologia, na história das religiões ou na sua dimensão estritamente formal. Até na biologia, na física, na matemática e na química há estudiosos que propõem teorias arquetípicas.&lt;br /&gt;Em todos esses contextos é possível compreender a sua estrutura e as suas funções, em uma perspectiva histórica, mas também atual. Basicamente criada por Platão, a noção de arquétipo se revestiu de diversos sentidos e amalgamou em si uma série de conceitos de natureza próxima: mito, símbolo, signo, figura, tipo, protótipo, alegoria, imagem, entre outras.&lt;br /&gt;No século XX, foram criadas algumas novas abordagens para o arquétipo, que têm ganhado cada vez mais o campo de estudos e aberto novas frentes de interpretação. O tema é imenso. A proposta deste curso é apenas abrir algumas janelas e lançar luzes sobre este conceito produtivo, partindo da arte, da literatura, do cinema e de temas contemporâneos em evidência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde: Livraria da Vila – Alameda Lorena, 1731 – Jardim Paulista – SP&lt;br /&gt;Quando: 5 encontros: 18/5, 25/5, 1/6, 8/6, 15/6&lt;br /&gt;Dias: Terças-Feiras&lt;br /&gt;Horário: 16h às 18h&lt;br /&gt;Investimento: R$250 (com vale-livro de R$25)&lt;br /&gt;Contato: 38145811/ 3062-1063&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INTRODUÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquétipo: conceito e origem. Os arquétipos e as leis não-escritas. A arkhé de Platão e o mundo das Formas: essência, forma, ideia, real, eidos, aparência e simulacro. A era cristã e o sentido figural e revelado da interpretação: entre os arquétipos e a história. Arquétipo, Alegoria, Tipo e Protótipo: a leitura cristã do mundo das Formas. A visão arquetípica da Academia Platônica do século XV. O debate nos séculos XX e XXI. A Escola de Eranos. Henry Corbin: a Ciência das Formas e a Filosofia Imaginal. Jung e a Psicologia Analítica: as bases da teoria psicológica arquetípica moderna. O Instituto Aby Warburg e a contribuição de Frances Yates. Dois gênios brasileiros na cena mundial: Mário Ferreira dos Santos e Vicente Ferreira da Silva. Teoria dos arquétipos literários: Frye e Mielietinski. O debate atual: Gilbert Durand, a “teoria geral dos arquétipos” e as “estruturas antropológicas do imaginário”. A nova Antropologia do Imaginário. Os arquétipos e o Real: John Hick e o pluralismo religioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS ARQUÉTIPOS NAS ARTES PLÁSTICAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Princípios de geometria sagrada. Formas elementares do mundo e da consciência: a Forma das formas. O “naturalismo” grego: uma aberração? Botticelli: magia e arkhé na pintura. Leonardo e a literalização da arte arquetípica. Paolo Uccello e a matematização do espaço. Marcel Duchamp e a crítica da “arte retiniana”: abertura arquetípica ou engodo? Novas formulações sobre a arte arquetípica. Os tratados alquímicos: Fonte incessante do imaginário arquetípico. Farnese de Andrade, Klee, Delvaux, Balthus, Modigliani, Bacon: o deslocamento arquetípico. Alguns contemporâneos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS ARQUÉTIPOS NA LITERATURA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poema sumério Gilgamesh e o fundamento das estruturas imaginárias da ficção. Orfeu e o orfismo. Ibn ‘Arabî e a Viagem da Alma. Do Céu e do Inferno: Virgílio e Dante. Dante e a estrutura da Divina Comédia. O Quixote: equivocidade dos signos e loucura − a oficina cansada dos arquétipos. Fausto de Goethe: a oclusão da alma e o pacto com a Sombra. Dostoiévski: as bases arquetípicas do Homem e a consciência do Mal. Alguns poetas arquetípicos do século XX. Guimarães Rosa: entre Deus e o Diabo, a “matéria vertente” do Homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS ARQUÉTIPOS E O MUNDO CONTEMPORÂNEO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imanência, materialismo e construtivismo: a Santíssima Trindade da modernidade. Modernidade e esvaziamento arquetípico. A cruzada dos chimpanzés contra as religiões. Dos arquétipos ao Estado: a herança hegeliana e a assimilação da religião ao Leviatã. A redução à Ideologia: a técnica da camuflagem e os discursos fascistas contemporâneos. Razão Pública ou Religião Civil? A formação de uma Religião Civil e os princípios de um totalitarismo planetário. O simbólico, o imaginário e o real: as tramas do inconsciente arquetípico. Violência, desejo mimético e o declínio dos modelos mediadores: a obra de René Girard no debate contemporâneo. O sagrado reduzido a ideologia e a “ciência”: do fascismo ao holismo. Cultura de massas e Sombra Coletiva. Uma breve incursão no cinema: alguns filmes e diretores (Lang, Murnau, Bergman, Tarkovski, Von Trier, Sokúrov, Dreyer).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodrigo Petronio é editor, escritor e professor. Formado em Letras Clássicas e Vernáculas pela USP. Professor e um dos criadores do curso de Criação Literária da Academia Internacional de Cinema (AIC). Coordenador de grupos de leitura do Instituto Fernand Braudel. Professor-coordenador do Centro de Estudos Cavalo Azul, fundado pela poeta Dora Ferreira da Silva (Conselho de Tradução das Obras Completas de Jung no Brasil). É membro do Nemes (Núcleo de Estudos de Mística e Santidade) da PUC-SP. Recebeu prêmios nacionais e internacionais nas categorias poesia, prosa de ficção e ensaio. É autor dos livros História Natural (poemas, 2000), Transversal do Tempo (ensaios, 2002), Assinatura do Sol (poemas, Lisboa, 2005) e Pedra de Luz (poemas, 2005), finalista do Prêmio Jabuti 2006. Coorganizador do livro Animal Olhar (Escrituras, 2005), antologia do poeta António Ramos Rosa. Atualmente organiza as Obras Completas do filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva, cujos dois primeiros volumes foram publicados em novembro de 2009 e o terceiro encontra-se em preparo. Foi congratulado com o Prêmio Nacional ALB/Braskem de 2007, com a obra Venho de um País Selvagem, publicada em abril de 2009 pela Topbooks, e que também recebeu o 3° Lugar no Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional 2010. &lt;a href="http://rodrigopetronio.blogspot.com/"&gt;http://rodrigopetronio.blogspot.com/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-4837154256530435962?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/4837154256530435962'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/4837154256530435962'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2010/05/curso-arte-e-os-arquetipos.html' title='CURSO: A ARTE E OS ARQUÉTIPOS'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/S-LL2CZ8EhI/AAAAAAAAAGM/tvaqBrShUF8/s72-c/news_rodrigo.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-3036343784598271375</id><published>2010-03-04T07:14:00.000-08:00</published><updated>2010-03-04T07:17:23.235-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Entrevistas'/><title type='text'>ENTREVISTA PARA OSCAR D'AMBROSIO: RODRIGO PETRONIO FALA SOBRE AS OBRAS COMPLETAS DE VICENTE FERREIRA DA SILVA</title><content type='html'>&lt;a href="http://aci.reitoria.unesp.br/radio/perfil_literario/579%20PL_RODRIGO%20PETRONIO_VICENTE%20FEREIRA%20DA%20SILVA%20OK.mp3"&gt;http://aci.reitoria.unesp.br/radio/perfil_literario/579%20PL_RODRIGO%20PETRONIO_VICENTE%20FEREIRA%20DA%20SILVA%20OK.mp3&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-3036343784598271375?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/3036343784598271375'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/3036343784598271375'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2010/03/entrevista-para-oscar-dambrosio-rodrigo.html' title='ENTREVISTA PARA OSCAR D&apos;AMBROSIO: RODRIGO PETRONIO FALA SOBRE AS OBRAS COMPLETAS DE VICENTE FERREIRA 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href="http://www.erealizacoes.com.br/espaco/palestras.asp"&gt;http://www.erealizacoes.com.br/espaco/palestras.asp&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-1891495020365900415?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/1891495020365900415'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/1891495020365900415'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2010/02/palestra-de-lancamento-das-obras.html' title='PALESTRA DE LANÇAMENTO DAS OBRAS COMPLETAS DE VICENTE FERREIRA DA SILVA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-3301791366150213046</id><published>2009-12-22T18:17:00.000-08:00</published><updated>2009-12-22T18:18:18.352-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Entrevistas'/><title type='text'>ENTREVISTA PARA OSCAR D'AMBROSIO - RÁDIO UNESP</title><content type='html'>&lt;a href="http://aci.reitoria.unesp.br/radio/perfil_literario/448%20PL_RODRIGO%20PETRONIO%20OK.mp3"&gt;http://aci.reitoria.unesp.br/radio/perfil_literario/448%20PL_RODRIGO%20PETRONIO%20OK.mp3&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-3301791366150213046?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/3301791366150213046'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/3301791366150213046'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/12/entrevista-para-oscar-dambrosio-radio.html' title='ENTREVISTA PARA OSCAR D&apos;AMBROSIO - RÁDIO UNESP'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-2485281565160609253</id><published>2009-12-14T12:27:00.000-08:00</published><updated>2009-12-14T12:29:36.411-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Acontece'/><title type='text'>RODRIGO PETRONIO - 3° LUGAR NO PRÊMIO ALPHONSUS DE GUIMARAES - FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL</title><content type='html'>PORTARIA N.º 94 FBN/PRESI Rio de Janeiro, 09 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL no uso das atribuições que lhe são conferidas pelo Estatuto da Entidade, aprovado pelo Decreto n° 5.038, de 07 de abril de 2004, publicado no Diário Oficial da União em 08 de abril de 2004, torna público o resultado do Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional do ano de 2009.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Prêmio Alphonsus de Guimaraens&lt;br /&gt;Categoria: Poesia&lt;br /&gt;Comissão Julgadora:&lt;br /&gt;· Eucanaã Ferraz&lt;br /&gt;· Francisco de Castro Mucci&lt;br /&gt;· Moacir Amâncio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vencedor: Marina Colasanti, com a obra Passageira em trânsito, publicada pela Editora Record.&lt;br /&gt;2º lugar: Reynaldo Damazio, com a obra Horas perplexas, publicada pela Editora 34.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;3º lugar: Rodrigo Petronio, com a obra Venho de um país selvagem, publicada pela Editora Top Books.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Prêmio Machado de Assis&lt;br /&gt;Categoria: Romance&lt;br /&gt;Comissão Julgadora:&lt;br /&gt;· José Guimarães Castello Branco&lt;br /&gt;· Beatriz Vieira Resende&lt;br /&gt;· Flávio Martins Carneiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vencedor: Raimundo Carrero, com a obra A minha alma é irmã de Deus, publicada pela Editora Record.&lt;br /&gt;2º lugar: Rodrigo Lacerda, com a obra Outra vida, publicada pela Editora Alfaguara.&lt;br /&gt;3º lugar: Bernardo Ajzenberg, com a obra Olhos secos, publicada pela Editora Rocco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prêmio Clarice Lispector&lt;br /&gt;Categoria: Conto&lt;br /&gt;Comissão Julgadora:&lt;br /&gt;Mário Bezerra Pontes&lt;br /&gt;Moacyr Jaime Scliar&lt;br /&gt;Mànya Dias Millen&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vencedor: Beatriz Bracher, com a obra Meu amor, publicada pela Editora 34.&lt;br /&gt;2º lugar: José Rezende Jr., com a obra Eu perguntei pro velho se ele queria morrer, publicada pela Editora 7 Letras.&lt;br /&gt;3º lugar: Antônio Carlos Viana, com a obra Cine Privê, publicada pela Companhia das Letras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Prêmio Mário de Andrade&lt;br /&gt;Categoria: Ensaio Literário&lt;br /&gt;Comissão Julgadora:&lt;br /&gt;Vera Lúcia de Oliveira Lins&lt;br /&gt;Walnice Nogueira Galvão&lt;br /&gt;Frederico Augusto Liberalli de Góes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vencedor: Luiz Costa Lima, com a obra O Controle do Imaginário &amp;amp; A Afirmação do Romance – Dom Quixote, As relações perigosas, Moll Flanders, Tristram Shandy, publicada pela Editora Companhia das Letras.&lt;br /&gt;2º lugar: Marcus Mota, com a obra A Dramaturgia Musical de Ésquilo – Investigação sobre composição, realização e recepção de ficção audiovisual, publicada pela Editora da UNB.&lt;br /&gt;3º lugar: Ronaldes de Melo e Souza com a obra A Geopoética de Euclides da Cunha, publicada pela EDUERJ.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Prêmio Sérgio Buarque de Holanda&lt;br /&gt;Categoria: Ensaio Social&lt;br /&gt;Comissão Julgadora:&lt;br /&gt;· Carlos Guilherme Santos Serôa da Mota&lt;br /&gt;· Elias Thomé Saliba&lt;br /&gt;· Carlos Fico da Silva Júnior&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vencedor: Ronaldo Vainfas e Lúcia Bastos Pereira das Neves, com a obra Dicionário do Brasil Joanino, 1808-1821, publicada pela Editora Objetiva.&lt;br /&gt;2º lugar: Mary Del Priore, com a obra Condessa de Barral, a Paixão do Imperador, publicada pela Editora Objetiva.&lt;br /&gt;3º lugar: Demétrio Magnoli, com a obra Uma Gota de Sangue. História do Pensamento Racial, publicada pela Editora Contexto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prêmio Paulo Rónai&lt;br /&gt;Categoria: Tradução&lt;br /&gt;Comissão Julgadora:&lt;br /&gt;· Leonardo Fróes da Silva&lt;br /&gt;· Ivo do Nascimento Barroso&lt;br /&gt;· Per Johns&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vencedor: Erick Ramalho, com a obra Poemata, poemas em latim e em grego, publicada pela Editora Tessitura.&lt;br /&gt;2º lugar: Paulo Werneck, com a obra Zazie no Metrô, publicada pela Editora Cosac Naify.&lt;br /&gt;3º lugar: Luís Antônio Martinez Corrêa, com a obra O Percevejo, publicada pela Editora 34.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prêmio Aloísio Magalhães&lt;br /&gt;Categoria: Projeto Gráfico&lt;br /&gt;Comissão Julgadora:&lt;br /&gt;Sônia Virgínia Moreira&lt;br /&gt;Amaury Fernandes&lt;br /&gt;Rodolfo Capeto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vencedor: Marina Carolina Sampaio, com a obra Lina por escrito: textos escolhidos de Lina Bo Bardi de Silvana Rubino e Marina Grinover, publicada pela Editora Cosac Naify.&lt;br /&gt;2º lugar: Ângela Lago, com a obra Bichos, de Ronaldo Simões Coelho, publicada pela Editora Aletria.&lt;br /&gt;3º lugar: Luciana Facchini, de Décio Pignatari, com a obra Bili com limão verde na mão, publicada pela Editora Cosac Naify.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prêmio Glória Pondé&lt;br /&gt;Categoria: Literatura Infantil e Juvenil&lt;br /&gt;Comissão Julgadora:&lt;br /&gt;· Neide Medeiros Santos&lt;br /&gt;· Mariza de Almeida Borba&lt;br /&gt;· Elizabeth d´Angelo Serra&lt;br /&gt;Vencedor: Bartolomeu Campos de Queirós com a obra Tempo de Voo, publicada pela Editora Comboio de Corda.&lt;br /&gt;2º lugar: Ronaldo Simões Lopes com a obra Bichos publicada pela Editora Aletria.&lt;br /&gt;3º lugar: Graziela Bozzano Hetzel com a obra O Lobo publicada pela Editora Manati.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MUNIZ SODRÉ&lt;br /&gt;Presidente&lt;br /&gt;Fundação Biblioteca Nacional&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-2485281565160609253?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/2485281565160609253'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/2485281565160609253'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/12/rodrigo-petronio-3-lugar-no-premio.html' title='RODRIGO PETRONIO - 3° LUGAR NO PRÊMIO ALPHONSUS DE GUIMARAES - FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-145967380663271560</id><published>2009-12-03T15:40:00.000-08:00</published><updated>2009-12-03T15:52:11.304-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cinema'/><title type='text'>2046 DE WONG KAR WAI: ERA UMA VEZ O AMOR</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SxhNrzDzNTI/AAAAAAAAAFk/E0woefPWZz0/s1600-h/images[1].jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5411160367121511730" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 107px; CURSOR: hand; HEIGHT: 143px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SxhNrzDzNTI/AAAAAAAAAFk/E0woefPWZz0/s400/images%5B1%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O tema do amor é um dos mais explorados em toda a história do cinema. Chega a ser quase um recurso menor por ser tão universal e, ao mesmo tempo, tão passível de ser endossado sem grandes crises de consciência do espectador em geral, que tende a se identificar de saída com a proposta, seja ela qual for. De Casablanca a toda sorte de terapia amorosa grupal a que os produtores de Hollywood chamam de cinema, dos mais antigos registros cinematográficos, passando pelas abordagens mais eróticas, até toda série de filmes cuja tônica recai sobre alguma relação amorosa, vai uma floresta negra de infindáveis títulos que não cabe recensear aqui. O interessante é notar (e aqui vem uma distinção essencial) que muitas vezes esses filmes não tematizam o amor, mas uma relação amorosa em específico. Alguns diretores e filmes se propuseram enfaticamente a isso: Antonioni, Truffaut, Bergman e até mesmo aquele explícito Elogio do Amor, mais um dos tantos equívocos de Godard. Também recentemente tivemos o belo Amor em Cinco Tempos de François Ozon. Mas, muitas vezes, aborda-se o tema mais num nível teórico do que propriamente fílmico. Em geral, por mais abrangente que seja o enquadramento e por mais que nos identifiquemos com o que transcorre na tela, não é o amor propriamente o principal agente do espetáculo. Os atores o encarnam e o individualizam em personagens. Não nos remetem à sua causa primeira, ao seu mistério, à sua condição.&lt;br /&gt;Em um sentido bastante diverso podemos entender o novo filme de Wong Kar Wai: 2046. O diretor já havia mergulhado no tema em um belo filme anterior, Amor à Flor da Pele, do qual este seria uma espécie de continuação. Mas aqui ele o leva às raias do paroxismo. Na atual maré rala do cinema, mesmo o europeu, que oscila entre grandes produções que dizem pouco ou quase nada e os filmes competentes, o famoso (e entediante) mito tecnocrata da competência, não deixa de ser um grande frescor respirar um filme como este. Façamos um resumo sucinto de seu enredo, pois não é ele que realmente importa. Nos anos 1960, em plena tensão de conflitos políticos, Chow vive de escrever pequenos contos ficcionais para um jornal. Decepcionado por uma desilusão amorosa, sai de Cingapura e se refugia em um quarto pobre de hotel. Escolhe o número que dá título ao filme, por ali ter morado um antigo amor, que nele foi assassinada por um de seus amantes. A partir de então sua vida é a de uma completa dissolução. Aquilo que podemos chamar de uma promiscuidade regrada, sem grandes arroubos ou perversões, mas com uma alta rotatividade de parceiras. O fato é que a vida do hotel começa a se entrelaçar à sua. Passa a ser o receptáculo das cartas apócrifas endereçadas à filha do dono, apaixonada impossivelmente por um japonês. A filha mais nova, adolescente lúbrica, quer tê-lo a qualquer custo e acaba fugindo de casa. A vizinha da frente, uma espécie sutil de prostituta, reluta muito em se entregar a ele, pois sabe que acabará se apaixonando. Como de fato acontece. E uma grande série de conluios amorosos se dá, até que o protagonista parte de volta para Cingapura e passa a ganhar a vida na noite, com o jogo de cartas. É quando conhece uma mulher misteriosa que tem exatamente o nome da amante que lhe fizera perder o rumo e fugir da cidade. Mais um amor em aberto, uma possibilidade que não se concretiza, e Chow parte enfim de volta para Hong Kong. Subentende-se que o faz para retomar a sua vida de dissolução, sem qualquer perspectiva mais sólida.&lt;br /&gt;Não importam os desdobramentos da história. Aliás, no grande cinema, a história é o que menos interessa. É sempre um pretexto para acionar potências, forças, intensidades, afetos, singularidades, dar-nos, enfim, a fina flor da imagem-tempo, como bem o definiu Deleuze. O que temos, na verdade, no desenrolar dessas cerca de duas horas de uma discreta obra-prima, é uma das mais contundentes encenações do amor. Porém, não de seu apogeu, mas de seu eclipse. Em mimetismo com a impossibilidade do amor num futuro de máquinas, numa hipotética era de 2046, cujas relações amorosas se desdobram em um plano de ficção científica, saído todos os dias da caneta desse escritor-personagem, Kar Wai nos dá uma antecipação da ruína futura do amor, que se faz presente. E, no nosso caso, também passado. Eis a estratégia narrativa que suspende a contingência temporal. O amor que não poderá ser já não o é. E, para nós, já não o é desde há muito tempo. Nesse sentido, ao recorrer à ficção científica, que é parodiada e desmontada para demonstrar, em um fundo artificialmente atemporal, a impossibilidade do afeto e a incomunicabilidade entre as pessoas, 2046 se filia quase que explicitamente ao Solaris de Tarkovski, provavelmente um dos maiores artistas do século XX. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5411160869625574786" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 124px; CURSOR: hand; HEIGHT: 93px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SxhOJDCGtYI/AAAAAAAAAF0/cLILYI--6QI/s400/images%5B2%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Porém, diferente da proposta do diretor russo, há aqui um apelo sexual. No filme de Kar Wai, a sensação de vazio e incomunicabilidade se reveste do mais transparente hedonismo e pode ser entendida de muitas maneiras. As mais diretas dizem respeito à própria gama de situações que o afeto pode nos proporcionar. Mas há uma leitura mais fina, sub-reptícia. Ela se relaciona ao próprio estado atual da sociedade e da cultura, e não se trata de um fenômeno ocidental ou oriental, mas do mundo todo. Resumindo grosseiramente aqui as idéias de Zygmunt Bauman, se a modernidade pode ser definida como a instauração da fluidez como a grande moeda do mercado de bens materiais e simbólicos, nesse contexto o ocaso do amor era não só esperado, mas inadiável. Se também as relações humanas passam a ser subsumidas à transação e à transitoriedade de um mundo líquido, não é de se espantar que a liquidez dos corpos no mercado do amor seja desde há muitas décadas um fenômeno inexorável. Para usar a expressão do sociólogo polonês, é a era do amor líquido. Estaríamos hoje vivendo o ápice desse processo de fluidez em todas as instâncias de nossa vida, da qual a mais notável e, dir-se-ia, mais polêmica e fatídica, seria a das relações amorosas.&lt;br /&gt;Ora, o amor líquido, ao contrário do que possa parecer, não é um manancial inesgotável de virtualidades e possibilidades de novos vínculos e de novas formas de amor. Pelo contrário, é a suspensão, a impossibilidade de todo vínculo, tido como obsoleto, a mesma suspensão reivindicada pela tão aclamada liberdade sexual, que hoje em dia só ilude idiotas. Por outro lado, vivamos ou não em um mundo de idiotas (há boas almas que acreditam que não), as estruturas que o regem são sustentadas na impermanência, na fugacidade, na transitoriedade, em uma palavra, na liquidez. Em uma constante luta pela legitimação da paixão em uma realidade dominada pela hipocrisia das formas sociais enrijecidas pelo hábito e pelas instituições, a modernidade flexibilizou as relações e, com elas, também o amor. Agora, entrincheirada, vitimada por sua própria criação, oscila indefinidamente entre o desespero pela substituição rápida de parceiros e a hipótese cosmética de uma vida a dois perfeita, moeda das mais correntes na mídia. Entre o real descartável, porque sempre insuficiente, e o ideal fraudulento, porque totalmente estéril em sua perfeição, nunca fomos tão críticos, nunca fomos tão livres em relação ao amor. E, ao mesmo tempo, nunca fomos tão solitários. Diante dessa situação, em meio a esse hiato, essa mesma vida moderna não consegue nos oferecer nada mais do que três saídas alternativas no que lhe diz respeito: o cinismo, a farsa ou a hipoteca.&lt;br /&gt;No primeiro caso, temos a opção pelo hedonismo, como faz o personagem principal de 2046. Mas mesmo nele, vive-se no inferno. E não é necessária grande abstração filosófica nem recorrer a complicadas engenhocas metafísicas para entender que se a experiência não é passível de singularização, resulta daí que ela mesma se anule como experiência, perdendo sua espessura simbólica, e até mesmo sua própria definição ontológica. Reduzida a um caos amorfo de sensações que já não se distinguem, acaba por se transformar em um conjunto de realidades puramente nominais. Vive-se em um universo onde tudo se passa, mas nada acontece. É o spleen, o tédio, a massa das sensações, a liberdade total do sujeito diante do mundo que o circunda, mas que é igualmente desencantado e desinteressante em toda a parte. Em uma palavra, é o gosto da novidade.&lt;br /&gt;Mas o filme de Kar Wai é fino nesse aspecto. Diz-nos que o prazer é, a um só tempo, liberdade e túmulo, ponto de fuga do imaginário e dilapidação de todo recurso amoroso. Nesse contexto, a vida do libertino, em tempos modernos e mais especialmente pós, como o nosso, não goza nem do benefício da ampliação das práticas como recurso para potencializar o prazer diante da sua inescapável neutralização, do incontornável esvaziamento da experiência tomada em si mesma, como seria em Sade, por exemplo. Porque hoje, mesmo a transgressão já vem prevista e prescrita pelo modelo que ela tente quebrar e, ao refutá-lo, o repropõe, em chave inversa. Toda novidade já vem prevista pelo cardápio que a assimilará, para que também ela possa ser trocada, aceita, consumida. Mesmo o que tenta se fixar, acaba por se desmanchar, no fluxo líquido dos valores e práticas que não se sustentam em nada e não sustentam nada. E nada é mais gritante nesse sentido do que a impossibilidade de se lidar com o amor em liberdade, vivida justamente por todos aqueles que mais padeceram das agruras dos limites e da rigidez. Dito em outras palavras, hoje em dia o perfeito cínico é aquele que pensa que o amor será redimido pelo hedonismo. É cínico porque quer transformar uma energia diáfana em algo quantificável, na estatística dos corpos que se encontram e se cruzam, para depois se dissiparem em uma forma qualquer de desprezo ou indiferença.&lt;br /&gt;Na segunda hipótese, temos a manutenção das formas mais tradicionais dos relacionamentos. Sem pensar em qualquer positividade, em maneiras mais ou menos corretas de se viver no interior do rio mutável da história, ela também não deixa de apresentar suas dificuldades. Não que a história se repita como farsa, como queria Marx, mas a experiência mesma engendra suas formas históricas, em todos os quadrantes de nossa vida. Como eixo de sustentação, como âncora de um mundo líquido, a melhor saída seria o casamento, revisto e repensado como forma autêntica de viver o amor em toda a sua potência. Porém, mesmo ele se tornou uma miragem. Não como defesa de causa ou impossibilidade a priori, mas como uma realidade deslocada, excêntrica dentro de uma vigência histórica que age como um rio caudaloso: transborda, nos varre e arrasta consigo tudo em seu curso. É contra esse rio que se tem que lutar. E, nesse caso, mesmo a fixidez almejada por um sujeito isolado acaba redundando em idiossincrasia, deslocamento, desajuste. Exatamente o que o personagem de Kar Wai vive em relação àquelas mulheres que ele poderia potencialmente amar. Arritmia e distopia: o amor líquido, como valor coletivo, não desfaz apenas a fixidez do amor, mas engendra a própria impossibilidade desta fixidez no âmbito individual, produzindo, à sua revelia, a excentricidade e a marginalidade dos sujeitos que a queiram.&lt;br /&gt;Por fim, temos a aposta lançada por Bauman: a hipoteca. A possibilidade do vínculo amoroso lançada ao acaso, já que apenas no acaso é possível a esperança. Um futuro previamente conquistado por nossa vontade, onde possamos viver o amor como amor, a despeito da transitoriedade ou da fixidez do mesmo, e não como um entorpecimento coletivo, seja ele regido pela pura experiência ou pela pura idealização, pelo mais cru hedonismo ou pela renúncia, na mais completa fixidez ou na mais eufórica dissolução. Também onde possamos vivê-lo à revelia dos códigos morais e, mais que isso, também de princípios imorais ou amorais que existam apenas para rompê-los. Que seja sempre visto como uma potência, no que essa palavra traz de mais profundo, ou seja, uma mescla de possibilidade e força. Mas tal transformação exige uma mudança das práticas, dos valores, das crenças. Em suma, de quase tudo. Parece que mesmo aqui estamos diante de uma visão do amor como algo virtual, algo que não é acessível ainda, que se desdobra como um horizonte tão almejado quanto intangível. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5411160987801135666" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 126px; CURSOR: hand; HEIGHT: 101px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SxhOP7RWqjI/AAAAAAAAAF8/eLjM9i9tLaE/s400/rweesd.jpg" border="0" /&gt; &lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sim. E talvez seja essa, em termos, a aparente (e pessimista) resposta de Kar Wai. Porque mesmo a substância mais “espiritual” do amor, que poderia por ventura sair ilesa desse combate, hoje em dia se nos afigura confiscada pela melancólica impossibilidade de ser equacionada com a fluidez do mundo. Este, em todas as suas instâncias, sejam simbólicas ou materiais, é sempre vazado pela luz fantasmal das estatísticas, da perfeição, das performances e do desempenho mensurável. Mais que isso: da possibilidade iminente de troca, que também permeia o imaginário e todas as relações sociais. Ao introjetar a ética da troca nas relações e o valor da perfeição, que regra a dinâmica do capitalismo, na parcela mais íntima de nossas vidas, ao fazê-los se espraiar em todas as suas capilaridades, o mundo moderno retirou a potência do amor. E o fez, paradoxalmente, porque dessa forma retirou a sua pobreza, como nos diz Platão na sua famosa definição do deus no Banquete. Amor é pobreza, não perfeição, e só o recurso pode saná-la provisoriamente. Quanto mais falta há, mais pleno ele é.&lt;br /&gt;Elementar. Sabendo-se que, ao contrário da falta, que lhe é constitutiva, o caráter fluido da força em questão não é algo que nasça da prática amorosa, não é algo próprio do amor, mas sim a ele agregado, por um mecanismo mais amplo de trocas materiais, não há como sequer tocar a sua natureza mais primária sem antes ter que passar por uma longa jornada noite adentro, para lembrar aqui o belíssimo A Noite de Antonioni. Não há como redimi-lo, sem se despir das muitas e muitas camadas de preconceitos criados pela liberdade. E isso evidencia por que essa jornada culmina, cada vez mais, para a maior parte das pessoas e na maioria das vezes, não no erotismo ou no apogeu do sexo, como se espera. Mas sim na solidão dividida entre dois corpos numa mesma cama, numa mesma cidade, num mesmo país, no mesmo mundo. O princípio da esterilidade compartilhada é vivido em seu esplendor, quase como um resultado previsível. Trata-se da glorificação maior da modernidade, corolário natural de seu sonho de subverter todos os tabus.&lt;br /&gt;Não espanta que o tema do amor, ele mesmo, não o da desilusão pequeno-burguesa de pequenos casais amuados em seu desespero e gigantes em sua insignificância, tenha ficado tanto tempo em suspenso. E principalmente passado à larga de boa parte da produção cinematográfica. Também é deveras compreensível que a era do amor líquido, a era do maior e mais efetivo liberalismo econômico, sexual, político, religioso e adjacentes, seja também a era do imaginário mais domesticado e a dos artistas mais covardes de que se tem notícia. Por seu turno, em sua forma histórica, as instituições mais tradicionais, como o casamento, têm dificuldade de dar conta do amor em sua nascente líquida. Estão contra a parede e muitas vezes ainda continuam sendo maneiras que a Igreja encontrou de se desintoxicar do amor, como queria Nietzsche. Já a realidade desse afeto potente, em nosso tempo, se transformou a ponto de ser identificada a práticas, meios, modos, usos, formas, gêneros, opções, fetiches, grupos, preferências, panfletos e toda uma sonolenta, insuportável lista que diz respeito apenas e exclusivamente às modalidades amorosas, mas que cala, estrategicamente, no que concerne à natureza do amor, ao seu mistério, ao seu enigma, ao seu milagre. Coisa tão previsível como o encontro físico de dois corpos. Porque os corpos querem apenas queimar e nós, consumir. Não há espaço aqui para reflexão, porque ela obsta a troca; muito menos para uma experiência que vise a essência, pois ela será, com toda certeza, contraproducente para a economia amorosa.&lt;br /&gt;Pode-se objetar que o filme às vezes resvala no kitsch, sobretudo nas cenas de ficção científica, que mesclam alta passionalidade a um ambiente futurista de robôs. Mas tal transbordamento perde o aspecto negativo se o entendermos como um recurso mesmo que Kar Wai encontrou para mostrar o amor em sua pulsão mais primária, em seu grau passional mais elevado, e que por isso mesmo não pode (e não deve) evitar o excesso. Outra crítica seria à aparente fraqueza do universo feminino que é encenada na tela. Porém, aos poucos, ela se dilui nos contornos mais especificamente humanos dos personagens. E sentimos que todos estão na mesma sintonia, se equivalem na distância, na mesma arritmia que promove o encontro, mas impossibilita a união.&lt;br /&gt;À guisa de parêntese, em um dado momento do filme somos informados que um andróide é incapaz do amor. Coisa a princípio óbvia. Mas que deixa de ser no momento seguinte, com a explicação do motivo, que é elucidativa. É incapaz, não por uma característica de seu sistema técnico, posto que já amara antes. Mas por uma impossibilidade ontológica do próprio afeto. Nossa miséria não é fruto da perda da sensibilidade por conta da tecnologia ou de uma perda de nossa humanidade diante da modernização, mas de uma perda da potência mesma da entrega, uma atrofia do próprio mecanismo sensível e de doação, seja ela vivida em um paraíso de máquinas ou no inferno solitário de um quarto escuro. Essa condição só nos evidencia uma coisa: somos reféns daquilo que nos liberta. E esperamos indefinidamente viver em plenitude aquilo que nos libertará. Quem sabe, um dia?&lt;br /&gt;O amor absoluto de que falavam os surrealistas, entendido como o princípio mesmo da revolução, deixou de ser uma utopia e se transformou em uma miragem, em um completo fantasma. Se a anomia amorosa já nem se ocupa mais dos afetos, quem dirá de seu sentido político mais amplo. Porém, uma coisa é certa. Essa tão propalada revolução não virá pela economia, pela política, pela ideologia, nem por quaisquer dessas grandes abstrações com a qual o Ocidente vem se entorpecendo há séculos. Mas de algo bem mais diáfano e pouco palpável, algo tanto mais impossível quanto provável. Por ora, resta-nos o consolo dessa mulher fumando ao lado de uma grande placa de néon do Oriental Hotel, contra um céu simultaneamente absurdo e real. Ao fundo, a voz alienígena de Connie Francis cantando Siboney. Em 2046, o diretor chinês Wong Kar Wai fez algo muito mais insólito do que uma ficção científica e, a um só tempo, algo mais real que a própria realidade. Ele filmou o que efetivamente não existe: o amor. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-145967380663271560?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/145967380663271560'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/145967380663271560'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/12/2046-de-wong-kar-wai-era-uma-vez-o-amor.html' title='2046 DE WONG KAR WAI: ERA UMA VEZ O AMOR'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SxhNrzDzNTI/AAAAAAAAAFk/E0woefPWZz0/s72-c/images%5B1%5D.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-288982453438632829</id><published>2009-12-03T15:31:00.000-08:00</published><updated>2009-12-03T15:35:07.745-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Sobre Rodrigo Petronio'/><title type='text'>O LIVRO MUDO DO MUNDO</title><content type='html'>&lt;a name="2008_01-01_04_32_18-10759959-25"&gt;&lt;strong&gt;Marcelo&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt; Coelho&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não dá para postar na íntegra “Assinatura”, o belo poema que leio em Pedra de Luz, de Rodrigo Petronio, (editora A Girafa), mas as estrofes que reproduzo abaixo já são suficientes, acho, para dar idéia da grande imaginação poética do autor, nascido em 1975.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não tem medo dos poemas longos, das palavras “nobres”, como “amaranto”, “vinhas”, “alfombra”, “safira”, nem dos versos que são bonitos, bonitos sozinhos, sonoramente, e antiquadamente, como&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Âmbar diáfano que teu coração irriga&lt;br /&gt;(“Música natural”)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em algumas carícias breves abatida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(“Estampas de Minas)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodrigo Petrônio também não procura esconder as influências variadas (Rilke, Augusto dos Anjos, Dora Ferreira da Silva, Augusto Frederico Schmidt) que retornam com freqüência aos seus poemas, e que muitas vezes são o ponto de partida para um diálogo explícito com algumas obras que lhe servem de inspiração. Assim, “Memórias de um Século” começa com uma menção a Apollinaire:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está cansado desse mundo antigo (...)?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o fantasma de Drummond é invocado repetidamente, por exemplo em “Quetzalcoátl” (“Sou apenas um homem americano...”), em “Sobre a folha de água corrente” (“Quem se lembra de dinamitar Manhattan?”), assim como em “Assinatura” (a lua “diurética”). Mas vamos às estrofes de “Assinatura”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho no céu essa lua&lt;br /&gt;Essa esférica bacia&lt;br /&gt;Que molha todo esse mundo&lt;br /&gt;Com sua prata derretida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho no céu essa lua&lt;br /&gt;O que é que nela palpita?&lt;br /&gt;Seria o sonho dos vivos&lt;br /&gt;Que pra ela à noite migra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho no céu essa lua&lt;br /&gt;Poética e radioativa&lt;br /&gt;A mesma que sobre Herodes&lt;br /&gt;Pousou suas asas de brisa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho no céu essa lua&lt;br /&gt;Que esparge sua bênção fria&lt;br /&gt;Sobre todas as criaturas&lt;br /&gt;Cospe sua ração líqüida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho no céu essa lua&lt;br /&gt;Que ilumina São João&lt;br /&gt;Com a cabeça separada&lt;br /&gt;Do corpo em putrefação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho no céu essa lua&lt;br /&gt;Esse disco de algodão&lt;br /&gt;Que o discóbolo lançou&lt;br /&gt;Há dois mil anos do chão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho no céu essa lua&lt;br /&gt;Em seu alcoólico elixir&lt;br /&gt;Seus mil dedos de anêmona&lt;br /&gt;Afagam o que está por vir&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho no céu essa lua&lt;br /&gt;Não é aérea ou mineral&lt;br /&gt;Sua compleição feminina&lt;br /&gt;Sua coloração de hospital&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho no céu essa lua&lt;br /&gt;Canteiro de turmalina&lt;br /&gt;Despeja luz sobre tudo&lt;br /&gt;Com tinta branca se assina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No livro mudo do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leia:&lt;br /&gt;&lt;a href="http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/arch2008-01-01_2008-01-31.html"&gt;http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/arch2008-01-01_2008-01-31.html&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-288982453438632829?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/288982453438632829'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/288982453438632829'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/12/o-livro-mudo-do-mundo.html' title='O LIVRO MUDO DO MUNDO'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-7575272550563456261</id><published>2009-12-01T03:02:00.000-08:00</published><updated>2009-12-01T03:21:36.179-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Entrevistas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ensaio'/><title type='text'>NAS TRILHAS DE UM PAÍS SELVAGEM</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SxT7F4ZkySI/AAAAAAAAAFc/m5bk3NgLV-0/s1600/100_1569.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5410225130836379938" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 300px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SxT7F4ZkySI/AAAAAAAAAFc/m5bk3NgLV-0/s400/100_1569.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;Entrevista cedida a Victor del Franco&lt;/strong&gt; &lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Editor da Revista Celuzlose&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Celuzlose − A sua poesia dialoga bastante com temas e autores de natureza "mítica-mística". De que maneira surgiu essa aproximação? As suas leituras da adolescência já indicavam esse percurso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodrigo Petronio − Gosto muito dessa relação da poesia com o mito e com a mística. No caso do mito, acredito que toda a poesia e toda a arte partam de uma abertura mítica. Esta é a raiz de onde nasce a criação. Para ser mais claro, acredito que o mito seja o princípio de inteligibilidade do mundo. O mito é a clareira que soma em si todas as perspectivas possíveis de acesso ao real, como aquela floresta de Ortega y Gasset, que uniria em si a soma de todas as veredas contidas nela. Por isso, a poesia é mítica e a sua realidade se mostra como um afastamento ou aproximação de uma perspectiva originária, espécie de nascente da linguagem. Mas para tratarmos disso, seria preciso uma digressão que não cabe neste diálogo. No caso da mística creio que seja uma modalidade de compreensão e da linguagem um pouco mais específica, e tenho me interessado muito por ela. Faço parte do Núcleo de Estudos de Mística e Santidade (Nemes), coordenado pelo Luiz Felipe Pondé, e que tem me trazido muitos ensinamentos valiosos nesse sentido. O interesse talvez tenha vindo de minhas primeiras leituras de Blake ou mesmo da ideia de uma mística da transgressão, contida em Bataille e em autores modernos que seriam, na expressão dele, místicos de um mundo sem Deus. Só fui compreender melhor Allen Ginsberg, por exemplo, quando percebi a sua conexão com a mística hassídica, e, do ponto de vista formal, o quanto Kaddish e O Uivo tinham a ver com a essa tradição judaica de cunho mais “profano” e popular. Porém, por mais aberta que possa ser a incorporação do termo mística pela arte e pela literatura, esse diálogo pode transbordar a pertinência da mística e acabar gerando meras mistificações e equívocos. Além disso, acabei criando algumas dúvidas em relação à primazia da transgressão na arte moderna, se ela não nos levaria inevitavelmente a um impasse. Por isso, de tempos para cá, tenho me afastado dessas concepções livres demais da mística, e me dedicado a estudar a tradição e a literatura da mística ortodoxa, se é que podemos dizer assim, sobretudo a chamada mística especulativa, derivada da teologia negativa ou teologia apofática. Nos primeiros padres da igreja grega, como Nemésio, Gregório Nazianzeno, Gregório de Nissa, pelos quais tenho uma grande admiração, já encontramos uma teologia mística, que transcende os princípios racionais da filosofia que lhes serviu de base. Depois temos os neoplatônicos, como Porfírio, Jâmblico e, sobretudo, Plotino, e o Pseudo-Dioniso Areopagita, dos quais nascem os fundamentos da teologia negativa. A obra do Pseudo-Dioniso é uma maravilha, um épico do espírito em sua busca tateante da luz. É um ponto de clivagem tanto a ocidente quanto a oriente. E ela será de novo o elo perdido de união entre a filosofia e a teologia gregas e latinas no trabalho colossal de Scotus Erígena, que além de tudo faz também a ponte entre a mística antiga e toda a mística moderna, seja como tradutor do Pseudo-Dioniso, seja como um dos maiores representantes da teologia negativa no Ocidente. É desse eixo que nasce a mística da luz do século XII, sobretudo em Chartres, com Bernardo de Clairvaux e Hugo de Saint Victor, e, um século depois, São Boaventura. É desse eixo que floresce Ruysbroeck e a mística renana, com Tauler, Suso e o insuperável Mestre Eckhart. Deles se vai a San Juan de la Cruz, a Santa Teresa D’Ávila, a Silesius. Há também a tradição sufi da mística persa. Creio que Attar, Ibn Arabî e Rûmî estejam entre os maiores poetas de todos os tempos, além de terem escrito obra que tangencia os limites da compreensão e da linguagem, que singra sempre no limiar entre a consciência de si e a luz do mundo. E o caminho da mística não se esgota aí, não pode ser entendido como uma etapa superada do pensamento, como querem os positivistas de todas as latitudes. O exemplo de Simone Weil, no século XX, o demonstra, com proposta e forma muito distintas, mas ainda assim ancorada no fundo sem fundo da mística, bem como os de Heidegger e Wittgenstein, para mencionar casos extremos, na filosofia. A apophasis (impossibilidade de dizer), a kenosis (esvaziamento de si), a metanoia (transformação interna radical), as ideias do homo viator e do itinerarium mentis in Deum, o grau zero da consciência, a relação simétrica entre vazio da consciência e plenitude do mundo, a linguagem que busca uma excentricidade de si mesma, o fundo sem fundo (Ungrund) de que fala Eckhart, o desprendimento radical, no qual o próprio Deus se desprende de si e deixa de ser Deus: os temas da mística já são poesia em estado bruto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celuzlose − Aproveitando que você faz uma referência à teologia negativa, li um comentário seu sobre a obra de Augusto dos Anjos em que você desenvolve um conceito denominado “princípio de negatividade” ou “afirmação negativa”. Fale um pouco desse conceito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodrigo Petronio - Augusto dos Anjos é um dos poetas brasileiros mais importantes para mim, embora sinta pouco a sua marca naquilo que escrevo. Às vezes temos admiração por um autor, ou até mesmo incorporamos elementos seus à nossa revelia, mas eles acabam não sendo centrais para o conjunto do que escrevemos ou para a nossa poética. O que gosto nele é a sua falta absoluta de definição, que é fruto de uma postura selvagem em relação à poesia, esta sim, mais moderna do que muitos modernismos. Sua forma é de cunho parnasiano; seus temas científicos poderiam ser tidos como naturalistas, ou como um enciclopedismo tardio, de almanaque, à moda do século XVIII, mas acabam sendo talhados em pinceladas grossas que se aproximam mais de alguns simbolistas excêntricos; algumas de suas paisagens são francamente baudelaireanas, mas ao mesmo tempo nada nele soa a spleen ou a tédio decadentista, estando mais próximo da podridão estelar e dos movimentos recônditos de pólipos e moneras do que de uma afetação finissecular de uma consciência crítica parisiense; por fim, em seus melhores momentos, creio que Augusto dos Anjos se aproxime de uma das poucas definições convincentes que lhe servem: um poeta expressionista. Um dos poucos, talvez o único expressionista brasileiro. Um expressionista sui generis que, obviamente, não chega aos voos de um Gottfried Benn nem à genialidade de um Trakl. Mas que assim mostra o seu lugar absolutamente excêntrico e, por isso mesmo, dos mais enraizados no imaginário brasileiro, com suas idiossincrasias e equívocos, com seus desenvolvimentos regressivos, plenos de contradições que, em arte, são um sinal de mais, não de menos. Quanto ao princípio de negatividade, é um conceito que tenho desenvolvido e que noto na arte sobretudo a partir do século XVII, especialmente a partir do Dom Quixote, mas que retroage ao século XII e até um pouco antes. Ele tem relação com um esvaziamento dos núcleos provisórios de sentido da realidade. Não é um conceito de ordem mística, pois a kenosis da mística acaba por reafirmar a transcendência divina. Esse conceito diz respeito, sim, aos níveis de articulação entre a linguagem e o mundo. Acredito que esse princípio negativo esteja no cerne da poesia de Augusto dos Anjos, e sinto que, em razão dessa especificidade, seja muito difícil vinculá-lo à mística sem forçar demais o que tradicionalmente se entende por mística, como eu disse anteriormente. Dos Anjos identifica o movimento de nossa consciência à vida infracelular e à pulsação cósmica, feita de geração e corrupção, de devir e de decomposição; em alguns poemas, faz desse movimento uma espécie de apostasia do sentido não manifesto do mundo. Mas essa sua visão nunca nos conduz a uma transcendência da consciência em relação à linguagem, da linguagem em relação ao mundo e de Deus em relação à consciência, à linguagem e ao mundo, como se propõe no horizonte da mística. Para Dos Anjos, esse percurso se dá como intensividade e extensividade da matéria; ele, entretanto (e essa é uma das ironias de sua obra), o simula como ato divino, como se Deus estivesse presente no drama cósmico da criação e também no verme, no esterco, na podridão, no húmus e em cada um dos órgãos e secreções de nosso corpo, sem metáforas holísticas e sem totalizações simbólicas, tão ao gosto da nossa Nova Era. Para o Mestre Eckhart, o Universo é o movimento de editus e reditus, ou seja, a respiração de Deus; para Dos Anjos, é a sístole e a diástole do corpo de um Deus morto, de um Deus de tal modo humilhado pela matéria e subjugado pela degradação que o constitui, que sua potência praticamente consiste em confessar seu fracasso, sua glória e seu corpo glorioso se reduzem à sua mais confessa, suja e irredimível materialidade. Nesse sentido, Dos Anjos é profundamente cristão, pois ele realiza, em uma lógica ad absurdum, a descensão do Verbo no corpo até a sua consumação, de modo que sequer a carne ressuscita. Já o movimento da mística é praticamente oposto. A impotência é sempre e em primeiro lugar do sujeito que conhece, do intelecto arrogante em seus disfarces e miserável em sua clara e distinta estupidez. E quando a impotência é de Deus, o é para revelar um mais-além, que não é nunca material, mas sempre um abismar-se no Nada que é Deus e que é o que está além de Deus. O movimento místico quer ultrapassar o Deus concebido como substância, acessar o que se encontra além de toda a substância, inclusive das substâncias divinas. Daí sua especulação chegar aos limites do compreensível e também do existente, ao abismo sem forma e aos fundamentos sem fundos da alma, que é o Nada divino. Em Dos Anjos, essa viagem da alma estanca na plenificação absoluta da matéria e em sua imanência, além da qual não há absolutamente nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celuzlose – Este conceito também está presente em sua poética?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;R.P. − Creio que sim, mas talvez em um sentido mais amplo. Este livro mais recente, Venho de um país selvagem, por exemplo, é um livro que ronda uma atmosfera de conflito entre o positivo e o negativo, entre a floresta e o deserto, entre a afirmação da terra e o exílio. Há nele uma abertura para a transcendência, mas ela parece que nunca se completa, pois há também um conflito de base em todos os poemas. Isso foi intencional. Mais que isso: foi involuntário. Precisava ser assim. Na verdade, esse é um dos pontos que gostaria de superar em um próximo livro. Precisava dar nome à abjeção, tocar a ferida, incorporá-la, vivê-la. As imagens de capa e quarta capa, do Farnese de Andrade, foram meticulosamente escolhidas. Quis incorporar a figura da vítima sacrificial. Falar dela em primeira pessoa, para depois ressuscitar, ao fim da travessia. Talvez meu próximo livro comece pelo fim deste. Tenho sentido necessidade de chegar a uma síntese de vivências e da linguagem. Não tenho dúvida de que para haver o milagre da vida é preciso que nos defrontemos com o Mal, que o incorporemos, que o conheçamos, cada vez mais. A passagem pelo Inferno para chegar ao Paraíso não é meramente nominal ou um simples epos literário. Tampouco é uma tola superação, entendida e catalogada em nossas cabeças quadradas, sejam elas católicas, iluministas, marxistas ou positivistas. Essa passagem é necessária, essencial. A Queda não foi um erro, mas a primeira etapa da salvação. Os místicos, os avatares, os santos, todos eles só foram o que foram porque perceberam o Mal, a abjeção, a miséria, a falta de sentido, o absurdo. E souberam amar o Mal, para poder transfigurá-lo. Cristo era espiritualizado? Pois bem: traduziu sua espiritualidade em chagas e pústulas pelo seu corpo. Foi pregado numa estaca entre dois bandidos. E ao fim abandonado pelo Pai. Tudo isso também faz parte da mensagem de Cristo, e não pode nunca ser ignorado. Buda só se iluminou quando se deu conta do nojo de existir, da infâmia que é estar vivo, do asco que é o sem-sentido da vida. Não adianta querermos ficar apenas com o lado compassivo de sua mensagem, de seu amor infinito pelas criaturas sofredoras. Teremos apenas metade de Buda. É preciso passar pelo Nada para chegar ao ser. Esse caminho não é reversível nem tem atalhos. Creio que em tempos de religiões de bidê, de holismo, de Nova Era, de sínteses de não sei o quê com não sei o quê, de massagens coletivas, em que o sagrado está cada vez mais sendo reduzido a funções terapêuticas, essa mensagem terrível das grandes religiões deve estar cada vez mais viva. Isso não quer dizer que não se busque a luz. Se não houver integração, os conflitos se transformam em espelhamentos. Viram miragens intelectuais. Repetições infernais e obsessivas. Como se acreditássemos no mundo das representações, como se as máscaras fossem a realidade última. Assim nos afastamos do Espírito e chegamos à psicanálise. E aí tudo se perde. Embora Venho de um país selvagem sinalize a morte das representações, tente tocar a inocência e atingir uma suposta nudez, há nele um conflito de fundo entre desgraça e redenção. Ao passo que para o Espírito, não há cisão. Agora estou num trânsito, tentando achar as sínteses possíveis depois da experiência do Nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celuzlose – Nesse contexto, a poesia está mais relacionada com uma forma de revelação ou de loucura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RP – Há uma frase de que gosto, segundo a qual há apenas uma diferença entre o poeta e o louco. Ambos vão em direção ao abismo, mas o poeta desvia, enquanto o louco cai. Essa frase é um pouco descritiva demais; na vida, as coisas não são tão nítidas. Algumas vezes o poeta pode cair... Mas há uma distinção, sim, entre o delírio da criação e a autodestruição. Embora o poeta possa em momentos de fúria ou de possessão ser tomado por esta última. A loucura é uma das coisas de que mais tenho medo. Algumas vezes já me senti prestes a enlouquecer. Isso não chega assim de uma hora pra outra; a loucura vai se infiltrando, percebendo o ambiente, convive contigo, bebe do teu copo, come da tua comida. Quando mal percebemos, o pensamento está prestes a perder o prumo, e os valores, a verdade, a moral, o hábito, o medo, as convenções, enfim, tudo isso parece irremediavelmente ridículo. Por isso, muitas vezes temos a sensação perigosa de que a loucura é uma hiperlucidez. Bom, toda a literatura, de Orfeu a Sófocles e a Shakespeare, de Cervantes a Dostoiévski e a Kafka, não é nada mais do que uma variação gigantesca em torno desse tema, nada mais do que jogos e espelhamentos entre o avesso e o direito, vistos sob um olhar que vem de fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celuzlose – Você também atua como editor, professor, pesquisador e ensaísta. Como essas atividades se relacionam entre si e como elas interferem (ou não) na sua criação poética?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;R.P. – Sinto que são todas atividades complementares. Tenho gostado cada vez mais dos trabalhos de edição. Eles nos colocam em contato com a feitura material do livro, que é muito bonita. Há uma série de detalhes um pouco chatos, mas que também lançam outra luz sobre o livro, e pode-se dizer mesmo sobre o texto, entendidos como fenômeno cultural. Isso também me interessa. A pesquisa e as aulas também são algo que me alimentam muito. Tenho gostado de trabalhar com cursos livres, pois assim tenho a possibilidade de criá-los, sobre temas e autores que gosto, e para os quais haja um público interessado. Desse modo consigo me realizar de diversas formas, seja do ponto de vista intelectual, por estar em contato com esses temas e autores, seja ao sentir que assim faço circular as ideias nas quais acredito. O ensaio é o complemento literário do estudo e da pesquisa. Toda aula é um ensaio, até certo ponto. Às vezes tenho um ímpeto reflexivo que pode, num certo sentido, contaminar a poesia. Preciso estar atento a isso. Mas ao mesmo tempo gosto muito do ensaio e da reflexão filosófica, entendidos como literatura. Ultimamente estou um pouco afastado da poesia, sinto que com a publicação de Venho de um país selvagem preciso ficar um pouco quieto. Ando em silêncio, não estou escrevendo. Percebo que estou maturando uma nova fase, uma nova escrita, que minha percepção da poesia tem mudado. E creio que seja melhor ficar recolhido por um tempo. Também, um dos motivos desse silêncio é que estou estudando e recolhendo material para escrever um trabalho ensaístico de mais fôlego. Além do que, tenho pesquisado e estudado alguns assuntos para criar novos cursos. O que me enriquece como leitor, e isso é o fundamental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celuzlose – Esse trabalho ensaístico de mais fôlego ao qual você se refere é uma continuidade do livro Transversal do Tempo, ou você vai por outros caminhos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RP – Não. Vou por outros caminhos. O Transversal do Tempo é um livro mais monográfico e mais centrado na literatura. Um livro pouco autoral, de um sujeito de vinte e poucos anos. Cada capítulo é sobre um escritor, e eles acabam dialogando superficialmente entre si a partir de um pano de fundo que une todos eles. Mas essa unidade não chega a ser explicitada. Estou com um novo livro de ensaios inéditos no qual tento abrir mais o esquadro, e propor uma visão mais temática, na qual a unidade existente entre as obras se sobressaia, se destaque da leitura focada de cada uma delas. Algo mais aberto, mais temático, mais amplo. Primeiro pensei em criar uma linha que amarrasse todos esses ensaios já escritos, um horizonte comum no qual eles se inscrevam; creio que farei isso. Mas esse trabalho ensaístico que estou preparando é mais ambicioso e talvez consiga reunir nele todas as minhas leituras e interesses desenvolvidos até agora. Gostaria de escrever uma história da alma. Que no fundo seria uma história da imortalidade. Tenho me convencido de que a invenção da imortalidade foi uma das maiores, talvez a maior revolução operada pela humanidade. Maior que a invenção do fogo, da roda ou do alfabeto. Muito maior do que a da filosofia. Excepcionalmente maior do que a da imprensa. Até mesmo o nascimento da consciência é subsidiário ao nascimento da imortalidade, porque a alma é muito mais abrangente do que consciência. Sinto que nos desenvolvemos em um movimento centrípeto, em espiral, sempre em virtude da proximidade e do afastamento desse eixo. Alguns filósofos atuais têm tentado sínteses interessantes, mas partindo de outros núcleos de sentido. Peter Sloterdijk propõe algo semelhante em Esferas, obra monumental, em três tomos, que traça o percurso imaginário, filosófico, político e artístico da esfera na história da representação. No caso, me interessa rastrear quando a concepção de imortalidade nasce, as principais mudanças em seu sentido e, sobretudo, quando ela começa a declinar, até chegar à sua quase completa extinção nos dias de hoje. E as implicações disso. Trata-se de uma crença, compartilhada por todos os homens, não de um conceito filosófico ou de um assunto universitário. Sendo assim, é o tipo de núcleo que gera outros núcleos periféricos, que produz práticas e valores, orienta formas de vida e de organização da sociedade, da sexualidade, do imaginário. Intuo que a mutação nessa crença produziu uma alteração antropológica das mais significativas. É um trabalho muito difícil, cheio de ciladas e abismos, que vai levar alguns anos. É preciso um diálogo entre filosofia, antropologia, história, teoria da literatura, história das religiões, até arqueologia. Como o assunto é muito grande, se conseguir dar uma pequena contribuição para ele já me darei por satisfeito. Isso é o que mais tem me motivado ultimamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celuzlose – Em relação a sua atividade de editor, fale um pouco sobre as Edições Rumi. Qual é a proposta editorial?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RP – Por enquanto a Edições Rumi ainda é uma empresa que tenho e com a qual presto serviços a outras editoras. Publiquei há pouco uma antologia de poemas da Maiara Gouveia, Pleno Deserto, em uma edição simples e de tiragem pequena, que me deu muita alegria fazer. Além de ótima poeta, ela é minha mulher, o que dá uma dupla realização. Projetos editoriais não faltam. Gostaria de publicar principalmente poesia e ensaio. Mas por ora não tenho estrutura pra isso. Quem sabe em breve? Vamos ver como as coisas andam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celuzlose – Atualmente a Biblioteca Brasiliana do José Mindlin está passando por um processo de digitalização que é realizado na USP e algumas obras já estão disponíveis na Internet (http://www.brasiliana.usp.br). Da mesma forma, outras iniciativas semelhantes são realizadas ao redor do mundo. Como você vê essa transferência do conteúdo impresso para o meio digital?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RP – Vejo com otimismo e com muitos bons olhos. Faz pouco tempo houve a polêmica envolvendo o projeto da Google, de disponibilizar material digitalizado das bibliotecas e de centralizar as compras de livros pela internet. O ponto delicado está em definir a diferença entre ter acesso a um livro físico em uma biblioteca pública e baixá-lo de um site. São espaços públicos distintos e maneiras distintas de apropriação de um material, concordo. Mas quase sempre esses pruridos morais relativos à propriedade intelectual e às patentes estão mais ligados aos interesses das corporações do que aos produtores e ao valor cultural objetivo das obras. Também se desconsidera a possibilidade bastante realista de convivência pacífica das obras em dois suportes diferentes. Imagino que apenas um masoquista leria Proust na tela do computador ou imprimiria a Busca do tempo perdido em sua HP. Essas mídias vão forçosamente mudar. Seu valor, seu sentido, sua acessibilidade. Mas não haverá superação de uma pela outra. Por isso, se disponibilizarem todas as obras do planeta na internet, eu apoiarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celuzlose – Você esteve recentemente no México e participou de alguns encontros literários. Como foi esse intercâmbio? &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;RP – Foi uma das melhores viagens que já fiz, um intercâmbio muito rico. Fiz leituras em Puebla, uma pequena cidade próxima da Cidade do México, na qual há a Casa do Escritor, um espaço público que recebe escritores de vários lugares do mundo. Fui para Mérida, uma das cidades mais antigas da América, ao sul, na Península de Yucatán, que é uma zona maia, e ali fiz alguns dias de oficinas e leituras. Depois voltei ao DF e participei de um bate-papo e leitura na Unam (Universidade Nacional Autônoma do México). Por fim dei um breve curso sobre Guimarães Rosa na Fundación para las Letras Mexicanas, antiga Fundação Octavio Paz. Além de ter conhecido o país, a cultura mexicana e os mexicanos, um povo que adorei, e de ter conversado muito e conhecido um pouco mais da sua literatura, voltei com uma série de ideias e projetos concretos de estreitamento de relações entre os dois países. A poesia mexicana é acintosamente desconhecida no Brasil. E vice-versa. Isso decorre da posição insular que o Brasil assume frente aos demais países hispânicos, que nos faz mais próximos dos EUA e de outros países europeus do que dos nossos vizinhos e da Península Ibérica. Curiosamente, o mesmo descaso se passa com relação à poesia portuguesa, que é de nossa mesma matriz cultural e da mesma língua, além de ser uma das melhores poesias do mundo. E, no entanto, a ignoramos ostensivamente. Nunca saímos de Fernando Pessoa. A cultura popular brasileira tem traços medievais, com expressões, símbolos e vocabulário que vêm do século X e foram se transformando e se sedimentando com o tempo. Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, João Cabral e Ariano Suassuna perceberam isso muito bem. É uma linha evolutiva, uma das mais fortes e longas tradições culturais europeias que ainda se preservam sem se romper. Mas os meios intelectuais brasileiros são muito afrancesados. Isso parece ter removido do horizonte essa nossa herança ibérica, que é riquíssima. E demonstra que a Missão Francesa de fato foi vitoriosa. Com relação ao México, chegamos em Octavio Paz e paramos. Sendo que eles têm uma poesia de muita qualidade, tanto nas gerações anteriores a Paz, como a do grupo Contemporâneos (Xavier Villaurrutia, Carlos Pellicer, Jorge Cuesta, José Gorostiza), quanto nas gerações um pouco posteriores, com nomes como Eduardo Lizalde e Eduardo Langagne, entre outros. E isso não só no que diz respeito ao México. Enquanto esse isolamento brasileiro perseverar, nossa poesia se empobrecerá, pois se manterá alheia às experiências artísticas mais interessantes que há em países cuja expressão cultual, linguística e política é muito semelhante à nossa. E tampouco saberá o que fazer com a herança ibérica, que é o coração de tudo o que chamamos de Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leia:&lt;br /&gt;http://issuu.com/celuzlose/docs/celuzlose_03 &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-7575272550563456261?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7575272550563456261'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7575272550563456261'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/12/nas-trilhas-de-um-pais-selvagem.html' title='NAS TRILHAS DE UM PAÍS SELVAGEM'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SxT7F4ZkySI/AAAAAAAAAFc/m5bk3NgLV-0/s72-c/100_1569.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-7418741794227027659</id><published>2009-11-30T09:42:00.000-08:00</published><updated>2009-11-30T09:46:02.127-08:00</updated><title type='text'>A EXUBERÊNCIA E O REQUINTE</title><content type='html'>2º post deste link http://maiaragouveia.blogspot.com/search/label/Dirceu%20Villa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-4b2edcfb4e87825f" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v9.nonxt4.googlevideo.com/videoplayback?id%3D4b2edcfb4e87825f%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331393352%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D7A403255A6633A39D54FD590F5E8C91A01D66FB0.7469486A6EA502461BA96356B9425F9E80F859F4%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D4b2edcfb4e87825f%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DYbkv0X2wvvikdofBs9TPDRY371A&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v9.nonxt4.googlevideo.com/videoplayback?id%3D4b2edcfb4e87825f%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331393352%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D7A403255A6633A39D54FD590F5E8C91A01D66FB0.7469486A6EA502461BA96356B9425F9E80F859F4%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D4b2edcfb4e87825f%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DYbkv0X2wvvikdofBs9TPDRY371A&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:white;"&gt;cantiga 353 - Afonso X&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Publicado em 2006, no suplemento cultural do Jornal da Paraíba,&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt; O Augusto&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;, editado na ocasião por Astier Basílio, o seguinte artigo aborda alguns elementos da poética de &lt;strong&gt;Rodrigo Petronio&lt;/strong&gt; e &lt;strong&gt;Dirceu Villa&lt;/strong&gt;, respectivamente. Procurei frisar aquilo que considero mais patente no trabalho de ambos. Ressaltei o fato de serem dois poetas jovens, produzindo literatura consistente, com linguagens muito distintas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;color:#ffcccc;"&gt;A Exuberância &amp;amp; o Requinte&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ffcccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_xe-z8Ips3xY/SFgLx6dTd9I/AAAAAAAAAbs/jruudn_OJa8/s1600-h/rodrigo2.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xe-z8Ips3xY/SFgSZ7W8V6I/AAAAAAAAAc8/VcgR8Pejdo0/s1600-h/rodrigo.jpg"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5212936805321299874" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_xe-z8Ips3xY/SFgSZ7W8V6I/AAAAAAAAAc8/VcgR8Pejdo0/s320/rodrigo.jpg" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;RODRIGO PETRONIO.&lt;/strong&gt; O exílio na carne e a luz que vem do chão. Os signos da natureza e o exterior em sua vastidão inconsciente. Rodrigo Petronio nos coloca diante do movimento que constantemente nos une e nos separa; da mudança incessante que não nos permite crer em nenhuma permanência, pois está imerso nos sentidos e estes só oferecem fluxo, reviravolta, enigma. A natureza não procura resposta alguma, a natureza é cega e sua força aniquila tudo o que inventa e recupera tudo o que aniquila. Através de imagens singulares e da exuberância da escrita, o poeta reflete essa premissa em variedade de formas que se deformam, se transformam e se mesclam umas às outras na vertigem causada por um mundo cujo cerne é a ausência de sentido.&lt;br /&gt;A fusão entre o próprio corpo e a pulsão do tempo nos coloca, reiteradamente, diante do abismo. &lt;em&gt;Mergulho em um corpo sem verbo&lt;/em&gt;, diz no poema de abertura do livro &lt;em&gt;Pedra de Luz&lt;/em&gt; (Girafa, 2005), “No sentido da terra”. E mais adiante: &lt;em&gt;Não projeto um mundo fora do mundo/ Apenas rumo para o deus viscoso. Ao vazio da lua sou enfim entregue&lt;/em&gt;. A aderência ao interior, ao vórtice profundo do corpo. A aderência à carne e sua realidade opaca leva à convulsão dos sentidos, ponto de contato com a voragem da existência. O corpo é a fronteira entre o ser e o mundo, fronteira e aparato vivo com o qual absorvemos, sentimos, tocamos o que nos rodeia. Ao mesmo tempo distanciamento e aproximação do outro, o que nos define, e, por nos definir, nos espolia da totalidade. E se a fronteira se dissolve, por um instante, naquele ponto em que a presença da morte nos sopra aos ouvidos o segredo da comunhão entre os seres, mais clara se torna a precariedade e o valor desse reino. O corpo: tudo o que temos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_xe-z8Ips3xY/SFgL4cumx8I/AAAAAAAAAb0/Auf9AyonG6w/s1600-h/dirceuvilla1.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_xe-z8Ips3xY/SFgSKA39coI/AAAAAAAAAc0/SW6RL33drT4/s1600-h/dirceuvilla_descort.jpg"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5212936531924054658" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" height="218" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_xe-z8Ips3xY/SFgSKA39coI/AAAAAAAAAc0/SW6RL33drT4/s320/dirceuvilla_descort.jpg" width="287" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;DIRCEU VILLA.&lt;/strong&gt; A ironia: sim, ela surge no trabalho do poeta sobre o qual discorremos nessas poucas linhas. Mas nosso comentário não ficará em torno desse artifício utilizado tão bem pelo autor de poemas como “Ninho de Vespas”, em &lt;em&gt;Descort&lt;/em&gt; (Hedra, 2000) e “angst brasileira I” do livro curiosamente inédito &lt;em&gt;Icterofagia&lt;/em&gt;, no qual lemos: &lt;em&gt;Ceci tinha só/ o sêmen de orvalho/ que passava em Peri/ por caralho&lt;/em&gt;, entre outros versos não menos desconcertantes. Na verdade, iniciamos desse modo para chegarmos ao seguinte: “a ironia recobre a ferida”, como diz Octavio Paz em &lt;em&gt;Sade - Um mais além Erótico&lt;/em&gt; (Mandarim, 1999), e a ferida é estar num mundo em que as sutilezas, tão caras à linguagem poética, são raridade tanto nos homens quanto nesses livros que andam pelas estantes das livrarias: a tinta, fresca. E é disso que eu quero falar, embora sem poder me deter muito à análise, por enquanto.&lt;br /&gt;Bem, Dirceu Villa nos brinda muitas vezes com poemas delicados, por exemplo, “Cosméticos para o corpo”, que inicia do seguinte modo: &lt;em&gt;que perfume prefiro/esta noite?/resina, madeira/o dulçor de um floral&lt;/em&gt;. Em “Lyra aragonesa: refram de abril”, temos uma bela canção de amor, e vai buscá-la na fonte, quero dizer, na fonte do amor como o conhecemos (e apenas essa afirmação é assunto para um ensaio), mas enfim, acreditem: nas formas provençais estão as bases do amor &lt;em&gt;modus hodierno&lt;/em&gt;, e ele (o poeta) nos canta daquele que&lt;em&gt; não pode/ mal fazer/nenhum&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Fruição da beleza oferecida a quem está disposto a entregar-se.&lt;br /&gt;Maiara Gouveia, 2006.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.germinaliteratura.com.br/dirceu_villa_agosto06.htm"&gt;poemas de Dirceu Villa&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.germinaliteratura.com.br/rpetronio.htm"&gt;poemas de Rodrigo Petronio&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-7418741794227027659?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7418741794227027659'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7418741794227027659'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/exuberencia-e-o-requinte.html' title='A EXUBERÊNCIA E O REQUINTE'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_xe-z8Ips3xY/SFgSZ7W8V6I/AAAAAAAAAc8/VcgR8Pejdo0/s72-c/rodrigo.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-5092647977618211633</id><published>2009-11-29T17:54:00.001-08:00</published><updated>2009-11-29T18:23:13.622-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Sobre Rodrigo Petronio'/><title type='text'>A EXUBERÂNCIA &amp; O REQUINTE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Maiara Gouveia&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ambos nascidos em 1975, Dirceu Villa e Rodrigo Petronio são dois poetas jovens, com poéticas distintas, produzindo literatura consistente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RODRIGO PETRONIO. O exílio na carne e a luz que vem do chão. Os signos da natureza e o exterior em sua vastidão inconsciente. Rodrigo Petronio nos coloca diante do movimento que constantemente nos une e nos separa; da mudança incessante que não nos permite crer em nenhuma permanência, pois está imerso nos sentidos e estes só oferecem fluxo, reviravolta, enigma. A natureza não procura resposta alguma, a natureza é cega e sua força aniquila tudo o que inventa e recupera tudo o que aniquila. Através de imagens singulares e da exuberância da escrita, o poeta reflete essa premissa em variedade de formas que se deformam, se transformam e se mesclam umas às outras na vertigem causada por um mundo cujo cerne é a ausência de sentido.&lt;br /&gt;A fusão entre o próprio corpo e a pulsão do tempo nos coloca, reiteradamente, diante do abismo. No mergulho em um corpo sem verbo, diz no poema de abertura do livro Pedra de Luz (Girafa, 2005), "No sentido da terra". E mais adiante: Não projeto um mundo fora do mundo/ Apenas rumo para o deus viscoso. Ao vazio da lua sou enfim entregue . A aderência ao interior, ao vórtice profundo do corpo. A aderência à carne e sua realidade opaca leva à convulsão dos sentidos, ponto de contato com a voragem da existência. O corpo é a fronteira entre o ser e o mundo, fronteira e aparato vivo com o qual absorvemos, sentimos, tocamos o que nos rodeia. Ao mesmo tempo distanciamento e aproximação do outro, o que nos define, e, por nos definir, nos espolia da totalidade. E se a fronteira se dissolve, por um instante, naquele ponto em que a presença da morte nos sopra aos ouvidos o segredo da comunhão entre os seres, mais clara se torna a precariedade e o valor desse reino. O corpo: tudo o que temos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIRCEU VILLA. A ironia é uma mordida na testa, mas um bom autor faz desse recurso uma forma de marcar a testa do outro, e certamente arderá (onde houver substância). Sim, ela surge no trabalho do poeta sobre o qual discorreremos nessas poucas linhas. Mas nosso comentário não ficará em torno desse artifício utilizado tão bem pelo autor de poemas como "Ninho de Vespas", em Descort (Hedra, 2003) e "angst brasileira I-" do livro curiosamente inédito Icterofagia, no qual lemos: Ceci tinha só/ o sêmen de orvalho/ que passava em Peri/ por caralho, entre outros versos não menos desconcertantes. Na verdade, iniciamos desse modo para chegarmos ao seguinte: "a ironia recobre a ferida", como diz Octavio Paz em Sade - Um mais além Erótico (Mandarim, 1999), e a ferida é estar num mundo em que as sutilezas, tão caras à linguagem poética, são raras tanto nos homens quanto na literatura. E é disso que eu quero falar, embora sem poder me deter muito à análise por ora. Bem, Dirceu Villa também nos brinda com poemas delicados, por exemplo, "Cosméticos para o corpo", que inicia do seguinte modo: que perfume prefiro/esta noite?/resina, madeira/o dulçor de um floral. Em "Lyra aragonesa: refram de abril", temos uma bela canção de amor, e vai buscá-lo na fonte, quero dizer, na fonte do amor como o conhecemos (e apenas essa afirmação é assunto para um ensaio), mas enfim, acreditem: nas formas provençais estão as bases do amor moderno, e ele (o poeta) nos canta daquele que não pode/ mal fazer/nenhum. A fruição da beleza oferecida a quem, por ela, está disposto a entregar-se. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-5092647977618211633?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/5092647977618211633'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/5092647977618211633'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/exuberancia-o-requinte.html' title='A EXUBERÂNCIA &amp; O REQUINTE'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-469515323280194504</id><published>2009-11-29T17:43:00.000-08:00</published><updated>2009-11-29T17:44:08.670-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica'/><title type='text'>A MORTE DE UM CONTINENTE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Se a transfiguração da história em forma artística, no sentido mais profundo deste termo, é um dos imperativos de toda grande obra, isso raramente se deve aos argumentos fornecidos pela crítica, que procura em vão demonstrar a pertinência de uma obra por meio de suas implicações sociológicas ou formais, ou seja, seus hipotéticos compromissos, seja com o que for. A grande arte é irresponsável. E só assim pode angariar o posto que lhe cabe, não como corolário de experiências formais nem como antídoto ou sintoma de nossas mazelas, mas sim como salto livre no abismo. Devemos a seu suicídio a nossa salvação.&lt;br /&gt;Nesses termos, é legítimo ver no romance Zama (Editora Globo, 2006) do argentino Antonio di Benedetto, publicado originalmente em 1956, um dos marcos importantes da moderna ficção hispano-americana. E isso porque ele questiona essas premissas justamente a partir de sua própria estrutura. Sendo um romance ambientado no século XVIII, guarda pouco ou quase nada do modelo convencional dos romances históricos. Nele a perspectiva léxica, embora rica, é secundária, e se fôssemos pensar em sua paternidade estilística, teríamos que concordar com o que diz Juan José Saer no prefácio: ela se liga mais à prosa do Siglo de Oro do que aos padrões setecentistas. Mesmo o dado histórico imediato não ressoa nele como seria de se esperar. E esse assessor letrado do governador do Paraguai chamado dom Diego de Zama, à espera de retornar para uma cidade mais importante do continente, está mais próximo do emblema do destino e da decadência de um homem do que do modelo exemplar de uma época, seja ele tópico ou típico.&lt;br /&gt;Também em termos políticos o lugar de Zama é híbrido e de difícil localização. Não há heroísmo ou anti-heroísmo em suas linhas. Muito menos acidentes pícaros ou aventuras para além do real, sejam elas maravilhosas ou fantásticas, embora ao longo do seu andamento a fronteira entre delírio e realidade tenda a se atenuar gravemente. Porém, diferente da tradição do realismo mágico, o ar que se respira aqui é opressivo, mais próximo de um enquadramento de tipo existencial, cuja ação está eternamente em vias de se realizar. Nesse ambiente, nem mesmo o amor pode superar a zona de interdição que nos cerca, pois a paixão que impulsiona dom Diego a Luciana ou sua dívida abstrata para com a sua esposa só servem para fortalecer o caráter inconcluso, dir-se-ia inviável, da existência. Em meio a esse andamento sonâmbulo, irrompem aqui e ali pequenas alegorias e metáforas. São elas que conferem ao real o teor discrepante que lhe caracteriza além da mera constatação e moldam a especificidade da situação americana, em contraste com a Europa, contraste simultaneamente velado e desvelado pelo romance.&lt;br /&gt;É assim que a sua abertura forte, com a cena de um macaco morto boiando no ir-e-vir das águas de um píer, já nos lança em seu horizonte imaginário. Seria essa a chave de nossa condição e mesmo da condição humana? São muitas as alegoreses que se seguem como pontos luminosos na trama da narrativa: a mulher que foi ceifada (morta) pelo homem que sonhou seu corpo como se ele fosse a asa de um morcego, as aranhas que aparecem em momentos os mais imprevistos, a reflexão ociosa sobre o deus criador que Zama realiza ao lado de sua nova esposa, as duas mulheres enigmáticas da sua nova hospedagem, essa insólita expedição de guerra em busca desse igualmente insólito Vicuña Porto, em um clima de delírio e de entorpecimento coletivo, e o seu desfecho: a reaparição fantasmal do menino loiro, que pontua diversos momentos do livro.&lt;br /&gt;Em vão o leitor procurará semelhanças entre Zama e outras obras hispano-americanas. Não há nele o transbordamento admirável do senhor barroco Lezama Lima, tampouco a frieza cínica dos contos de Virgilio Piñera. Não estamos nos meandros intelectuais de Borges, nos labirintos frondosos de Cabrera Infante ou no campo efabulador de García Márquez. E, se não há espaço aqui para o engajamento político explícito, tampouco há para o culto à forma romanesca, ecoando nouveau roman. Talvez sua remissão mais direta seja, ao contrário, mais longínqua, e lance raízes em dois precursores de toda a tradição americana: Horacio Quiroga e Juan Rulfo.&lt;br /&gt;Dividido em três partes, Zama compõe um diagrama de três datas: 1790, 1794 e 1799. Nada mais vazio e, no entanto, mais esclarecedor. Pois sua radicação histórica, ao transcender o espírito de época, devolve a história do continente ao presente. E se a América Latina é mesmo uma ficção, como queria Borges, a recusa ao fechamento ideológico que reverbera em Zama diz-nos algo mais profundo do que mera renúncia ou pessimismo. Dedicada às vítimas da espera, por esse mesmo motivo a obra de Di Benedetto pode ser lida em todos os seus níveis possíveis, sejam eles políticos, históricos ou existenciais. E assim, mais do que compor a sinfonia patética de nossas ilusões, faz sim é agravar o sentido vivo e pulsante de nosso desespero.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-469515323280194504?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/469515323280194504'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/469515323280194504'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/morte-de-um-continente.html' title='A MORTE DE UM CONTINENTE'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-4679451950643722689</id><published>2009-11-29T17:36:00.000-08:00</published><updated>2009-11-29T17:37:25.868-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica'/><title type='text'>VAZIO PLENO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Ímpar, de Renato Rezende. Editora Lamparina. 96 págs. 29,00&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos são os caminhos que unem poesia e mística, todos eles difíceis. Pois neles não se exige do poeta apenas uma posição diante da linguagem, mas sim uma experiência da linguagem como sendo a vida do mundo. Em um pólo de claridade esse itinerário pode se dar como rarefação: a palavra se desprende de sua possibilidade de dizer as coisas, e seguimos o caminho de uma teologia negativa. Adentramos uma dimensão apofática da linguagem, cuja estrutura está sempre aquém dos seres e da possibilidade de nomeá-los.&lt;br /&gt;Pelo oposto dessa concepção chegamos a algo semelhante. O mergulho no corpo, na matéria, na sua mais silenciosa viscosidade também pode ser uma redenção da consciência. Seu aniquilamento consentido e até planejado é nossa oferenda ao ser que a aniquila, e só aniquilando-a nos enraizamos no corpo para transcendê-lo rumo a uma síntese inaudita. Habitamos o intervalo: não somos um puro espírito, mas a aderência do pensamento ao mundo nos retira de toda contingência. É a experiência interior de que fala Bataille: tanto mais pertos do divino, quanto mais mergulhados no animal que há em nós.&lt;br /&gt;Novo livro do poeta, tradutor e pintor Renato Rezende, Ímpar aspira ser o ponto de contato desses dois elos entre mística e poesia. Conduz-nos pelas vias conflituosas desse itinerário, no que ele tem de mais legítimo, ou seja, em seu confronto com o mysterium tremendum e com o absurdo da existência. Portanto, travessia que passa pelo niilismo, que dialoga com o jogo ambivalente de violência e esplendor do sagrado, não coroação pacífica de nossa insuficiência enfim domesticada.&lt;br /&gt;Não por acaso, o livro se abre com o poema Espelho, propondo-nos uma despedida de nós mesmos, e se fecha com Encontro e com o epílogo que congrega toda a criação em um ponto azul habitado pelo amor. Em Passeio, seu livro anterior, a ligação entre poesia e travessia já tinha sido sugerida. Como um misto de flâneur e anjo caído, o poeta atravessa os espaços do Rio de Janeiro recolhendo a paisagem com seus olhos recém-saídos da Queda. Temos a viagem como metáfora e também como via, e a diluição do eu na paisagem se dá pelo contato com uma realidade que nos é familiarmente estranha. Vide os belos poemas Paraíso Perdido, Sono, O Balde e Asas.&lt;br /&gt;Essa perspectiva da viagem reaparece em Ímpar, mas sutilizada pelo componente iniciático. Como vis mystica, ela de saída já abandona qualquer exterioridade. Percurso plenamente interno, a kenosis, o esvaziamento do eu, é a mola propulsora de toda a sua poética. Porém, esse processo não nasce de uma ascensão do espírito, mas sim de sua ruína, de sua descida até o mais obscuro.&lt;br /&gt;Falência, surdez, mutismo, fratura, cegueira, sujeira, miséria, como lemos em poemas como Ruínas, Desconstrução da Amada, Dejetos, Corpo, Combustão. Esses componentes que em qualquer outro contexto seriam negativos aqui são a pólvora com que se acende a plenitude do ser. São eles que desagregam a vida do eu para que fale nele a alteridade radical, por isso a menção a Rimbaud em Corte. São eles que arruínam a matéria para que a luz possa vazar por seus poros. Há alguns poucos poemas cuja eficácia formal fica aquém da capacidade de sugerir ao leitor essa pulverização do ser, como Oco, Júbilo e Serviço de utilidade pública. Coisa menor, diante da ambição consumada da maior parte deles, que não é só de ordem estética, mas filosófica, existencial e dir-se-ia religiosa.&lt;br /&gt;Je est un autre: o eu é um outro. Falam nele inúmeras vozes quando ele se extingue. E é basicamente de sua extinção que vive a poesia. Por isso, o livro de Rezende não raro toca ou mesmo vai fundo na abjeção, na negatividade, na escatologia, como os poemas da seção O Mundo Iluminado. Mas aqui também a guinada mística: é preciso passar pelo nada para chegar ao ser, é preciso tocar o ponto mais fundo do corpo para que o mundo se ilumine. &lt;br /&gt;Aparente paradoxo, ele se resolve com a união de vida e morte em um constante pulsar de êxtase. Cada ser é singular, cada ser é ímpar, porque nada retém o devir e, no interior do nosso coração, não somos nem homem, nem mulher, nem planta, nem cachorro, nem anjo, nem demônio. Essas são abstrações de nossa matéria-prima, por meio das quais os homens confiscam seu esplendor em nome da civilização ou de qualquer outro conceito miserável.&lt;br /&gt;Nós, pelo contrário, habitamos o espaço do meta-humano, morada da poesia e dos deuses. O ponto azul do amor que congrega todos os seres depois de sua última agonia, e mostra-nos assim a participação da vida cósmica. É preciso ser Deus para morrer, diria Bataille. Como homens, somos condenados a ser eternos. Não é a alma. Mas sim a matéria é que é indestrutível. E com ela toda a vida. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-4679451950643722689?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/4679451950643722689'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/4679451950643722689'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/vazio-pleno.html' title='VAZIO PLENO'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-5845543310956139285</id><published>2009-11-29T17:29:00.000-08:00</published><updated>2009-11-29T17:30:51.474-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica'/><title type='text'>SOB O CÉU QUE PASSA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A poesia de Emily Dickinson&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alguns Poemas, de Emily Dickinson. Tradução de José Lira. Prefácio de Paulo Henriques Britto. Editora Iluminuras. 319 págs. 44,00.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Na pequena cidade de Amherst, no Massachusetts, ao revirar o quarto de sua irmã após o seu falecimento, em 15 de maio de 1886, Lavinia não supunha a surpresa que lhe esperava. Em um baú, depara-se com pilhas e pilhas de papéis escritos à mão, dispostos em forma de livros, os famosos fascicles, que computavam ao todo cerca de 1800 poemas.&lt;br /&gt;Mais do que uma questão de cânone ou de marginalização artística, esse anonimato quase absoluto daquela que viria a ser considerada uma das mais importantes poetas da língua inglesa nos revela que estamos diante de algo que toca o coração mesmo da poesia.&lt;br /&gt;Pois se o poeta é aquele que abre uma clareira na noite do mundo, como queria Heidegger, cabe a ele sustentar a poesia como sacerdócio, não como uma ocupação utilitária. Só assim é possível, contra o mundo e em benefício da poesia, descobrir um horizonte habitável. Só assim o seu poder de desvelamento será proporcional à sua capacidade de se eclipsar enquanto indivíduo.&lt;br /&gt;Se os deuses se foram e só nos resta esse ninho à sua sombra para sustentarmos leveza e abismo, é no adeus a toda vaidade terrena que o poema se faz mais necessário e violento. Nesse sentido, independente do valor maior ou menor de cada poema, poucos poetas foram tão dignos desse nome e deram tanta dignidade ao ofício da poesia quanto Emily Dickinson. A publicação de “Alguns Poemas”, belo trabalho de tradução, seleção e introdução de José Lira, precedido de prefácio do poeta e tradutor Paulo Henriques Britto, é uma ótima porta de entrada no seu imaginário.&lt;br /&gt;O livro traz uma seleção de 245 poemas e, sendo a mais extensa publicação da poeta no Brasil, oferece um painel bastante significativo dessa tapeçaria feita de silêncio, música e delicadeza. Além disso, é um oportuno exercício de tradução de poesia, à medida que Lira, não contente em adotar abordagens mais literais ou mais criativas, lançou mão de três modalidades possíveis: as recriações, constantes da primeira parte, A Áurea Presença, e as imitações e invenções, dispostas na segunda e terceira partes do livro, intituladas, respectivamente, Uma Arma Carregada e O Outro Céu.&lt;br /&gt;Escasseiam informações sobre a vida da poeta, e diz-se que ela nos deixou apenas uma foto. Independente de especulações biográficas sobre possíveis frustrações amorosas que teriam contribuído para a sua reclusão, que acabam subscrevendo a obra ao mito, é importante notar na própria fatura de sua poesia um movimento contrativo simbólico. Seu eixo é o espelhamento de céu e alcova. Às vezes, Cova, quando toca o tema da existência e da morte.&lt;br /&gt;Não se trata de uma poesia erótica, como quis Camille Paglia, mas de poemas cujo signo maior é a finitude da carne e a redenção diáfana oferecida pelo céu, única testemunha de toda nossa vida e, portanto, ápice da criação artística para Dickinson. Por isso, embora em seus versos célebres ela diga “fugir do céu” e “buscar o inferno”, só o afirma como movimento descendente do espírito, tantas vezes tematizado em diversos poemas, não como aspiração última do ser.&lt;br /&gt;No fundo, temos aqui um dos mais bem acabados modelos de poesia alegórica. E que bebe na alegoria a sua chaga e o seu paraíso, pois é por meio dela que Dickinson descreve os finos movimentos de sua consciência e de seu contato o Outro, flagrado em gestos cotidianos. Casa, Porta, Prazer, Alegria, Desgraça, Amigo, Morte, Mundo, Vida, Graça, Pão Celeste, Dupla Perda, Sol, Coração, Primavera: não estamos diante de uma enumeração mecânica que evita captar a vida pulsante do mundo, mas no cerne teatral de uma poesia que quer fazer de sua radicação terrena o palco para o desfile da Eternidade, em todas as suas máscaras mais efêmeras.&lt;br /&gt;Tal ambição não lhe conferiu obscuridade. Deu-lhe, pelo contrário, o quê de etéreo de todo gesto inconcluso. E se a poesia de Dickinson pode muitas vezes soar monocórdica, ela o faz à custa de sua própria renúncia e em prol de sua obsessão de não ser deste mundo e não ser de seu tempo. Assim, não obseda o leitor com a repetição diversificada de uma modernidade veloz e em tudo entediante. Segue os ritmos da alma, não os desígnios caducos de uma cidade sempre em construção e sempre em ruínas.&lt;br /&gt;Tivemos a revanche da exceção nas obras dos grandes obscuros em vida, de Sade e Pessoa a Kafka e Kaváfis. Emily Dickinson, que ficou conhecida como a Grande Reclusa, também exerceu sua vocação para a sombra. Ela é que a reconduziu à poesia em seu estado puro, dir-se-ia à sua nascente, a quilômetros de distância do burburinho pedante, pantanoso e desprezível dos literati. A atmosfera de sonho que se respira em sua poesia deve muito à sua condição, o que significa que fez bem em renegar a glória. Afinal, para quem escreve da e para a eternidade, os leitores e a vaidade são apenas um mero acidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-5845543310956139285?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/5845543310956139285'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/5845543310956139285'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/sob-o-ceu-que-passa.html' title='SOB O CÉU QUE PASSA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-5633984630659092047</id><published>2009-11-29T17:26:00.000-08:00</published><updated>2009-11-29T17:27:43.607-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica'/><title type='text'>NO DORSO CLARO DO TEMPO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Coleção de Poesia Canto do Bem-Te-Vi&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Ao Léu, de André Luiz Pinto. Prefácio de Antonio Carlos Secchin. Editora Bem-Te-Vi. 79 pág. 19,00&lt;br /&gt;Ante-Sala, de Astrid Cabral. Prefácio de Igor Fagundes. Editora Bem-Te-Vi. 89 pág. 20,00&lt;br /&gt;A Estalagem do Som, de Elisabeth Veiga. Editora Bem-Te-Vi. 79 pág. 19,00&lt;br /&gt;Tempo Inteiro, de Paula Padilha. Editora Bem-Te-Vi. 79 pág. 19,00&lt;br /&gt;Tectônicas, de Solange Casotti. Editora Bem-Te-Vi. 71 pág. 19,00&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;O fim das demarcações de território foi uma das melhores coisas que aconteceram para a poesia nas últimas décadas. Ele possibilitou o aparecimento da multiplicidade de vozes que temos hoje em dia. A Coleção Canto do Bem-Te-Vi dá uma boa amostra da diversidade desse começo de século XXI.&lt;br /&gt;Porém, mesmo sendo múltiplas, há algumas linhas de força presentes nas obras. Uma delas pode ser definida como filosófica e existencial. Ela caracteriza os três melhores títulos desta coleção: “Ao Léu”, de André Luiz Pinto, “Ante-Sala”, de Astrid Cabral, e “Tempo Inteiro”, de Paula Padilha. Ao léu significa à deriva, mas no sentido empregado no livro também conota a idéia de abandono.&lt;br /&gt;E é justamente esse exílio metafísico que o olhar do poeta capta, pois “embora selvagem”, ele é também “ínfimo” diante da totalidade. E a partir desse sentimento ele percorre lugares poéticos (a finitude, o amor, a revolta, a culpa, a morte, a impotência e o próprio lugar do poeta) e reais, como bairros e a situação social do Rio de Janeiro, registrando sua desilusão quanto a uma união positiva com o mundo.&lt;br /&gt;Luiz Pinto percorre o itinerário da res derelicta, o tema heideggeriano do ente jogado no mundo, decaído, refém dessa “hora canina do abandono”, para a qual os sonhos obstruem a felicidade, e que tem a morte como horizonte, pois a “melhor ternura é morrer”. Mas que o leitor não se iluda. Não há condescendência com esse destino, e sim fricção, embate, confronto. Se “abrir os olhos é o lugar do homem”, é essa abertura inaugural, esse primeiro olhar lançado às coisas, que nos devolve a inocência, e, portanto, a possibilidade de mudança.&lt;br /&gt;Embora a “fossa negra da vida” amanheça “sempre limpa”, essa ocultação facciosa não é eterna, tampouco inamovível. Em “Ao Léu”, a poesia está aquém da vida, a fábula é insuficiente diante do real, pois “não há estória que dê conta do mistério que queremos”, constatação que aprofunda temas de seus livros anteriores, como “Primeiro de Abril” e “Flor à Margem”. Entretanto, a palavra pode criar uma clareira para esse homem (nós mesmos) que percorre as ruas como um exilado.&lt;br /&gt;Por isso, o tempo, a transformação em seus vários sentidos, é uma marca poética desses autores. Marca essa que vem impressa da primeira à última página de “Ante-Sala”. Como no livro de Luiz Pinto, a ante-sala de Astrid Cabral não é um espaço físico, mas ontológico. Para a poeta, ela seria uma metáfora da própria vida, preparação para a verdadeira sala, o além-mundo, a morte. É esse gesto de “atravessar o ser” e dar “na outra margem” que os poemas encenam.&lt;br /&gt;O livro segue um tom elegíaco, é certo. Mas se é “preciso morrer para alcançar as estrelas”, não se pode dizer que seja estritamente pessimista. Partilha sim de uma visão desenganada da existência, onde tudo está em completo devir, nada permanece, nada dura. Nota-se tal inclinação nos títulos de muitos poemas: Passagem, O Derradeiro Instante, Transitória. O horizonte do livro de Cabral é esse “espelho metafísico”, esse “outro lado” infinito que margeia nossas vidas, mas do qual apenas intuímos a presença. Aqui também estamos jogados no mundo, “perplexos”, porque nele “fomos lançados”. De novo o tema da impotência e da derelicção.&lt;br /&gt;Mas há outras teias tecidas pelas mãos do tempo. E essa nova face que ele nos apresenta aparece no livro de Paula Padilha. O seu próprio título, “Tempo Inteiro”, sinaliza uma experiência não-fraturada da existência. Ou seja, a possibilidade de união entre percepção e devir, entre ser e fenômeno.&lt;br /&gt;Não à toa, as seções do livro vêm abertas com epígrafes de Rilke e Celan. O teor existencial desse tipo de poesia, ao invés de colocar o indivíduo como centro de tensões não resolvidas, apresenta-o como consciência doadora de sentido, em um mundo inóspito. Por isso, “pelos dedos” passa o “nó da eternidade”, cada “instante” está “inteiro no tempo” e a “vida inteira” está “lançada no presente”.&lt;br /&gt;Padilha opta pela experiência original. Tendo o “espanto como morada”, ou seja, o mesmo espanto de onde nasce a poesia, o poeta “trilha um labirinto”, não está alheio à perdição. Mas há uma saída: “sabe que carrega a própria chave”. Há ferida, há dor. Também há morte, esse “motor subterrâneo de cada gesto”. Mas se elas estão escondidas, a noite está aberta, e somos empurrados “para o centro da vida”. O eclipse não oculta tudo. Apenas aponta para a margem, não aquela que a transcende, mas sim a que deve ser conquistada.&lt;br /&gt;Já a poesia de Elisabeth Veiga e de Solange Casotti seguem rumos distintos. “A Estalagem do Som” dialoga com uma experiência de Deus, enfatizando a insuficiência humana, especialmente a do poeta. Ao passo que “Tectônicas”, em tom que oscila entre o jocoso e a sátira, propõe novos contatos entre nós e a natureza, seja ela humana ou física.&lt;br /&gt;Por fim, vale a pena chamar a atenção para uma constante em todos os livros: a ênfase pouco recomendada no prosaísmo. Isso ocorre tanto no nível temático quanto formal. Às vezes a idéia cede à tentação do motivo fácil. Em outras, o próprio tema é escolhido tendo em vista um repertório estreito.&lt;br /&gt;A despeito da inclinação metafísica dos melhores momentos da Coleção, vale a pena refletirmos sobre essa insistência da poesia brasileira nos vôos rasantes e no mundo sublunar. Talvez seja o momento propício para desbravar novos territórios. De preferência, no céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-5633984630659092047?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/5633984630659092047'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/5633984630659092047'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/no-dorso-claro-do-tempo.html' title='NO DORSO CLARO DO TEMPO'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-4672978719823251004</id><published>2009-11-29T17:19:00.001-08:00</published><updated>2009-11-29T17:20:51.613-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Depoimentos'/><title type='text'>A AVE, O MERGULHO E O FOGO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Homenagem à Poeta Dora Ferreira da Silva&lt;br /&gt;Centro Cultural São Paulo – 03/04/2007&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos amigos do Cavalo Azul&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Travessia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos grandes e redondos, embaixo o sorriso meio maroto, abrem-me a porta. Por trás dela uma legião de mitos antiqüíssimos toma vida, se infiltra em nossas veias. Ecoam agora, em meus ouvidos, os belos primeiros versos do livro Retratos da Origem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arco etrusco,&lt;br /&gt;lanterna alta,&lt;br /&gt;aldrava,&lt;br /&gt;bato à porta da origem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me que na sala de aula, sentava-me bem em frente da foto de uma porta vazada de luz, feita por ela, emoldurando a rugosidade da parede. É como se a porta se desmanchasse, a luz dissolvia seus contornos, macerava-os. Restava um vestígio da matéria, diagrama invisível. Às vezes eu a atravessava, transpunha-a enquanto falava. Viajávamos todos.&lt;br /&gt;Entrar na casa da Rua José Clemente sempre foi uma espécie de ritual de iniciação, de descida órfica a um mundo sempre muito antigo e inesgotável, algo que existisse desde sempre, sem tempo. Parece que um umbral era transposto, e logo estávamos em outro tempo, numa miscelânea de tempos sobrepostos, um lugar fora do mundo, clareira densa de vida e de linguagem. Lembro-me da bela frase de Hugo von Hofmannsthal: “para o espírito, todos os tempos são presentes”. Tateio, tento traduzir essa entrada. Tento resgatar a vida em pinceladas grossas, transpor o espelho. Hesito. As palavras escapam. São insuficientes. Talvez isso: um espaço fora do tempo. O puro espaço. Uma nova quarta dimensão.&lt;br /&gt;Ao fundo, ouço os pombinhos italianos arrulharem. Cheiro de jasmim, dama-da-noite, as rosas se interpõem em nosso caminho. Sigo Dora pelo jardim da frente da casa normanda, os caminhos se bifurcam, mas ficam cada vez mais abertos. Acho que essa é a palavra que traduz muita coisa e que agora me toca com o mesmo frescor de antes: aberto. Tudo ali é aberto. Tudo é claro, translúcido. Transparência, por todos os poros. Dentro da sala, ao lado da lareira, a parede cheia de ícones. Os bizantinos sabiam conservar um tipo de relação direta com o sagrado, que se perdeu. Hieráticos, solenes, mas cheios de humanidade, todos os ícones. Ao fundo, o São Francisco em tapeçaria, enorme. Abre as asas. O Espírito Santo em madeira. Voa. &lt;br /&gt;Os ícones nos olham – quase digo. Mas não é preciso. O semblante de Dora demonstra que ela sabe disso, por isso os deixa ali, em silêncio, observando o movimento do mundo. “São as coisas que nos observam”, lembro-me de sua frase, quase sussurrada. E depois complementava: “As coisas têm sede de serem vistas e querem ser ditas como nunca imaginaram ser”, arremata, comentando uma passagem de Rilke. O ser: um diálogo silencioso entre nós e o mundo. Observadores, observados. Ao lado, uma tela do pintor Odriozola, de que ela gostava. “São restos do mar, que ele reaproveita na pintura”. A res derelicta que o mar joga de volta à praia, o artista colhe, com ela comunga, transforma. “Estamos jogados no mistério”, ela insistia, tecendo um paralelo, para definir nossa condição, nossa existência.&lt;br /&gt;Os encontros do grupo Cavalo Azul iluminados pela figura de Dora são pra mim uma das experiências mais emocionantes de diálogo e doação. Falávamos no Aberto, a clareia do ser e a noite do mundo, a fuga dos deuses, o risco e a vontade, a eclosão do ser que ilumina a palavra, luz e legibilidade do mundo, a linguagem que se torna transparente, capta todas as coisas. A poesia, demiurgia. O mundo, obra do Fascinator, o grande deus impessoal, modelador, erótico. Seguíamos as trilhas do pensamento de Vicente Ferreira da Silva, um inquestionável gênio. “O poema é anterior ao poeta”, sentenciava Maurice Blanchot em um livro que eu lhe emprestara e com o qual ela ficou fascinada. Se não me engano, pelas nossas conversas, esse livro foi uma das faíscas que detonaram a escrita dos Transpoemas, série de peças poéticas ainda inédita. E tudo fluía. E tudo se imantava. Os próprios conceitos flutuavam, não tinham origem ou destino certo. Linguagem apofática, hierofania, ôntico, pático, arquétipo, sombra, máscara, aórgico: essas pedras teóricas eram lapidadas e ganhavam vida, viravam pequenos amuletos, cristais, uniam-se ao nosso próprio cotidiano. Tudo isso, que em um contexto de estudos poderia soar como mero aparelho crítico, engenharia de conceitos, técnicas sutis para domesticar a inteligência, ali ganhava uma vida diferente. A palavra de fato fundava o mundo. E quando digo isso, não uso uma metáfora. Não é uma força de expressão, descrição ou dissecação. A linguagem era nossa própria existência. A poesia, seu coração compartilhado.&lt;br /&gt;Pois bastava dizer poço e passávamos pela palavra poço, recolhíamos sua água antiga, bebíamos dela. Se alguém dissesse floresta, atravessávamos a Floresta Negra, estávamos ali, imersos, mergulhados em um misto de sonho e sentido que às vezes vinha à tona, deambulava, via a luz do sol, para depois mergulhar de novo, cada vez mais fundo, na força noturna. E era nessa atmosfera onírica que agora retiro a matéria-prima do semblante de Dora, e o esculpo em minha retina, mente, coração. Quando fala, Dora mescla gestos vagarosos a outros mais incisivos, os longos dedos sempre faziam o desenho da coisa pensada, depois o olhar ia para o vazio, se ampliava, grande e redondo, dentro do infinito. Isso: olhar e infinito se cruzavam. Seu olhar sempre me chamou a atenção. Poucas pessoas lançam aquele olhar que perfura tudo para chegar à quintessência. Não o que está além das coisas, mas o cerne de uma totalidade, que as une. O círculo, o centro em toda parte, a circunferência em parte alguma.&lt;br /&gt;Dora, figura das águas, como eu. Isso nos identificava. Lunática, das mais intensas. Cada lunação, uma série de poemas novos. Fonte inesgotável. Manancial, luz, sopro, água. A vida, “naufrágio no azul”, diz um de seus versos. Sempre a água. Rio de Heráclito e tensão de opostos a que chamamos: mundo. O belíssimo título Talhamar traz em sua capa a não menos bela imagem de um afresco descoberto entre ruínas, na região da Possidônia, século V a. C. Ficou conhecido como Túmulo do Mergulhador. O corpo delgado do mergulhador grego está na perpendicular. Entre o céu e a origem, ele flutua. Acho que essa imagem traduz Dora. Pelo menos uma parte importante desse mosaico de mitos que leva seu nome. Entre o céu e a origem, a água, a palavra, a substância precária e milagrosa dos dias. Ela, escafandrista do mistério. Entre ânforas e hídrias, barcos e mares, rios e rios, água e vida, sinônimos. Elas é que movem o dia a dia vivido no único tempo que importa, aquele, “contemporâneo do eterno”, nas palavras de seu querido amigo Agostinho da Silva. “Contemporâneo dos deuses”, diria Dora, diriam os poetas. Mas acima de tudo, mergulho, mergulhadora.&lt;br /&gt;Também os jardins, os esconderijos, a reclusão, a floresta na qual o anjo músico se abre, síntese de natureza e espírito, na capa de Cartografia do Imaginário. O ouro de uma descoberta que passa despercebida aos olhos de todas as épocas. Caberia comunicar um enigma? O mais precioso da vida seria comunicável? O maior de todos os sacrilégios e o mais indecoroso dos atos? Talvez sabê-lo seja o suficiente. A reclusão tem um nome: Itatiaia. A pletora de poemas escritos em Itatiaia só demonstra a proximidade dos deuses. Árvore e montanha, signos cósmicos, silêncio e luz solar, céu e terra se unem. Recolhimento, abrangência. Na solidão, somos o mundo inteiro. Apenas o mais profundo solitário pode viver todas as vidas, amar sozinho todos os homens e mulheres. Se minha memória não falha, acho que isso é de Proust. Mas também é (poderia ser) de Dora.&lt;br /&gt;Do outro lado, o movimento complementar. Poemas em fuga, tendas, nômades, ciganos: todas as formas da migração a compõem. No centro de tudo, a música. A alma migra, o espírito migra, o corpo acompanha. Ventilado, comunicativo. Os três, um só, numa só graça. O universo resumido em um acorde branco, como no poema As Garças. Tudo é movimento, não há vida sem ele. Por isso sua ligação com o pneuma dos antigos padres gregos, o sopro, spiritus. Dora, peregrina. Leio em Angelus Silesius um de seus versos prediletos, que ela traduziu: “Não pertences ao todo se fixo é teu ser”. Sim, alma peregrina. Sim: a água. Mas também e, sobretudo, o ar, o diáfano, que toca céu e terra e os transforma, varre, venta, comove.&lt;br /&gt;Vontade natural de síntese, comunhão. Não no sentido protocolar das religiões, esses “mercados de consolo”, como dizia Rilke, como repetia Dora. Mas no sentido místico, como unio mystica. A síntese se deu com os antigos, nos mitos gregos, etruscos, fenícios, mas também cristãos. Não gostava de ser chamada de poeta pagã. “O mito do Cristo também está inscrito em mim”, dizia. “O conhecimento não está nos livros, está incrustado dentro de nós, na memória coletiva”, arrematava. Para ela, o essencial dos mitos não era a fronteira que demarcavam, mas sim o horizonte que nos abriam. Daí seu verdadeiro amor e sua devoção intelectual por Jung. É a fissura que os mitos produzem no real o que mais importa. Somos um vitral de mitologemas, afrescos vivos de deuses, mosaicos de imagens e arquétipos. Todo acorde, composto. Toda claridade, impura, mista, híbrida. “Todos eles estão em nosso coração”, nos conformam, nos formam, nos fundam, nos fundem em seu amálgama antigo.&lt;br /&gt;Uma via de ver as coisas, um caminho, um rastro, uma demanda, uma busca. Em uma palavra: travessia. Agora, leio as dedicatórias em meus livros, a letrinha trêmula, miúda, inacreditavelmente mais ilegível que a minha. Em todas elas uma constante: travessia. Para o Rodrigo, “companheiro de travessia”. Sempre me comoveu muito saber que eu estava no mesmo barco que Dora. O barco dos etruscos e dos egípcios, aquele que corre pela morte, circula nas águas da vida e da morte, atravessa o Duplo Domínio, mas chega à outra margem, a terceira margem, banhada de luz. Transfiguração, renascimento. Depois da morte, a vida. Depois da vida, a vida. Nada lhe é alheio ou estrangeiro. Apenas uma soberana e terrível onipotência ou a mais cruel indiferença poderia nos apartar do que existe. Deus, se quiserem. Só Ele pode morrer.&lt;br /&gt;Por isso, a terra. Elemento concreto, parte italiana de Dora? Às vezes agreste, às vezes difícil. Porque Dora quer dizer dádiva, e, permitindo-me uma liberdade poética, também quer dizer dura e difícil. Os dons não nos são dados. São conquistados a duras penas, trabalhos incansáveis, provações, secretas alquimias de dor e plenitude, que ela realizou, em seu íntimo. Nós, inquilinos da vida, pastores do ser, não senhores dos entes. Mas a terra, a despeito da aridez, sempre renasce. Nós é que não percebemos. Não a alma, mas a matéria é que é imortal. Sim, algumas divergências. Ela, mais diáfana, mais otimista. Eu, mais terreno, mais negativo. Mas o otimismo não seria a maior realização da coragem? E o pessimismo, talvez um disfarce verbal para a minha imaturidade. Por isso também a terra: “tocar a terra para levantar vôo”. Eis uma de suas frases preferidas. Tantas vezes a repetia, que não me lembro se era dela ou se era uma citação. Não importa. Podemos dizer que era ambas as coisas. Pois sempre somos nós e o que nos ultrapassa. Tudo é coletivo, unânime, uníssono, para os deuses e para o inconsciente. Para o espírito, todas as coisas são presentes. Nós, imago Dei, imagens do divino, argila, modelos peremptos que se dissipam com o correr da água. Terra soprada pelo espírito, criação, miragem, essência nômade, rostos transitórios. Também a terra origina o Cavalo Azul. Na mitologia etrusca, ele é psicopompo, o condutor das almas, que une vida e morte, céu e terra. Emblema do Duplo Domínio da vida e da morte, que tanto a fascinava.&lt;br /&gt;Quanto maior meu amor à vida, maior o meu desespero de perdê-la. Essa é a formulação trágica de Nietzsche. Por isso, e por fim, o quarto elemento: o fogo que enlaça tudo. Quer abraçar tudo. Abranger a vida e a morte, o nascimento e o repouso, a abjeção e a glória, a finitude e a transcendência, o limite e o ilimitado. Essa é a afirmação, de quem quis viver tudo de uma única maneira, a mais intensa. O amor banha tudo, movimenta as criaturas. Por isso, a última palavra será sempre a primeira: Appassionata. “Todo o universo e todas as criaturas são dignas de paixão”, diz o canto, a palavra necessária de um transcurso, testemunha de uma existência. Nesse enlace amoroso entre tudo e tudo, de todos com todos, não há vazio, não há morte, não há mais miséria. Superada toda contingência, o fogo tudo consome e tudo anima. O universo enfim unido e redimido, não pela física ou pela metafísica, não pela alma ou pelo espírito, não por Deus ou pelo seu contrário. O universo todo, fogo e chama, em um abraço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-4672978719823251004?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/4672978719823251004'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/4672978719823251004'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/ave-o-mergulho-e-o-fogo.html' title='A AVE, O MERGULHO E O FOGO'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-2795068382293939941</id><published>2009-11-29T17:19:00.000-08:00</published><updated>2012-01-17T17:01:29.010-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Depoimentos'/><title type='text'>A AVE, O MERGULHO E O FOGO</title><content type='html'>&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Homenagem à Poeta Dora Ferreira da Silva&lt;br /&gt;Centro Cultural São Paulo – 03/04/2007&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos amigos do Cavalo Azul&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Travessia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos grandes e redondos, embaixo o sorriso meio maroto, abrem-me a porta. Por trás dela uma legião de mitos antiqüíssimos toma vida, se infiltra em nossas veias. Ecoam agora, em meus ouvidos, os belos primeiros versos do livro Retratos da Origem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arco etrusco,&lt;br /&gt;lanterna alta,&lt;br /&gt;aldrava,&lt;br /&gt;bato à porta da origem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me que na sala de aula, sentava-me bem em frente da foto de uma porta vazada de luz, feita por ela, emoldurando a rugosidade da parede. É como se a porta se desmanchasse, a luz dissolvia seus contornos, macerava-os. Restava um vestígio da matéria, diagrama invisível. Às vezes eu a atravessava, transpunha-a enquanto falava. Viajávamos todos.&lt;br /&gt;Entrar na casa da Rua José Clemente sempre foi uma espécie de ritual de iniciação, de descida órfica a um mundo sempre muito antigo e inesgotável, algo que existisse desde sempre, sem tempo. Parece que um umbral era transposto, e logo estávamos em outro tempo, numa miscelânea de tempos sobrepostos, um lugar fora do mundo, clareira densa de vida e de linguagem. Lembro-me da bela frase de Hugo von Hofmannsthal: “para o espírito, todos os tempos são presentes”. Tateio, tento traduzir essa entrada. Tento resgatar a vida em pinceladas grossas, transpor o espelho. Hesito. As palavras escapam. São insuficientes. Talvez isso: um espaço fora do tempo. O puro espaço. Uma nova quarta dimensão.&lt;br /&gt;Ao fundo, ouço os pombinhos italianos arrulharem. Cheiro de jasmim, dama-da-noite, as rosas se interpõem em nosso caminho. Sigo Dora pelo jardim da frente da casa normanda, os caminhos se bifurcam, mas ficam cada vez mais abertos. Acho que essa é a palavra que traduz muita coisa e que agora me toca com o mesmo frescor de antes: aberto. Tudo ali é aberto. Tudo é claro, translúcido. Transparência, por todos os poros. Dentro da sala, ao lado da lareira, a parede cheia de ícones. Os bizantinos sabiam conservar um tipo de relação direta com o sagrado, que se perdeu. Hieráticos, solenes, mas cheios de humanidade, todos os ícones. Ao fundo, o São Francisco em tapeçaria, enorme. Abre as asas. O Espírito Santo em madeira. Voa. &lt;br /&gt;Os ícones nos olham – quase digo. Mas não é preciso. O semblante de Dora demonstra que ela sabe disso, por isso os deixa ali, em silêncio, observando o movimento do mundo. “São as coisas que nos observam”, lembro-me de sua frase, quase sussurrada. E depois complementava: “As coisas têm sede de serem vistas e querem ser ditas como nunca imaginaram ser”, arremata, comentando uma passagem de Rilke. O ser: um diálogo silencioso entre nós e o mundo. Observadores, observados. Ao lado, uma tela do pintor Odriozola, de que ela gostava. “São restos do mar, que ele reaproveita na pintura”. A res derelicta que o mar joga de volta à praia, o artista colhe, com ela comunga, transforma. “Estamos jogados no mistério”, ela insistia, tecendo um paralelo, para definir nossa condição, nossa existência.&lt;br /&gt;Os encontros do grupo Cavalo Azul iluminados pela figura de Dora são pra mim uma das experiências mais emocionantes de diálogo e doação. Falávamos no Aberto, a clareia do ser e a noite do mundo, a fuga dos deuses, o risco e a vontade, a eclosão do ser que ilumina a palavra, luz e legibilidade do mundo, a linguagem que se torna transparente, capta todas as coisas. A poesia, demiurgia. O mundo, obra do Fascinator, o grande deus impessoal, modelador, erótico. Seguíamos as trilhas do pensamento de Vicente Ferreira da Silva, um inquestionável gênio. “O poema é anterior ao poeta”, sentenciava Maurice Blanchot em um livro que eu lhe emprestara e com o qual ela ficou fascinada. Se não me engano, pelas nossas conversas, esse livro foi uma das faíscas que detonaram a escrita dos Transpoemas, série de peças poéticas ainda inédita. E tudo fluía. E tudo se imantava. Os próprios conceitos flutuavam, não tinham origem ou destino certo. Linguagem apofática, hierofania, ôntico, pático, arquétipo, sombra, máscara, aórgico: essas pedras teóricas eram lapidadas e ganhavam vida, viravam pequenos amuletos, cristais, uniam-se ao nosso próprio cotidiano. Tudo isso, que em um contexto de estudos poderia soar como mero aparelho crítico, engenharia de conceitos, técnicas sutis para domesticar a inteligência, ali ganhava uma vida diferente. A palavra de fato fundava o mundo. E quando digo isso, não uso uma metáfora. Não é uma força de expressão, descrição ou dissecação. A linguagem era nossa própria existência. A poesia, seu coração compartilhado.&lt;br /&gt;Pois bastava dizer poço e passávamos pela palavra poço, recolhíamos sua água antiga, bebíamos dela. Se alguém dissesse floresta, atravessávamos a Floresta Negra, estávamos ali, imersos, mergulhados em um misto de sonho e sentido que às vezes vinha à tona, deambulava, via a luz do sol, para depois mergulhar de novo, cada vez mais fundo, na força noturna. E era nessa atmosfera onírica que agora retiro a matéria-prima do semblante de Dora, e o esculpo em minha retina, mente, coração. Quando fala, Dora mescla gestos vagarosos a outros mais incisivos, os longos dedos sempre faziam o desenho da coisa pensada, depois o olhar ia para o vazio, se ampliava, grande e redondo, dentro do infinito. Isso: olhar e infinito se cruzavam. Seu olhar sempre me chamou a atenção. Poucas pessoas lançam aquele olhar que perfura tudo para chegar à quintessência. Não o que está além das coisas, mas o cerne de uma totalidade, que as une. O círculo, o centro em toda parte, a circunferência em parte alguma.&lt;br /&gt;Dora, figura das águas, como eu. Isso nos identificava. Lunática, das mais intensas. Cada lunação, uma série de poemas novos. Fonte inesgotável. Manancial, luz, sopro, água. A vida, “naufrágio no azul”, diz um de seus versos. Sempre a água. Rio de Heráclito e tensão de opostos a que chamamos: mundo. O belíssimo título Talhamar traz em sua capa a não menos bela imagem de um afresco descoberto entre ruínas, na região da Possidônia, século V a. C. Ficou conhecido como Túmulo do Mergulhador. O corpo delgado do mergulhador grego está na perpendicular. Entre o céu e a origem, ele flutua. Acho que essa imagem traduz Dora. Pelo menos uma parte importante desse mosaico de mitos que leva seu nome. Entre o céu e a origem, a água, a palavra, a substância precária e milagrosa dos dias. Ela, escafandrista do mistério. Entre ânforas e hídrias, barcos e mares, rios e rios, água e vida, sinônimos. Elas é que movem o dia a dia vivido no único tempo que importa, aquele, “contemporâneo do eterno”, nas palavras de seu querido amigo Agostinho da Silva. “Contemporâneo dos deuses”, diria Dora, diriam os poetas. Mas acima de tudo, mergulho, mergulhadora.&lt;br /&gt;Também os jardins, os esconderijos, a reclusão, a floresta na qual o anjo músico se abre, síntese de natureza e espírito, na capa de Cartografia do Imaginário. O ouro de uma descoberta que passa despercebida aos olhos de todas as épocas. Caberia comunicar um enigma? O mais precioso da vida seria comunicável? O maior de todos os sacrilégios e o mais indecoroso dos atos? Talvez sabê-lo seja o suficiente. A reclusão tem um nome: Itatiaia. A pletora de poemas escritos em Itatiaia só demonstra a proximidade dos deuses. Árvore e montanha, signos cósmicos, silêncio e luz solar, céu e terra se unem. Recolhimento, abrangência. Na solidão, somos o mundo inteiro. Apenas o mais profundo solitário pode viver todas as vidas, amar sozinho todos os homens e mulheres. Se minha memória não falha, acho que isso é de Proust. Mas também é (poderia ser) de Dora.&lt;br /&gt;Do outro lado, o movimento complementar. Poemas em fuga, tendas, nômades, ciganos: todas as formas da migração a compõem. No centro de tudo, a música. A alma migra, o espírito migra, o corpo acompanha. Ventilado, comunicativo. Os três, um só, numa só graça. O universo resumido em um acorde branco, como no poema As Garças. Tudo é movimento, não há vida sem ele. Por isso sua ligação com o pneuma dos antigos padres gregos, o sopro, spiritus. Dora, peregrina. Leio em Angelus Silesius um de seus versos prediletos, que ela traduziu: “Não pertences ao todo se fixo é teu ser”. Sim, alma peregrina. Sim: a água. Mas também e, sobretudo, o ar, o diáfano, que toca céu e terra e os transforma, varre, venta, comove.&lt;br /&gt;Vontade natural de síntese, comunhão. Não no sentido protocolar das religiões, esses “mercados de consolo”, como dizia Rilke, como repetia Dora. Mas no sentido místico, como unio mystica. A síntese se deu com os antigos, nos mitos gregos, etruscos, fenícios, mas também cristãos. Não gostava de ser chamada de poeta pagã. “O mito do Cristo também está inscrito em mim”, dizia. “O conhecimento não está nos livros, está incrustado dentro de nós, na memória coletiva”, arrematava. Para ela, o essencial dos mitos não era a fronteira que demarcavam, mas sim o horizonte que nos abriam. Daí seu verdadeiro amor e sua devoção intelectual por Jung. É a fissura que os mitos produzem no real o que mais importa. Somos um vitral de mitologemas, afrescos vivos de deuses, mosaicos de imagens e arquétipos. Todo acorde, composto. Toda claridade, impura, mista, híbrida. “Todos eles estão em nosso coração”, nos conformam, nos formam, nos fundam, nos fundem em seu amálgama antigo.&lt;br /&gt;Uma via de ver as coisas, um caminho, um rastro, uma demanda, uma busca. Em uma palavra: travessia. Agora, leio as dedicatórias em meus livros, a letrinha trêmula, miúda, inacreditavelmente mais ilegível que a minha. Em todas elas uma constante: travessia. Para o Rodrigo, “companheiro de travessia”. Sempre me comoveu muito saber que eu estava no mesmo barco que Dora. O barco dos etruscos e dos egípcios, aquele que corre pela morte, circula nas águas da vida e da morte, atravessa o Duplo Domínio, mas chega à outra margem, a terceira margem, banhada de luz. Transfiguração, renascimento. Depois da morte, a vida. Depois da vida, a vida. Nada lhe é alheio ou estrangeiro. Apenas uma soberana e terrível onipotência ou a mais cruel indiferença poderia nos apartar do que existe. Deus, se quiserem. Só Ele pode morrer.&lt;br /&gt;Por isso, a terra. Elemento concreto, parte italiana de Dora? Às vezes agreste, às vezes difícil. Porque Dora quer dizer dádiva, e, permitindo-me uma liberdade poética, também quer dizer dura e difícil. Os dons não nos são dados. São conquistados a duras penas, trabalhos incansáveis, provações, secretas alquimias de dor e plenitude, que ela realizou, em seu íntimo. Nós, inquilinos da vida, pastores do ser, não senhores dos entes. Mas a terra, a despeito da aridez, sempre renasce. Nós é que não percebemos. Não a alma, mas a matéria é que é imortal. Sim, algumas divergências. Ela, mais diáfana, mais otimista. Eu, mais terreno, mais negativo. Mas o otimismo não seria a maior realização da coragem? E o pessimismo, talvez um disfarce verbal para a minha imaturidade. Por isso também a terra: “tocar a terra para levantar vôo”. Eis uma de suas frases preferidas. Tantas vezes a repetia, que não me lembro se era dela ou se era uma citação. Não importa. Podemos dizer que era ambas as coisas. Pois sempre somos nós e o que nos ultrapassa. Tudo é coletivo, unânime, uníssono, para os deuses e para o inconsciente. Para o espírito, todas as coisas são presentes. Nós, imago Dei, imagens do divino, argila, modelos peremptos que se dissipam com o correr da água. Terra soprada pelo espírito, criação, miragem, essência nômade, rostos transitórios. Também a terra origina o Cavalo Azul. Na mitologia etrusca, ele é psicopompo, o condutor das almas, que une vida e morte, céu e terra. Emblema do Duplo Domínio da vida e da morte, que tanto a fascinava.&lt;br /&gt;Quanto maior meu amor à vida, maior o meu desespero de perdê-la. Essa é a formulação trágica de Nietzsche. Por isso, e por fim, o quarto elemento: o fogo que enlaça tudo. Quer abraçar tudo. Abranger a vida e a morte, o nascimento e o repouso, a abjeção e a glória, a finitude e a transcendência, o limite e o ilimitado. Essa é a afirmação, de quem quis viver tudo de uma única maneira, a mais intensa. O amor banha tudo, movimenta as criaturas. Por isso, a última palavra será sempre a primeira: Appassionata. “Todo o universo e todas as criaturas são dignas de paixão”, diz o canto, a palavra necessária de um transcurso, testemunha de uma existência. Nesse enlace amoroso entre tudo e tudo, de todos com todos, não há vazio, não há morte, não há mais miséria. Superada toda contingência, o fogo tudo consome e tudo anima. O universo enfim unido e redimido, não pela física ou pela metafísica, não pela alma ou pelo espírito, não por Deus ou pelo seu contrário. O universo todo, fogo e chama, em um abraço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-2795068382293939941?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/2795068382293939941'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/2795068382293939941'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/ave-o-mergulho-e-o-fogo_29.html' title='A AVE, O MERGULHO E O FOGO'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-8153539529753351268</id><published>2009-11-29T17:12:00.002-08:00</published><updated>2009-11-29T17:17:17.008-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enciclopédia'/><title type='text'>REVOLUÇÃO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Parece típico da modernidade, e aqui penso nos tempos modernos, em coisa que começou há questão de cinco séculos, digo, parece típico da modernidade o espírito de insubordinação e de insubmissão. Penso no instinto telúrico e sacro de insubmissão e transcendência que faz de Saint-John Perse um grande poeta, que fez de Rimbaud um grande poeta e faz dos grandes artistas aquilo que eles são. Porém, paro por aqui. Nem tudo no mundo é arte. Nem tudo é estética. Não sei se é temeroso dizer isso, mas a concepção “moderna” de revolução é cristã. Em seu sentido cristão mais radical, como aparece em Dostoiévski, a “modernidade” começou com a Queda. Isso mesmo: com a Queda. Cristo, como “segundo Adão”, veio para regenerar a humanidade do Pecado, não para corrigir o mundo ou melhorar o homem.&lt;br /&gt;Para toda verdadeira religião, o homem pode se salvar, nunca melhorar a sua natureza, pois o mundo está perdido desde a origem. Quem se fixar no mundo querendo refazer as suas estruturas, se tornará ou um idiota ou um assassino ou um louco. Aqui, cristianismo e “modernidade” se bifurcam. O homem moderno vive sua vida querendo melhorar tudo o que o cerca, da empregada de sua casa às estrelas. Quer corrigir o desvio perpetrado por Deus, contra o nosso primeiro Pai: Adão. Quer melhorar tudo, menos ele mesmo. Ele acha que nem tudo está perdido, e, com muito empenho, a razão vai subverter o desígnio de Deus. Essa é a base do pensamento revolucionário.&lt;br /&gt;Desde que o mundo existe, os seres que nele existem pensam que progridem e pensam em progresso. É a ilusão com a qual o Criador criou a ambos, seres e mundo, para que pudessem prosseguir em paz sua rota de martírio e miséria, com a consciência anestesiada. O homem levou alguns milhões de anos para andar sobre apenas duas pernas e hoje se sente glorioso, dir-se-ia revolucionário, quando pára de fumar ou quando faz passar uma emenda no Senado. A revolução é a atitude mais drástica que pode querer um indivíduo imbuído até a medula da crença no progresso. A revolução também é a superstição mais antiga e mais nociva da humanidade: existe desde a pré-história e desconhece fronteiras, raças, credos ou limites temporais, geográficos e políticos.&lt;br /&gt;Aliás, vivemos no tempo das revoluções. Revolução da informática que vai democratizar a economia simbólica e o acesso ao saber. Além do que, alterará toda a subjetividade humana, nos arrojando em uma cadeia intersubjetiva e em uma nova era na qual o homem e a máquina vão cumprir o mesmo destino ritual que outrora houve entre homem e natureza, uma verdadeira guinada comparável apenas àquela ocorrida no Paleolítico. Revolução da economia de mercado, que dará acesso livre à nossa própria liberdade, a mais preciosa e volátil de todas as mercadorias. Revolução da social-democracia, que há de reger o mundo com a mesma ordem sábia com que Buda encontrou o Caminho do Meio. Revolução do sexo livre com gosto preservativo. Revolução feminina de histéricas e revolução dos homossexuais, que serão felizes só e tão somente quando não houver mais nada a reivindicar para a sua condição minoritária, ou seja, quando eles deixarem de ser minoria, revolução esta, aliás, que está prestes a acontecer.&lt;br /&gt;O bom da revolução é que ele está sempre na iminência de poder acontecer, mas, sempre que acontece, não sentimos que passamos por ela, e ficará para os próximos séculos decidir se vivemos ou não uma revolução. Ou seja: a revolução é sempre um passado distante, nunca um futuro que se abre. E é por isso que, felizmente, depois de mortos, poderemos descansar em paz. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-8153539529753351268?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/8153539529753351268'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/8153539529753351268'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/revolucao.html' title='REVOLUÇÃO'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-834867119641003533</id><published>2009-11-29T17:12:00.001-08:00</published><updated>2009-11-29T17:12:30.816-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enciclopédia'/><title type='text'>ÍMÃ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A pedra ímã é um dos minerais mais curiosos que conhecemos na Terra. Por sua força magnética de atração de contrários ficou famosa já na Antiguidade, e serviu a muitos instrumentos fundamentais para a orientação humana no espaço e à composição de engenhocas de toda sorte. Boa parte da empresa de navegação do século XV e XVI se viria em dificuldades sem o auxílio de uma simples bússola, por exemplo. O filósofo Empédocles, procedente da cidade de Agrigento, provavelmente tenha se inspirado em um ímã para conceber suas idéias de filia e neikós, de amizade e ódio, que segundo ele seriam as forças motrizes de todo o universo e dos afetos e humores de todos os seres vivos. Por sua vez, Newton se inspirou nas adaptações que a tradição hermética e a alquimia fizeram das idéias de Empédocles para forjar o seu conceito de força gravitacional, cujos fundamentos são a atração e a repulsão, e assim criar a pedra-de-toque da mecânica clássica. A história da maçã é meramente folclórica e anedótica.&lt;br /&gt;Sabemos que a maior parte da biblioteca de Newton era composta de livros de magia, de ciência hermética, religião e filosofia. A física era um acidente bem quisto de percurso ao qual o autor dos Principia acabou fazendo convergir a multiplicidade de seus interesses metafísicos. Ele fundou as bases de nossa compreensão do Universo, e depois o século XX se encarregou de aprofundar e dar mais complexidade a essa alavanca inicial com a qual esse homem exemplar moveu o eixo do mundo. Voltaire descreve-o como uma das almas mais nobres e finas que já conhecera. Hoje os conceitos de amor e ódio praticamente se reduziram às funções biológicas, e o misticismo freqüenta as bancas de jornais sob as formas mais deprimentes que jamais alguém imaginou. Um ímã é apenas um ímã quando a imaginação se empobreceu a ponto de não ver mais nenhuma beleza na unidade cósmica e o entendimento sequer consegue cogitá-la na fatura dos objetos corriqueiros. E alguns ateus ignorantes ainda acham isso um grande progresso.  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-834867119641003533?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/834867119641003533'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/834867119641003533'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/ima.html' title='ÍMÃ'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-523012302793105270</id><published>2009-11-29T17:09:00.001-08:00</published><updated>2009-11-29T17:09:27.760-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enciclopédia'/><title type='text'>INÉRCIA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aquela lei inventada por Newton para explicar os movimentos de corpos opacos, lentos, pesados, com altíssimo grau de atrito e de massa adiposa e mole. Também conhecidos entre o vulgo, sobretudo nos países tropicais, como funcionários públicos.  &lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-523012302793105270?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/523012302793105270'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/523012302793105270'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/inercia.html' title='INÉRCIA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-6573177931699042915</id><published>2009-11-29T17:05:00.000-08:00</published><updated>2009-11-29T17:06:53.190-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Enciclopédia'/><title type='text'>INVENÇÃO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Palavra estratégica que vem sempre a propósito quando se quer justificar uma obra que não vale nada. É também prudente usá-la junto com outros adjetivos como radical, experimental, novo, inovador, transgressor ou de ruptura. Assim passa a impressão para o leitor que você compartilha com ele da mesma boa alma ciosa pela fraternidade social e pela transformação artística e cultural, ainda que, destacados esses aspectos meramente externos e circunstanciais, sua obra seja um mais do que consumado lixo, e sua concepção dos fenômenos infinitos que dão forma a isso que chamamos vida seja tão rudimentar quanto a do mais ignorante dos ignorantes.&lt;br /&gt;É aconselhável também o uso dessa palavra aliada ao nome de algum epígono ou alguma dessas figuras folclóricas e desgastadas da nossa modernidade. Isso a reveste de um certo tom de compromisso e de autoridade, ainda mais se dita com aquele jeito másculo de quem encara a vida como um ringue – embora o traço mais costumeiro que caracteriza os defensores árduos da invenção seja o da vítima, e para continuar cativando a atenção do público precisem o tempo todo mostrar que apanham de um mundo corrompido e desumano. Em suma, são resistentes. A que, para quê, por quê e com que fim ainda é um mistério.&lt;br /&gt;No Brasil há uma fauna bastante desenvolvida de animais pródigos em lançá-la (a invenção) diariamente na mídia sem peias nem papas na língua. Os psicanalistas dizem que é um sintoma coletivo de complexo de inferioridade e um tipo de autismo edipiano; os sociólogos dizem que é um fetiche tecnocrata, próprio de países subdesenvolvidos; os filósofos, que se trata de uma carência ontológica e de uma deformação na capacidade de formar conceitos abstratos, relativa à subnutrição cultural e às deficiências de formação intelectual, e cuja conseqüência mais imediata é a polarização da realidade em progressistas e regressistas, os olhos vidrados e os lábios espumantes. Já os artistas não pensam nada, já que essa não é sua função e são eles próprios que compõem aquela grande parcela da população que repete, ora como papagaio ora como uma cascata de ecos, tudo aquilo que o inventor disse que inventou. Ou seja, aquilo que o primeiro idiota que tenham à mão e lhes venha à mente disse nas últimas duas décadas.&lt;br /&gt;Há controvérsias entre os cientistas. Uns dizem que o número de inventores já diminuiu drasticamente. Outros, que todos os dias aparece uma nova arte ou novo conceito de invenção que, para a nossa desgraça, vem invariavelmente seguido de um inventor, como os asnos vêm atrás do cacho de uvas que lançamos à frente com uma varinha para fazer mover a carroça. Seus argumentos são bastante plausíveis.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-6573177931699042915?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/6573177931699042915'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/6573177931699042915'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/invencao.html' title='INVENÇÃO'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-1458283798949211396</id><published>2009-11-29T16:58:00.000-08:00</published><updated>2009-11-29T17:01:21.229-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Diálogos'/><title type='text'>FÍDIAS: DA CRIAÇÃO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que você pensa enquanto cria, caro Fídias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, não penso em nada. Se pensasse não criaria. Aliás, talvez até pense em alguma coisa. Não propriamente eu, mas minhas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso é estúpido. Todos nós sabemos onde o pensamento se situa. O que quer dizer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas é verdade. O hábito levou-as a agir de certa maneira, de acordo com certo passo da construção e as necessidades que ela demonstra. Elas efetivamente sabem o que é preciso fazer; desenvolvem um pensamento sem reflexão: elas não têm consciência do que fazem, mas sabem como fazê-lo, e isso é o fundamental. Se no meio de um trabalho começasse a refletir sobre os meus meios eu seria um artesão inapto e estragaria tudo. E, no fundo, essa pergunta não significa nada, Sócrates. O que eu quero dizer? Não sou eu que quero, as palavras que o querem. Assim também quando manuseio o alabastro e a argila, cada nova forma que vai se delineando pede uma outra que a complete e dê harmonia àquele todo que ainda está em processo. Podem me dizer: mas quando você esculpe, já tem um tema em sua mente. Sim. Mas trata-se apenas de uma ideia geral, e ideias gerais não são obras, são rascunhos e projetos. A arte não se faz com ideias. Dizer isso é o mesmo que dizer que a geração de um feto pode ser fruto de hipóteses e conjecturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso compreender melhor agora o que me diz, embora não esteja totalmente claro. A arte tem suas próprias regras, concordo. Até mesmo os materiais que você seleciona para compor um busto já trazem em si algumas limitações. Talhá-lo em mármore ou em madeira, ainda que partindo de uma mesma ideia e querendo uma mesma finalidade, já condiciona a expressão, e faz com que a matéria escolha, muitas vezes à sua revelia, o que ela quer dizer. Então todo o trabalho do artesão consiste em interceder, dar voz às coisas que, sem forma, são mudas? Quem cria em você quando você cria? Essa é a questão que me atormenta, caro Fídias. Quem é exatamente o autor das criações?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenho muita certeza quanto a quem seja. A ideia que me parece mais plausível é a de que não seja alguém, mas algo. Afinal, não deixo de ser eu mesmo no momento em que lapido, e sabemos que as artes são formas privilegiadas de estarmos em nós mesmos, de sermos apenas nós mesmos sem ser nada mais. A arte nos livra de dois males: o de não sermos nós mesmos quando no convívio com os outros e o de não sermos nada quando no convívio único e exclusivo com nós mesmos. Os místicos e os sábios buscam coisa semelhante por outras vias, assim como o eremita. A linguagem, sendo produto coletivo, é um dos instrumentos de que dispomos para dialogar com os outros e com o mundo de uma forma particular e privada. Ou por acaso há quem acredite em criações coletivas? Um grupo só pode exercitar um engenho, nunca pode confeccionar uma obra. As regras de que disponho para criar podem ser anônimas e coletivas, mas no momento mesmo em que o faço não é possível que haja outros no meu encalço. Depois de prontas, as esculturas perdem a minha marca, se é que há alguma: voltam a pertencer à comunidade e aos indivíduos que as apreciem. Os espectadores são muito mais donos de minha obra do que eu, os leitores mais senhores dos versos do que o próprio poeta. Haveria como ser diferente? Os versos foram escritos uma única vez, mas lidos diversas. Às vezes penso, caro Sócrates, que a leitura e a apreciação parecem gestos mais nobres que a criação. Mas, voltemos ao assunto. Poderia definir esse movimento assim: a matéria escolhe boa parte das ações daquele que a escolheu. Mas, por que madeira e não alabastro, por que mármore e não bronze, por que um tipo de tinta e não outro? Se a obra é fruto de uma encomenda, o seu patrocinador é que terá o mérito de dar a última palavra, conforme o seu gosto e o material que ele suponha mais perene e rico, e vá, assim, imortalizá-lo de maneira mais tenaz e brilhante. Mas aqui estamos no âmbito do puro gosto e das convenções sociais, as duas formas mais cultivadas da idiotice. Temos que pensar além.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fale, continue falando Fídias. Suas palavras me inebriam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se executo uma ação, qualquer que seja, ela nunca estará isolada, destacada dos outros acontecimentos que me rodeiam, muito menos – ai, como há pensamentos vulgares no mundo – é uma mera consequência de outras ações. A ação, nem a do louco nem a de um doente dos nervos, nunca está ilhada em si mesma, embora ela tenha certa autonomia. Resumindo, ela é contingente mas não é dependente. Ora, na criação parece que se dá algo parecido: nunca posso prever o resultado final exato de meu trabalho. Se me é dado representar Apolo, e Dafne transformada em loureiro, tenho que me reportar aos versos do ilustre Homero. O fato é que, por mais que eu me empenhe em meu ofício, nunca, e duvido que haja um artífice sobre a terra que o consiga, nunca terei domínio total sobre a minha matéria. Ao fim, teremos Apolo e Dafne. Mas, e os detalhes? Uma torção de músculos, os matizes de uma folha, a ondulação da bata: tudo isso não será obra minha, será obra do acaso – ou de Deus. Não há como prever com exatidão absoluta o resultado final, nem os meios técnicos de alcançá-lo em sua totalidade. Os detalhes nos escapam, assim como Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então essa força invisível que age na criação é algo que ultrapassa você? Está fora de você? O artífice é uma espécie de instrumento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não está fora nem dentro, mas simultaneamente dos dois lados. É contígua a mim, mas me escapa. Cerco-a, mas não a limito. Expresso-a, mas não a defino. O que seria isso, caro Sócrates? Você que lida com os fundamentos do próprio ser por intermédio de conceitos, responde-me se é capaz. Isso me fascina e confunde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebo sua aflição, e também a compreendo. Não quero aqui pensar que as formas sejam passíveis de uma filosofia, pois essa ideia guarda algo de tolo. Partindo dessa visão teríamos que reconhecer que as obras são veículos dos conceitos, e assim transformá-las em servas das ideias, o que me parece um tanto quanto deprimente. Talvez tenhamos que pensar que a arte não traz em si pensamentos: ela mesma é uma espécie de pensamento. Uma estátua não é como um martelo, não é instrumento de nada. Após algumas marretadas, o prego é cravado e podemos então jogar a ferramenta no lixo, porque seu valor se reduz à sua função. Já o seu Apolo, além de uma função civil, tem sentido e beleza. E agora me sinto impelido a falar sobre essas duas qualidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó Sócrates! Não imagina a minha felicidade se pudesse me definir o que vêm a ser essas duas palavrinhas sob as quais se estende o abismo mais profundo do pensamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se olho um pôr do sol, na limpidez de um céu sem nuvens, certamente ele me parecerá belo, e vou contemplá-lo até a sua extinção no horizonte, certo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De acordo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele traz em si uma proporção entre as suas partes, e um equilíbrio entre as cores e os tons da mesma cor que surpreende a nossa percepção, deleita e entretém o espírito. É como uma tela em tamanho natural cujo pintor desconhecemos e talvez não possamos nunca conhecer. Posso afirmar que ele tem beleza. Mas se eu me perguntar qual o seu sentido, não obterei resposta nenhuma. Todos os seus possíveis sentidos são atribuídos por mim. Se disser que esse pôr de sol me fala de melancolia, tristeza, nostalgia ou renascimento, estarei dando qualidades humanas a um produto e a um autor que não o são. Estarei falando de um pôr de sol hipotético, não efetivo. Ele tem beleza, mas não tem sentido, porque este, se é que podemos defini-lo assim, é a recuperação de um gesto original, uma certa condição de pensamento que deduzimos da forma. O sentido, Fídias, não está contido no que sentimos. A sensação é um primeiro passo para chegarmos a ele. Poderia dizer que o sentido é o processo que levou à conclusão de um objeto, e se encontra adormecido nele. A Criação não está acabada – vive em constante mutação – e é anônima: por isso ela não pode significar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas me diga uma coisa. Se desfiro uma estilingada em um pássaro e o abato, deixando-o caído, morto, sobre a folhagem de uma floresta, e um andarilho o encontra, ele poderá deduzir o ocorrido, e saberá que aquilo foi obra de um agente humano. Afinal, os pássaros não se estilingam entre si, o que é, por si só, uma curiosa lição de humanidade. O que isso tem a ver com a beleza? Não consigo entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo o que ocorre no âmbito das criaturas humanas pode significar, e não precisa ser belo para tanto. Uma coisa não se atrela a outra. O defunto da pobre ave diz ao seu andarilho: há um caçador pelas imediações. Deduzindo o gesto que levou a um fim, ele desvendou o seu sentido. Agora, qual o sentido das estrelas e das marés? Qual o sentido da fera que abate a presa? A alimentação? Ora, mas isso não é um processo que é aos poucos construído, mas simplesmente um motivo. Devemos distinguir sentido e motivo. Este tem como motor a pura necessidade, e não consegue se desvencilhar dela, enquanto aquele não visa nenhum objetivo definido. Uma das idiotices correntes é achar que algo só tem sentido se comunicado. Um homem perdido no extremo da Ásia Menor, vagando por um deserto, não estabelece comigo nenhuma relação. E, no entanto, isso não diminui a sua realidade nem altera o seu valor. Isso é uma crença de plebeus do espírito, esses seres mesquinhos que acham que o universo foi criado para o seu usufruto e contemplação. Quando ignorantes sobre algo ou ignorados por algo, tratam logo de jogar a culpa no objeto que lhes recusa. Esquecem-se que são uma pequena parte, uma das peças da Criação, e que todas as demais criaturas vivem, amam e se movem à sua revelia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim também se dá com as obras de arte, Sócrates. Querem sempre saber para que público esculpo. Respondo que não sei, e que talvez o público seja na verdade uma invenção das estatísticas e de homens de pouca fortuna mental. Quando lapido o mármore a última coisa em que penso é em um interlocutor. Não esculpo para pessoas, esculpo para a tradição – a partir dos mortos e para eles. Toda a criação é uma descida aos infernos e à ruína, mas sempre com o intuito de trazer de lá uma pérola e uma criança. Do contrário não se cria, se inventa. O artífice que despreza a tradição é como um sujeito que desse à luz uma nova língua: gera algo que tem realidade, mas que não tem consistência. Talvez essa crença cega e estúpida na comunicação é que nos faça viver em um mundo repleto de tagarelas que não dizem nada, e de pessoas que gesticulam e gesticulam e, no entanto, nunca se movem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disso tudo, Fídias, podemos aduzir que o sentido de suas estátuas é intrínseco a elas mesmas, embora tragam o eco daquele gesto inominável que os ultrapassa, a você e a elas. São como a serpente que morde o próprio rabo. Enquanto todo gesto corriqueiro remete a algo que está fora dele, a obra do artífice só se narra a si mesma. Ou seja, ela não quer comunicar nada, ela quer gerar. A arte é uma aparência que aspira ao ser, a mais pretensiosa e bela das mentiras. O artifício de artesãos como você é o único ponto da existência que ata beleza e sentido em proporções iguais. Tem sentido porque gera, movimenta sensações e afetos, e tem beleza porque nada nele é gratuito, e cada sensação e afeto nasce de uma forma criada especialmente para isto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvi você falar uma palavra muito importante: proporção. O artífice seria então aquele homem que tem e exercita o dom das proporções?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então a arte não pode em nenhum momento falar do feio e do deformado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que pode. Desde que isso seja um efeito criado e não uma reprodução e consequência. Se você pinta um corpo podre, uma paisagem nebulosa, um pântano ou um animal que acabou de ser esquartejado tendo em vista, e conseguindo, dar ao espectador a sensação de podridão, nebulosidade, viscosidade e morte, sua obra será perfeita. A proporção deve estar na representação, não no tema. Ultimamente só se pintam nuvens e neblinas, não porque isso apraz aos pintores, mas simplesmente porque são ineptos e não sabem pintar. E isso já não é nem proporção nem reprodução, mas deficiência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é proporcional é belo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o que é belo é bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oxalá Sócrates! E quem me dá o senso, a medida do que seja proporcional ou não e, em consequência disso, bom ou não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem você acha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou narrar uma história. Outro dia me encontrei com um escultor cita, procedente da Babilônia. Uma pessoa muito afável, de traços delicados e um semblante firme. Levei-o à minha oficina. Percebi que ele olhou todas as peças ali dispostas sem dizer nenhuma palavra; desfilava entre as molduras num silêncio que já me enervava, pois parecia similar ao desprezo. Tomou um pequeno naco de barro, se concentrou e se pôs a tirar formas das mais estranhas em gestos rápidos e precisos. Devo confessar, Sócrates, que as figuras esgarçadas que vi ali, cabeças gordas e levemente tortas, olhos enormes e penduricalhos na garganta, não me convenceram nem um pouco, para não dizer coisa pior. Em seguida, o seu próprio autor começou a me falar da sua terra e de seu povo, e a dizer como era a vida e qual o significado de seus pares em sua terra natal. Emudeci, perplexo diante dos fatos que me contava. Percebi que não só os nossos sensos de proporção e medida, até mesmo do tempo e do espaço, eram diferentes, como a própria concepção do que era e representava o nosso ofício era radicalmente diversa. Toda escultura produzida no seu país tem uma função e um significado religiosos, enquanto para nós, excetuando as narrativas dos deuses olímpicos, ela se reduz a uma convenção e a uma função políticas. Toda a produção filosófica do seu povo é revertida para os avatares, a quem rendem sacrifícios, enquanto para nós essa mesma produção tenta, embora muitas vezes não consiga, ser o resultado e estar a serviço simplesmente dos homens. E assim por diante. Ao me despedir dele, senti uma calma feliz, misto de mal-estar, contemplação e dúvida, que só me levou a desempenhar com mais tenacidade o meu ofício, seguindo os moldes da nossa tradição e seus costumes, o legado dos mestres e dos antigos, e deixando de lado qualquer reflexão sobre o assunto, pois toda ela me pareceu, naquele momento, inútil. E então, Sócrates, como ficamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos no mesmo lugar onde estávamos antes. Você tem que entender, querido Fídias, que as diferenças não produzem nada além de tédio e sono. A concepção e a situação do seu amigo cita é bastante diferente da sua, concordo. No entanto, aquela força invisível que age em vocês enquanto vocês criam não é nunca igual em suas várias manifestações, mas é sempre semelhante nas diversas contingências de que se reveste e sempre idêntica a si mesma onde quer e como quer que se revele. Ou por acaso você acha que ele não pertença ao gênero humano? Se você me dissesse que passou a noite dialogando com uma lesma, e que ela persuadiu você de que vivem em universos diferentes e sob regras artísticas distintas, aí o caso seria preocupante, mais pela sua saúde mental, meu amigo, do que pela questão filosófica que possamos tirar daí. Essa estória que acabou de me contar só evidencia que o homem dá modulações diferentes a uma mesma constante. A expressão se produz sob a diversidade, enquanto a manifestação quer, exige e nasce da unidade. Qualquer um pode exprimir-se, até os mais patetas, por meio de cartas ou declarações de amor. Isso estará numa esfera privada, dirá respeito apenas ao seu protagonista, não acrescentará nada à totalidade dos conhecimentos humanos nem ao Espírito. Estaremos ainda no âmbito das simples circunstâncias, das modas e dos costumes de época; não teremos assim sequer entrevisto a forma de pensamento que se situa além dessas barreiras tênues e ilusórias. Só ao sábio, e você é um deles, é dado manifestar algo que está latente na matéria e que, ao mesmo tempo, a transcende. Seria um pouco tolo da nossa parte dizer que a pedra, o animal, a água e o vegetal manifestam forças diferentes; estaríamos assim reduzindo o que está fora deles, e que os une, à suas formas. Seria o mesmo que dizer que Deus está no homem, e não que ele participa no homem, que ele está nas criaturas e não que ele fundamenta as criaturas. A forma de nossa existência guia o nosso pensamento, mas não o doma. Hoje, mais do que nunca, é preciso exterminar, aniquilar o culto à forma, esse deus às avessas. É preciso, Fídias, encontrar uma ordem que não seja sinônimo de paz e harmonia. A unidade não deve oprimir, nem a diferença, diluir. Resumo isso em uma parábola. Um sábio via em cada fenômeno que lhe era oferecido aos olhos e à razão um algoz e um anjo. O algoz queria provar que ele era, como tal, único e incomparável, pois essa é a única estratégia possível para alguém que vive da morte alheia – é a única forma efetiva de poder que lhe resta. O anjo dizia que, malgrado sua constituição aérea, podia dar conselhos às vidas terrenas, e queria provar que todos são iguais diante da eternidade e das trevas. Um o puxava para baixo, o outro muito para cima. O sábio, depois de uma lenta reclusão, decidiu que ambos deveriam morrer, pois, do contrário, nunca saberia o que vinha a ser a liberdade. Matou-os; e desde então passou a ver cada fenômeno como uma ponte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Realmente, a minha estória parece ser bem mais simples. Mas sinto que compreendo o que quer dizer. E sentir isso é um sinal de que de fato já compreendemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se você se guiasse por ideias relativas, aposto que não seria o escultor exímio que é. A propósito, diga-me Fídias: quando você observa uma escultura você quer saber se ela é boa ou se ela o agrada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digo sempre, e aí não entram apenas as obras de arte, que algo é bom ou ruim, bem feito ou mau feito, eficiente ou ineficaz. O gosto se esgota em si mesmo; com ele não há diálogo, e nós praticamente não existiríamos. Ele me parece um patrimônio de gente vulgar, que acredita demais nos próprios instintos. E sabemos muito bem que os instintos são o que há de menos humano no homem. O homem que se guia pelos instintos se assemelha a um velho cego que fosse guiado por uma criança cega. Dizer que gostamos de algo ou que algo nos desgosta é fazer um mero relato de um sentimento, não estaremos assim informando nada sobre a realidade ou sobre o valor daquilo a que nos referimos. O gosto é apenas uma variante ornamentada da ignorância. E ela, quando maquiada, chega até a parecer benevolência. Pior: é uma ignorância que não quer se reconhecer como tal. Por trás dele há sempre um tirano e um covarde. Como tirano, o gosto acredita piamente em si mesmo, tem uma concepção das coisas como sendo legítimas única e exclusivamente pelo intermédio de uma força irracional e bela que as unge, e que brota dele. Ou seja, ele é totalizador, porque reduz as suas relações com o mundo a uma extremidade, e, daí em diante, por que não dizer – totalitário? É covarde porque não assume nada de falível em si mesmo: o inferno são sempre os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você está cheio de verdade, Fídias! Seu semblante parecia em chamas enquanto falava. Isso deve ser uma das marcas da revelação divina na pobre carcaça humana que somos. O problema é que vivemos em uma era de gostos. Ele se tornou uma espécie de imperativo, um princípio metafísico de organização da vida, quem sabe? Você sabe por que todos têm medo de negá-lo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me ocorre uma resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque há muito se confunde bom e ruim com bem e mal, e nunca queremos, nem nos sentimos capazes, de questionar evidências morais, porque cremos que elas venham antes de nós e estejam fora do nosso arbítrio. O homem é um tipo singular de escravo: não é uma besta que apanha para trabalhar, ainda que isso muitas vezes ocorra, nem está preso por uma corrente a um toco de madeira. Ele é escravo das próprias ideias que criou para si. O homem ainda está longe de ter uma percepção puramente humana dos fatos. Ele teme efetuar um juízo das coisas que o cercam porque acha que estará assim fazendo um julgamento moral das mesmas, quando simplesmente terá feito um julgamento do seu valor, o que é bastante diferente. Estamos, e aqui não falo de fora pois nunca é possível falar de fora, acostumados à escravidão, e não hesito em dizer que nos comprazemos com ela. Estamos presos a uma coleira que parece inamovível, e consiste em confundirmos valor e verdade. Quando faço uma crítica, ou tento expor com critérios objetivos o valor de algo, não estarei dando, não terei nem chegado a tocar o que venha a ser a sua verdade, pois ela é intangível. Somos ainda animais muito religiosos: acreditamos que por trás de um evento há sempre uma substância imaterial que o justifica em sua essência e que o impede de ser outra coisa que não seja ele mesmo. Em suma, ainda somos muito domésticos – aceitamos o que nos é dado e só conhecemos e nos propomos a conhecer o espaço limitado pelas quatro paredes de um quarto. E disso nem os filósofos nem os artistas escapam. Aliás, eles são as maiores presas dessa espécie curiosa de força de gravidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos mais preconceitos do que conceitos propriamente. É isso caro Sócrates?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais que isso: somos impelidos a tomar os preconceitos como verdade, e mesmo assim continuamos a temer aqueles que querem criticar valores. Somos o tempo todo levados a endossar os acontecimentos com qualidades que são exteriores a eles mesmos. Somos pequenos deuses em nosso cotidiano, sustentando a batuta mágica do demiurgo a cada esquina e dando parecer sobre cada pessoa. E, no entanto, trememos de medo quando alguém se propõe a demolir a nossa ruína. Palácios vazios, choupanas e ruínas nos cercam. Eles compõem o cenário desse espetáculo gracioso a que chamamos vida, do qual somos diretor, ator e espectador, mas nunca crítico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo assim, com certeza poucas pessoas veem as minhas estátuas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veem nelas o que seja parecido consigo mesmas. Enxergar os outros é uma operação muito complexa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu dissesse que o prazer que sinto em esculpir vem da atividade em si mesma, você acreditaria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não só acredito, como admiro a sua inclinação. É sinal de que você tem vocação para o que faz. Não o faz por fama, prestígio ou qualquer outra coisa. Fá-lo apenas por que não poderia fazer outra coisa. Boa parte da miséria humana se deve ao fato do homem não reconhecer sua vocação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes me pergunto se isso também não é uma forma de servidão, fazer o que quiseram que eu fizesse. Mas logo espanto esses pensamentos da minha cabeça, ao ver que eles não têm consistência. Algo, um chamamento interior, quis que eu fosse um artesão, a matéria quer que eu a maneje da forma que lhe convenha. Não há subserviência nisso, porque não vivemos só de deliberação. Se fosse assim, não estaríamos vivos, pois teríamos escolhido nascer ou não. E isso é uma posição divina, não humana. O fato é que parece que as escolhas humanas são sempre secundárias, e isso me incomoda Sócrates. Estamos sempre na esfera das causas segundas, sendo as causas primeiras do âmbito do puro Ser. Outro dia, procurando uma pigmentação diferente para um afresco, me vi entristecido no meio do trabalho. Por mais que misturasse cores, e usasse técnicas diversificadas para tanto, não iria tirar nada que já não existisse de antemão na natureza. Ainda que não os conheçamos, os matizes mais inusitados devem se esconder nos corais, no lugar mais profundo do mar, nas folhas de uma floresta intocada ou na penugem de uma ave que voa em alturas inatingíveis para nós. O engenho humano é extremamente limitado. Se pensarmos que todo esse Coliseu, essas bibliotecas, toda a ciência, as letras e a religião são obras de nossas mãos, é capaz de nos regozijarmos com isso. Mas basta entrar uma mosca em nosso quarto, e pousar impiedosa em nossa escrivaninha. Eis que o nosso sonho se desmorona. Sócrates, você já pensou que o homem é incapaz de criar uma mosca?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje em dia há pessoas que não diriam o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não digo uma reprodução da mosca, um equivalente nem nada do gênero. Quem crê nisso são rabugentos que se acham deuses, quando são no máximo a cópia falhada, o aborto, o rascunho de um deus postiço. Digo: criar a mosca, como a temos pelo ar das tavernas aos montes? Nesse sentido, levando a ideia às últimas consequências, estamos em paridade existencial com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, Fídias! Acaba de comparar os homens às moscas?! O que acontece com os seus miolos? Derreteram com o sol desse lugar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não os comparo a eles, comparo as suas condições. Dentre as criaturas, o homem tem um lugar de destaque. Isso é um fato, e querer provar o contrário é atribuir a bestas e a plantas, cuja vida consiste em comer e dormir, qualidades humanas, dando sinais de um animismo dos mais cândidos e ingênuos. Afora isso, e diante da existência, ambos padecem das mesmas limitações. Ambos se movem no mesmo espaço físico, e estão subordinados às mesmas leis degradantes da matéria. O homem, como a abelha, por exemplo, só pode criar o que seja respectivo à sua natureza. O homem cria casas e vinhos, a abelha colmeias e mel. Nunca poderíamos criar mel e colmeias, muito menos o contrário. As abelhas voam; o homem também. Mas não é de sua natureza ser aéreo. É um artifício que ele criou e aperfeiçoou com o tempo. Daí o papel dos artífices ser tão importante: tudo o que há de mais humano em nós consiste em imitar da natureza aquilo que não temos por princípio. Somos todos feitos de artifícios. Ou seja, estamos cercados pela mentira, e talvez seja ela mesma a nossa essência, se é que há alguma. Da mesma forma, se desfiro um golpe no granito com a finalidade de criar uma forma que, sei, gerará um efeito esperado, não estarei exprimindo esse efeito de mim. A arte é uma das coisas mais impessoais que existe; ela se baseia mais na impressão de conceitos do que na expressão de sentimentos. Enfim, não há nada no meu ofício que diga respeito de fato a mim. E isso ocorre com todos os demais artesãos que haja por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não percebo onde você quer chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero dizer que certas coisas só podem nascer de certas condições, mas que, depois de criadas, não há mais nenhum elo de ligação ou de propriedade entre elas, nem uma é prioritária em relação a outra. Há uma necessidade de substância entre criador e criatura, mas não de forma. Podemos fazer um mel artificial, não podemos? Ele lembrará o mel verdadeiro. Estaremos imitando sua forma. Mas o teor mesmo do mel não podemos reproduzir nem com a maior audácia do pensamento e do engenho. Há um abismo entre cada uma das criaturas que povoam esse planeta, e ele consiste no que cada uma delas tenha de irredutível. Todo mistério da vida e da Criação de resume a essa palavra. Um dos exercícios que mais me comovem e divertem é tentar me colocar, não no lugar de outra pessoa, pois isso é, de certa forma, fácil, mas tentar imaginar como é ser uma pedra, uma planta ou a água de uma bica. Sei que isso parece uma brincadeira de criança, e que você, Sócrates, como filósofo, deve estar rindo em silêncio do absurdo que acabo de dizer. Sei também que há inconsistência filosófica na formulação dessa premissa, dado que o ser é algo que pressupõe o conhecimento das duas dimensões que fundamentam todos as suas qualidades e atributos: o espaço e o tempo. Sem elas, ou além delas, só é possível supor um Ser supremo, que é incognoscível. Digo apenas que essa parcela de existência que se situa além do limite de nossa percepção me encanta e enternece. Como eu posso chamar essa dimensão? Como posso defini-la? Seria o quê das coisas? Ou a Coisa das coisas, essa espécie de abismo onde a consciência só poderá se imiscuir quando souber se abandonar a si mesma? Quando puder se negar a si mesma? Quando quiser – morrer? Não sei precisar ao certo. Sei apenas que é bela aquela parte do pensamento que não pretende descrever um objeto, mas sim plasmá-lo. Temos uma experiência não orgânica do nosso corpo quando conseguimos transpor esse umbral, algo parecido às experiências místicas e ascéticas. Porque na verdade isso é a simulação de uma morte fictícia. Ao morrer de fato morremos para as coisas, ao morrer de forma fictícia morremos nas coisas. Talvez essa seja a única maneira efetiva de vivê-las, de nos livrarmos da miséria que são o conhecimento e a nossa dualidade fundamental, com a qual nos debatemos no decorrer de toda nossa vida e que nos expulsa do mistério que são os seres neles mesmos. Porque o homem, Sócrates, é uma criatura rasa; raras vezes ele tem acesso ao segredo, que não está além da vida, mas fora dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebo que você tem um dom para os sofismas que até então desconhecia, Fídias. Contudo, suas palavras são belas e envolvem. Há muito nos ocupamos da verdade; talvez fosse o caso de começarmos a pensar nos meios de chegar a ela. Noto também que você se deleita ao negar a sua própria personalidade, quer sempre se perder de si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais do que eu você sabe que esse é o princípio do conhecimento. Ai, Sócrates! Se soubesse o desprezo que tenho por essa gente que nunca se abandona, que está invariavelmente centrada em si. Tomam-se como proporção das coisas do mundo, e mal sabem sua própria estatura. Um amigo me disse certa vez: o sábio dá a cada coisa o seu valor, o parvo dá o seu valor a cada coisa. Essa frase é perfeita. E sintetiza o caráter desses pobres diabos que vivem no pior tipo de evasão: nunca tirando os pés do chão, acabam criando raízes, e passam a ver o mundo sempre sob o mesmo ponto de vista. Isso é deprimente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdoe-me, mas tenho que reconhecer que estamos protelando alguns assuntos. Que circulamos e circulamos, tentando adiar o que é inadiável e essencial. Já basta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode-se adiar o que é essencial para o pensamento, não o podemos fazer com o que é indispensável à vida. A morte, por exemplo, é inadiável. E talvez ela seja a única conclusão a que se possa chegar. Do que fala, Sócrates?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falo da força invisível que cria em você quando você cria. Ocorreu-me um nome para ela: inspiração. O que você acha desse batismo nobre Fídias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que a palavra que cunhou não me agrada. Pois é só uni-la à ingenuidade e à sinceridade, e terá o perfeito imbecil. Nem as crianças mais lerdas, nem os sujeitos mais toscos congregam essas três qualidades juntas, embora alguns eruditos as considerem a verdadeira meta do homem sobre a terra, fato que só a flacidez intelectual que advém do mau acúmulo de informações pode explicar. Além disso, as engrenagens da vida são sempre duplas: movimento e repouso, nascimento e morte, contração e distensão, entre outras. O artífice que inspira demais corre o risco de estourar, como um sapo ao qual se amarra a boca com um barbante. Sei que estamos lidando com um conceito muito delicado e escorregadio. Sabemos que a matéria limita as minhas escolhas, guia o meu engenho nos caminhos que ela já selecionou previamente. Assim funcionam todas as coisas. Olhe a copa dessa árvore frondosa: percebe que só nasce dela um tipo específico de flor, folha e fruto? O processo da natureza é extremamente coeso e coerente; diz-nos que cada elemento só pode gerar algo semelhante a si mesmo, e semelhante não quer dizer exatamente igual. A quantidade de variação que cada ser consegue tirar de si mesmo é bastante pequena, diferente da diversidade que podemos notar na quantidade de seres conjugados a que chamamos natureza. Porque se cada qual só gera algo semelhante a si mesmo, aquilo que os faz diferentes entre si é algo tão fluído e múltiplo que poderíamos dizer que seja infinito. Basta olhar os homens ao redor: cada um deles tem uma vida e algo que os torna diferentes dos outros. Entretanto, suas feições são sempre parecidas quando expressam algum afeto comum, como ódio ou dor, e todos são providos dos mesmos membros e regidos por um mesmo funcionamento físico e mental. A água pode pingar em diversos lugares de uma mesma gruta, e orná-la com estalactites das mais inusitadas. Continuarão, e gostaria que alguém me provasse o contrário, sendo estalactites. A natureza ama a repetição; há ordem no seu processo, e uma de suas leis é querer sempre se imitar a si mesma. Ela desconhece a reflexão – por isso ela não nega nem cinde, apenas adere. As leis existem, ainda que não sejam evidentes para nós. Como justificar o império dos mais fortes sobre os mais fracos? Como aquiescer que aqueles tenham o dom inato de subjugar estes, e transformá-los em banquete? Dizer que temos em nós a medida de todas as coisas antes de nascermos, que o conhecimento precede a experiência, é uma crença tola, Sócrates, uma lógica de escravos. Não perscrutamos os meandros dessas leis cruéis. Mesmo assim, você já viu, por acaso, coelhos darem à luz cenouras, centopeias gerarem elefantes, mamões brotarem de macieiras e lagartos nascerem de orquídeas? Digo então, e o digo temendo estar errado, que a natureza não admite o acaso no seu funcionamento. Se o admitisse, todas as coisas poderiam se permutar entre si. A ordem e a divindade não são atores que manipulam os seres como a fantoches. São simplesmente uma tendência à repetição, uma afinidade e uma vontade intrínseca de se procurar pelo mesmo, pelo similar. A isso dou o nome de convergência. É de uma convergência de matérias, forças, funções e formas que nascem minhas esculturas; domino-as até um certo ponto; além dele, algo as rege que já não é a minha vontade, nem as suas. Pelo visto, esse agente abstrato não é o acaso, caro Sócrates, devido aos motivos que enumerei aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus argumentos fazem sentido, embora tenhamos que relevar algumas coisas. Concordo que no acaso não há qualquer tipo de necessidade, e aqueles que acreditam nele creem também, por consequência, que ele está na origem da Criação. Se o universo não foi criado por uma necessidade, não há nada em suas peças que a traga implícita, e todos os exemplos que acabou de dar seriam falaciosos. Não penso assim Fídias. Como você, não creio no acaso, mesmo conhecendo a sua potência. Se você tivesse sido gerado numa noite diferente, sua aparência seria outra. Mas, mesmo assim, continuaria sendo filho dos mesmos pais. Já o que levou seus pais a saírem de casa num dia de inverno e se conhecerem na ágora, continua sendo um mistério. Mas se eles tivessem se encontrado, teriam encontrado alguém muito parecido. O homem, como a natureza, ama o similar, pois sem ele sua vida seria um verdadeiro inferno. O que questiono na sua explanação é que temo que você esteja confundindo afinidade com necessidade. Quem te prova que os elementos só se movem por uma e não por outra dessas categorias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A semente cai do pólen da flor por que ela é afim do terreno que a germine, da mesma forma o leão mata a gazela porque seu ímpeto carnívoro se guia por esse tipo de animal. Daí em diante, é necessário que nasça da semente uma flor da mesma espécie, e que o leão transforme a sua presa em energia, caso contrário tudo isso perderia a razão de ser, e não passaria de um passatempo e uma distorção dos fatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E qual é o grande árbitro que rege essas necessidades particulares? Deus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto-me motivado a responder que sim, mas logo percebo que estaria simplificando as coisas. Essa é a maior falha do pensamento, Sócrates: ele sempre lida com o que há de discreto na realidade, ou seja, aquilo que ele já transformou em conceito, e para o qual ele já tem alguma explicação. Não busco a sabedoria; exijo a complexidade, o que é, por si só, uma grande ousadia. O estado natural dos seres é a complexidade. Você já pensou que alguém pode passar a vida inteira estudando um tipo de folha e não esgotar um só milímetro de toda a sua potencialidade? Estou cansado de pessoas que falam sobre as coisas. Quero saber como se pensa com as coisas, ou a partir delas. Imagine o que é um olho. Você pode me dar a melhor aula de anatomia, pode me demonstrar uma teoria filosófica das imagens até chegar à composição da luz divina no Empíreo. O olho continuará lá, com seu mistério rebelde, no seu silêncio de quem se nega ser decifrado. O que ocorre se me deparo com uma cor no meu estojo de pintura? O vermelho, por exemplo. O que vem a ser o vermelho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, Fídias, que pergunta cretina. Uma cor, não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não necessariamente. Posso interpretá-la em vários níveis. No nível físico, o vermelho é um conjunto de emissões de raios que, se refratando com a luz numa certa velocidade, é apreendido pela minha retina que o transforma em sinais sensórios que são enviados para o meu cérebro. Assim, tenho uma experiência do vermelho. Mas ele também pode ser uma convenção da linguagem. Se digo “vermelho”, essa palavra inócua, composta por uma articulação de sons, desencadeia em minha mente uma imagem, uma ideia pura que corresponda a todas as ocorrências dessa cor que possa encontrar no meu cotidiano e em meu repertório sensível. Terei assim o vermelho como conceito, que é institucional e faz parte de uma civilização. Posso também pensar o vermelho em uma perspectiva metafísica: há um Vermelho, virtual, puro e ideal, que justifica e fundamenta todos os tons e todos os tipos de vermelho particulares que possam existir no universo criado. Terei então, e enfim, uma ontologia do vermelho. Tudo isso, porém, não passa de circunlóquio e elucubração, Sócrates. Estou sempre traduzindo um termo por outro correlato, e por mais que faça isso não chegarei nunca a saber o que vem a ser o vermelho nele mesmo, sua articulação, sua existência. Nunca chegarei a encarná-lo, única forma efetiva de conhecimento. As coisas nelas mesmas é o que há de mais belo e complexo. Se eu conseguir sequer tocar a sua complexidade, já estarei feliz e realizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como faria isso, Fídias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não criando mais conceitos, mas sim desmanchando os que já existem, como a um novelo ou a uma rede que desfiássemos. Isso nos põe mais próximos da base mesma de toda a vida, que não é a sabedoria, mas a complexidade. Os criadores de sistemas filosóficos são os sujeitos mais tristes desse mundo. Distanciam-se de maneira consciente da multiplicidade do sensível, trocando-a pelo paraíso artificial de um todo orgânico que, não sei se você já sentiu, cheira a naftalina. São comadres que querem bordar sem desfazer o maldito novelo. Farejo nesse gesto algo de sentimentalismo. Ou seja, o hábito de desfrutar dos benefícios sem arcar com as consequências. Como é possível habitar um lugar onde não haja movimento? Como a vida seria possível num lugar desse, Sócrates?  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto a presença dos deuses nessa nossa conversa, Fídias. Sinto que estas palavras vão retumbar através dos séculos. Pena termos nascido nesse lugar onde a discussão das pessoas instruídas mal se distingue dos grunhidos de crianças escolares, e onde os ouvidos dos homens só foram adestrados para os sinos e para sons grosseiros. Quem, nesses milhares de quilômetros de território, é capaz de apreciar matizes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Relegar a Deus o que não compreendemos é ociosidade intelectual maior do que ficar discutindo a sua existência. Da minha parte, apenas reconheço que há algo que me transcende, a mim e a meus atos, porque as criaturas são independentes umas das outras. Se nem aquilo que minhas mãos produzem me pertence, se nem no ato mesmo de o produzir eu o domino, se nem minha própria vida é realmente minha, como poderia descrer desse fato óbvio? A transcendência, caro Sócrates, não é o que está além de nossa vida, mas o que está fora do nosso alcance. O homem é tão obcecado pelo progresso que se esquece que a terra apenas gira, e só quer continuar girando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua vida não é sua? O que você é então? Um boneco animado pelo vento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não é estritamente minha. Essa é a base da lógica dos suicidas, e é uma falácia. Somos impregnados de todos que nos cercam, e também os impregnamos. Se me mato, morrem comigo as pessoas queridas, e acabo matando-as um pouco com minha atitude. Nem os eremitas estão divorciados de tudo: interferem no ambiente onde se escondem dos homens. Reconheço isso sem qualquer delonga ou tristeza, porque em nada o seu reconhecimento fere a minha liberdade. Há muito a associamos ao fato de possuirmos a nós mesmos, ou à integridade da nossa personalidade. Não reconhece a origem dessas palavras, Sócrates? Não percebe que as ideias de posse e integridade não têm nada a ver com o espírito, mas com o comércio e com a moral? O que é uma pessoa íntegra? É aquela que excluiu de si a marca dos seus semelhantes, que se purificou até se tornar única e original. Em suma, que se – higienizou. Reconhece a origem dessas palavras. Percebe que a base de toda tirania não está nos governos, mas nos – indivíduos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fídias, suas palavras já beiram o devaneio. Suas obras não são suas, seus atos não pertencem a você, suas palavras não expressam o que você quer dizer, sua vida não é sua. Daqui a pouco terei que acertar o cajado na sua cabeça para lembrá-lo que existe, e que tem um corpo. Aliás, para lembrar-lhe o que você é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo isso é verdadeiro. Porque temos que entender que nossos atos não começam em nós: já começaram há milênios. Há ecos de tudo o que me precede em cada gesto meu, porque tudo isso converge para mim mas não para em mim. Há em todos os nossos atos, Sócrates, um fantasma. Oriento uma parcela mínima da criação, mas não detenho a Criação. Somos como um dique que molda o percurso de uma correnteza sem interromper nem mudar o seu curso. Quer saber o que cria em mim quando crio? Quer saber como se chama esse agente invisível que eu, em meu ofício, tento tornar visível, já que, em suma, essa é a essência de todo engenho e arte? Que tal – simulacro? É um belo nome. Sugere a Ideia, mas se rebela contra ela. Vale-se das coisas, mas não se prende às coisas. Está aqui e ali ao mesmo tempo, nega o que é, finge ser o que não é, simula o que poderia ser e dissimula o que quer ser realmente. Traz em si todos os mortos, e nasce de mim mas não deixa vestígios do que sou. É coletivo e anônimo, mas só se mostra por intermédio do trabalho de um único homem. E então, Sócrates?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seriam então os simulacros substitutos falsos das coisas, mas transformados por um impulso à ordem e pelas leis da representação? Aquilo que você gera, mas que extravasa tanto você quanto seu ato? Aquilo que é equidistante da essência e da cópia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exatamente aquilo que nos faz eternos, porque é o elo entre os seres mortais e imortais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A propósito, Fídias, ontem tive uma experiência singular. Fazendo a minha caminhada matinal, me entretive com alguns cantos de pássaros ao longe. Mudei então a minha rota, e adentrei um pequeno bosque que há na periferia de nossa cidade. Como alguém que por alguns instantes se vê privado da razão, uma névoa tomou conta dos meus pensamentos e os apagou, de tal forma, que andei durante cerca de uma hora a fio me guiando simplesmente pelos estímulos sensórios que me davam as vidas vegetal e animal daquele lugar. Aos poucos, o ruído da cidade foi se dissipando, e fiquei praticamente a sós com aquele concerto amorfo de sons, que iam das árvores tangidas pelo vento ao barulho de insetos e dos meus próprios pés sobre as folhas secas. Tudo isso tinha como corolário raios de sol tênues que rompiam as copas das árvores, todas frondosas e cerradas. Parei; olhei ao redor, e, num átimo, tudo aquilo que me cercava pareceu ir sumindo aos poucos, e me vi num silêncio tão profundo que era capaz de ouvir apenas as batidas do meu coração, dando ritmo àquela paisagem que ora parecia se passar numa película, num pano transparente, do qual eu era o único espectador. Vi que cada coisa que se dispunha e se dava à minha vista tinha uma ordem implícita, que eu não conseguia entender de onde provinha. Durante um momento, talvez um dos mais intensos da minha vida, vi-me completamente destacado de tudo o que me cercava, alheio, como se aquela fosse a primeira vez que o visse. Olhei minhas mãos demoradamente. Era como se até aquele instante eu nunca tivesse tido consciência de que elas eram minhas, e a gravidade implicada nesse fato tão banal. Estamos sempre tão entretidos com efemérides e circunstâncias que mal lembramos do nosso destino, único sobre a superfície da Terra. Agia como se até ali não soubesse que eu realmente existia, o que efetivamente eu era e que, passado o tempo, como todos os seres, o meu se dispersaria e acabaria com a morte. Mas somos apenas uma parte – uma das mais frágeis – da existência. Há algo maior que nos ultrapassa e que guardará resquícios de nós. Tive a convicção de que havia Algo animando cada engrenagem daquela paisagem, bem como a mim, e que a morte seria o fim definitivo daquela representação, mas que esse conjunto de sensações e evidências sensíveis estaria, na verdade, fadado a se repetir eternamente com outros homens, em outros lugares e em outras porções do tempo, este sim impassível à repetição e irremissível, e que, sendo assim, meu ser estava tocando a essência frágil da eternidade, tentando retê-la entre as mãos em concha como quem apreende água corrente com os dedos. Percebi que o tempo se distende e se contrai, e é, como um solo rico em texturas, composto de diversas, infinitas camadas que se movem e se sobrepõem, se misturam e se intercalam, e poucos de nós vivemos em um mesmo tempo. Porque o fato de sermos contemporâneos, Fídias, não quer dizer que vivamos num mesmo tempo. O tempo é como uma dimensão onde compartilhamos mais da amizade dos mortos que dos vivos, e temos, por isso, uma consciência clara do nosso destino, ao ver-nos cara a cara com a dissolução, o esquecimento, a aparência e a morte. Você vê aquele senhor cruzando a rua? Notou a expressão dele? Dos seus gestos você pode inferir os seus hábitos, não pode? E então, Fídias? O que você tem a ver com aquele homem? Há mortos muito mais presentes em nós do que estes fantasmas que nos cercam. São muito raras as vezes em que estamos diante das questões essenciais do homem; passamos todas nossas horas, às vezes até nossas vidas, nos esquivando desse tipo de espelho que reproduz a caveira que somos. Porque a atividade é a melhor forma de alívio, o melhor remédio contra a nossa limitação e a melhor saída para nos evitarmos, e assim vivermos nos outros e nas coisas mais do que em nós mesmos. Só depois pude perceber o que ocorreu comigo naquele bosque. Diante da eternidade, somos todos espectros e vultos anônimos, sem qualquer substância. Por um instante possuí o meu tempo, e deixei, suspenso, de ser uma figuração do acaso e uma cinza apagada nos séculos. Essa é a única redenção: não quando criamos algo que transcende a nossa contingência e sobreleva a história e o espírito de época, mas quando podemos saber que tudo volta, e que viveremos, em outra dimensão, essas mesmas coisas que vivemos aqui e agora; que o sobrenatural não é uma deformação produzida pelo sonho, mas o ato de tocar as coisas sabendo que elas nos esperam no futuro. Estamos tão apartados do mistério que ele se nos revela estranho, alheio e inviável. Estou farto dessas mentes lerdas e obesas que mal sabem andar e já querem dançar, que mal se bastam sobre as próprias pernas e já querem trotar e alçar voo. Estamos tão cercados pela estupidez que ora ela já virou método e regra. E ainda, no final de tudo, seremos nós os loucos. A apatia do espírito do tempo pesou mais do que nunca sobre esse nosso tempo insosso, intragável e mesquinho, cuja maioria dos habitantes se contentam com a reprodução de meia dúzia de lugares comuns, e os ditos homens instruídos não diferem em nada de uma raposa caricata que acha que nos engana quando no íntimo de nós mesmos, em silêncio, eu e você, Fídias, gargalhamos e os usamos a nosso bel-prazer. Esse é um dos dilemas da eternidade e simultaneidade dos tempos: saber que também isso, a peste agourenta dessa gente incapaz de leveza e desinteresse, também vai se perpetuar e vingar. Afinal, as ervas daninhas também compunham a paisagem daquele bosque oracular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter certeza de que isso vá ocorrer de fato é a maior aspiração do homem. É para isso que ele criou as religiões e as artes, é para isso que ele gera e obra, e que há a ciência e a memória. Nada mais o move sobre a terra. Alguns dizem que o amor e o sexo são os motores da existência. Não creio nisso. Creio que seja a vontade de permanência e constância, de algo que liberte a nossa vida da transitoriedade das coisas sem ter, contudo, nenhum parentesco com a morte. Queremos de fato, mesmo destacados da nossa existência atual e do corpo, nos reencontrar em uma outra forma de vida que se nutra dos resquícios do que fôramos um dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓCRATES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A arte seria então uma revolta silenciosa contra a morte?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍDIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez a sua suspensão temporária, a maneira artificial de libertarmos o espaço e a matéria do domínio do tempo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-1458283798949211396?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/1458283798949211396'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/1458283798949211396'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/fidias-da-criacao.html' title='FÍDIAS: DA CRIAÇÃO'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-7933177964291184959</id><published>2009-11-29T16:44:00.000-08:00</published><updated>2009-11-29T16:45:13.026-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Entrevistas'/><title type='text'>ENTREVISTA PARA EDSON CRUZ - CRONÓPIOS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;1) O que é poesia para você?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em uma entrevista recente, Yves Bonnefoy diz que, quando era jovem, responderia a essa pergunta longamente. Hoje, preferiria o silêncio. Entre a resposta e o quase-silêncio, vejo a poesia como o lado terrível da inocência. Penso nela como uma busca obsessiva de superar toda a contingência. Por isso, a poesia atravessa os limites do instituído até quebrar os seus diques. Essa é sua proximidade essencial com a loucura. O olhar radicalmente inocente é o olhar que se vê e vê tudo de fora. O poeta ama o mundo na mesma proporção em que se sente completamente alheio a ele. Esse paradoxo funda a poesia. É a emoção poética mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2) O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele deve escrever para a poesia, nunca para o poema, para o público ou para si mesmo. Essa é uma maneira de atingir outro lado da vida e da linguagem. Para isso, é preciso fazer a travessia. Mas isso não é possível explicar. Eu mesmo sinto que apenas comecei a minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3) Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pensando na poesia mais recente, ou seja, do último século e meio, em vez de três poetas e três textos, prefiro mencionar três famílias de poetas que admiro. Em primeiro lugar, penso nos órficos, nos poetas da Iniciação, acima de tudo Rilke. Em segundo, nos poetas da Terra: Saint-John Perse, Herberto Helder, Rimbaud, Whitman, Lorca. E em terceiro, nos poetas do Negativo: Trakl, Benn, Celan, Bernhardt, Pessoa. Esse tem sido meu alimento nos últimos anos. Sinto que grande parte do meu interesse pela poesia está em autores dessas naturezas.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-7933177964291184959?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7933177964291184959'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7933177964291184959'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/entrevista-para-edson-cruz-cronopios.html' title='ENTREVISTA PARA EDSON CRUZ - CRONÓPIOS'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-5545454551115903695</id><published>2009-11-29T16:36:00.000-08:00</published><updated>2009-11-29T16:38:29.597-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica'/><title type='text'>O BARRO DO ÉDEN: A POESIA DE ALFREDO FRESSIA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Primeiro filho de Adão e Eva, e, por conseguinte, primeiro homem nascido naturalmente sobre a Terra, pesa sobre Caim a cifra de um enigma e de um destino, ora individual ora coletivo. Embora o seu nome signifique lança e denote a sua origem agricultora, pode ser entendido também, de modo perifrástico, como obter para si, ou seja, ganhar algo para si. Isso que o primogênito tem para si, como depois sabemos, é a inveja. A necessidade de ter, por parte de Deus, a dignidade que ele julga que lhe compete, fato que não ocorre. Por isso o fato último do assassinato. “E porei inimizade entre a tua semente e a sua semente” (Gênesis 3:15), diz Deus, referindo-se à serpente e a Eva. Ora, quer dizer que o mal que nasceu do pecado entre Eva e a serpente se estenderia à semente de Eva (Caim) e a toda a descendência deste (a humanidade).&lt;br /&gt;Porém, alguns comentadores eruditos sugerem que um dos sentidos simbólicos desse personagem seria o de redentor. Ele teria vindo ao mundo, após o pecado, para matar a serpente e restituir a integridade da vida. Por isso a sua urgência de obter reconhecimento (e aqui a ambigüidade semântica da palavra é oportuna) por parte de Deus. De acordo com essa leitura heterodoxa, haveria um sentido subliminar na figura de Caim. Ele seria o descendente (a semente) que teria vindo ao mundo para aniquilar o mal. Teria sido o primeiro ungido.&lt;br /&gt;Obviamente, na doutrina cristã, a idéia de regeneração da humanidade pela remissão do mal é atributo divino, e só se deu com Jesus. E trata-se de restauração total, não de mera extinção das suas causas mundanas (a serpente). Por isso, Jesus foi aquele “segundo Adão”, de acordo com as palavras do apóstolo Paulo, ou seja, aquele que restaurou integralmente o mundo e o ser por meio de sua encarnação e de sua palavra. Entretanto, não deixam de ser curiosas algumas outras associações simbólicas daquele personagem bíblico. Sabemos que Caim não apresenta arrependimento, mas padece de remorso. Esse fato vem inscrito na famosa “marca de Caim”, que foi estabelecida por Deus, mas cuja execução e natureza não vêm expressas.&lt;br /&gt;Paradoxalmente, essa marca é registro de proteção e de estigma. Denota ao mesmo tempo a eleição divina e a chaga de uma ação ocorrida no passado. É aquilo que distingue Caim como descendente adâmico, marcando um limite de proteção para que ele não seja morto, e o que assinala o seu crime. Essa dupla natureza, protegida e espúria, preservada e infame, tem o intuito de fazer de Caim um dos protagonistas da neutralização do mal do mundo. Afinal, há que se suspender de vez a cadeia das mortes, interromper as quedas que se inauguram com a Queda, das quais Caim representa uma das mais profundas, logo depois da perda do Paraíso, pois em si mesmo mostra a todos a mácula de sua escolha.&lt;br /&gt;Os desdobramentos do enredo, do mythos, muitos de nós sabemos: o exílio, a Terra da Fuga (Nod), a edificação de cidades, uma das quais leva o nome de seu filho Enoc, os primeiros trabalhos com a metalurgia, o crescimento da poligamia e da violência, a suspeita referência ao assassino de Caim, Lemec, que será vingado setenta vezes aquelas que Caim seria vingado, ou seja, setenta vezes sete. Ora, descendem de Caim, passando por Noé, Cam e Nemrod, o fundador de potências como Babilônia e Nínive, além de outras grandes cidades. A descendência de Caim, por outro lado, não é só o dos que constroem e manejam a metalurgia, mas também a dos que tocam cítara e flauta. Além de autores de muralhas feitas à custa de sangue e ferro, são também patronos da cultura e seu refinamento. Em palavras polidas, teria início então a “civilização”, que nada mais é do que a luta dos homens uns contra os outros? A edificação das cidades e, portanto, a ruptura com a relação com a natureza começou pelas mãos do primeiro fratricida? Não cabe discutir aqui os limites tênues entre essas esferas.&lt;br /&gt;A despeito do que o leitor possa estar pensando, essa introdução um tanto idiossincrática se justifica, pois acredito que ela se relacione diretamente à experiência de leitura da poesia de Alfredo Fressia. Poesia rigorosamente edênica, ela não o é no sentido de propor a restauração de uma unidade primeira entre linguagem e mundo, de uma Ursprache poética, como tantos grandes poetas o fizeram e o fazem. Não é também poesia “profana”, no sentido de apagar as marcas da origem que tanto a linguagem quanto a vida trazem em si, no movimento centrífugo da Criação. A cena que se sustenta como pano de fundo de todos os poemas de Fressia é uma cena de intervalo.&lt;br /&gt;Baseia-se na consciência de que a poesia, no seu sentido inicial e dir-se-ia até iniciático, nasce de uma origem pura, porém perdida para sempre, e toma para si a responsabilidade de edificar o mundo, mas apenas depois de estabelecer o seu compromisso com o mal. O poeta é aquela “rosa condenada” (“Mas a rosa”) ao eterno exílio, sempre no limiar, para sempre no umbral. Essa condição intervalar, de radical indecidibilidade, para usar o conceito de Blanchot, faz da via poética uma impossibilidade sustentada. Mais do que um confesso deslocado social, essa situação estrangeira é ontológica. Diz-nos que a poesia, por ser linguagem, está fora do Paraíso, mas, por ser poesia, tampouco compartilha da completa ausência de sentido.&lt;br /&gt;Tanto nos conjuntos de poemas O futuro e Veloz eternidade, quanto no magistral Eclipse e nesta antologia Canto desalojado, recolhida, traduzida e organizada cuidadosamente por Fábio Aristimunho Vargas, a cena caimita não é acessória, tampouco referencial. Ao contrário, pode-se dizer que ela é a estrutura mítica sobre a qual se ergue a poesia de Fressia, é a sua matéria-prima e a sua bússola. Eleito e maldito, assim é a descendência do poeta e assim é a descensão sugerida pela instauração poética. Em termos arquetípicos, tais modulações da Queda são flagrantes até na passagem de um poema a outro.&lt;br /&gt;De saída, já se vê esse movimento nos dois primeiros poemas do livro. Apresentando-se como um “mal-entendido como a alma” e como um “traidor”, desde o poema de abertura, não por acaso intitulado “A última ceia”, o percurso poético é sempre o da reminiscência, com a nostalgia do abandono (a derelicção, como diz Heidegger), e a certeza da redenção impossível. Inútil “como a poesia” é a própria existência do poeta, o mais exilado dos exilados, e, entretanto, marcado com a chancela divina. Da ceia se passa ao diálogo com o pai, em “O medo, pai”, no qual o filho espanta-se ao se reconhecer “preso no corpo”, e define os homens como “filhos obedientes da espécie”, mesma expressão que reaparece no belo e forte fechamento do poema “Obediência”.&lt;br /&gt;Esse fundo mítico, que traz em si sempre a chancela de um mal inexorável e vem na abertura do livro tematizado em forma de remorso, ganha espessura na cena edênica e não se preserva no nível das formas e dos arquétipos. Toma corpo na própria vida, enraizada no cotidiano. Seja ao dizer, de modo babélico, que “todos os idiomas são incompreensíveis” na vasta tristeza noturna, seja mostrando os amantes como “títeres do tempo”, em quartos iluminados de néon (“Noturno na Avenida São João”). Esta paisagem desolada de perda e carência pode se dar na ausência de rosto, que fôra por “sete dias postergado”, no “segredo dos ossos”, no xadrez das vértebras jogadas pela morte (“Domingo à tarde”), na sinfonia da carne, na ruína dos corpos durante o amor e no regresso de cada um desses até “a sua ausência”. Esses corpos não são inodoros ou distantes, não são paisagem, tampouco estáveis permutações de um amor ameno. Eles se dilaceram e se dissipam, deixam marcas, cheiros, pegadas, passos, sêmen, odores, cortes, suor, sangue. Amam-se como peixes, amam-se e se odeia, atravessam-se e se esfolam aos olhares sorridentes da morte. Depois, se por acaso o seu o próprio corpo toma ciência de si, ele dobra-se e se contrai na posição de feto, em seu retorno primevo ao ventre da Criação, como lemos no impecável “Liturgia”.&lt;br /&gt;Esse barro original de onde Fressia modela os seus corpos, além de manchado e impuro, traz algo também de singular. Se observarmos, por exemplo, a temática homoerótica de sua poesia, sinto que podemos desentranhar dela algumas variantes, não só do homoerotismo, mas também da androginia. O enigma da sexualidade, um dos enigmas da vida, é posto de maneira emblemática, entre outros, no poema “Final”. Ao dizer que “encerra todo o ciclo” e que em si “se acaba” e, logo em seguida, “Tirésias contempla o travesti em silêncio”, Fressia passa de uma dimensão literária, de fechamento dos poemas, a uma sexual e existencial, do voltar-se sobre si mesmo, ou seja, do amor ao próprio sexo e do amor a si, como fundo autotélico do desejo que não quer se perder no outro.&lt;br /&gt;Ora, o adivinho Tirésias, tal como se diz de Empédocles, havia experimentado em outras vidas a forma de mulher. Esse feminino que vem inscrito na interioridade do personagem, aliado à cegueira que o veda ao mundo das formas exteriores, é o que promove o visionarismo. O mesmo visionarismo que terá Édipo em Colono, depois de cegado e depois de, na tragédia de Tebas, ter selado seu pacto com a mãe, que é Jocasta e o segredo do eterno feminino. Tem início então o segundo movimento da sinfonia trágica, o conhecimento que se exerce depois da peripécia do reconhecimento.&lt;br /&gt;A função edipiana é subvertida aqui de maneira quase bufa. O cego Tirésias contempla o travesti em silêncio. Quer dizer: as próprias estruturas interiores e exteriores foram embaralhadas, posto não haver aqui mais ambivalência produtiva. Em outras palavras, não há assimilação dos opostos, anima e animus, mas um profeta cego que “contempla” um travesti (o poeta), cujo feminino interior já foi totalmente exteriorizado, posto em potência. Nesse sentido, não há tragédia, pois a tensão dos opostos se resolveu por dissolução. O mesmo modo bifronte de união dos corpos se dá no poema “Belo amor”, no espelhamento de sexos idênticos. Dessas descrições chegamos por fim às de poemas como “Obediência”, verdadeira cidade da carne, onde o corpo e o sexo são pensados em termos puramente negativos, em uma noite que desmorona junto com as coisas.&lt;br /&gt;Belo porque estéril, esse amor que se descreve é propriamente uma tentativa de não procriar a vida fora dos limites do Éden, de deixar-se ali até que a salvação venha cumprir seu destino. Ou não venha nunca. Se a tradição cristã mais ortodoxa viu na sodomia um ato contra naturam é por ela não gerar filhos que possam trabalhar o linho da vida até a redenção da espécie. Em outras palavras, até a completa purificação da marca de Caim que nós herdamos. A boa poesia é sempre violenta, e no caso de Fressia o é, na medida em que propõe um retorno à cena do crime, não para corrigi-lo, mas para revivê-lo e mostrar-nos um espelho, no qual todos nós nos reconheçamos.&lt;br /&gt;Esses corpos não estão presentes apenas em um de seus livros. O que dizer deles, senão que são corpos edênicos, moldados no barro original e no pecado irresoluto que nos funda? Não há aqui intervenção do puro espírito ou o corpo sutil dos místicos. Não há sublimidade, altitude espiritual, pois se não há salvação, tampouco há tragédia. A sua encarnação simbólica em poesia se dá como experiência-limite da própria materialidade, da falta de transcendência que irriga todos os poros deste mundo que ainda não foi salvo. E provavelmente nunca será. E nestes advérbios temporais parece residir todo mistério. Ou melhor, reside um dos enigmas que nunca foram resolvidos: o futuro. No futuro do pretérito de sua poesia, o mundo ainda está para ser salvo. O “futuro era o de antes” era o do “tempo dos meus quinze anos”. Pessimismo cujo tom é um dos mais interessantes, com matizes judaizantes, pode-se dizer, a poesia de Fressia é tão exilada dos lugares nos quais se radica que vê a própria utopia sob a luz do luto.&lt;br /&gt;De fato, em seu livro intitulado justamente O futuro, em especial no engraçado “Teorema”, mais do que uma projeção utópica frustrada, uma distopia ou uma falta de enquadramento social, o que se lê é uma atopia. Não aquela enfadonha, insossa e insone, dos aeroportos (“Aeroportos”), que estão mais para aqueles não-lugares de que nos fala o sociólogo Marc Augé, e são tratadas comicamente. Trata-se, por outro lado, de uma condição estruturalmente incondicional, do poeta e da poesia. Sob essa ótima, que é a de um exílio ontológico, não mais uruguaio ou brasileiro, os lugares e os projetos estão sempre ainda por se realizar. Não existem, e, portanto, nunca existirão. Serão sempre diversos de si mesmo, sendo o centro luminoso de irradiação de sua verdade eternamente inacessível para nós. Por isso, não podemos dizer que algo será salvo por algo ou alguém que ainda não existe nem por aquilo que ainda não há. Se a perspectiva edênica marca seu vínculo com o tempo de antes da salvação, essa salvação que se mostra sempre por vir é eterna. Sendo assim, é também infinita. Não se consuma nunca. É, portanto, inexeqüível e assim carece de essência. Essa é sua parcialidade. Em outras palavras, pode-se dizer que a vida humana está e sempre estará sob o signo dessa parcialidade. Por isso, o centro de toda a poesia de Fressia chega enfim a um termo: o eclipse.&lt;br /&gt;O eclipse como fenômeno natural é simples. Consiste na sobreposição de um dos astros, que oculta a parte luminosa de outro astro, seja o Sol ou a Lua. Mas se eu me surpreendo “ferido pelos astros”, eles impregnam minha carne, misturam-se ao meu sangue. Em uma palavra, são o meu corpo astral, a circulação de meu sangue e de minha linfa, a matéria estelar de que sou feito, como diz a teoria platônica. No poema “Eclipse”, um dos melhores poemas da poesia contemporânea, essa dimensão vem muito marcada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não nos atenhamos a detalhes, isso&lt;br /&gt;era o futuro, já o sabias refugiado no ventre do bisão:&lt;br /&gt;eras homem e mulher, e o céu foi um deserto&lt;br /&gt;onde ardeu meia hora a fogueira fria dos teus ossos,&lt;br /&gt;e estava escrito que não tivera margens nem destino&lt;br /&gt;nem esperança de morrer cercado de teus filhos, o&lt;br /&gt;semicírculo acossado&lt;br /&gt;desde antes de nascer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A marca da origem é anterior à cena mundana, é anterior à próprio proveniência da espécie. Vem inscrita no ocultamento dos próprios astros, que sempre produzem a sua marca profética e são mais fortes do que a nossa vontade ou do que a triste sociologia das revoltas sociais ou de nossas ocupações. Trata-se de uma marca mais profunda: o Estrangeiro dos gnósticos, que nunca pertence a este mundo. Ele vem marcado desde a origem edênica, nos mitos primordiais que fornecem a miséria e a liberdade necessária ao exercício de nossa finitude. Mais que isso, de nossa fatalidade. O poeta, e aqui não falo em termos literários, mas falo sim de Alfredo Fressia, de carne e osso, já fora “acossado desde antes de nascer”. O futuro “era o de antes”, era o que ainda não existiu e não existirá nunca, pois não tem essência.&lt;br /&gt;Homem e mulher, conjunção de sol e lua, de masculino e feminino, de gregos e persas, queimado em meio a um gélido deserto, sem esperança de deixar descendência que não a poesia e o signo de Caim que traz consigo e não se limpa, seja no eclipse de Tebas, no da batalha de Salamina ou no de Montevidéu. O retorno à cena primordial ganha ainda mais espessura, pois agora retroage ao fundamento metafísico e cósmico dos astros, em sua conjunção maléfica. Como diz Fernando Pessoa em um dos sonetos ingleses, o seu eu é anterior ao mundo e anterior até mesmo a Deus. Por isso, vive a desolação de saber-se sempre alheio a tudo que o cerca. O intuito do poeta é refazer essa peregrinação inversa, essa reminiscência às origens obscuras de onde provém a sua verdade.&lt;br /&gt;Tal recuperação não é vivida como miséria, como desespero ou como autoglorificação; não estamos diante de um dândi que se apostasia anacronicamente na transgressão, nem de uma mistificação inócua do lado oposto da vida. O resultado último do percurso levado a cabo por Fressia é uma espécie de desilusão essencial. O remorso prossegue, porque não há redenção; mas, por maior que seja o peso do nefasto eclipse que nos condena, não há sequer tragédia, porque o destino quis que nós nos desviássemos e nos transviássemos para virmos a conhecer a vida e edificar o mundo, com suas torpezas e maravilhas.&lt;br /&gt;O rito final dessa mise-en-scène prossegue nos belíssimos poemas inéditos: “Nugatória”, “Inveja” e “Rua Rondeau”. Estes, somados a poemas como “Liturgia” e “Obediência”, bem como a quase todos os poemas selecionados de Eclipse, estão entre os melhores poemas escritos nas últimas décadas, no Brasil e quiçá em castelhano. No magistral “Penitência”, lemos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero voltar ao ventre&lt;br /&gt;e velo imóvel sobre a teia de aranhas venenosas. Conto-as&lt;br /&gt;uma por uma, até que sucumbam famintas como pensamentos.&lt;br /&gt;Rezo. A goteira não cede na cozinha. Recostado&lt;br /&gt;sou branco e gigante como o arrependimento. Vivo para pedir.&lt;br /&gt;Perdão pela memória porosa da areia, perdão&lt;br /&gt;se afundo meu ouvido no travesseiro de plumas&lt;br /&gt;e me ouço flutuar atrás da muralha, Amém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O retorno ao ventre se dá não como aconchego, mas como úlsão de morte, pois o ventre é “o velo imóvel sobre a teia de aranhas venenosas”. E se o poeta é “branco e gigante como o arrependimento”, por ter ciência da sua marca fundadora, sua vida e sua escrita não deixa de ser, por seu lado, também um extenso “perdão pela memória porosa da areia”. Nesta série, o tema bíblico, praticamente apenas sugerido nos primeiros poemas e aprofundado nos demais, toma corpo e vem à luz com todas as letras em “Nugatória”, com a “quebra da inocência”, porque “é polpa amarga o coração do fruto” e também porque chegamos “tarde à colheita dos filhos de Eva”. E, mais adiante, em “Poeta no Éden”, lemos a bela abertura:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, Senhor,&lt;br /&gt;nunca fugirei do Paraíso, tenho em mim&lt;br /&gt;o leite eterno dos pais e dos filhos,&lt;br /&gt;e escrevo poemas para a saudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, o poeta nos fala do “menino imenso” que docilmente escreve “no barro do Éden”, passando logo em seguida a um colóquio entre ele mesmo e o invejoso, “estendidos sobre a grama” e “fingindo certa glória”. A visão caimita ora é a do outro ora a do próprio poeta, mas nunca sai de cena. Caim aparece, seja como o próprio poeta, seja em forma dialogal, neste poema intitulado justamente “Inveja”. Essa glória é um artifício, uma tentativa de isenção e soberania que não há. Porque depois do Paraíso confiscado, resta-nos apenas o modelo histriônico e postiço, desenhado em “serpentes de néon”: Next Paradise.&lt;br /&gt;Resta-nos simplesmente o futuro, que não se sabe utópico e exeqüível ou uma mera boutade para aliviar um remorso sem cura. Em seguida, o desejo de voltar às “nêsperas da infância” (“Rua Rondeau”). Mas o retorno não consente um acesso à veracidade das coisas, pois o tempo passado também é um mundo. Este, por sua vez, é um pião de mentiras, girando na “vista noturna do tempo da minha infância” (“Cartão postal”). O poeta em estado natural está no Éden e ao mesmo tempo caminha pelas ruas e é corrupto. A linguagem é seu Paraíso, mas a sua natureza é modelada no barro impuro da Criação.&lt;br /&gt;Para finalizar o livro, nada melhor do que “Rua Rondeau”. O caminhar leve pela rua, levando “os filhos que não tivera sob o casaco”, faz Fressia sentir todas as virtualidades, o que não houve, mas persiste, entrelaçado eternamente à sua vida. O mito, nesse sentido, também é um misto de virtual e atual, de presença pura e de origem para sempre perdida em um passado irrecuperável. A consciência do poeta é a de que não há reconciliação possível. Mas há a tentativa de ao menos dignificar a sua condição neste mundo manchado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou desde as abóbadas da cidadela,&lt;br /&gt;onde agora me refugio, embalo&lt;br /&gt;os meus filhos não nascidos&lt;br /&gt;e abraço os joelhos&lt;br /&gt;de todas as estátuas na estação central&lt;br /&gt;para que não me expulsem, nem impregnem minha terra com sal estéril&lt;br /&gt;nem maldigam outra vez minha estirpe&lt;br /&gt;para as sete gerações&lt;br /&gt;que vigiam meu poema&lt;br /&gt;e torne a cumprir minha cerimônia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tom elegíaco e passional é proporcional ao tema, corolário do livro e de uma poética. E aqui é introduzido um novo leitmotiv: o tema igualmente bíblico da mulher de Loth. Pois senão, de onde surgiram essas referências ao sal como elemento estéril e punitivo? Ao ser convocada a deixar Sodoma, cidade da devassidão, sem olhar para trás, ainda assim a mulher de Loth não pôde conter-se e foi transformada em uma estátua de sal. O mesmo mitema de Orfeu é chancelado aqui para o poeta, mas em outra chave. Impelido a sair do Paraíso como a mulher o fora de abandonar Sodoma, o poeta (Caim) se recusa, deliberadamente, a fazê-lo. Ao contrário, afronta o destino que se lhe pesa. Quer a sua cidade, a sua estirpe, a sua vida de volta. Quer livrar-se da culpa eterna, na qual ele, tal como Caim, se vira marcado por “sete gerações”, também tal como a referência bíblica. Os deuses que vigiam o seu poema tornarão a cumprir a cerimônia. Esta é a cerimônia do exílio. E este, a essência da radicação última do poeta e da poesia no mundo.&lt;br /&gt;Abraçado às estátuas e à cidadela, ou seja, às edificações que a maldição o levou a executar. E depois, a amar. Os ingênuos chamam enfaticamente esses signos de “cultura”. Para o poeta, eles são o seu destino, o seu alimento e a sua fatalidade. Sabe que estabeleceu um compromisso com o mal para escrever cada um de seus versos e para erguer cada um dos tijolos de sua cidade. Mas depois, aprendeu a amá-los, como ama a poesia, que é a inscrição de sua expulsão e de seu irremediável destino. Em seu fracasso, sente-se no mais íntimo de si mesmo. Pois a poesia é pharmakon, remédio e veneno, mysterium tremendum e mysterium fascinans, como reza toda a rigorosa aproximação com o sagrado, que une em si o fasto e o nefasto, a experiência do puro e do impuro, em proporções iguais.&lt;br /&gt;Ao fim e ao cabo, decifro a Esfinge. Nesse umbral, vejo Alfredo Fressia, bifronte. Diz-nos que o passado é irremediável e o futuro não existe. O que você nos pede, não é o alívio do arrependimento, nem a suspensão da miséria original que nos constitui, a mim, a todos nós e a você, Fressia. Pois ela é o barro fundamental do que somos. O que você pede é que a sua cerimônia nunca deixe de se cumprir. E que sempre saibamos que nossa vida não começou no dia de nosso nascimento, mas muito antes, em uma caminhada a leste do Éden, no primeiro eclipse ou no lado escuro das estrelas. E pode acreditar que assim será, em sua poesia, in saeculum saeculorum, indefinidamente.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Versão Espanhol:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/o-barro-do-eden-poesia-de-alfredo.html"&gt;http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/o-barro-do-eden-poesia-de-alfredo.html&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-5545454551115903695?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/5545454551115903695'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/5545454551115903695'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/o-barro-do-eden-poesia-de-alfredo.html' title='O BARRO DO ÉDEN: A POESIA DE ALFREDO FRESSIA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-2990896802959369578</id><published>2009-11-29T16:32:00.000-08:00</published><updated>2009-11-29T16:43:18.567-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica'/><title type='text'>EL BARRO DEL ÉDEN: LA POESÍA DE ALFREDO FRESSIA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Primer hombre nacido naturalmente sobre la Tierra, pesa sobre Caín la cifra de un enigma y de un destino, ora individual ora colectivo. Aunque su nombre signifique lanza y denote su origen agricultor, puede ser entendido también perifrásicamente como obtener, o ganar para sí. Algunos eruditos sugieren sin embargo que uno de los sentidos simbólicos de ese personaje sería el de redentor. Habría venido al mundo después del pecado para matar la serpiente y restituir la integridad de la vida. De ahí su urgencia en obtener reconocimiento (y aquí es oportuna la ambigüedad semántica) por parte de Dios. De acuerdo con esa lectura heterodoxa, habría un sentido subliminar en la figura de Caín. Sería la semilla que habría venido al mundo para aniquilar el mal. Habría sido el primer ungido. Por otro lado, sabemos que Caín no manifiesta arrepentimiento, aunque sí padezca de remordimiento. El hecho estaría inscrito en la famosa “marca de Caín”, hecha por Dios, pero cuya ejecución y naturaleza no están especificadas en el relato bíblico.&lt;br /&gt;Paradójicamente esa marca será un registro de protección y de estigma. Denota al mismo tiempo la elección divina y la llaga de una acción ocurrida en el pasado. Es lo que distingue a Caín como descendiente adámico, marcando un límite de protección para que no sea asesinado, lo que señala su propio crimen. Esa doble naturaleza, protegida y espuria, preservada e infame, querría hacer de Caín uno de los protagonistas de la neutralización del mal en el mundo. Era preciso suspender la cadena de muertes, interrumpir las caídas que se habían inaugurado con la Caída, de las que Caín representa una de las más profundas, después de la pérdida del Paraíso, ya que en sí mismo exhibe su mácula. Conocemos la continuación de la intriga en el mythos.&lt;br /&gt;Creo que se justifica esta introducción, un tanto idiosincrásica, a la poesía de Alfredo Fressia pues se relaciona a la experiencia de lectura de esa obra. Poesía rigurosamente edénica, no lo es sin embargo en el sentido de proponer la restauración de una unidad perdida entre lenguaje y mundo, de una Ursprache poética, como lo hicieron y lo hacen tantos poetas. Tampoco es poesía “profana”, en el sentido de borrar las marcas del origen que traen consigo tanto el lenguaje como la vida en el movimiento centrífugo de la Creación. La escena que se sustenta como telón de fondo de todos los poemas de Fressia es una escena de intervalo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POETA EXILIADO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se basa en la conciencia de que la poesía, en su sentido inicial y aun iniciático, nace de un origen puro, pero perdido para siempre, y toma para sí la responsabilidad de edificar el mundo, pero después de establecer su compromiso con el mal. El poeta es esa “rosa condenada” (“Pero la rosa”) al eterno exilio, siempre en el límite o en el umbral. Esa condición de intervalo, de radical indecidibilidad, para usar el concepto de Blanchot, hace de la vía poética una imposibilidad sustentada. Más que de un dislocado social, esa situación extranjera es ontológica. Nos dice que la poesía, por ser lenguaje, está fuera del Paraíso pero, por ser poesía, tampoco comparte la completa ausencia de sentido.&lt;br /&gt;Tanto en los conjuntos de poemas de El futuro y Veloz eternidad, como en la magistral serie Eclipse, la escena de Caín no es accesoria ni meramente referencial. Al contrario, se puede decir que ella es la estructura mítica sobre la que se levanta la poesía de Fressia, es su materia prima y su brújula. Electa y maldita, así es la desobediencia del poeta y así es el descenso sugerido por la instauración poética. En términos arquetípicos, tales modulaciones de la Caída son explícitas incluso en el pasaje de un poema a otro en Cuarenta poemas o en Canto desalojado, la antología brasileña de la poesía de Fressia organizada por Fabio Aristimunho Vargas.&lt;br /&gt;De entrada, se ve ese movimiento en los dos primeros poemas de ambos libros. Presentándose como un “malentendido como el alma” y como un “traidor”, desde el poema de apertura, justamente llamado “La última cena”, el recorrido poético es siempre el de la reminiscencia, con la nostalgia del abandono (la “derelicción”, como dice Heidegger), y la certidumbre de la imposible redención. Inútil “como la poesía” es la propia existencia del poeta, el más exiliado de los exiliados, y sin embargo portador de la marca divina. De la cena se pasa al diálogo con el padre, en “El miedo, padre”, en el que el hijo se espanta al reconocerse “preso en el cuerpo”, y define a los hombres como “hijos obedientes de la especie”, la misma expresión que reaparecerá en el hermoso y fuerte cierre del poema “Obediencia”.&lt;br /&gt;Ese fondo mítico, que trae consigo la marca de un mal inexorable, cobra espesura en la escena edénica y no se queda al mero nivel de las formas y los arquetipos. Toma cuerpo en la propia vida, enraizada en lo cotidiano. Sea al decir, babélicamente, que “todos los idiomas son incomprensibles” en la vasta tristeza nocturna, sea mostrando a los amantes como “títeres del tiempo”, en cuartos iluminados de neón (“Nocturno en la avenida São João”). Este paisaje desolado de pérdida y carencia puede darse en la ausencia de rostro, “siete días postergado”, en el “secreto de los huesos”, en el ajedrez de las vértebras jugado por la muerte (“Domingo por la tarde”), en la sinfonía de la carne, en la ruina de los cuerpos durante el amor y en el regreso de cada uno de esos “hasta su ausencia”. Esos cuerpos no son inodoros o distantes, no son paisaje, tampoco estables permutas de un amor ameno. Más bien se dilaceran y se disipan, dejan marcas, olores, huellas, pasos, semen, olores, cortes, sudor, sangre. Se aman como peces, se aman y se odian, se atraviesan y se despellejan frente a la mirada sonriente de la muerte. Después, si por acaso su propio cuerpo toma conciencia de sí, se pliega y se contrae en la posición fetal, en su retorno primero al vientre de la Creación, como se lee en el impecable “Liturgia”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EL ENIGMA DEL SEXO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ese barro original desde donde Fressia modela sus cuerpos, además de manchado e impuro, trae también algo singular. So observamos, por ejemplo, la temática homoerótica de su poesía, podemos desentrañar de ella algunas variantes no sólo del homoerotismo sino también de la androginia. El enigma de la sexualidad, uno de los enigmas de la vida, está planteado de manera emblemática, entre otros, en el poema “Final”. Al decir que “cierra todo ciclo” y que en sí “se acaba” y, enseguida, “Tiresias contempla al travestí en silencio”, Fressia pasa de una dimensión literaria, del cierre de los poemas, a una dimensión sexual y existencial del volverse sobre sí mismo, o sea, del amor al propio sexo y del amor a sí, como fondo autotélico del deseo que no quiere perderse en el otro.&lt;br /&gt;El adivino Tiresias, tal como se dice de Empédocles, había probado en otras vidas la forma de mujer. Esa parte femenina que viene inscrita en la interioridad del personaje, aliado a la ceguera que lo veda al mundo de las formas exteriores, es lo que promueve el visionarismo. El mismo visionarismo que tendrá Edipo en Colono, después de cegado y de haber sellado su pacto con su madre, que es Yocasta y el eterno femenino. Tiene inicio entonces el segundo movimiento de la sinfonía trágica, el conocimiento que se ejerce después de la peripecia del reconocimiento.&lt;br /&gt;La función edipiana es subvertida aquí de manera casi burlesca. El ciego Tiresias contempla al travesti silencioso. Esto es, las propias estructuras interiores y exteriores se mezclaron, visto ya no haber más aquí ambivalencia productiva. En otras palabras, no hay asimilación de los opuestos, anima y animus, sino un profeta ciego que “contempla” a un travesti, cuyo femenino interior ya fue totalmente exteriorizado, puesto en potencia. En ese sentido, no hay tragedia, pues la tensión de los opuestos se resolvió por disolución. El mismo modo bifronte de unión de los cuerpos se da en el poema “Bello amor”, en ese espejeo de sexos idénticos. De esas descripciones llegamos por fin a las de poemas como “Obediencia”, verdadera ciudad de la carne, donde el cuerpo y el sexo son pensados en términos puramente negativos, en una noche que desmorona junto a las cosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CUERPOS DEL BARRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bello porque estéril, ese amor que se describe es propiamente una tentativa de no procrear la vida fuera de los límites del Edén, de estarse allí hasta que la salvación venga a cumplir su destino. O no venga nunca. Si la tradición cristiana más ortodoxa vio en la sodomía un acto contra naturam es porque no genera hijos que puedan trabajar el lino de la vida hasta la redención de la especie. O, dicho de otro modo, hasta la completa purificación de la marca de Caín que todos heredamos. La buena poesía es siempre violenta, y en el caso de Fressia lo es en la medida que propone un retorno a la escena del crimen, no para corregirlo, sino para revivirlo y mostrarnos un espejo en el que todos nos reconozcamos.&lt;br /&gt;Esos cuerpos no están presentes sólo en uno de sus libros. ¿Qué decir de ellos sino que son cuerpos edénicos, moldados en el barro original y en el pecado irresoluto que nos funda? No hay aquí intervención del puro espíritu o del cuerpo sutil de los místicos. No hay sublimidad, altitud espiritual, pues si no hay salvación tampoco hay tragedia. Su encarnación simbólica en poesía se da como experiencia-límite de la propia materialidad, de la falta de trascendencia que irriga todos los poros de este mundo que aún no fue salvo. Y probablemente nunca lo será. Y en estos adverbios temporales parece residir todo el misterio. O mejor, reside uno de los enigmas que nunca fueron resueltos: el futuro. En el “futuro del pasado” de su poesía, el mundo todavía espera ser salvo. El “futuro era el de antes” era el del “tiempo de mis quince años”. Con ese pesimismo cuyo tono es uno de los más interesantes, con matices judaizantes, se puede decir que la poesía de Fressia es tan exiliada de los lugares en los que radica que ve la propia utopía bajo la luz del luto.&lt;br /&gt;De hecho en su libro justamente intitulado El futuro, en especial en el gracioso “Teorema”, más que una proyección utópica frustrada, una distopía o una falta de encuadramiento social, lo que se lee es una atopía. No aquella fastidiosa, insulsa e insomne de los aeropuertos (“Aeropuertos”), que están más para los no-lugares de que nos habla el sociólogo Marc Augé, y que son tratados cómicamente. Se trata, por otro lado, de una condición estructuralmente incondicional, del poeta y de la poesía. Bajo esa óptica, que es la de un exilio ontológico, ya no más uruguayo o brasileño, los lugares y los proyectos siempre están por realizarse. No existen, y por lo tanto, nunca existirán. Serán siempre diversos de sí mismos, permaneciendo el centro luminoso de irradiación de su verdad eternamente inaccesible para nosotros. Por eso, no podemos decir que algo será salvo por algo o alguien que aún no existe. Si la perspectiva edénica marca su vínculo con el tiempo de antes de la salvación, esa salvación que se muestra siempre por venir es eterna. Así siendo, es también infinita. No se consuma nunca. No se puede por tanto ejecutar y así carece de esencia. Esa es su parcialidad. Así, se puede decir que la vida humana está y siempre estará bajo el signo de esa parcialidad. Por eso, el centro de toda la poesía de Fressia llega en fin a un término: el eclipse.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;EL ECLIPSE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;El eclipse como fenómeno natural es simple. Consiste en la superposición de uno de los astros, que oculta la parte luminosa de otro astro, sea el Sol o la Luna. Pero si me sorprendo “herido por los astros”, ellos impregnan mi carne, se mezclan a mi sangre. En una palabra, son mi cuerpo astral, la circulación de mi sangre y de mi linfa, la materia estelar de la que soy hecho:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No nos fijemos en detalles, eso&lt;br /&gt;era el futuro, ya lo sabías refugiado en el vientre del bisonte:&lt;br /&gt;eras hombre y mujer, y el cielo fue un desierto&lt;br /&gt;donde ardió media hora la fogata fría de tus huesos,&lt;br /&gt;y estaba escrito que no hubiera bordes ni destino&lt;br /&gt;ni esperanza de morir cercado de tus hijos, el semicírculo acosado&lt;br /&gt;desde antes de nacer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;La marca del origen es anterior a la escena mundana, es anterior a la misma proveniencia de la especie. Viene inscrita en el ocultamiento de los propios astros, que siempre producen su marca profética y son más fuertes que nuestra voluntad o que la triste sociología de las rebeliones sociales y de nuestras ocupaciones. Se trata de una marca más profunda: el Extranjero de los gnósticos, que nunca pertenece a este mundo. Está marcado desde el origen edénico, en los mitos primordiales que fornecen la miseria y la libertad necesaria al ejercicio de nuestra finitud. Más aun, de nuestra fatalidad. El poeta, y aquí no hablo en términos literarios, sino del Alfredo Fressia de carne y hueso, ya había sido “acosado desde antes de nacer”. El futuro “era el de antes”, era lo que aún no existió y no existirá nunca, pues no tiene esencia.&lt;br /&gt;Hombre y mujer, conjunción de sol y luna, de masculino y femenino, de griegos y persas, quemado en medio de un gélido desierto, sin esperanza de dejar descendencia que no sea la poesía y el signo de Caín que trae consigo y no se limpia, sea en el eclipse de Tebas, en el de la batalla de Salamina o en el de Montevideo. El retorno a la escena primordial cobra aun más espesura pues ahora vuelve al fundamento metafísico y cósmico de los astros, en su conjunción maléfica. Como dice Fernando Pessoa en uno de los sonetos ingleses, su yo es anterior al mundo y anterior aun a Dios. Por eso vive la desolación de saberse siempre ajeno a todo lo que lo rodea. La intención del poeta es rehacer esa peregrinación inversa, esa reminiscencia a los orígenes oscuros de donde proviene su verdad.&lt;br /&gt;Tal recuperación no es vivida como miseria, como desespero o como autoglorificación; no estamos frente a un dandi que se apostasía anacrónicamente en la trasgresión, ni frente a una mistificación inocua del lado oscuro de la vida. El resultado último del recorrido llevado a cabo por Fressia es una especie de desilusión esencial. El remordimiento prosigue, porque no hay redención; pero, por mayor que sea el peso del nefasto eclipse que nos condena, no hay siquiera tragedia, porque el destino quiso que nos desviáramos y nos descarriáramos para llegar a conocer la vida y edificar el mundo, con sus bajezas y maravillas.&lt;br /&gt;El rito final de esa mise-en-scène prosigue en los hermosísimos poemas inéditos: “Nugatoria”, “Envidia”, “Poeta en el Edén”, “Calle Rondeau”. Estos, sumados a poemas como “Liturgia” y “Obediencia”, así como casi todos los poemas de la serie Eclipse, están entre los mejores poemas escritos en las últimas décadas, en Brasil y quizá en castellano. En el magistral “Penitencia” leemos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(…) Quiero volver al vientre&lt;br /&gt;y velo inmóvil sobre la tela de arañas venenosas. Las cuento&lt;br /&gt;una por una, hasta que sucumban hambrientas como pensamientos.&lt;br /&gt;Rezo. La gotera no cede en la cocina. Acostado&lt;br /&gt;soy blanco y gigante como el arrepentimiento. Vivo para pedir.&lt;br /&gt;Perdón por la memoria porosa de la arena, perdón&lt;br /&gt;si hundo mi oído en la almohada de plumas&lt;br /&gt;y me oigo flotar tras la muralla, Amén.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;En los poemas a partir de Eclipse, el tema bíblico, prácticamente apenas sugerido en los primeros poemas y profundizado en los demás, toma cuerpo y viene a luz con todas la letras en “Nugatoria”, con la “cabeza rota de la nuez o la inocencia”, porque “es pulpa amarga el corazón del fruto” y llegamos “tarde/ a la cosecha de los hijos de Eva”. Y más adelante, en “Poeta en el Edén”, leemos la bella apertura:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No, Señor,&lt;br /&gt;nunca huiré del Paraíso, tengo en mí&lt;br /&gt;la leche eterna de los padres y los hijos,&lt;br /&gt;y escribo poemas para la nostalgia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;En seguida el poeta nos habla del “niño inmenso” que dócilmente escribe “en el barro del Edén”, pasando luego a un coloquio entre él mismo y el envidioso, “tendidos sobre el césped” y “fingiendo cierta gloria”. La visión de Caín es ora del otro, ora del propio poeta, pero nunca sale de escena. Caín aparece, sea como el propio poeta, sea en forma dialógica, en ese poema justamente llamado “Envidia”. Esa gloria es un artificio, una vana tentativa de una soberanía que no existe. Porque después del Paraíso confiscado sólo nos resta el modelo histriónico y postizo, dibujado en “serpientes de neón”: Next Paradise.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LA ESTATUA DE SAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos queda simplemente el futuro, que no se sabe utópico y ejecutable, mera boutade para aliviar un remordimiento sin cura. En seguida, el deseo de volver a los “nísperos de la infancia” (“Calle Rondeau”). Pero el retorno no consiente un acceso a la veracidad de las cosas, pues el tiempo pasado también es un mundo. Este, a su vez, es un “trompo de mentiras”, girando en la “vista nocturna del tiempo de mi infancia” (“Tarjeta postal”). El poeta en su estado natural está en el Edén y al mismo tiempo camina por las calles y es corrupto. El lenguaje es su Paraíso, pero su naturaleza está modelada en el barro impuro de la Creación.&lt;br /&gt;Para finalizar toda antología (inclusive la brasileña) de la poesía de Fressia, nada mejor que “Calle Rondeau”. El leve caminar por la calle, llevando “los hijos no nacidos bajo el saco” nos hace sentir todas las virtualidades, lo que no hubo, pero persiste, entrelazado eternamente a su vida. El mito, en ese sentido, también consiste en una mezcla de lo virtual y lo actual, de presencia pura y de origen perdido para siempre en un pasado irrecuperable. La conciencia del poeta es la de que no hay reconciliación posible. Pero sí hay la tentativa de al menos dignificar su condición en este mundo manchado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(…) O desde las bóvedas de la ciudadela,&lt;br /&gt;adonde ahora me refugio, acuno&lt;br /&gt;a mis hijos no nacidos&lt;br /&gt;y me abrazo a las rodillas&lt;br /&gt;de todas las estatuas en la estación central&lt;br /&gt;para que no me expulsen, ni impregnen mi tierra con sal estéril&lt;br /&gt;ni maldigan otra vez mi estirpe&lt;br /&gt;por las siete generaciones&lt;br /&gt;que vigilan mi poema&lt;br /&gt;y vuelva a cumplir mi ceremonia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;El tono elegíaco y pasional es proporcional al tema, corolario de una poética. Y aquí se introduce un nuevo leitmotiv: el del tema igualmente bíblico de la mujer de Lot. Si no, ¿de dónde surgieron esas referencias a la sal como elemento estéril y punitivo? Al ser convocada a dejar Sodoma sin mirar atrás, la mujer de Lot no puede contenerse y quedó transformada en estatua de sal. El mismo mitema de Orfeo es recuperado aquí para el poeta, pero en otra clave. Impelido a salir del Paraíso, como lo fuera la mujer a abandonar Sodoma, el poeta (siempre Caín) se rehúsa deliberadamente a hacerlo. Al contrario, enfrenta al destino, quiere su ciudad, su estirpe, su vida de vuelta. Quiere librarse de la culpa eterna en que, tal como Caín, se viera marcado “por siete generaciones”. Los dioses que vigilan su poema volverán a cumplir la ceremonia. Esta es la ceremonia del exilio. Y esa, la esencia de la ubicación última del poeta y de la poesía en el mundo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Versão Português:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/o-barro-do-eden-poesia-de-alfredo.html"&gt;http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/o-barro-do-eden-poesia-de-alfredo.html&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-2990896802959369578?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/2990896802959369578'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/2990896802959369578'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/el-barro-del-eden-la-poesia-de-alfredo.html' title='EL BARRO DEL ÉDEN: LA POESÍA DE ALFREDO FRESSIA'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-388644690926502704</id><published>2009-11-19T10:07:00.000-08:00</published><updated>2009-11-19T10:11:10.518-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesia'/><title type='text'>POEMAS ÓRFICOS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;LÂMINAS DE OURO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Oferendas tumulares&lt;br /&gt;Creta e Tessália&lt;br /&gt;Século V a II a.C.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tradução: Rodrigo Petronio&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Este dito da Memória é sagrado:&lt;br /&gt;quando, porventura, você morrer,&lt;br /&gt;acharás à esquerda da morada do Hades uma fonte,&lt;br /&gt;e erguendo-se ao lado dela um branco cipreste.&lt;br /&gt;Desta fonte não te aproximes.&lt;br /&gt;Depois encontrarás outra, a do Lago da Memória,&lt;br /&gt;fresca água que segue fluindo, e há sentinelas diante dela.&lt;br /&gt;Diz: “Eu sou criatura da Terra e do Céu estrelado;&lt;br /&gt;mas minha raça é apenas do Céu. Isso vós sabeis.&lt;br /&gt;Porém me consumo de sede e pereço. Dai-me rapidamente&lt;br /&gt;a fria água que flui do Lago da Memória”.&lt;br /&gt;E eles mesmos te darão de beber da fonte sagrada.&lt;br /&gt;E depois entre os demais heróis terás o domínio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Consumo-me de sede e pereço. Mas dá-me de beber&lt;br /&gt;da fonte sempre fluente da direita, onde está o cipreste.&lt;br /&gt;Quem és tu?&lt;br /&gt;De onde és?&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=868545205926591106#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt; − Eu sou o filho da Terra e do Céu estrelado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;Mas tão logo o espírito deixou a luz do sol,&lt;br /&gt;vê à direita até onde pode ir, sendo em tudo muito cauteloso.&lt;br /&gt;Salve, tu que sofreste o sofrimento. Isto tu nunca sofreste antes.&lt;br /&gt;Tu te converteste de homem em deus&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=868545205926591106#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;[2]&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;Um cabrito és, mergulhado no leite.&lt;br /&gt;Salve, salve tu, que viajas pelo caminho da direita,&lt;br /&gt;por sagradas pradarias e pequenos bosques de Perséfone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;Venho dentre os puros, ó pura Rainha dos subterrâneos&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=868545205926591106#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;[3]&lt;/a&gt;,&lt;br /&gt;e Eucles&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=868545205926591106#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;[4]&lt;/a&gt; e Eubúleo&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=868545205926591106#_ftn5" name="_ftnref5"&gt;[5]&lt;/a&gt; e outros deuses e dáimons:&lt;br /&gt;também confesso que sou da vossa estirpe bem-aventurada.&lt;br /&gt;Paguei a pena por feitos ímpios,&lt;br /&gt;ou porque a Moira&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=868545205926591106#_ftn6" name="_ftnref6"&gt;[6]&lt;/a&gt; me pôs sob os deuses imortais&lt;br /&gt;ou o Fulgurante como o raio das estrelas arrojado.&lt;br /&gt;Escapei do doloroso e triste círculo&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn7" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=868545205926591106#_ftn7" name="_ftnref7"&gt;[7]&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;Tomei a desejada coroa com pés velozes.&lt;br /&gt;Fundi-me sob o seio da Soberana, Rainha do Hades.&lt;br /&gt;E agora venho como suplicante à sagrada Perséfone,&lt;br /&gt;para que por sua graça me envie às sedes dos Santificados.&lt;br /&gt;− Feliz e bem-aventurado, tu serás deus em vez de mortal.&lt;br /&gt;Cabrito, mergulhado no leite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;Ela vem dentre os puros, ó pura Rainha dos subterrâneos,&lt;br /&gt;e Eucles e Eubúleo, filho de Zeus. “Recebe aqui o dom&lt;br /&gt;da Memória, tão celebrado entre os homens”.&lt;br /&gt;Cecília Secundina, vem, pela lei levada a ser divina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=868545205926591106#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Possível remissão à estrutura de perguntas do Livro dos Mortos egípcio.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=868545205926591106#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;[2]&lt;/a&gt; Quase literalmente, a mesma frase é dita por Empédocles de Agrigento.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=868545205926591106#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;[3]&lt;/a&gt; Rainha dos subterrâneos: Perséfone.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=868545205926591106#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;[4]&lt;/a&gt; Eucles: Hades.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=868545205926591106#_ftnref5" name="_ftn5"&gt;[5]&lt;/a&gt; Ebuleo: Dioniso.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=868545205926591106#_ftnref6" name="_ftn6"&gt;[6]&lt;/a&gt; Moira: Destino.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn7" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=868545205926591106#_ftnref7" name="_ftn7"&gt;[7]&lt;/a&gt; Literalmente: saí da roda das encarnações. Ou: libertei-me.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-388644690926502704?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/388644690926502704'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/388644690926502704'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/poemas-orficos.html' title='POEMAS ÓRFICOS'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-7498717339973489333</id><published>2009-11-19T09:58:00.000-08:00</published><updated>2009-11-19T09:59:42.436-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Biografia'/><title type='text'>RODRIGO PETRONIO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Rodrigo Petronio&lt;/strong&gt; nasceu em 1975, em São Paulo. É editor, escritor e professor. Formado em Letras Clássicas e Vernáculas pela USP. Professor do curso de Criação Literária da Academia Internacional de Literatura (AIL), professor-coordenador do Centro de Estudos Cavalo Azul, fundado pela poeta Dora Ferreira da Silva, e coordenador de grupos de leitura do Instituto Fernand Braudel. Trabalha no mercado editorial há mais de dez anos e colabora para diversos veículos da imprensa. Recebeu prêmios nacionais e internacionais nas categorias poesia, prosa de ficção e ensaio. Tem poemas, contos e ensaios publicados em revistas nacionais e estrangeiras. Participou de encontros de escritores em instituições brasileiras e em Portugal. É autor dos livros História Natural (poemas, 2000), Transversal do Tempo (ensaios, 2002) e Assinatura do Sol (poemas, 2005), este último publicado em Portugal, e organizou o livro Animal Olhar (Escrituras, 2005), primeira antologia do poeta português António Ramos Rosa publicada no Brasil. É membro do conselho editorial da revista de filosofia, cultura e literatura Nova Águia (Lisboa). Lançou, pela editora A Girafa, o livro de poemas Pedra de Luz, finalista do Prêmio Jabuti 2006. Foi congratulado com o Prêmio Nacional ALB/Braskem de 2007, com a obra Venho de um País Selvagem, publicada em abril de 2009 pela Topbooks.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-7498717339973489333?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7498717339973489333'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/7498717339973489333'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/rodrigo-petronio.html' title='RODRIGO PETRONIO'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-2168871229912041009</id><published>2009-11-19T09:21:00.000-08:00</published><updated>2009-11-19T09:27:01.795-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Da Leitura'/><title type='text'>A FORMAÇÃO E A DEFORMAÇÃO DOS LEITORES</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Situação&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mesmo estando dentro da premissa do debate, concordo que este título pode soar um pouco pesado ou mesmo um tanto obtuso. Vão me refutar dizendo que a leitura, essa atividade nobre por excelência e tão enaltecida nos dias de hoje, sobretudo por aqueles que não a praticam, nunca pode ter uma ação deformadora; que deformação não é conceito, mas um efeito que dá sobre a matéria por uma relação de força e uma desigualdade de resistências; que precisaríamos de critérios claros para discernir o que seriam efeitos nocivos ou benéficos que ideias, obras ou autores determinados exerceriam sobre determinados leitores.&lt;br /&gt;Mas na verdade essas objeções são circunstanciais, e não conseguem apreender o cerne do que podemos considerar como princípios-chave de alguns desdobramentos que essa interação suscita. Tampouco é necessária uma sociologia da leitora ou do público e da circulação das obras para conseguirmos pensar esse tema com certa objetividade. Muitas vezes, uma pesquisa sociológica o encobriria com mais névoas ainda do que desvendaria algumas de suas linhas de força.&lt;br /&gt;Para começar, partamos da Literatura, mas sem defini-la em gêneros ou discursos. Tomemo-la no sentido mais abrangente possível, desde o seu aspecto ficcional e poético até as suas produções ensaísticas, filosóficas, históricas, entre outras. Num rápido lançar de olhos, percebemos que é impossível pensar nessa categoria chamada Literatura como uma massa de dados homogêneos, passível de ser assimilado tranquilamente por uma mente em estado de passividade; o primeiro traço que nos salta, é o aspecto heteróclito, diversificado, em alguns momentos até caótico, da Literatura. Pois bem: essa espécie de celeiro infinito de formas, chamado Literatura, esse tecido de tramas infinitas, como a descreveu Borges, só tem um valor positivo em si mesma quando se direciona a um Leitor genérico ou ao caráter genérico do Espírito, que contempla e armazena as produções humanas. À medida que afunilamos cada uma das obras e autores e os colocamos em relação com leitores concretos, já diminuímos, nesse simples movimento, muito da abrangência desse grande manancial. Os motivos são simples: ainda que vivamos muitas vidas dedicadas apenas à leitura, não esgotaríamos sequer uma pequena parte desse repositório.&lt;br /&gt;Mais um giro, mais uma contrição: pensamos no interesse vital que cada leitor possa ter em cada um dos prismas dessa abstração, desse personagem que chamamos de Literatura. A espiral dá mais uma volta, e eis que uma nova ação centrípeta varre de nosso horizonte uma parte considerável das letras. Mais um movimento, e chegamos à leitura em seu teor crítico, ou seja, aquela que não só consome as obras, mas que as hierarquiza e as articula, discernindo o que é ou não de interesse vital para determinadas épocas ou valores. Em seguida, uma nova volta do parafuso: os critérios editoriais e as condições de edição de cada país e de cada língua. Por fim, as contingências de cada leitor, suas possibilidades e idiossincrasias, suas vontades e suas renúncias, sua preguiça e seu empenho.&lt;br /&gt;Nesse movimento espiralado, o castelo de início foi pulverizado e praticamente se resumiu a umas tantas casas e cabanas habitadas. No interior das mesmas, os leitores, sem maiúsculas, precários, apenas ávidos às vezes por um pouco de sentido à falta sentido generalizada de muitas coisas deste mundo. Argumentar em benefício das grandes bibliotecas, com montanhas de livros, é esquecer a dificuldade física que a maior parte de leitores do mundo tem de acessá-las; defender a transposição dessas bibliotecas para a internet, o que felizmente já está sendo feito, é propor um paliativo ingênuo para os problemas de supressão das dificuldades de acesso linguístico a esse material babélico.&lt;br /&gt;Pode-se agregar a isso certa ilegibilidade de traços, mais ou menos essenciais, das obras do passado; cada época parece estar ilhada em seus próprios valores, e a essa condição se soma o fato de o cronocentrismo ser uma das maiores doenças do século XX, que se prolonga e se aprofunda neste século que começa. Assim, podemos pensar que uma das funções da literatura é o diálogo com os mortos. Somos incapazes de compreender os autores do passado minimamente de acordo com o sentido que eles possam ecoar no presente, sem retirar a dignidade de sua condição de mortos, e, portanto, de seres inelutavelmente silenciosos. Apropriar-se de algo é a forma mais branda de matá-lo. A mais perversa forma de cultura é essa deliberação sobre os mortos que só visa os apetites e valores do presente, e nada mais. Essa atitude não só transforma o passado em uma sombra pálida do presente. Mais que isso: impede de preservar o futuro que os mortos nos mostraram e que não se realizou. E como diz muito bem Heiner Müller, tratando do teatro, esse diálogo não deve ser interrompido até que esses mesmos mortos nos desvelem o futuro que morreu com eles.&lt;br /&gt;Isso para não falar dos diversos e matizados graus de analfabetismo, que nem computo aqui, para não destruir de vez qualquer idealização dessa bela atividade, a leitura. Nesse percurso, talvez não seja exagerado dizer que tenhamos mais perdas do que ganhos. E algo parece ficar visível, a despeito dos contornos mais ou menos enfáticos em determinados dados: a própria produção do conhecimento segue essas espirais precárias, esse ir e vir no escuro, titubeante, que é próprio do caminhar entre as obras do espírito. Nesse percurso, como diz Montaigne, quanto mais conhecemos, menos sabemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A cadeia de anéis&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No Íon, diálogo de Platão que trata da poesia, Sócrates ironiza o rapsodo que dá nome ao diálogo. Idólatra de Homero, para Íon a poesia nasce de uma única fonte: Homero. Na sutil teia argumentativa, Sócrates o enreda, ao demonstrar que a poesia é dom divino, coisa dos deuses, e que Homero, mesmo sendo enorme poeta, é apenas um medium da atividade poética que o transcende. Compara esta à cadeia de anéis que se ligam a um Ímã, que seria o doador poético original. A poiesis percorreria então Homero, primeira cadeia de anéis, passaria pelo rapsodo Íon, seu intérprete, e depois desaguaria no público, cuja emoção poética faria a poesia refluir para as suas nascentes, ou seja, poderia produzir novos Homeros ou minimamente novos poetas e intérpretes de poesia, que estariam conectados uns aos outros por mediações, mas todos, em menor ou maior grau, conectados ao Ímã.&lt;br /&gt;Essa estrutura platônica pode nos servir para pensar a leitura. Desconsidero aqui as relações que cada um estabelece com o Ímã, fonte obscura e misteriosa, de difícil acesso, de definição ainda mais enigmática. Atenho-me aqui à outra concepção, a dos escritores entendidos como anéis que se conectam uns aos outros. Cada escritor teria, nesse caso, em maior ou menor grau, a virtude de remeter a outros escritores. Esse movimento estaria virtualmente posto em suas obras, variando de acordo com as inúmeras gradações de qualidade, de gênero, de inserção, de proposta, de ambiente, de língua, de época, que, em sua totalidade, comporia aquela república mundial das letras, de que fala Pascale Casanova. Colocando a questão nesses termos, não estou reivindicando aqui um enrijecimento do cânone, embora, nesse movimento, ele esteja pressuposto. Entretanto, quando nos concentramos no cânone, nos concentramos na produção e não na recepção e na reprodução da Literatura. O que proponho é um percurso inverso. Ou seja: pensar de que modo e por quais expedientes os escritores funcionam como meios para que o leitor galgue patamares artísticos e intelectuais cada vez mais sutis, ou seja, algo diferente de pensar de que modo esses mesmos escritores se inserem em determinada tradição. Nesse sentido, há escritores capazes de produzir aberturas, frestas, fissuras no tecido da Literatura, remetendo o leitor para outros níveis da arte verbal. Teríamos assim, parafraseando a grande cadeia do ser de Arthur Lovejoy, uma grande cadeia da leitura. Podemos chamar esses escritores de escritores de passagem. Não são escritores medianos, pois isso pressuporia uma valoração de suas obras, o que não vem necessariamente ao caso, e nem todo escritor mediano é um escritor de passagem. E aqui as coisas se complicam um pouco.&lt;br /&gt;Boa parte dos obstáculos que temos na relação com a leitura, e que é um dos ingredientes principais para a deformação dos leitores, de que trata esta minha fala, consiste nessa grande camada de escritores e obras que, sendo destinada a um público relativamente grande, não produz passagens. São obras e autores isolacionistas, opacos à sinalização de qualquer coisa que os transcenda; sua escrita nasce de uma espécie de mesquinha geração espontânea; não dialogam com outros autores e obras, e, mais que isso, quando o fazem, não deixam vestígios desse diálogo. Por isso, uma das características que distinguem um escritor de passagem é essa: ele remete a um público variado, tenta escrever para um púbico amplo, mas coloca-se explicitamente na perspectiva de um continuador de outros escritores ou obras. Há certo grau de transparência entre ele e outros escritores; essa remissão vem sinalizada na obra, em maior ou menor grau, independente do valor artístico dessa mesma obra.&lt;br /&gt;Na definição das obras de passagem não está posta uma questão valorativa, mas sim uma capacidade de abertura e uma situação estratégica. O auto de passagem não é propriamente um autor que podemos dizer canônico, pois há outros que em termos artísticos foram além dele. Mas ele é preciso e muito precioso, à medida que se propõe e consegue falar para um número grande de leitores, na maioria das vezes muito maior do que o dos leitores concretos atingidos por um escritor clássico ou canônico. Uma das maiores dificuldades que o Brasil enfrenta na formação de um público leitor, e que chega a ser quase caracterizada como um problema de saúde pública, não é o fato de termos poucos escritores grandes, pensando-se em termos da história da literatura ocidental, mas sim a falta de escritores de passagem. Diria a sua ausência quase absoluta. Isso apenas mimetiza o abismo social que marca tão bem a sociedade brasileira, e está posto nas figuras dos rabugentos e parasitas sociais de Machado de Assis, aqueles sujeitos sempre cindidos entre a genialidade e a estupidez, sem nunca chegar à dimensão propriamente humana de um diálogo com seus semelhantes. Entre a grandiloquência canônica e a imbecilidade, parece não haver negociação possível; esse fosso é o melhor alimento para que doutores e analfabetos continuem tranquilos, proliferando-se em paz, em seus respectivos lugares.&lt;br /&gt;Para falar de literatura brasileira, Jorge Amado e Vinicius de Moraes, por exemplo, são grandes autores de passagem. Não creio que possamos comparar Jorge Amado à complexidade humana de Guimarães Rosa ou de Machado; também não tem o prodígio da forma e da linguagem, como o encontramos em Osman Lins; não chega às dimensões da experiência do abismo interior que temos em Clarice Lispector, Lucio Cardoso ou Cornélio Penna; não chega à vertigem e à linguagem encarnada de Hilda Hilst; não tem a dimensão metafísica e negativa de um Murilo Rubião; tampouco chega à travessia mítica de um Ariano Suassuna. Malgrado as críticas bem-vindas ao modernismo paulista, o Macunaíma é uma obra que consegue compor uma rapsódia das matrizes culturais brasileiras, sob um ponto de vista de fábula, coisa que em Jorge Amado acaba sempre redundando em uma dimensão algo folclórica.&lt;br /&gt;Mas seu papel, não no cânone da literatura brasileira ou mundial, mas sim na formação de leitores, foi e continua sendo enorme, muito maior do que muitos autores tidos como canônicos; sua obra nos faz empenhados em estabelecer um compromisso ficcional com as verdades que ele nos oferece; transita em diversas camadas sociais e culturais; coloca problemas políticos e sociais em um nível de acessibilidade a um público diversificado. Mais que isso: leva-nos a Hemingway e à literatura realista, ao interesse pela antropologia, pela literatura de costumes e religiosa, pelos relatos históricos sobre a Bahia e a fundação do Brasil.&lt;br /&gt;Há uma espinha dorsal da poesia que está ligada aos poetas que a concebem nem como jogo verbal, nem como mediação de sentidos externos, indo colher seu enigma no próprio mistério órfico de sua origem. De Paz a Lezama, de Dylan Thomas a Kaváfis, de Rilke a Montale, de Bonnefoy a Saint-John Perse, de Eliot a Pound, de Akhmátova e Mandelstam a Drummond, Jorge de Lima e Murilo Mendes. Comparar Vinicius com esses poetas é quase uma piada de mau gosto. Todos eles estavam em busca de uma fundamentação da linguagem nos limites mesmos da nossa percepção e compreensão de mundo, ao passo que Vinicius é uma espécie artesão de formas prévias aplicadas a eventos circunstanciais da vida prosaica. Porém, nesses termos, foi um mestre. E mais que isso, abriu caminhos para a leitura de poesia e para a ampliação de sua irradiação.&lt;br /&gt;De Vinicius vamos a Neruda, que é um autor criticável, mas que escreveu o Canto General. De Vinicius vai-se ao Lorca, a Whitman, a Claudel, a Fitzgerald, a Baudelaire, a Verlaine. De Vinicius vai-se a Camões, à tradição do soneto e à própria tradição da lírica de língua portuguesa, de Sá de Miranda a Camilo Pessanha e a Pessoa. Sob um ponto de vista do cânone, colocarmos Whitman e Vinicius numa mesma balança é disparate. Mas do ponto de vista da grande cadeia da leitura, que proponho aqui, sem borrar as distinções valorativas, pode-se pensar em autores como Vinicius como autores de passagem, autores que nos levam a outros, que mantém viva a força atrativa do Ímã, mas que sinalizam as outras vozes ocultas sob a sua voz, e, por isso, a despeito da grandeza ou pequenez de suas obras, são autores que têm uma importância infinitamente maior para a formação de leitores do que um Mallarmé, por exemplo.&lt;br /&gt;Há autores que têm uma função de passagem tão destacada que acabam nos conduzindo até mesmo a outras regiões do conhecimento. Lembro, por exemplo, a importância que Aldous Huxley e George Orwell na minha adolescência. Levaram-me à filosofia, à física, à história, à política, à mística. Tudo por conta dos mundos inabitáveis de ambos e das experiências psíquicas do primeiro. Os escritores beats, que têm momentos de genuína grandeza literária, como em Ginsberg, em outros funcionam como escritores de passagem. Penso em Kerouac, por exemplo. Que ele tenha momentos de lirismo, como em Viajante solitário, em On the Road e em Os subterrâneos, é indiscutível. Que a proposta de libertação social que os beats encabeçaram possa ser minimizada também é algo discutível. Mas deixando de lado o fenômeno sociológico, literariamente quase toda a obra de Kerouac não passa de uma etapa da linguagem que vai da adolescência à vida adulta. Porém, foi ele que me abriu, aos quinze anos, para Nietzsche e, deste, para Espinosa, Blake e alguns místicos. Foi ele quem me conduziu a Thoreau, a Emerson e a Whitman. Foi ele que, em suas listas de escritores transgressores, tão ao gosto dos adolescentes, me levou a Baudelaire, aos simbolistas e até mesmo a Schopenhauer.&lt;br /&gt;Na contramão da escalada da cadeia da leitura, não raras vezes há grandes autores que podem deformar o leitor. Isso depende do momento em que eles lhe forem apresentados, e da maneira que o leitor chega a esses mesmos autores. Uma leitura de Montaigne, de Proust ou de Raul Pompeia feita por um garoto pode levá-lo a abandonar definitivamente a literatura. Por seu lado, o cânone oficial eleito pelas histórias da literatura não apresenta empecilhos menores à formação do leitor. A velha e inconcebível eleição canônica de obras e autores tendo em vista os critérios linguísticos e político-nacionais já destruiu muitas gerações de leitores. E se continuar, com o atual andamento da velocidade dos meios de comunicação e com a multiplicidade dos acessos possíveis à informação, vai acabar matando outras tantas gerações ainda no berço. O motivo é tão claro como a luz do dia, mas os expedientes ideológicos que corroboram os critérios canônicos parecem ser mais luminosos do que qualquer obviedade.&lt;br /&gt;Para a formação de um leitor, Milton é muito mais importante do que o padre Manuel Bernardes, Tasso é muito mais importante do que Basílio da Gama, os trovadores toscanos e provençais, mais importantes do que quase toda a poesia galego-portuguesa, e Dante, mais importante do que todos eles juntos. Stendhal é muito mais importante do que Camilo Castelo Branco, Laurence Sterne e Xavier de Maistre são muito mais importantes do que Fagundes Varela e Casimiro de Abreu. Faulkner é muito mais necessário para se conhecer literatura do que Oswald de Andrade. Rimbaud é infinitamente mais central e urgente do que Joaquim Manuel de Macedo, e Baudelaire, um autor decisivo diante da palidez do dispensável Anchieta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os tempos da literatura&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nas polarizações propositais que fiz acima, apenas cotejei autores de outras línguas com autores de língua portuguesa. Mas a partir delas é possível vermos quanto o ideal da formação de leitores tem sido sabotado desde os bancos escolares. Se fizéssemos uma revisão drástica do cânone de língua portuguesa, teríamos que revolver e rever muita coisa, a começar pela eleição dos autores da própria língua. Sob um pretexto formativo, de cunho sociológico e histórico, cujo objetivo é mostrar-nos as etapas da formação de uma hipotética consciência nacional, a história da literatura faz dos autores peças dessa engrenagem. Se esse discurso é vigente desde o ensino fundamental, com livros didáticos e histórias da literatura, pode-se ter a dimensão de quanto a leitura já foi e continua sendo empobrecida.&lt;br /&gt;Para sanar esse problema, teríamos que rever os pressupostos que organizam a eleição dos autores canônicos, abrindo a premissa para o estudo da língua portuguesa por meio também de suas traduções, e não apenas das obras originalmente escritas nesta língua por cidadãos da lusofonia, mais precisamente, por brasileiros e portugueses. Mas talvez seja exatamente esse o ideal de uma cultura literária das mais sólidas, e o primeiro passo para o desenvolvimento de um amor autêntico pela arte verbal. Sem isso, todo o resto se perde, seja a circunstância política, seja o contexto histórico, seja o próprio passado que, enquanto passado, está morto.&lt;br /&gt;As implicações dos autores de passagem podem ser grandes. Mas há outros tipos de passagens literárias, que não se fazem de obra a obra, mas de leitor a leitor, e que tem no ensaio e na crítica suas formas privilegiadas. Não trato delas aqui, pois não cabem nesta exposição e tal diálogo já pressupõe em si leitores formados, diferente do que vinha tratando até agora, isto é, das maneiras pelas quais há autores rigorosamente populares ou que gozam de prestígio junto a leitores os mais variados, e mesmo assim funcionam como condutores rumo ao desconhecido terreno do novo, que brota do horizonte do passado ou dos interlocutores do presente. O diálogo entre leituras já não diz respeito à formação de novos leitores, mas ao refinamento de leitores já convertidos. Mesmo assim, é de grande importância, pois é ele que nos leva à ascensão na cadeia de anéis, rumo a formas cada vez mais genuínas de expressão e, se for realizado de maneira consciente, a obras cada vez mais endereçadas à realidade plena de nossa vida e de nosso espírito. Não é preciso recorrer a Auden, a Valéry, a Borges, a Calvino ou ao clássico Talento individual e tradição, de Eliot, para saber o papel desse diálogo para a trama da literatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Das leituras ao mundo&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por fim, e para finalizar, um pouco de polêmica. Diz respeito não tanto à leitura e aos leitores, mas à legibilidade. Além da formação de leitores, é preciso prestarmos atenção a um fenômeno cada vez mais gritante, de consequências graves, que tem contribuído para a deformação de leitores: a especialização e a burocratização da leitura. Em geral, esses sintomas ocorrem em graus desenvolvidos de leitura, não necessariamente em uma mesma pessoa, mas quase sempre entre pessoas de cultura elevada e não raro de certa erudição. Entretanto, por mais legítimo que seja a finalidade de uma tal especialização, do ponto de vista estrito da leitura, que tratamos aqui, caso o leitor não domine também algumas obras e autores fundamentais e não consiga estabelecer uma visão orgânica de conjunto das obras e dos autores, no tempo e no espaço, ele estará forçosamente em um processo de leitura degenerativa.&lt;br /&gt;Em outras palavras, o isolamento de partes de obras ou de discursos em outras partes de obras e discursos que não encontram mais ressonância com o contexto de onde foram extraídos, é o começo de um divórcio entre conhecimento e erudição, entre a experiência concreta de minha vida e a plenitude da vida do espírito. Comprometer esse percurso que vai do fragmento ao todo, e que, segundo Ortega y Gasset, é o princípio da própria inteligibilidade do mundo, é o mesmo que instituir em campos separados o meu coração e a minha mente, a minha circulação sanguínea e a minha coordenação motora, o meu sexo e a minha visão, destruindo as sutis formas de comunicação que essas instâncias estabelecem entre si. Sob o nome de cultura, de pesquisa, de erudição ou qualquer outro adjetivo principesco, não é nada mais do que própria ruína da cultura que vislumbramos nesse desmembramento, o canto de cisne dessas partes isoladas e exiladas, não de uma hipotética totalidade universal, mas sim do contexto vivo no qual nasceram.&lt;br /&gt;Nessa cultura da especialização, torna-se cada vez mais difícil englobar alguns campos de conhecimento, dentre os quais alguns que são nucleares para se compreender a própria essência do homem. Por exemplo, me parece praticamente impossível conhecer os motivos que nos conduziram até o estágio atual da humanidade sem recorrer aos textos básicos daquela fase que Karl Jaspers definiu como Era Axial, conceito fecundo utilizado por Toynbee na sua morfologia histórica e que recentemente serviu de base de A grande transformação, bela obra da historiadora das religiões Karen Armstrong. Há muitas controvérsias quanto às datas, mas em linhas gerais formação da Era Axial vai de 900 a 200 a.C., remontando, entretanto, às origens arianas dos povos das estepes da Eurásia e à sua descida, a leste e a oeste, em direção ao Mediterrâneo e ao Indo, a partir de 1600 a.C. Um dos primeiros profetas a deflagrar as mudanças que adviriam dessa transformação espiritual teria sido Zoroastro, por volta de 1200 a.C.&lt;br /&gt;Trata-se, em linhas gerais, do período onde brotaram todas as ideias seminais que serão espinha dorsal de todo o desenvolvimento espiritual, social, religioso, histórico, moral, legal, filosófico, artístico, científico e militar, tanto do Ocidente quanto do Oriente. Essa nascente comum teria engendrado Sócrates, Buda, Lao Tze, Deutero-Isaías, Confúcio e Cristo. Esses nomes, articulados, constituíram: a base socrático-filosófica do Ocidente, que miraculosamente se transfigura em Cristo, assumindo a dimensão de verdade revelada, e recebe a racionalização grega, judaica e alexandrina, da teologia posterior; as bases do budismo, que, mesclado ao hinduísmo, o alterará radicalmente; o taoísmo e o confucionismo, que definirão, respectivamente, as concepções esotéricas e exotéricas, a espirituais e as políticas, do Oriente e do Extremo Oriente; o legado de Zoroastro que teria sido retomado por Mani, e, por meio dos maniqueus, ter-se-ia transfigurando e consumando muito depois com Maomé; a mensagem do Deutero-Isaías, que servirá de fundamento, tanto à preservação e desenvolvimento do judaísmo, quanto à configuração de uma cultura judaico-cristã, além do próprio Cristo, cuja mensagem e efeito ulterior dispensam maiores comentários.&lt;br /&gt;Ora, essa guinada na quadratura espiritual da humanidade, levada a cabo no intervalo de cerca de sete séculos e que tem motivações internas profundas, não foi fruto de um mero acúmulo material (como quereriam historiadores materialistas, sendo aqui historiador materialista um mero truísmo), nem fatos totalmente isolados uns dos outros, como linhas que corressem paralelamente, tampouco um desprezível acaso ou um imperativo Destino. Em outros termos, quero dizer que a motivação profunda que ocasionou a mudança operada pela Era Axial não é acessível ao especialista. Ela só pode ser entendida em termos espirituais, ou seja, se abordada, a um só tempo, verticalmente e em conjunto. Dado que a prática de uma leitura do conjunto ou de uma leitura orgânica do movimento da história, que devolva os textos à totalidade de sentido da qual eles provêm, está há tempos em declínio, esse acesso às formas globais de sentido e da própria vida humana nos está sendo paulatinamente confiscado. É preciso restituir o sentido oculto da leitura, ou seja, não mais uma leitura de livro a livro, mas sim uma leitura do texto ao mundo, que seria uma concepção da leitura como uma chave privilegiada para adentrar os mistérios do Espírito, capaz de juntar as suas peças aparentemente desconexas. Só assim elas poderão falar, miraculosamente, sobre o seu devir e sobre o nosso futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Do mito ao mito&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por seu lado, podemos nos perguntar: a tão criticada vertente da “espiritualidade” contemporânea, com sua literatura de gosto e valor tão duvidosos quanto populares, seria de fato a besta apocalíptica do fim dos tempos, como querem os intelectuais? Ou, a despeito do evidente artificialismo das buscas “sagradas” e de suas interrogações “religiosas”, tão em voga nos dias de hoje, estaria se desenhando um movimento de sensibilização para os textos sagrados, que são a base centrípeta para uma compreensão genuína da história? Até que ponto o interesse “espiritual” dos dias de hoje, entre a publicidade e a frivolidade, não pode operar um salto qualitativo, e nos conectar, não a uma cadeia que ligue a literatura à literatura, nem o autor ao autor, nem a obra à obra, mas produzir uma nova legibilidade das origens e das destinações humanas? A retomada, em outra chave de leitura, dos textos dos avatares, pode vir a ser um meio para o homem eleger um novo caminho para si, como alternativa a tantos outros caminhos de miséria, angústia e desespero? É algo que só a história dirá. Isso, porém, já são leis não escritas. Não pertencem a nosso domínio nem ao domínio deste texto. Ou seja, o limite e o ponto final das leituras e dos leitores, de que tratei até aqui, chegou ao fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Texto escrito originalmente para o debate: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://dinosanfibios.ning.com/profiles/blogs/a-formacao-e-a-deformacao-do"&gt;http://dinosanfibios.ning.com/profiles/blogs/a-formacao-e-a-deformacao-do&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Coordenação da mesa: Maiara Gouveia&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-2168871229912041009?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/2168871229912041009'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/2168871229912041009'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/formacao-e-deformacao-dos-leitores.html' title='A FORMAÇÃO E A DEFORMAÇÃO DOS LEITORES'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-6161759889921299501</id><published>2009-11-19T08:50:00.000-08:00</published><updated>2009-11-19T09:05:29.715-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Decálogo: Dez Superstições da Modernidade'/><title type='text'>CRITICISMO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Toda crítica e toda a poesia pressupõem uma saudável mescla de dúvida e devoção sobre um determinado dado, seja ele qual for. Platão diz que a filosofia nasce do espanto. Vico diz que o mito nasce do espanto. Há, entretanto, um intervalo grande entre as duas concepções de espanto. O primeiro nasce de uma posse da consciência. Espanto-me porque percebo que sou algo e que este algo não é o mundo. O segundo me revela a condição mundana e, por conseguinte, a minha condição; traz-me à luz a forma das coisas e a minha própria forma. Espanto-me porque a árvore não é a árvore, mas é um deus. Por extensão, espanto-me porque eu, tal como a árvore, não sou apenas eu, mas um híbrido de consciência e de substância divina. Também sou árvore, também sou um deus, porque os nomeio.&lt;br /&gt;Do estado de simpatia cósmica ao estado de reflexão crítica há um hiato interessantíssimo, e, em detrimento do que se tem dito, há tantas pontes que conectam quanto abismos que separam. Mas não é esse o assunto que me interessa aqui. O que podemos supor é que o espanto reflexivo, entendido como espanto, é conatural à própria manifestação elementar da vida. Seja como simpatia ou como princípio dissociador da minha consciência que, em movimento, acaba por se descobrir a si mesma, em ambos os casos temos uma ação fundamental.&lt;br /&gt;Para lembrar Vilém Flusser, um estado crítico fundado em uma dúvida radical e amplificado até atingir o paroxismo é algo incapaz de ser realizado empiricamente, tampouco é encontrável como vivência ou como dado vital. Não é, portanto, uma realidade efetiva, mas meramente nominal, teórica, no pior sentido da palavra. Afinal, uma pessoa que duvidasse de tudo em todos os instantes de sua vida terminaria invariavelmente chegando ao suicídio – ou à loucura. Isso demonstra que há um princípio de crença animando até mesmo a possibilidade de exercermos a crítica, seja qual for o seu escopo, a sua finalidade, o seu objeto, o seu grau ou o seu fundamento lógico, cognitivo ou ontológico. Um germe de crença está enraizado, ainda que timidamente, até na minha capacidade mais radical e transgressora de negar o real em sua totalidade.&lt;br /&gt;Da mesma maneira, se produzo uma concepção de mundo que transforma a força crítica em horizonte último de todos os conhecimentos e experiências possíveis, todo o real passa a se oferecer a mim como hipóteses a serem desenhadas em um pano de fundo recortado e constantemente criticado. Sem substância e sem subsistência, nesses termos não poderei nunca transcender o estatuto de minha premissa, ou seja, em última análise, não posso cumprir a premissa crítica em sua última aspiração, que seria uma crítica da crítica. Tomada como uma positividade e ser cumprida em quaisquer circunstâncias e para todos os fins da vida, eis que o fundamento da minha hipótese se confirma inviável. Mais que isso, funda-se sobre a sua própria inviabilidade, em suma, em seu suicídio.&lt;br /&gt;Fides quaerens intellectum, a fé busca a inteligência, diz Santo Agostinho. Credo quia absurdum, creio porque é absurdo, diz Tertuliano. Essas duas afirmações, extremas e aparentemente excludentes, complementam-se e reafirmam a unidade do pensamento. O mundo só me é inteligível na medida em que eu creio. Sem a crença, entendida como base prévia do conhecimento, não haveria sequer a possibilidade de criticar os fundamentos da fé e mesmo os da razão, que, por seu turno, me faculta o exercício de crenças periféricas, secundárias. Se, ao crer, vinculo a crença à impossibilidade de uma explicação última do mundo, demonstro os limites de todo conhecimento demonstrativo quanto à essência desse mesmo mundo e também no que concerne à essência do próprio conhecimento. Ao fazê-lo, resgato a substância mesma do pensamento, sua forma primeira, sua estrutura não-relacional, o seu ser, diríamos. Produzo uma dupla superação: do real como unidade finita e do pensamento como unidade autossuficiente.&lt;br /&gt;Essa atitude de excentricidade me põe em contato, por sua vez, com a dupla articulação de toda a sabedoria, no seu grau mais elevado: a verdade e o absurdo. Por ser verdade e por ser absolutamente transcendente, não é acessível à luz fosca, subsidiária, adventícia da minha razão; por isso, absurdo perante os desígnios omnicompreensivos a que ela anseia. Sendo absurda e relativa, devolve-me à minha finitude, à minha interminável busca de sentido, justamente o que me faz humano, in fieri. Por outro lado, ao reduzir o perímetro de alcance de meu pensamento, preservo o real intacto em sua subordinação àquilo que o transcende. E, por conseguinte, também o próprio pensamento.&lt;br /&gt;Ao reduzir o estatuto de minha inteligência, apreendo o mundo em uma amplitude maior do que a fornecida pelos expedientes lógicos que lhe atribuem valor e o predicam. Ao superar o demonstrável, devolvo a minha consciência à sua origem ilimitada e, portanto, ao que não se quantifica, ao imponderável. Isso só me revela que há um além para o qual a consciência caminha e justamente este além lhe é consubstancial; ele é que nega o estatuto fechado do meu pensamento, negação sem a qual não há processo noético, e, portanto, não haveria negações ou afirmações parciais de nada, mas apenas uma completa anomia e indistinção improdutivas.&lt;br /&gt;Em resumo, a partir da crença, chego à inteligência. A partir desta, chego ao absurdo. Depois do absurdo, reabsorvo a razão, plena em seu fracasso, ciente de sua insuficiência essencial, transformada e redimida depois da transformação, do conhecimento e do reconhecimento, que se realizaram em seu interior. Negação da negação, reintegro a minha capacidade compreensiva aos domínios do mundo, ao círculo amplo de minha abrangência, mínimo diante do que lhe excede. Desse ponto de vista e ao contrário do que vulgarmente se diz à exaustão, o impensável é o elemento crítico que se infiltra em minha razão e produz nela a crítica da crítica, ou seja, a negação de sua condição autotélica, que é inviável e inverossímil. Apenas o contato com o Outro, com a absoluta transcendência, molda a meu eu em sua singularidade, abre a clareira de minha consciência e possibilita que esta conheça e se reconheça, que esteja no mundo porque se percebe também fora do mundo.&lt;br /&gt;Sem cogitar o imponderável que nos cerca e que nos anima, dia a dia, esse complexo fenômeno a que chamamos de consciência, desde seus graus mais elementares às suas espirais mais complexas, o próprio ato de pensar atinge uma contradição embaraçosa, pois passa a se apoiar em resoluções parciais de uma questão ontológica mais ampla. Assim, traduz-se, seja em um eu abstrativo e puro, sem efetividade, seja em uma fé cega, que não atinge os elementos críticos capazes de revelar a sua relatividade e precariedade intrínsecas. Da mesma maneira que Santo Anselmo postulou aquilo além do que nada pode ser pensado, traduzindo-o na substância divina que transcende todo o inteligível e todo o real, fé e inteligência se completam e se minimizam mutuamente mediante o imperativo dessa realidade excêntrica divina.&lt;br /&gt;Não cabe crer e explicar, tampouco conhecer e ignorar ou crer que tudo o que não compreendo é a projeção negativa de algo que compreendo. Trata-se, sim, de dar o salto qualitativo sobre o absurdo fundamental da vida humana. Esse é o testemunho que caracteriza e legitima o verdadeiro ato de fé. Há uma luz mais ampla que nos possibilidade reter as dimensões e variantes da própria luz. É possível criticar a luz. Mas não é possível criticar a condição que, enquanto luz, me possibilita a legibilidade do mundo – e da luz. Sem absurdo, não há inteligência. Sem absurdo, tampouco há fé. Sem crença, não há nem absurdo nem inteligência. Há apenas massa amorfa e impassível à espera do fim dos tempos, sem compreensão e sem revelação, de nada e de ninguém. Isto posto, quase todas as proposições negativas e pseudocríticas da modernidade são destituídas de validade empírica, lógica e ontológica. Em suma, são um equívoco, ou, para sermos mais claros, uma fraude.  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-6161759889921299501?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/6161759889921299501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/6161759889921299501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/criticismo.html' title='CRITICISMO'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-1776241614038890767</id><published>2009-11-19T08:46:00.000-08:00</published><updated>2009-11-19T08:50:24.652-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Decálogo: Dez Superstições da Modernidade'/><title type='text'>EVOLUÇÃO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Em uma passagem tão instigante quanto polêmica, Ortega y Gasset sugere que a modernidade padece de um mal intransponível. Na medida em que ela instaura, como sua essência, a necessidade de superação de toda a etapa anterior, ela paradoxalmente funda para si a sua própria impossibilidade. Não estamos diante de um problema relativo à validade do conhecimento ou à sua fundamentação ontológica, mas sim de um erro meramente lógico, pois, nesses termos, o projeto moderno nunca conseguiria e sequer conseguirá ultimar a sua premissa. Afinal, propor-se superar a superação é algo que vai da falácia lógica à tautologia e ao mero truísmo.&lt;br /&gt;Natimorta, a modernidade ambiciona ser sempre uma superação de si mesmo, sem, contudo, poder superar o coração dos valores a partir dos quais ela lança luzes sobre as coisas e acima de tudo sobre si mesma. Porque se eu instituo a superação como fundamento, atesto consequentemente a insuficiência intrínseca a meu projeto, que vem implícita na própria premissa que ele sustenta. Ora, ao contrário do que se imagina, essa identidade entre criação e miséria, entre transgressão e liberdade, entre arte e destruição é-nos bem conhecida, propalada por quase todos os teóricos da modernidade.&lt;br /&gt;E ela não se espraia apenas na criação artística, muito pelo contrário. Diz respeito à dimensão axiológica em torno da qual giram todas as demais dimensões humanas. Ao fazer coincidir, no interior do meu projeto, o seu não-ser e o seu telos (finalidade), demonstro que a sua essência é a sua própria ruína. Porém, mais uma vez sob um ponto de vista lógico, essa ilação é algo tão paradoxal quanto dizer que a essência da vida é a morte, e não que há um duplo domínio incógnito, um umbral, uma película de fina tessitura onde esses dois inexplicáveis mistérios se tocam.&lt;br /&gt;Entre uma concepção e outra há muita diferença. E para perceber isso, basta pensar no princípio de não-contradição de Aristóteles. É claro que os apologistas de certas concepções da modernidade sacarão da manga da camisa os seus ases e outros tantos blefes. Dentre eles, a síntese, proposta por Hegel, entre os princípios contraditórios que se resolvem em uma mútua assimilação que, temporalmente, se dá no Espírito e, conceitualmente, na Ideia, espelho do Absoluto. O fantasma recalcado sempre retorna, meu caro Hamlet. E sempre retornará, por toda a eternidade. Sinal de que as sínteses são sempre aparentes, fenomênicas, e, no plano da realidade, só ocorreriam em uma instância última, tangível, porém inatingível: Deus. Além disso, o termo negativo em jogo aqui não é uma mera palavra ou um conceito vazio. Pode ser uma vida, um objeto, todo um conjunto de seres vivos em sua luta elementar pelo sol. Seriam assimiláveis, também eles, um ao outro? Sombras, sombras. Fogos fátuos. Jogos de palavras.&lt;br /&gt;Essas contradições já foram assinaladas por dezenas de teóricos, com base na evidente tradição da ruptura, sobre a qual o projeto moderno se baseia. Porém, em geral, enaltece-se o teor positivo (crítico) do mesmo, sem considerá-lo de fora, sem tomá-lo como uma fatalidade, uma liberdade inexorável, dentro da qual há matizes, nunca uma crítica radical dos seus pressupostos ou de sua estrutura. Dessa forma, ainda não seríamos absolutamente modernos? Apenas pela reversão drástica de todos os valores isso se daria? Apenas com a consumação? Quando a destruição retém em si essência de sua forma anterior? Em certo sentido, sim.&lt;br /&gt;Porque, para que tal contradição de resolva, teríamos que empreender um salto qualitativo, uma quebra dialética. Dir-se-ia que seria preciso uma guinada no estatuto eidético do real. Essa consiste em uma crítica da crítica, em um reconhecimento da absoluta ruína da razão crítica ou da desrazão cética, enfim, por meio de uma mudança da perspectiva global sob a qual temos visto o mundo do nos últimos séculos, dir-se-ia quase no último milênio. Uma revolução em nossa experiência do mundo, do real, do pensamento.&lt;br /&gt;Muito se repisa a importância da imanência, do devir, princípio dessas singelas contradições que enumerei acima. Se algo passa, passa sempre e sempre deve passar em relação a algo distinto. Para que eu defina que todo o universo muda e sua essência é exatamente essa (mudar), então preciso de um imperativo metafísico que me demonstre a permanência, em contraste com a qual possa afirmar a minha proposição. Sem esta, sequer posso pensar a ideia de mudança; sem qualquer contraste parcial, eu acabaria por reduzir o mundo a uma completa anomia, feito de devir e devires que sequer podem ser postulados como tal. Não se pode medir uma diferença com outras diferenças, indefinidamente, pois não é possível haver um valor absoluto da mesma, uma Diferença, o que seria um paradoxo tolo, pois redundaria em uma destruição sumária e suicida da própria e maravilhosa heterogeneidade do Universo.&lt;br /&gt;Essa impossibilidade se deve também a algo que concerne à teoria da percepção, que lhe é solidária. Por exemplo, a ordem dos termos de um enunciado não nasce de uma superação dos elementos anteriores. Tampouco o todo é uma justaposição, síntese ou soma das partes, por mais coesa que seja essa síntese. É a gradação de suas ocorrências que mostra o sentido daquilo que se nos oferece. A substância daquilo que se transforma é que define os graus parciais de transformação decorridos sobre o transformado e os modos de transformar operados por aquele ou aquilo que exerce a força de transformar. Sim, leitor, por mais que isso possa parecer óbvio, um cachorro não é a soma de uma orelha de cachorro, de um focinho de cachorro, de patas e rabo de cachorro, de tórax e órgãos de cachorro, procedendo assim ad infinitum até termos, por fim, o cachorro em sua cachorridade. A consecução mesma dos termos ao infinito já nos demonstra a vacuidade da soma dos termos isolados, como o enigma de Zenão, para o qual a subdivisão quantitativa dos segundos resultaria inadvertidamente no próprio infinito.&lt;br /&gt;Esse etapismo escatológico que caracteriza a própria concepção moderna de tempo e de história tem consequências graves, tanto para o nível da nossa relação com o passado quanto para a organização da cultura e da vida psíquica em geral. Uma das coisas mais diretas que ele acarreta é a perda da dimensão transcendente da vida. Esse primeiro fator é o responsável pela assunção de uma paulatina transparência científica, acompanhada de uma proporcional opacidade simbólica da mesma. Posso macaquear um sem-número de fórmulas que descrevem o interior da matéria, mas não consigo ver a relação de contiguidade que existe entre Aristóteles, Avicena, Tomás de Aquino, Heidegger e eu. Entendidos como etapas sucessivas e superadas da dialética histórica, o que é vivo do passado não o é mais de maneira estrutural e estruturante do presente, mas como resíduo arqueológico de uma forma mentis há tempos superada e abolida. Aproprio-me dela, mas a neutralizo ao isolá-la do centro de interrogação que lhe deu vida. Dessa maneira, o próprio passado que recuperamos, recuperamo-lo deformado, pois lançamos luz sobre os restos materiais e apagamos a consciência interrogadora a partir da qual esse mesmo passado se produziu.&lt;br /&gt;Não é por outro motivo que um exegeta de Platão ou de Duns Scott, em seu trabalho, pode produzir algo que esteja a milhares de quilômetros do núcleo duro da filosofia de Platão e Duns Scott. Isso não se dá por incompetência, falta de erudição ou inépcia. Mas apenas porque a nossa época, sendo materialista, reduziu os sujeitos concretos da história e do pensamento a resíduos materiais. Boa parte da exegese crítica, dos trabalhos acadêmicos, das propostas filosóficas e das análises históricas, neste contexto, acabam por se tornar edificações residuais do passado. Destacado da motivação interna que lhe deu origem, a obra do espírito diz mais daquela que disserta sobre ela do que sobre ela mesma ou sobre aquele que a criou. Assim, ruína de ruína, a incapacidade de apreender o movimento interno do pensamento em um ir e vir que é o fluxo e o refluxo entre a tradição e o futuro, a análise racional do passado não faz nada mais do que antecipar a morte do porvir e produzir a sua própria destruição, apoiada nas camadas ocultas e visíveis da história. Aquele presente pleno e puro de que fala Santo Agostinho é o oposto simétrico da presentificação obtusa da vida e do pensamento modernos, pois estes consistem em reduzir o passado a uma ruína e em confiscar o futuro como antecipação do que ele poderia não ser. Esse é o resultado natural e previsível de uma mentalidade e de formas de vida guiadas pela mística da evolução, da superação e do desenvolvimento. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-1776241614038890767?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/1776241614038890767'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/1776241614038890767'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/evolucao.html' title='EVOLUÇÃO'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-1530620746069395566</id><published>2009-11-18T15:19:00.000-08:00</published><updated>2009-11-19T09:07:45.812-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica'/><title type='text'>UMA VEZ − E BASTA: AS VIDAS E MORTES DE EMPÉDOCLES E DE HÖLDERLIN</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;HÖLDERLIN, Friedrich. A morte de Empédocles. Introdução e Tradução Marise Moassab Curioni. São Paulo: Iluminuras, 2009.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A obra e o mito&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“Eu caminho entre vós como um deus imortal, não mais como mortal”. Por mais estranha que essa frase possa soar aos ouvidos modernos, ela parece explicar a situação de Empédocles de Agrigento, sua vida e sobretudo a sua morte. Pois foram as causas fantásticas desta última que o transformaram em mito. Em uma das versões, perseguido pelos sacerdotes de Agrigento, desapareceu nas proximidades do Etna. Em outra, teria se atirado nas lavas do vulcão, gesto que é entendido como corolário de sua ascese filosófica. Em todo caso, essa condição de “íntimo da divindade”, e, ao mesmo tempo, de “exilado dos deuses”, é que gerou o antagonismo cósmico de sua filosofia, a tragédia elementar dos ciclos da vida, do mundo e da transmigração das almas.&lt;br /&gt;O poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770-1843) não só fundou as bases do mito de Empédocles em um drama em versos que é, do início ao fim, encantamento da linguagem e do pensamento unidos em um só acorde, como forneceu aquela que talvez seja a leitura mais dramática da vida do filósofo e, de saída, da vida e da obra dele próprio, Hölderlin. Esse verdadeiro testamento poético que é A morte de Empédocles (Editora Iluminuras, 2009) chega às mãos do leitor brasileiro por meio de Marise Moassab Curioni, em uma tradução impecável, com frequentes laivos de brilhantismo, fruto de anos de dedicação. Nela Marise conseguiu o milagre de preservar o sentido, a música e, acima de tudo, o mito e os conceitos do poeta. Não por acaso, a obra acaba de receber o 1° Lugar do Prêmio Jabuti − 2009, na categoria Tradução.&lt;br /&gt;Como nos adverte a tradutora, embora tenha ficado inacabada, a obra foi composta em três versões, cada uma lançando luzes sobre uma de suas facetas. Por mais difícil que seja definir o seu núcleo, talvez ele esteja no conflito entre a possibilidade e a impossibilidade de reconciliação. Ainda que o filósofo diga que está “reconciliado” com “mortais e deuses”, acredito que essa reconciliação seja apenas parcial; não é efetiva, mas simbólica. Ela se dá no nível do indivíduo, não no nível coletivo, ou seja, naquilo que constitui o essencial da tragédia enquanto tragédia. Hölderlin tinha plena noção disso. E o poeta assim o quis para que nós arquemos com metade de sua arte. Em outras palavras, para que nós finalizemos a transformação em nós mesmos.&lt;br /&gt;Mesmo conhecido como “amigo dos deuses” e como “homem semelhante aos deuses”, “tão divino e próximo”, para quem é tão “íntima a Natureza”, o destino demasiadamente humano de Empédocles o coloca como “anátema sagrado”. Nas contrações e distensões da Discórdia e do Amor no movimento da Esfera, o Empédocles criado por Hölderlin nos mostra que estamos tão próximos das “Fontes da Vida” quanto da “fuga dos deuses”, pois mesmo o “divino conhece o ocaso”. Até mesmo o divino se furta ao comércio com os homens e, quando se mostra a eles, macula-os com sua marca sacrílega.&lt;br /&gt;Ainda que a “Natureza seja sagrada”, vivemos em “tempos carentes de heróis”. Para Empédocles, os “deuses pátrios” não correspondem mais à sua verdade íntima, ou seja, não são suficientes para legitimar nem o humano como humano nem o divino, como divino. É em razão desse processo de isolamento que, nas palavras do sacerdote Hermócrates, o filósofo acaba “virando um estrangeiro”. Não estrangeiro da pátria e do plano temporal, mas um estrangeiro da existência atemporal, apartado primeiro dos deuses, e, por conseguinte, dos homens, por não mais compartilhar das crenças que os enraízam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A cena mundana&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em A morte de Empédocles, Hölderlin conseguiu captar a dinâmica do sagrado em toda a sua plenitude e complexidade, por meio da qual a filosofia assume as dramatis personae do poeta. Ao lê-la, somos induzidos a retirar essa máscara, chamada Empédocles, e nos vemos diante de um rosto: Hölderlin. Poeta solar, da loucura mais cristalina que já se concebeu, ele soube intuir a pulsação cósmica que subjaz à enantiodromia e ao jogo infinito dos contrários. Sendo também, não poeta de poetas, mas um “poeta da poesia”, nas palavras de Heidegger, coube a Hölderlin fundar sua própria tradição, o que equivale, para o Espírito, a fundar-se a si mesmo, como poeta e como homem, o que é o mesmo que se desvelar como ser existente (Dasein).&lt;br /&gt;Assim, sua efígie parece dizer-nos que desde que saímos da Esfera, desde que saímos do Um e nos arrojamos à constante transformação, não há outra saída senão esta. Uma só vez. E “uma vez mais” − e tudo está determinado. Uma só vez. E basta. Esse é o sentido da vida. Essa é sua beleza, que sempre será trágica, pois ambas as palavras no fundo são uma coisa só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-1530620746069395566?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/1530620746069395566'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/1530620746069395566'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/uma-vez-e-basta-as-vidas-e-mortes-de.html' title='UMA VEZ − E BASTA: AS VIDAS E MORTES DE EMPÉDOCLES E DE HÖLDERLIN'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-1400582188660287669</id><published>2009-11-17T07:52:00.000-08:00</published><updated>2009-11-19T07:44:05.237-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cinema'/><title type='text'>CARL DREYER E A FÉ</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwU10LBnMdI/AAAAAAAAAFM/2UBsYpgTcZE/s1600/images[5].jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5405786098157171154" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 127px; CURSOR: hand; HEIGHT: 93px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwU10LBnMdI/AAAAAAAAAFM/2UBsYpgTcZE/s400/images%5B5%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwLMGw1zmqI/AAAAAAAAADk/YgfQYs6gBIs/s1600/images[6].jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5405106919359879842" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 71px; CURSOR: hand; HEIGHT: 113px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwLMGw1zmqI/AAAAAAAAADk/YgfQYs6gBIs/s400/images%5B6%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Não é preciso nenhuma reflexão teórica ou ter um conhecimento cinematográfico desenvolvido para saber que A Palavra e o Martírio de Joana d’Arc estão entre as maiores obras já realizadas no cinema. Para irmos mais longe, diria que atingem aqueles píncaros da criação artística, que colocam Dreyer como um herdeiro da arte ocidental. Àqueles que estejam desconfiados do entusiasmo de minhas palavras, vão ver os filmes. Depois conversamos. A experiência estética de ver Dreyer é algo similar a ouvir Haeldel, Mozart, os motetos de Gesualdo, Monteverdi, Palestrina. Aproxima-se mais da música, porque toca o inexprimível, a corrente oculta do ser que, quando menos esperamos, deságua numa forma de emoção que transcende em tudo a emoção plástica.&lt;br /&gt;A frivolidade teórica de nosso tempo, que não consegue produzir quase nada que extrapole o ramerrão de uma hermenêutica da suspeita; que quer ver em tudo relações de poder e camadas discursivas; que quer reduzir o homem a uma espécie de micróbio político cercado de política por todos os lados; que pretende entronizar um Universo que, também ele, não seja nada mais do que uma bolha política, não uma noosfera (esfera do Espírito), mas uma polisfera. Pois bem, a frivolidade teórica de todos os tempos, sobretudo o nosso, provavelmente verá nesses dois filmes, com sorrisos nos lábios, uma crítica à religião. O primeiro, pelas disputas entre protestantes e católicos e pela burocracia da instituição religiosa que ignora a fé e a santidade verdadeiras, travestindo-as de loucura. O segundo, pela perseguição da Igreja, que quer assassinar aquela que teve uma revelação legítima. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5405785779161978354" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 88px; CURSOR: hand; HEIGHT: 66px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwU1hmrO1fI/AAAAAAAAAFE/8k66icgOYEk/s400/hdfg.jpg" border="0" /&gt; &lt;div align="justify"&gt;Nada mais equivocado. Em nenhum momento o foco de Dreyer são essas dimensões históricas, contingentes. Sua arte vai em uma direção muito diferente, joga-nos de cabeça na vertente estrutural do homem, cerceado, impelido pelo chamamento divino. Não existe homem natural; não há humanidade fora da transcendência. Por isso, ele não nos apresenta o negativo da fé, uma hipotética razão autossuficiente que esquadrinha as coisas. Toma, sim, a fé em sua fonte, em seu estado puro, em sua luz mais intolerável e em sua mais comovente lucidez. A obra de Dreyer é um dos maiores monumentos erguidos à infinitude da fé.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5405783563565832194" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 93px; CURSOR: hand; HEIGHT: 124px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwUzgo78mAI/AAAAAAAAAEM/JUXqGo9fHCg/s400/fferfd.jpg" border="0" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O teólogo judeu Joshua Heschel, formado na escola teológica e fenomenológica de Marburg, desenvolveu uma abordagem fenomenológica da consciência mística que pode ser classificada como teologia das profundezas. Ao estudar o texto dos profetas bíblicos, Heschel se ateve à estrutura profunda do profeta, tentando depreender o estado de consciência daquele que profere no momento mesmo em que executa a sua mistagogia. Nessa descida em busca da primeira voz que antecede as vozes da alma, Heschel identificou uma diferença marcante entre a mística e a profecia. A mística, em sua concepção, seria quando o homem vê o mundo pelos olhos de Deus. Na profecia, Deus é que vê o mundo pelos olhos dos homens. God is search of man. Há nessa mudança algo muito mais sério do que uma inversão de vetores ou um jogo de palavras. O que ele quer nos fazer compreender é que a profecia torna o profeta um possuído, ao passo que a metanoia mística, em última instância, faz do místico um amoroso; na profecia não há união amorosa e contemplativa com Deus, não há um abandono de si, uma consciência da finitude das coisas criadas, que nos devolve ao seio do Criador. Há, ao contrário, algo que se assemelha ao aniquilamento da consciência individual. Como se a água divina brotasse no interior da consciência finita do homem, e praticamente a arrebentasse. Isso é a profecia.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwUzmJW5h3I/AAAAAAAAAEU/lvQY0AmoODc/s1600/hfh.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5405783658168158066" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 127px; CURSOR: hand; HEIGHT: 93px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwUzmJW5h3I/AAAAAAAAAEU/lvQY0AmoODc/s400/hfh.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;E é por isso que, segundo Heschel, o objetivo da profecia é lançar ao mundo um grande Não. Voz que se eleva do abismo da consciência, da transcendência mais radical, o profeta aniquila a estupidez de nossas sombras e simulacros, esmaga o nosso “humanismo ridículo”, como diz o filósofo Luiz Felipe Pondé, que quer dimensionar a vida a partir da luz fosca de nossa razão demasiadamente humana. Esse é o sentido de crise estabelecido pelo profeta, crise global, que abrange em si todos os demais setores da sociedade e do pensamento, pois é uma crítica das raízes, que atinge os fundamentos mesmos do mundo. Essa é a relação vertical de Deus com os homens. Esse é o olhar que os personagens de Dreyer nos lançam. &lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwUzrUEieOI/AAAAAAAAAEc/RaJGmrY6Vn0/s1600/images[9].jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5405783746943285474" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 137px; CURSOR: hand; HEIGHT: 103px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwUzrUEieOI/AAAAAAAAAEc/RaJGmrY6Vn0/s400/images%5B9%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;É a partir da perspectiva do possuído pelo divino que Renée Falconetti, interpretando Joana D’Arc, nos lança o seu olhar convulsivo, em um dos “monólogos” mais brilhantes da história do cinema, e que Joahannes passeia pelos cômodos da casa se dizendo filho de Deus. A câmera que rola sobre os trilhos e nos embevece com tomadas cada vez mais marcantes; os jogos de luzes e sombras, dos mais equilibrados do cinema em preto e branco; o texto e os jogos cênicos e de linguagem entre os atores. Tudo isso ainda parece ser apenas a atmosfera que Dreyer cria em A Palavra para dar por fim seu golpe de mestre. E esse golpe está alocado justamente na gravidade de sua mensagem. No fundo, Dreyer apenas nos diz a maior de todas as obviedades: a vida é um milagre. Mas com isso praticamente reinventa a roda. Estamos lançados no sobrenatural, e nunca sairemos dele, nem em vida nem na morte. O mistério da ressurreição não é mais miraculoso e inexplicável do que o fato de eu ter duas mãos, cinco dedos em cada uma delas, o céu ser azul e de haver chuva e espaço onde nos movemos, por mais que há cinco séculos não façamos nada mais do que explicar exaustivamente o porquê de todas essas coisas. E o porquê da impossibilidade da ressurreição. É a perda desse sentido milagroso e, portanto, absolutamente indevassável de tudo o que existe que criou o niilismo racional moderno e transformou o milagre em uma espécie de excrescência do funcionamento “normal” das coisas. A normalidade é o Paraíso dos psicóticos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5405783830965371122" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 110px; CURSOR: hand; HEIGHT: 83px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwUzwNE9wPI/AAAAAAAAAEk/VaMbq64QYeA/s400/images%5B11%5D.jpg" border="0" /&gt;A propósito, ambos os filmes nos conduzem ao debate muito delicado entre loucura e santidade, loucura e revelação. Não vou me embrenhar nessa floresta. O mais importante é frisar que Dreyer tem uma posição muito lúcida em relação a isso. Não desmerece o “louco”, ainda que tomado como simples carta fora do baralho. Entretanto, é apenas quando Johannes se “cura” que pode efetuar o milagre. Em nenhum momento há confusão entre espiritualidade e psiquismo, confusão tão marcante no pensamento e na arte do século XX, e que criou uma série de boutades, equívocos e mistificações. Joana e Johannes fazem a vis mystica e crucis. Estão inseridos numa demanda que os ultrapassa, não submetidos à tirania de pulsões que os aviltam. Ao fim, são o Louco e a Criança que operam a Ressurreição. Reconstroem assim o Reino. Ou seja, Johannes não age sozinho, deliberando sobre a realidade a partir de um voluntarismo, ainda que seja inconsciente. É, sim, o intermediário de um milagre que já ocorre, mas que ninguém enxerga. Vocês não acreditam, vocês não acreditam, vocês não acreditam − são mais ou menos estas as palavras que Joahannes repete em seu estado de transe. Claro. Erigimos uma teologia absurdamente racional, organizamos o mundo em torno de uma dúzia de preceitos morais e ainda assim esperamos que o sobrenatural sobreviva? Queremos, mesmo assim, que Deus − viva? Não seríamos aqueles famosos assassinos de Deus, contra os quais o louco de Nietzsche blasfema ao entrar na taverna? Enfim, crer ou não crer, de fato, nunca foi o verdadeiro problema. Como diria Chesterton, o ateu não é aquele que não acredita em nada. Pelo contrário, justamente por ser ateu, é forçoso que acredite em absolutamente tudo. O crente crê apenas em uma Causa, provável embora não demonstrável: Deus. O ateu, ao recusar uma causa primeira e una, acredita na matéria. Ou seja, em tudo o que existe.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwUz6m4q9QI/AAAAAAAAAE0/mPFMNAXXCJE/s1600/images[13].jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5405784009691821314" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 124px; CURSOR: hand; HEIGHT: 93px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwUz6m4q9QI/AAAAAAAAAE0/mPFMNAXXCJE/s400/images%5B13%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;É por isso que nos últimos cinco séculos acreditamos na técnica, na ciência, na razão, no darwinismo, na evolução, na política, na ideologia, na transformação social, na fraternidade, na justiça, na psicanálise, nas terapias, na biologia, na física quântica, nas cotas raciais, na emancipação do indivíduo, na felicidade, no marxismo, na liberação sexual, no sincretismo, nas ONGs, nas academias de ginástica, na matéria, no holismo (Senhor, explica-me o que venha a ser o holismo), na revolução, na subversão, na igualdade entre os homens, na vida saudável, na descrição do Universo, isso somado a uma lista tão extensa quanto o próprio Universo. Tudo isso porque acreditamos acima de tudo na liberdade. A invenção da liberdade parece ter sido mesmo um dos maiores desastres da história humana. &lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwU0Ak6nQ0I/AAAAAAAAAE8/yAy-UJ4vH4E/s1600/sdsd.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5405784112242312002" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 124px; CURSOR: hand; HEIGHT: 94px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwU0Ak6nQ0I/AAAAAAAAAE8/yAy-UJ4vH4E/s400/sdsd.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O olhar silencioso de Joana não responde. Mais indaga do que responde. É uma navalha atravessando essas inúteis indagações. Como dizem os místicos ortodoxos gregos, “o homem é um animal visitado”. Sim. Visitado por Deus. Ela não se sabe livre, mas sim eternamente cativa. E é justamente essa ciência que a liberta, não da prisão ou do desejo ou do poder ou da religião ou do machismo ou da má consciência ou da depressão ou dos medicamentos ou das injustiças sociais ou da política ou das ideologias ou da libido ou dos complexos ou de sua classe social ou do capitalismo ou do subdesenvolvimento ou do inconsciente ou da simples e cândida maldade. Isso a liberta do mundo, devolve-a ao Reino. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5405783916770236738" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 72px; CURSOR: hand; HEIGHT: 101px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwUz1MucGUI/AAAAAAAAAEs/5H9QV1r8QxY/s400/images%5B12%5D.jpg" border="0" /&gt;O grande Não que Dreyer desfere contra o mundo é uma das mais enfáticas recusas proferidas em tom profético. Mas também é, em primeiro lugar, uma descoberta e a abertura de um caminho. Ele diz que a verdadeira crítica ao que nos cerca só nasce quando Deus nos busca e nos visita, e deixamos que ele se infiltre em nossa consciência e a aniquile. O resto são dispositivos racionais, discursivos e pseudocríticos, cuja única função é nos afastar da verdade e regular parcial e homeopaticamente o absurdo da existência. Não dar-lhe um sentido, mas torná-la feliz, como reza o vocabulário da geriatria e da publicidade. E assim não fazemos nada mais do que fornecer respostas cada vez mais eficientes para perguntas cada vez mais descartáveis. Como tudo, aliás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leia: http://maiaragouveia.blogspot.com/2009/11/carl-dryer-mestre-de-mestres.html&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-1400582188660287669?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/1400582188660287669'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/1400582188660287669'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/carl-dreyer-e-fe.html' title='CARL DREYER E A FÉ'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwU10LBnMdI/AAAAAAAAAFM/2UBsYpgTcZE/s72-c/images%5B5%5D.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-6660641505735250118</id><published>2009-11-17T07:42:00.000-08:00</published><updated>2009-11-19T09:08:21.927-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Acontece'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwLFPJouMvI/AAAAAAAAACM/uuNRtcJs3h4/s1600/lanc_DialeConciencia_LogicaSimb[1].jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5405099366873445106" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 186px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwLFPJouMvI/AAAAAAAAACM/uuNRtcJs3h4/s400/lanc_DialeConciencia_LogicaSimb%5B1%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwLEvS5D_wI/AAAAAAAAACE/R1UPfUG1-7g/s1600/lanc_DialeConciencia_LogicaSimb[1].jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;OBRAS COMPLETAS DE VICENTE FERREIRA DA SILVA&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;ORGANIZAÇÃO, INTRODUÇÃO GERAL E NOTAS&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;RODRIGO PETRONIO&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;RUA FRANÇA PINTO, 498 - VILA MARIANA - SÃO PAULO&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;26 DE NOVEMBRO - QUINTA-FEIRA - 19H&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-6660641505735250118?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/6660641505735250118'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/6660641505735250118'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/11/obras-completas-de-vicente-ferreira-da.html' title=''/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SwLFPJouMvI/AAAAAAAAACM/uuNRtcJs3h4/s72-c/lanc_DialeConciencia_LogicaSimb%5B1%5D.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-2749687467129201125</id><published>2009-08-19T20:59:00.000-07:00</published><updated>2009-11-19T09:08:45.060-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Acontece'/><title type='text'>Lançamento dos livros: Pleno Deserto e Venho de um país selvagem - Maiara Gouveia e Rodrigo Petronio</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SozK962sewI/AAAAAAAAABw/ryOJfaK1XNE/s1600-h/flyer_rodrigo.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5371891620665654018" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 244px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SozK962sewI/AAAAAAAAABw/ryOJfaK1XNE/s400/flyer_rodrigo.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/868545205926591106-2749687467129201125?l=rodrigopetronio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/2749687467129201125'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/868545205926591106/posts/default/2749687467129201125'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodrigopetronio.blogspot.com/2009/08/lancamento-dos-livros-pleno-deserto-e.html' title='Lançamento dos livros: Pleno Deserto e Venho de um país selvagem - Maiara Gouveia e Rodrigo Petronio'/><author><name>Rodrigo Petronio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05848414295615003214</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/-ffvaUgxjHqs/TxMGTRJxCaI/AAAAAAAAAKs/tCpG2-lbE30/s220/100_3905.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SozK962sewI/AAAAAAAAABw/ryOJfaK1XNE/s72-c/flyer_rodrigo.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-868545205926591106.post-3119471361767265677</id><published>2009-08-13T15:43:00.000-07:00</published><updated>2009-08-19T21:17:03.398-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ensaio'/><title type='text'>MARCEL PROUST: O MAIS BELO CREPÚSCULO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SoSaZI1d8nI/AAAAAAAAABo/nSnijArEJkg/s1600-h/images[1].jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369586412391625330" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 106px; CURSOR: hand; HEIGHT: 116px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_T63Uw2JlQDM/SoSaZI1d8nI/AAAAAAAAABo/nSnijArEJkg/s400/images%5B1%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Para facilitar as citações, usarei ao longo do texto as seguintes siglas para a obra de Proust: No caminho de Swan (CS), À sombra das raparigas em flor (SRF), No caminho de Guermantes (CG), Sodoma e Gomorra (SG), A prisioneira (P), A fugitiva (F) e O tempo redescoberto (TR). Utilizarei também a forma abreviada Busca para referir o nome completo da obra. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Falar da obra de Proust é nos aproximarmos de um dos pontos mais altos da literatura do século XX e ao mesmo tempo desvendar alguns dos paradoxos deste século. Estes, felizmente, talvez não tenham sido resolvidos dialeticamente, mas tenham simplesmente entrando em extinção. Ao mesmo tempo, ao ler Em busca do tempo perdido, o fazemos sempre com aquela vaga sensação de que grande parte de sua genialidade se deve ao caráter algo idiossincrático de suas representações e mesmo de suas crenças. E isso em nada diminui a sua abrangência artística, tampouco compromete o seu enraizamento histórico.&lt;br /&gt;Quando lembramos que Nerval saía pelas ruas de Paris e passeava pelo Palais Royal com sua lagosta de estimação presa em uma coleira ou quando viemos a saber, com a morte de Satie e a abertura de sua casa repleta de teias de aranha, que o seu piano tinha teclas quebradas, esses dados não nos soam como meras maneiras de transformar o artista em uma boutade. São consubstanciais às suas criações. Enquanto Baudelaire renova a função heróica e, de certa maneira, trágica do gênio, justamente ao levar a um impasse a sustentação dos valores da nobreza dentro da nova condição decaída do artista que se define a partir do século XVIII, Walt Whitman muda toda a poesia ocidental a partir de uma atitude rigorosamente oposta: cria uma nova cosmogonia baseada justamente nos valores da democracia e em uma equivalência ontológica de todos os seres, que se consuma na amplificação e dissolução do eu. Entre esses dois fundadores da “modernidade” corre um abismo incomensurável. E em ambos temos a oportunidade de experimentar o nonsense que este conceito traz em si, bem como os critérios equivocados que ele produziu.&lt;br /&gt;A partir de Em busca do tempo perdido, temos na literatura um duplo movimento, ou seja, um corte transversal que se dá a um só tempo na subjetividade do autor e na história da literatura. Não há evolução em arte, só há evolução do artista − diz-nos esse pintor das flutuações do espírito, das atualidades e das virtualidades do mundo. É isso que produz o efeito de estranhamento desse monumento sui generis, cuja situação ambígua parece nos dizer que Proust conseguiu uma façanha. A de ser, simultaneamente, um dos maiores e um dos menos modernos artistas de seu tempo, contradizendo todos os pressupostos dos “ídolos de fogo” deste século, como observou Valéry.&lt;br /&gt;Em conflito com a frase acima, talvez seja verdade que “o arcaísmo é feito de muitas insinceridades”, como nos diz Proust em sua nota sobre a pintura de Moréas, e isso se dá porque em geral retemos dos antigos “os traços exteriores”, na medida em que os antigos nunca se viram como antigos em relação a si mesmos, porque o antigo “não se voltava para o que era antigo nele”. Essa fidelidade profunda consigo mesmo marca quase todos os grandes artistas. Porém, por mais admirável que seja a questão estética implicada, há aqui um equívoco crítico e uma ponderação ingênua.&lt;br /&gt;O equívoco consiste em ignorar que, muitas vezes, talvez em sua maioria, os antigos se faziam sobre o que era antigo em relação a eles mesmos. Isso é o que nos impede de saber, por exemplo, a exata extensão das crenças dos povos nômades da Eurásia sobre Pitágoras, deste sobre Sócrates, deste sobre Platão e deste último sobre toda filosofia cristã. A ingenuidade consiste em transformar algumas crenças da modernidade em valores absolutos. Fazendo isso, os seus paladinos não se percebem vítimas de si mesmos, na medida em que, ao pronunciar essa sentença, Proust ignora que o seu mundo é perfeitamente arcaico em relação ao de seu contemporâneo Marinetti. Paradoxalmente, à luz de seus silogismos, um dos dois deve ser eliminado, para que nenhum dos dois atinja a posteridade. Se esses jogos estão entre os fundamentos da própria modernidade e gozam de prestígio, isso não nos impede de compreender facilmente como e por que eles também foram a corda com a qual essa mesma modernidade se enforcou.&lt;br /&gt;Mesmo advogando que “o talento é o critério da originalidade” e que esta seria o “critério da sinceridade”, sendo o prazer o critério tanto do talento quanto da originalidade, a obra de Proust, mais do que um marco zero do que virá a ser, é uma espécie de crivo de diversas tendências anteriores e contemporâneas. E isso é importante notar, para situar melhor a espiral que ela representa para a história da literatura. Algumas delas podem ser colhidas diretamente em suas anotações críticas reunidas em Contre Sainte-Beuve e em sua correspondência. Outras são intuídas ou estão dispersas citações diretas e indiretas ao longo da Busca.&lt;br /&gt;Dentre as leituras e assimilações de Proust encontram-se os próprios Nerval e Baudelaire, além de Balzac, Rolland, Stendhal e Flaubert. Nesse ponto, sabe-se da importância desempenhada por Baudelaire e pela teoria das correspondências para o princípio de analogia que estrutura toda a Busca. Não só por ele, mas também pelos simbolistas. A despeito da ausência de um sentido místico, a obra de Proust não é indiferente às traduções estéticas dessas idéias, a partir da sua assimilação pelo cenáculo simbolista. Seja por meio dos princípios arcanos de Swedenborg, que passaram por Blake e pelos românticos até que Baudelaire lhes desse uma das formas artísticas finais, seja pela circulação, entre os artistas e os iniciados na arte do símbolo, de autores como Eliphas Levi (ocultista da devoção de Mallarmé), Julius Évola, Sar Péladan, Stanislas de Gaita, Papus ou das idéias de Fulcanelli e de alguns herméticos.&lt;br /&gt;Nesse contexto finissecular, além de proporcionar gnose autêntica, como fato social as vias de iniciação tornaram-se um expediente para preservar as marcas de distinção social que eram paulatinamente removidas pelas sucessivas revoluções que atravessaram os séculos XIX e XX, bem como pelo materialismo crescente. Contrapartida da famosa cultura da reprodutibilidade, então emergente, conferiam traços de “nobreza” e de singularidade aos seus iniciados, além de servir de mote a esnobes e dândis, à revelia de seus talentos.&lt;br /&gt;Não é outro o alimento estético dos decadentistas, nos quais essas marcas sociais em extinção ganham a versão mais caseira de uma mística da arte, inspirada em Ruskin e Pater, em Rémy de Gourmont e na écriture artiste dos irmãos Goncourt. Por isso o tênue hiato que separa figuras como Wilde e Huysmans de personagens como Axel, Des Esseintes e, no caso de Proust, do barão de Charlus (SG).&lt;br /&gt;Essas torres de silêncio e contemplação, ancoradas em uma renúncia à vida, são centrais para compreender todo o período artístico que vai de 1870 a 1930, conforme o magistral estudo de Edmund Wilson estipula. A obra de Proust não é alheia a essa atmosfera. Ao contrário, representa uma de suas maiores expressões. O que importa é a possibilidade estética de traduzir os ritmos do mundo em uma interiorização sensória; esta é, a um só tempo, descritiva e volitiva, tem a função de reter o objeto apresentado pelos sentidos e, ao mesmo tempo, desmembrá-lo pelo recurso híbrido da memória, por meio do qual aquele objeto apresenta a suas virtualidades, ou seja, os demais objetos e sensações e vivências que estão latentes nele. E frise-se também o fundamento plástico e musical que estrutura a Busca, além de seu fundo filosófico, baseado sobretudo no criacionismo de Bergson, com o qual Proust teve contato muito cedo, por meio de conferências, como George Painter ressalta em sua bela biografia. Mas esses artistas são tão importantes na sua obra quanto o são Francis Jammes e Marterlinck, Montaigne e Mme de Sévigne, Wagner e Van Dyck, Veermer e Tolouse-Laututrec, Mme de Cardaillec e Mantegna, Anatole France e Henri de Rágnier. Porém, foquemos a obra.&lt;br /&gt;Talvez não seja exagerado dizer que há um princípio que se manifesta da primeira à última das mais de duas mil páginas de Em busca do tempo perdido. Ele consiste, em linhas gerais, em uma perspectiva idealizada de todos os fenômenos, sejam eles personagens ou objetos, e na sua conseqüente transformação, decomposição e ruína. O ideal, assim, cumpre o papel dramático, de centro irradiador de sentido. É ele que fornece a força passional para que os personagens ajam e vivam, mas, ao mesmo tempo, o resultado deceptivo é proporcional à força idealizadora daquele e daquilo que se arruína à sua custa. Desse modo, o ceticismo e até o cinismo que encontramos em algumas de suas páginas, que vão do humor e da graça de circunstância à ironia quase histriônica em alguns casos, não é afirmativo, como se enfim o conhecimento do mundo e das paixões tivesse sido acessado e domado. Traz em si, ao contrário, a marca de uma melancolia.&lt;br /&gt;Ela nos sinaliza que o objetivo foi frustrado. Obstruiu-se o percurso cujo intuito era o de conhecer e dominar o outro e o mundo, seja por meio da vida mundana, seja por meio do amor. Em ambos os casos, a exteriorização do eu e sua tentativa de assimilar e ser assimilado à realidade que o cerca é sempre insuficiente em relação ao ideal que conduz esse mesmo eu a essa excentricidade. Do ir-e-vir desses pólos de solidão e de mundanidade nascem os dramas da obra de Proust. Em sua sinfonia, sempre o tom menor predomina, como ruína inexorável de nosso destino, imersos que estamos na relatividade absoluta dos afetos, dos valores e das percepções. Dessa condição, não é possível redimirmo-nos. Aliás, a única forma parcial de redenção seria o salto fora do tempo, quando temos acesso à estrutura primeira da memória e do tempo, fora de suas representações, fato que só se consumaria na arte e que, em linhas gerais, constitui o tema do último volume (TR).&lt;br /&gt;Como recorda Edmund Wilson em seu estudo magistral, o projeto inicial da Busca era o de ser uma sinfonia em três partes. Cada uma delas levaria títulos que se refeririam a um dos andamentos: Idade dos Nomes, Idade das Palavras, Idade das Coisas. A primeira etapa seria dominada pela perspectiva da infância e da adolescência, ou seja, da possibilidade da inocência, e corresponde a dois espaços principais: a província de Combray e os balneários de Rivebelle e Balbec. A segunda trata da vida adulta e tem como espaço romanesco Paris. É a descoberta do amor, uma experiência prévia à entrada na realidade efetiva das coisas, que culmina com o ponto mais agudo da crise deceptiva. A entrada neste contexto existencial está intimamente ligada não só às relações sociais, mas sobretudo às reações amorosas. Ou seja, a terceira etapa corresponde ao próprio inferno, ao exílio na falsidade e na inautenticidade, dado que o movimento de ruína do ideal atinge seu ápice a partir de Sodoma e Gomorra, mas perdura em A prisioneira e A fugitiva. Esse aspecto é interessante, pois nos leva a pensar a obra sob o ponto de vista dos andamentos, e mesmo assim é possível vermos esse leitmotiv que mencionei em todos os volumes e nos três ciclos que se desenvolvem.&lt;br /&gt;Sabe-se que o primeiro volume começa pelo ambiente de Combray, província da avó do narrador Marcel e onde se desdobra o famoso episódio da madeleine. A localização é importante, pois divide em duas a topografia social do romance. De um lado, o caminho de Guermantes, que conduz à alta nobreza. De outro, o de Villeparisis, que leva à vida burguesa e às classes intermediárias. Nesse cenário, a abertura da obra dá-se com a famosa cena da hesitação de Marcel, ainda criança, na cama, esperando o beijo de boa noite da mãe, enquanto seus pais se entretêm com a visita de Swan, um dos personagens centrais. Logo na primeira cena, portanto, estamos diante da obliteração de uma assimilação da espera, e é instaurada a tônica da vigília, o que também de saída sinaliza o estilo anfíbio de Proust em toda a sua obra, esse misto belíssimo de devaneio consciente e de controle inconsciente da escrita.&lt;br /&gt;A centralidade de Swan é importante nessa fase inicial por diversos fatores. Tendo-se casado com Odette de Crécy, uma cocotte de cabaré, e descido socialmente, representa a figura mundana por excelência, aquela que atravessa os estratos sociais, o nobre que é aos poucos assimilados pela burguesia, movimento que é histórico, não apenas ficcional. Mas Swan também se move no campo da idealização, e acaba apaixonando-se por Odette porque esta, embora vulgar aos olhos de todos os outros, satisfaz-lhe os desejos estéticos que, por sua vez, também pertencem apenas à construção pessoal do próprio Swan (CS). Do mesmo modo, Legrandin deseja se aproximar dos nobres Guermantes, Bergotte, o escritor, imagina-se célebre e possuidor de um talento que não tem, ao passo que o músico Vinteuil, autor da célebre sonata tocada na casa dos Verdurin, um dos temas do amor de Swan, por ter sido nesta casa que com conhecera Odette, padece da mágoa do desamor de sua filha (CS). Os Verdurin, por seu turno, também têm a sua contrapartida por alimentarem idéias de nobreza incapazes de se cumprir: vivem em uma espécie de isolamento despeitado, como se quisessem assim neutralizar de antemão o eventual desprezo que viessem a sofrer (CS). No caso deles, a idealização age de modo atípico: motivando o espírito a buscar os valores da nobreza decadente, estes são supervalorizados e temidos, e a frustração surge natimorta, como recalque.&lt;br /&gt;E é logo no começo da obra que começam a cair as primeiras máscaras. Uma delas, explorada na longa digressão final (CS) e retomada no volume seguinte é a que concerne ao amor de Marcel por Gilberte, filha de Swan (CS/SRF). Esse amor, não tendo se realizado plenamente, não só não apresenta uma significação satisfatória do seu fim, como deixa no personagem uma dúvida em relação à essência mesma do amor. O atrito interrogativo será arrastado ao longo do romance, até se concretizar como o inferno da completa inviabilidade, cujo corolário é a sua paixão por Albertine, verdadeiro hieróglifo humano, cujas motivações últimas chegam ao final da obra sem uma definição a contento (AD/P/TR). Assim, vemos o princípio de idealização ruir pouco a pouco, até chegarmos a saber que a princesa de Guermantes é Mme Verdurin, desposada por questões financeiras pelo príncipe após a derrota da Alemanha (CG). A partir dessas rupturas, saímos da primeira instância da obra e adentramos a sua dimensão mais mundana (CG/SG). Porém, essa primeira queda, digamos assim, ou seja, a descoberta do falso prestígio dos Guermantes, sofre ainda uma segunda investida, quando o jovem narrador, de volta a Paris, descobre que Mme de Villeparisis não era tão brilhante quanto acreditava. Revê-a, depois de algum tempo, desclassificada, fazendo-se passar por uma espécie de escritora medíocre, eivada de problemas circunstanciais e de mesquinharias (SG).&lt;br /&gt;Quando pensamos que a teia das relações se estabilizou, mais uma homeostase intervém para retirar mais uma camada da realidade e mostrar de modo ainda mais cru a sua essência. Por intermédio de Charlus, Marcel descobre que o senhor de Villeparisis era uma pessoa desqualificada socialmente, e que havia criado com artifícios o título de Villeparisis apenas para que ele fosse agregado à sua esposa. A mesma Mme de Villeparisis, um pouco mais à frente, reaparecerá, idosa e arruinada, como uma forma de mostrar a impotência patética daquela que havia gozado de tanto poder e exercido tanto a sua impiedade (SG). Essas relações de simulacros que vão cedendo estão por todas as partes; mas ganham mais vivacidade a partir do momento em que entram em cena os jogos amorosos.&lt;br /&gt;É nesse momento que adentramos o reino dos simulacros, cujos representantes mais importantes são Albertine e Charlus, naturezas híbridas e conflituosas, em constante oscilação entre o masculino e o feminino (SG). A perversidade, o egoísmo e a falsidade nos conduzem a um ponto cego do romance, onde o movimento centrífugo gerado pelo princípio de idealização inicial parece ter-se destruído por completo. O pano de fundo ideal que proporcionava a tensão na iminência de sua ruína começa a enfraquecer, posto que o grotesco toma a cena e embaralha os personagens. Os melhores representantes desse mundo do instinto e do egoísmo parecem ser Morel e Charlus. Como romper esse círculo? Possivelmente por um acesso legítimo não á verdade, mas sim à realidade, em sua constituição mais primária e, mesmo assim, indevassável. Porém, a viabilidade dessa instância última, não destruída pelas séries de máscaras e perspectivas que se neutralizam umas à outras, surge apenas no final do romance (TR). Não se trata de uma redenção, mas sim de uma possibilidade de captar a matéria mesma da realidade, em sua espessura mais viscosa, além do tempo e de suas implicações. Para isso a arte, em seu sentido verdadeiro, seria uma das poucas vias de acesso, segundo Proust, a essa verdade que estaria no cerne mesmo de todas as manifestações da vida (TR).&lt;br /&gt;Dentro desse panorama, e mesmo o projeto da divisão ternária da Busca tendo sido abandonado, o segundo volume, À sombra das raparigas em flor, traz como uma de suas duas partes o belo título “Nomes de terras: a terra”, espécie de reminiscência desse estrutura embrionária. Este volume é um devaneio adolescente sobre o amor e sobre todas as questões que marcam a obra de Proust. Depois do fracasso de seu romance com Gilberte, filha do judeu Swan, narrado longamente em forma de epílogo (CS), a meditação sobre essa frustração amorosa prossegue, de maneira bastante significativa, fornecendo elementos para a dúvida cáustica do amor e das relações sociais que vão sendo cada vez mais e com maior intensidade destruídas (SRF). A idealização amorosa, portanto, prossegue nesta parte da obra e, pode-se dizer, expande-se para diversas instâncias.&lt;br /&gt;Um dos temas mais idealizados ao longo do primeiro volume da Busca é justamente a nobreza dos Guermantes, o marcado fascínio que a oposição entre os caminhos de Guermantes e Villeparisis ativa no imaginário do menino Marcel, fato que será aprofundado mais adiante (CG). Porém, antecipando o desdobramento ulterior, em À sombra das raparigas em flor essa idealização já merece algumas pinceladas magistrais. Por seu lado, o teor deceptivo que a duquesa de Guermantes viria imprimir no espírito de Marcel não está isolado; compartilha de outro movimento centrífugo, composto em espiral, e que consiste na edificação de um mito de pureza e a sua conseqüente destruição. Trata-se da atriz Berma (SRF). Essas duas figuras congregam em si boa parte do movimento pendular da Busca, e são pintadas magnificamente.&lt;br /&gt;Ora, antes mesmo do personagem-narrador conseguir, graças à intervenção e aos favores do senhor de Norpois, um ingresso para assistir à interpretação que a atriz faz da Fedra de Racine, já havia reservado páginas e páginas para compor o caráter dessa espécie de heroína dos palcos. O tom algo efusivo e um tanto histriônico que a obra de Proust revela no que diz respeito aos valores e à honra é algo que o coloca como um dos grandes moralistas de todos os tempos. É esse motivo também que o leva a não assumir de saída um ceticismo filosófico ou a meramente aceitar a verdade irredutível das aparências. Não. A questão da verdade em Proust é mais delicada, mais complexa. E um dos aspectos que o atestam é esse atrito entre a glorificação da face alheia, no que ela tem de mais genuíno, e a miséria dos confins mais sórdidos de nossas almas. Tal diapasão, tal captação dos fenômenos mais amplos da vida, tendo um sentido moral como fundamento, produz-nos a sensação de que terá também, como essência, um conteúdo trágico. Não é isso o que ocorre, mas sim o seu reverso. Eis que Proust nos apresenta à contrapartida do drama moral: o cômico. E esse é um dos aspectos mais interessantes da Busca, que vai da ironia aos limites do histriônico e do grotesco, pontuado em diversos momentos da obra, infelizmente impossível de ser aprofundado aqui.&lt;br /&gt;Cabe ressaltar apenas que esse movimento vai agregando a si os personagens, os caracteres, os valores, sempre com o intuito de negar a sua estabilidade e a substância verdadeira de seus atos. Mesmo quando há intencionalidade, há frustração ocasionada pelo destino, como no caso, enunciado pelo narrador, dos verdadeiros motivos que teriam levado Swan a se casar com a vulgar Odette. Na realidade, diz-nos, sua motivação profunda era a de conseguir estabelecer um contato inusitado, possibilitando a Odette a glória da intimidade com a duquesa de Guermantes (SRF). Esse intuito não se cumpre pelas vias de Swan, que morre. Mas sim pelas próprias circunstâncias da vida, pois, após sua morte, de fato a duquesa espontaneamente trava amizade com Odette. Seu sonho mundano, cujo maior satisfação era produzir relações sociais transversais, a um só tempo se quebra e se realiza; há energia deceptiva suficiente para saber que Swan fracassou em seus intentos e, mais que isso, foi varrido pela doença antes mesmo de realizar o seu intuito. Mas essas aspirações, ao se realizarem, ou seja, ao cumprirem seu papel real, objetivo, que já lhes parecia estar destinado, não fazem mais do que lançar a última pá de terra sobre o ideal algo bufo e algo heróico que animava Swan.&lt;br /&gt;Em meio a essas espirais de altivez e desolação, entre esses píncaros de miséria e gratuidade, entre essa comédia altissonante cujas protagonistas são a ilusão perfeita e a realidade insuficiente, começa o outro movimento dessa sinfonia, um dos mais importantes para compreender a obra de Proust. É aquilo que, como o definiu Deleuze, podemos chamar de ritornello, usando um termo da música que é, aliás, mencionado pelo próprio Proust (CS). Quando um tema e uma frase musicais retornam em outro ponto de uma mesma obra, adquirem um novo sentido. Sabemos que é a mesma modulação, uma variedade diferente da mesma frase poética executada há pouco. Mas o que se passou até que houvesse a repetição altera o sentido dessa frase e, justamente por meio da repetição, confere-lhe nova espessura. Esse aspecto é de suma importância, e em À sombra das raparigas em flor tal recurso começa a emergir com toda a sua força. Um dos leitmotiven do primeiro volume, sobretudo da primeira parte, “Em torno da sra. Swan”, como o título diz, é Gilberte. Esta é explicada, referida, reiterado e trançado ao longo de todo este volume, bem como a reflexão dos possíveis motivos que levaram a fenecer o amor entre ela e Marcel, como uma espécie de baixo contínuo ou de neurose obsessiva (CS/SRF). Outro tema que ficou famosa na Busca, além do mais que glosado episódio da madeleine, é a Sonata de Vinteuil. Sabe-se que ela começou como uma música especial das reuniões na casa dos Verdurin. Entretanto, a maneira como ela passa a repercutir no espírito do narrador começa também a produzir uma cascata de sensações, no centro das quais emerge, como regra, a inautenticidade, a impossibilidade de possuirmos o cerne de nossas vidas, dada a impossibilidade de retermos uma mínima frase musical intacta no espírito. Nesse sentido, o narrador, ao tratar de sua sensação íntima em relação à sonata, diz-nos que nunca chegou a “possuí-la inteiramente”, e, justamente por isso, ela “assemelhava-se à sua vida” (SRF).&lt;br /&gt;É fato que alguns personagens servem de âncora ao furor idealizante de Marcel. E parecem sinalizar algumas ordens de realidades, quase como se o narrador nos dissesse de maneira onisciente que havia forças tentando salvaguardá-lo de si mesmo. Esse processo de desmistificação está em episódios simples e até bastante rápidos, como aquele no qual o seu amigo Bloch adverte o narrador de que as mulheres de Méséglise só se interessam pelo amor, querendo dizer com isso, em termos mais prosaicos, que para elas há tudo, menos amor (SRF). Porém, estes estendem-se e se interpenetram em outros, de modo que vão gerando situações mais densas. Outros pequenos sinais compõem o cenário mais amplo da segunda parte de À sombra das raparigas em flor, “Nomes de terras: a terra”. Esta transcorre quase em sua totalidade no balneário de Balbec, onde o narrador passa férias com os amigos Robert, o próprio Bloch e, principalmente, Saint-Loup, com quem trava os diálogos mais densos e chega mesmo a trocar confissões.&lt;br /&gt;A estadia em Balbec é notável sob diversos pontos de vista, dos mais filosóficos aos mais plásticos e estritamente literários. A começar pelo relato da viagem de trem, na qual o narrador, criatura nervosa e asmática, mostra-se tenso diante de uma decisão aparentemente desprezível (coisa recorrente em Proust): tomar ou não café. Decide enfim tomar, o que afeta o seu sistema nervoso e fá-lo desenvolver, em estado de torpor, uma descrição sutilíssima das tramas do veludo azul das cortinas (SRF). Mas a apostasia estética não pára aqui, e, nas descrições praianas, mais uma vez a paleta do pintor Proust mostra toda a sua variedade colorística, seja mostrando um grupo de meninas belas que, saltitando pela areia, mais parecem um borrão composto contra o horizonte, seja descrevendo um jantar no restaurante do Grande Hotel, no qual as figuras aparecem à janela de vidro como se estivessem em um aquário, com requin
