segunda-feira, 7 de junho de 2010

NÓS, OS FEMINICIDAS




O filme O homem que não amava as mulheres é bom sob diversos pontos de vista. Com um ritmo bem marcado, suspense, enredo cheio de minúcias e tramas que vão sendo criadas e desmanchadas em grande velocidade. O eixo da estória são homens de idades e procedências distintas que violentam mulheres. Dentre eles, há um serial killer que precisa ser encontrado. Claro, tem também o mocinho e a mocinha que acabam ficando juntos, como se supõe, com direito aos clichês toleráveis em nome do amor. Enfim, um filme que trata de todas as formas de violência, física, moral, sexual e simbólica, contra as mulheres, chegando ao seu limite, ou seja, ao feminicídio.
Mas o grande pecado do filme, se é que podemos dizer assim, ou a lacuna grave que ele deixa escancarada ao espectador, é que ele nos mostra apenas os frutos dessa violência, a sua gratuidade, sem em nenhum momento apontar para as suas origens ou se indagar sobre as suas bases. Assim, ao ocultar as motivações internas do feminicídio, transforma seus personagens em marionetes, em doentes mentais monstruosos e não-humamos. O que não deixa de dar o doce sabor da vingança pelo preço que eles pagam no final, ou seja, uma bela (e merecida) recompensa às mulheres, que saem do filme felizes por terem sido “justiçadas” e “redimidas”. Mas, assim, o filme transforma os acontecimentos em performances cinematográficas com um valor meramente moral, sem dimensioná-los sob um ponto de vista da estrutura mesma da sociedade contemporânea.
No fundo, caímos no velho mito da monstruosidade do Mal, e esquecemos a sua indefectível banalidade. Em outras palavras, é muito fácil fazer um filme sobre Jesus em que todos os cristãos se sintam comovidos com a “injustiça” cometida contra o Salvador. Mas no qual esses mesmos cristãos não se deem conta de que eles próprios, nas mesmas condições, com certeza salvariam Barrabás. De gota em gota, esquecemos que o Mal tem os traços do nosso rosto. Como nos lembra Drummond, em seu belo poema, em todas as manhãs do mundo despertam os “ferozes leiteiros do mal” e os “ferozes padeiros do mal”. É aquela “ração de crime” cotidianamente distribuída em casa. Está tão perto que nos é estranha, tão próxima que se faz invisível, tão imperceptível que nos alimenta, sem nos darmos conta. O Mal nos é mais familiar do que nossa roupa, do que a nossa pele, do que os nossos gestos cotidianos. Ele é aquele “pó da morte” de que fala o filósofo cristão Bernanos, que vai se infiltrando e se sedimentando em nós, no ar que respiramos, até a nossa completa (e inconsciente) aniquilação.
Se nos indagarmos sobre o movimento mesmo de liberalização sexual, ele corre em mão dupla e se dirige a ambos os sexos. Ao mesmo tempo em que temos a emancipação legítima da mulher e cada vez mais e em maior grau uma “igualdade” de direitos entre os sexos, ambicionada por todas as pessoas razoáveis, temos, dentre outras coisas, a consequente desfeminilização das mesmas, para que elas possam de fato adquirir a sua “igualdade”. Por outro lado e de maneira complementar, há uma progressiva e evidente “castração” simbólica do homem, de que não tratarei aqui, mas que está no cerne de alguns dos problemas do nosso tempo. Bom, até aí, tudo bem.
Mas o que pouca gente ressalta é que, afinal, nessa igualdade entra de tudo. Pois se durante tantos séculos coube ao homem o papel de poder sobre si mesmo, sobre os mais fracos e sobre o outro sexo, hoje esse “poder” está se diluindo velozmente por todos os indivíduos do planeta. Se eu “posso” vender meu corpo para uma revista gay, para uma agência de turismo sexual para senhoras ou para uma empresa de embalagens eróticas, as mulheres também “podem” ser atrizes de filmes pornô, prostituir-se ou serem consumidas em algum horário vago da agenda de um grande executivo. E nesse sentido, não valem argumentos sociológicos de boteco ou uma pseudofilosofia da condition humaine. O problema que se coloca é claro. Os desdobramentos sucessivos da modernidade implicam essa dupla condição: liberdade autossustentada que traz mais liberdade autossustentável, hipoteticamente regulada pelos expedientes da razão pública e da moral privada. Esse complexo movimento, por sua vez, vem salvaguardado pela tênue e paradoxal película de uma coisa extremamente abstrata chamada lei. 
Então, torna-se muito bonito, ou seja, muito moral, no sentido raso da palavra, falar de espancadores e de assassinos de mulheres, dos feminicidas em última instância. De fato, não deixa de ser importante tratar disso, como uma forma de alerta ou termômetro, para assegurar direitos conquistados e deixar a sociedade em vigilância para uma eventual regressão democrática. Mas colocar o problema assim implica em reduzi-lo à sua superfície. Porque esse sexo “frágil” é hoje composto por profissionais liberais, milionárias, executivas, taxistas, boxeadoras, professoras, prostitutas, bancárias, empresárias, caminhoneiras, traficantes, contrabandistas, criminosas, assassinas, todas elas “consumidoras”, dentre outras coisas, de homens, seja de fato ou em potencial. Todas mais ou menos inseridas nas malhas do “poder”, palavra que só é usada em sentido pejorativo pelos idiotas ou pelos hipócritas, para produzirem no leitor uma falsa neutralidade e a impressão de que eles, que a pronunciam, não o desejam. Como se diz em filosofia: o ser sempre deseja persistir em sua essência. Até as pedras “desejam” exercer algum “poder” sobre as outras pedras.
Então, qual seriam os traços básicos do feminicida do futuro? Ele certamente será bem diferente do assassino principal do filme, um jovem que “aprendeu” com o pai a estuprar a própria irmã. Talvez possamos vê-lo como aquele tipo de jovem tímido, feio, esquisito, fedido, avacalhado pelos colegas. Talvez ele ainda novo tenha bons sentimentos, e possa até ter alguma sensibilidade. Um adolescente pacato, meio boçal, e que amadurecerá sem conseguir criar recursos para sair de sua boçalidade. Quem sabe filho de uma mãe promíscua, prostituta ou mesmo incestuosa? Mas segundo o discurso vigente, isso pouco importa. Podemos muito bem continuar dizendo que o machismo é um dos maiores problemas do mundo desde há milênios. Podemos continuar encontrando novos expedientes de equanimidade entre os sexos. Podemos continuar repetindo que os corpos são construídos. Podemos continuar celebrando a Mãe Natureza e salvando as baleias. Podemos criar uma nova mitologia para a Grande Mãe, uma nova religião das energias da Anima e pôr um ponto final em toda essa história de patriarcado e repressão. Basta que sejamos todos “iguais”. Ou melhor, que façamos o percurso de “integração do feminino”, como dizem os psicólogos.
Esse mesmo adolescente virará um homem. Provavelmente a sua “integração do feminino” possa não funcionar muito bem, e então ele será consumido pelas mulheres, talvez por muitas delas, muitas vezes, impiedosamente. E estas provavelmente o trocarão bem rápido por algum outro objeto um pouco mais selvagem, performático ou aerodinâmico. Nessa voragem da circulação dos corpos, na apoteose do amor líquido, entre nádegas boiando na televisão e o silêncio desse personagem, sozinho em seu quarto, talvez lhe ocorra um dia uma ideia. Nada nova, nada original, desde os neandertais. Talvez ele sinta algo se mover do fundo de sua impotência, do fundo de seu ódio, do ponto mais recôndito da podridão que povoa os seus pensamentos. Talvez ele sinta, pela primeira vez, as suas veias, o seu sangue, os seus músculos. Sim. Finalmente há algo que o diferencia daqueles “seres” que são a razão de seu mal.
Da clava às cavernas, da navalha aos matagais urbanos, a cena não mudou muito em milhões de anos. E do estupro ao feminicídio, é um pulo. Isso demonstra que a complexidade do momento em que vivemos consiste no fato bem plausível de que esses jovens estejam se multiplicando. Quem sabe não vivamos sob a gestação de um exército de futuros feminicidas? E então? De quem é a “culpa”? Alguma feminista mais cara-de-pau poderia se perguntar se a “culpa” não continua sendo do machismo, que não se extinguiu de todo. Tese difícil de ser defendida nos dias de hoje, praticamente indefensável daqui a algumas décadas ou séculos. A “culpa” é da liberação das mulheres? Da emancipação dos indivíduos? Da modernidade? Do feminismo? Da democracia? Do progresso? Da igualdade? Obviamente, não. Afinal, do ponto de vista darwinista, a sobrevivência se dá mediante uma seleção natural dos mais fortes, não é? Não há premissa moral que regre a desmesura do devir histórico em suas sínteses objetivas e na efetividade concreta de todas as suas escolhas, individuais, irreversíveis e sempre contingentes. É muito mais provável e plausível pensarmos que a “culpa” é desses próprios adolescentes, que não se adaptaram ao funcionamento da engrenagem. E que possivelmente enlouqueceram por acreditarem em coisas inviáveis, inexistentes ou simplesmente obsoletas. Tipo, o amor. 

DEMO, CRACK & CIA



Sim. O problema do mundo são os mendigos. Na verdade, gostaria de falar do filme Hadewijch, de Bruno Dumont, ambientado nos dias de hoje, mas inspirado na vida da mística homônima do século XIII, e que passou na mostra de cinema francês que ocorreu em São Paulo esta semana. Mas me vi subitamente interpelado por uma série de artigos de jornal tratando do crescimento do consumo de crack, carinhosamente conhecido como “raspa da canela do diabo”. Como se sabe, os traficantes, como em qualquer iniciativa privada com fins lucrativos, controlam o ciclo da droga. Agora acabaram de aumentar o valor da grama de maconha de 2 pra 5 reais. Em um bom funcionamento capitalista, essa é a melhor forma de tirá-la do mercado. Mas, claro, a estória não acaba assim. Eles estão começando a mesclar pequenas doses de crack à maconha, para paulatinamente começar a formar seus futuros clientes. Os novos viciados em crack serão os atuais consumidores de inofensivos baseados. Esse é o projeto da década.
Seu filho ou sua filha, leitor e leitora, que gostam de queimar um baseadinho no Centro Acadêmico da universidade, sabe? Então. O demônio mora ao lado. Já dizia e continua dizendo, firme e forte, minha avó. E olha que ela nunca leu Hannah Arendt. Em termos logísticos, o crack é quase igual à cocaína. Em termos de lucro, a balança pesa desfavoravelmente: 300% de lucro na coca, 200% de lucro no crack. Mas não se engane. Isso se compensa em outras frentes. O que é interessante, na verdade, é ver como a distribuição dos números funciona. Porque a cocaína passou a ser droga de elite, e a maconha, droguinha de intelectual parasita. Então o crack tomou imensas projeções na balança comercial. Podendo atingir potencialmente classes que vão de A a E, tem um público consumidor virtual de 164 milhões de brasileiros. Exatamente isso. Mais de 90% da população.
Neste momento, levanto-me da cadeira e vou à janela. Leitor, moro no Largo do Arouche, centro de São Paulo. Na minha porta, todos os dias, moleques caídos, mendigos atravessados, neuras na fissura. Olho pela janela, e tudo dorme. Alguns trapos humanos vagam pela rua. Uns zumbis, com seus cobertorzinhos. É muito comum no centro de São Paulo esses trapos vagarem assim, ainda mais agora, que é madrugada. Uma pedra de crack, e você já está na nóia, no vício. Como a heroína, não há usuário de crack. Só há viciados. Porém, é muito diferente, um pobre-diabo desses, trapo do capeta, vagando na noite, e um drogado que tenha estrutura. Lembra do seu filho, falando de Marx, de libertação sexual, de surrealismo, no Centro Acadêmico? Então.
Nesta mesma semana, uma longa matéria sobre Billy Clegg, agente literário em Nova York, com carreira brilhante junto às mais importantes editoras dos EUA. Acabou de escrever sua autobiografia, na qual narra a sua passagem por mais de um ano numa clínica de desintoxicação. Orgias, rituais macabros, quase-morte, estado vegetativo. Clegg chegou ao fundo mais pardacento do poço, com consumo diário de várias doses de crack. Não chegou à morte, convenhamos, porque tinha estrutura. Estrutura. Essa é a palavra. Estrutura. A mesma estrutura que o filho do querido (ou querida) leitor (ou leitora) tem. A estrutura que o maldito guri que observo agora pela janela, arrastando seu cobertorzinho fedido, não tem. Azar o dele. Então. Vejamos. O filho ou a filha da minha querida ou querido leitor estão fumando seu baseadinho em paz. Eles são progressistas, desinibidos, já passaram por n revoluções sexuais. Coisa de 68 é passado distante. Hoje em dia o que rola são surubas cultas com os colegas e drogas variadas: ecstasy, LSD, pó, haxixe. Nada de ideologia. De romantismo revolucionário. Felizmente. Ao menos nisso, o progresso existe. E presta. Trepar sem ideologia foi o primeiro grande avanço da humanidade. Trepar sem amor será o segundo. Depois, vão se dedicar a alguma profissão liberal, seja nas ciências humanas, nas exatas, no direito, na medicina ou que tais. Eles têm escolhas, e as realizam. Leitor, isso se chama: cidadania. Eles têm a escolha da profissão, assim como têm a escolha de votar na Dilma. Eles têm a escolha de beber uma cerveja, de tomar uma coca-cola ou de fumar um baseado-pedra. Quantia mínima. Você nem percebe, cara. E dá uma brisa boa. Leve. Diferente. Escolha. É esta a palavra. Quanto mais opções de escolha, mais democracia.
Entretanto, façamos uma estatística em nada assombrosa ou mirabolante. Se o público-alvo do crack está projetado em torno de 160 milhões de pessoas, obviamente isso é uma estimativa meramente numérica. Disso se excluem todos os aposentados, donas-de-casa, avós, avôs, religiosos, padres, crianças, virgens, debutantes, energúmenos, doentes, parasitas e tantos e tantos quejandos. Chutemos a cifra de 20 milhões de usuários em potencial, 1/8 do número original. Que metade deles (10 milhões) seja mais efetiva enquanto usuários, e que 1/5 (2 milhões) desta cifra o seja de fato. Não serão usuários de crack puro, obviamente, querida leitora. A senhora acha que seu filho se parece com esse trapo humano que olho pela janela? Está ficando louca? Justo seu filho, que sabe línguas, fez estágio no exterior, balé, piano, natação, ginástica olímpica, e que hoje fuma placidamente seu baseadinho na universidade? Que coisa. Quem diria, seu filho, de trapinho nas costas, todo vegetal, se arrastando, entre merda e urina, no esgoto das noites, no centro de São Paulo? Aqui, justo na minha calçada? Então.
Como amante incondicional das palavras, nunca entendi por que a palavra demônio e democracia têm a mesma raiz. Os manuais escolares nos ensinaram direitinho: democracia é a cracia do povo, o governo do povo. Mas o que o povo tem a ver com o demo? Mais que isso, nunca compreendi por que a palavra demo, sozinha, quer dizer algo de consumo fácil, gratuito, distribuído para teste. É o seu sentido de povo. Mas e o seu sentido de Demo, Capeta, Fuinha, Cujo, Dito, Diabo, Caititu, Fominha, Abutre, Nego, Pindéu, Banguela, Satanás, Ó, Cabrito, Belzebu? Pensei logo que essas coincidências tinham sido invenção de algum neonazista. Ou de algum Capeta. Mas não. Como dizia minha avó, que nunca leu Hannah Arendt, o demônio mora ao lado. É tudo uma questão de escolha. De opção. A democracia é demo, porque é uma oferta quase gratuita, sempre à mão. Um sem-número de possibilidades. E de escolhas. Quase grátis. Demo. Escolha. Essa é a palavra, leitor. Memorize. A democracia é demoníaca, porque lida com a liberdade humana como quem lida com um manual, com uma bula, com um antibiótico, com uma pomada, com um revólver, com um tônico capilar, com um absorvente, com um guia de ruas. Na planificação democrática, tudo assume função de projeto a ser efetivado. Tudo tem um destino, como se tivesse um desígnio. Que bom, assim temos acesso aos bens de consumo, não? Ventiladores, celulares, GPS, cigarros, pornografia, prostitutas, maconha, crack. Já pensou, 2 milhões de usuários de crack soltos pela rua? Mesmo em um país desse tamanho, na concentração de uma grande metrópole, isso seria um arrastão de zumbis por todas as ruas e avenidas centrais. Mas esse arrastão já existe. E talvez exista um batalhão de futuros pedreiros (como são carinhosamente conhecidos) nos bancos universitários. Futuros assassinos? Não só da ridícula esquerda liberal. Mas também executivos e estelionatários de luxo. Futuros pedreiros. Todos eles são os moleques aqui da minha porta, leitora. Mendigos e demônios. Todos: Demo. Esse lixo humano, fedorento, que eu detesto. E detesto mesmo. Escória. Asco. Lixo humano. Resto biológico. Sobra das fezes de algum plebeu. Isso que eles são.
Então. O filme de Bruno Dumont fala de uma figura extremamente pura, que devotou sua vida a Cristo. Virgem. Ela não consegue tocar em um homem. E se diz amante de Deus. Amante de Cristo, em carne e osso. Amante. Simplesmente isso. A atriz, amadora. Não profissional. Amante. Filha de um ministro francês, é uma menina de alta sociedade. Não suporta a família. Nenhuma indireta pra você, leitora. Só estou narrando o filme. E então ela se interna em um convento. E o convento a expulsa. Vai encontrar Deus nas ruas – diz a freira. Ela não encontra Deus nas ruas. Encontra o demo. O Islã. Envolve-se com dois irmãos árabes. Um, bandidinho desnorteado. Outro, futuro homem-bomba. Um, falso religioso. Outro, verdadeiro. E em plena missão. Ela segue o religioso verdadeiro, correto? Sim. Porque ela é verdadeira. E no nosso tempo parece que a verdade sempre tem algum compromisso com o Mal. Não está a fim de meias-verdades ou de planos quinquenais. Tipo a sua família, bolsa-escola, ministros, baseadinhos em universidades, conversas fiadas, orgias, papos progressistas, esquerdismo liberal, PT, falta de vergonha na cara, ONGs, lixo marxista, besteirol intelectual, vagabundagem. Claro que sim. Depois da conversão, todos os preparativos para o que fica em suspense: ambos se explodirão no metrô de Paris. Quanto mais próxima do Terror, mais ela fica bela. Mais cresce como mulher. Então, leitor, será que seu filho vai estar com a moçada da uni nessas férias na França? Ou será que vai estar aqui na porta da minha casa? Não. Não. Acho que ele não viajou com os colegas maconheiros nessas férias pra Europa.
Hadewijch encontra Nassar no metrô. Ambos de jaqueta. Como são tristes as fisionomias no metrô, não? Como são tristes os dias repetidos de nossa rotina, essa rotina, espécie de arte de conduzir à morte com sussurros e palavras brandas. É isso: democracia. Império da Escolha. Liberdade do Demo. Cadeia de Satanás. Se Tudo é permitido, Nada é permitido. O Absoluto da Liberdade é o Absoluto da Opressão. Ainda não caiu a ficha, truta? Salve São Marquês de Sade! Padroeiro da modernidade. Seria isso? O pacto com o Cujo, lembra? Não é no redemoinho, não. Na encruzilhada. Não. Não é no fundo sem fundo do Inferno de Lúcifer. Não é com o titânico Satã de Milton. Não é fáustico. Nem mefistofélico. O pacto com o Demo. Escolha. Democracia. Opção. Liberdade. Crack. Cracia do demo. Isso. Palavras brandas. Opção. Escolha. Dá um trago desse seu baseado, truta? Canela do Demo. Arte de conduzir ao túmulo. Não com palavras gregas, como dizia Hipócrates. Mas com palavras suaves. Dir-se-ia quase doces. Como as fezes do menino na sarjeta, queimando uma pedra, agora, de madrugada. Como as doces manhãs de Paris, à margem do Sena. Enquanto o metrô não explode. Enquanto o metrô explode. Explode. Bem debaixo do Arco do Triunfo. O metrô explode.
Ato contínuo, Hadewijch aparece no convento. Cristo a salvou do suicídio? Estaríamos vendo sua alma? Em que plano se passa a ação? Ou ela desistiu no último segundo e correu, porta afora, antes da explosão? Nada se explica, como em todo bom cinema. Mas ela não suporta. Viver entre vermes, entre gente pardacenta, de meias-verdades, meias-patacas, meias-palavras. O meio-termo é uma ilusão dos sentidos, dizia eu outro dia a mim mesmo, em um momento de pura filosofia. Sim. Resta o suicídio. Nem mosteiro, nem rua. Nem casa, nem sarjeta. O meio-termo é uma ilusão dos sentidos. Sim. Na larga campina, no bosque do mosteiro. Ofélica, ela se lança, no lago. Afunda. Afunda. Gruda-se às raízes das árvores, submersas, álacres. Mas uma figura surge do fundo para desfazer o equívoco. Salva-a. É o carpinteiro. Acabara de sair da prisão. Homem de dentes podres, comidos pela vida. Semblante aceso. Tranquilo. Puro. Parece um animal em sua docilidade. O abraço de ambos sela um novo pacto. Fim.
Vou à janela. Penso: o novo pacto é a conivência com a fatalidade? É a aceitação de nosso destino miserável? Esse foi o pacto de Hadewijch? Primeiro com o Terror, desfeito? Depois com um pobre-diabo, consumado? Mas este não seria o demo? Ou seria Cristo, em sua mais abjeta (e bela) humilhação? Ela fez o pacto com Cristo, o Artífice da Glória? Ou com apenas mais um carpinteiro? Com um qualquer? Seria um pacto de glória, não de perdição? Seria essa figura bruta o emblema da nossa triste precariedade? Mas então era isso o Cristo que ela tanto amava? Vou de novo à janela. Atônito. Nervoso. Hesitante. Mais um trapo, sombra, fezes, fedor e nojeira. Corre de um lado pra outro, em alucinações. Não. Não. Não posso interromper minha missão nesse momento. Aperto o cachimbo e pingo dois gramas de veneno. Desço as escadas, escuras, paulatinamente. Ao sair, ninguém na rua. Só vultos e fantasmagorias do que virá a ser o amanhã. Vem cá, meu irmão. Vem cá, brother. Eu posso te ajudar na sua fissura. Segura aqui. Essa é na faixa. De cortesia. Ele acende a brasa do cachimbo e cai estático. Arrasto o corpo para o lado, pra não atrapalhar a passagem. Afinal, logo amanhece. É preciso deixar espaço pros pedestres. Levarão junto com o lixo. Democracia. Pedestres. Opção. Escolha. Fiz por amor. Foi por amor ao seu filho, leitora. Quanto antes, menos sofrimento. Faço o sinal da cruz. Volto para casa. No céu, a lua crescente do Islã. O problema do mundo são os mendigos.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

CURSO: A ARTE E OS ARQUÉTIPOS


A ARTE E OS ARQUÉTIPOS

RODRIGO PETRONIO

O conceito de arquétipo pode ser entendido sob diversas perspectivas, tendo em vista uma ênfase na filosofia, na literatura, na arte, na antropologia, na teologia, na psicologia, na história das religiões ou na sua dimensão estritamente formal. Até na biologia, na física, na matemática e na química há estudiosos que propõem teorias arquetípicas.
Em todos esses contextos é possível compreender a sua estrutura e as suas funções, em uma perspectiva histórica, mas também atual. Basicamente criada por Platão, a noção de arquétipo se revestiu de diversos sentidos e amalgamou em si uma série de conceitos de natureza próxima: mito, símbolo, signo, figura, tipo, protótipo, alegoria, imagem, entre outras.
No século XX, foram criadas algumas novas abordagens para o arquétipo, que têm ganhado cada vez mais o campo de estudos e aberto novas frentes de interpretação. O tema é imenso. A proposta deste curso é apenas abrir algumas janelas e lançar luzes sobre este conceito produtivo, partindo da arte, da literatura, do cinema e de temas contemporâneos em evidência.


Onde: Livraria da Vila – Alameda Lorena, 1731 – Jardim Paulista – SP
Quando: 5 encontros: 18/5, 25/5, 1/6, 8/6, 15/6
Dias: Terças-Feiras
Horário: 16h às 18h
Investimento: R$250 (com vale-livro de R$25)
Contato: 38145811/ 3062-1063

INTRODUÇÃO

Arquétipo: conceito e origem. Os arquétipos e as leis não-escritas. A arkhé de Platão e o mundo das Formas: essência, forma, ideia, real, eidos, aparência e simulacro. A era cristã e o sentido figural e revelado da interpretação: entre os arquétipos e a história. Arquétipo, Alegoria, Tipo e Protótipo: a leitura cristã do mundo das Formas. A visão arquetípica da Academia Platônica do século XV. O debate nos séculos XX e XXI. A Escola de Eranos. Henry Corbin: a Ciência das Formas e a Filosofia Imaginal. Jung e a Psicologia Analítica: as bases da teoria psicológica arquetípica moderna. O Instituto Aby Warburg e a contribuição de Frances Yates. Dois gênios brasileiros na cena mundial: Mário Ferreira dos Santos e Vicente Ferreira da Silva. Teoria dos arquétipos literários: Frye e Mielietinski. O debate atual: Gilbert Durand, a “teoria geral dos arquétipos” e as “estruturas antropológicas do imaginário”. A nova Antropologia do Imaginário. Os arquétipos e o Real: John Hick e o pluralismo religioso.

OS ARQUÉTIPOS NAS ARTES PLÁSTICAS

Princípios de geometria sagrada. Formas elementares do mundo e da consciência: a Forma das formas. O “naturalismo” grego: uma aberração? Botticelli: magia e arkhé na pintura. Leonardo e a literalização da arte arquetípica. Paolo Uccello e a matematização do espaço. Marcel Duchamp e a crítica da “arte retiniana”: abertura arquetípica ou engodo? Novas formulações sobre a arte arquetípica. Os tratados alquímicos: Fonte incessante do imaginário arquetípico. Farnese de Andrade, Klee, Delvaux, Balthus, Modigliani, Bacon: o deslocamento arquetípico. Alguns contemporâneos.

OS ARQUÉTIPOS NA LITERATURA

O poema sumério Gilgamesh e o fundamento das estruturas imaginárias da ficção. Orfeu e o orfismo. Ibn ‘Arabî e a Viagem da Alma. Do Céu e do Inferno: Virgílio e Dante. Dante e a estrutura da Divina Comédia. O Quixote: equivocidade dos signos e loucura − a oficina cansada dos arquétipos. Fausto de Goethe: a oclusão da alma e o pacto com a Sombra. Dostoiévski: as bases arquetípicas do Homem e a consciência do Mal. Alguns poetas arquetípicos do século XX. Guimarães Rosa: entre Deus e o Diabo, a “matéria vertente” do Homem.

OS ARQUÉTIPOS E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

Imanência, materialismo e construtivismo: a Santíssima Trindade da modernidade. Modernidade e esvaziamento arquetípico. A cruzada dos chimpanzés contra as religiões. Dos arquétipos ao Estado: a herança hegeliana e a assimilação da religião ao Leviatã. A redução à Ideologia: a técnica da camuflagem e os discursos fascistas contemporâneos. Razão Pública ou Religião Civil? A formação de uma Religião Civil e os princípios de um totalitarismo planetário. O simbólico, o imaginário e o real: as tramas do inconsciente arquetípico. Violência, desejo mimético e o declínio dos modelos mediadores: a obra de René Girard no debate contemporâneo. O sagrado reduzido a ideologia e a “ciência”: do fascismo ao holismo. Cultura de massas e Sombra Coletiva. Uma breve incursão no cinema: alguns filmes e diretores (Lang, Murnau, Bergman, Tarkovski, Von Trier, Sokúrov, Dreyer).


Rodrigo Petronio é editor, escritor e professor. Formado em Letras Clássicas e Vernáculas pela USP. Professor e um dos criadores do curso de Criação Literária da Academia Internacional de Cinema (AIC). Coordenador de grupos de leitura do Instituto Fernand Braudel. Professor-coordenador do Centro de Estudos Cavalo Azul, fundado pela poeta Dora Ferreira da Silva (Conselho de Tradução das Obras Completas de Jung no Brasil). É membro do Nemes (Núcleo de Estudos de Mística e Santidade) da PUC-SP. Recebeu prêmios nacionais e internacionais nas categorias poesia, prosa de ficção e ensaio. É autor dos livros História Natural (poemas, 2000), Transversal do Tempo (ensaios, 2002), Assinatura do Sol (poemas, Lisboa, 2005) e Pedra de Luz (poemas, 2005), finalista do Prêmio Jabuti 2006. Coorganizador do livro Animal Olhar (Escrituras, 2005), antologia do poeta António Ramos Rosa. Atualmente organiza as Obras Completas do filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva, cujos dois primeiros volumes foram publicados em novembro de 2009 e o terceiro encontra-se em preparo. Foi congratulado com o Prêmio Nacional ALB/Braskem de 2007, com a obra Venho de um País Selvagem, publicada em abril de 2009 pela Topbooks, e que também recebeu o 3° Lugar no Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional 2010. http://rodrigopetronio.blogspot.com/

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

PALESTRA DE LANÇAMENTO DAS OBRAS COMPLETAS DE VICENTE FERREIRA DA SILVA

Confira as palestras de Antonio Fernando De Franceschi e Rodrigo Petronio no dia de lançamento dos dois primeiros volumes das Obras Completas do grande filósofo Vicente Ferreira da Silva:

http://www.erealizacoes.com.br/espaco/palestras.asp

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

RODRIGO PETRONIO - 3° LUGAR NO PRÊMIO ALPHONSUS DE GUIMARAES - FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL

PORTARIA N.º 94 FBN/PRESI Rio de Janeiro, 09 de dezembro de 2009.


O PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL no uso das atribuições que lhe são conferidas pelo Estatuto da Entidade, aprovado pelo Decreto n° 5.038, de 07 de abril de 2004, publicado no Diário Oficial da União em 08 de abril de 2004, torna público o resultado do Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional do ano de 2009.


1. Prêmio Alphonsus de Guimaraens
Categoria: Poesia
Comissão Julgadora:
· Eucanaã Ferraz
· Francisco de Castro Mucci
· Moacir Amâncio

Vencedor: Marina Colasanti, com a obra Passageira em trânsito, publicada pela Editora Record.
2º lugar: Reynaldo Damazio, com a obra Horas perplexas, publicada pela Editora 34.
3º lugar: Rodrigo Petronio, com a obra Venho de um país selvagem, publicada pela Editora Top Books.


2. Prêmio Machado de Assis
Categoria: Romance
Comissão Julgadora:
· José Guimarães Castello Branco
· Beatriz Vieira Resende
· Flávio Martins Carneiro

Vencedor: Raimundo Carrero, com a obra A minha alma é irmã de Deus, publicada pela Editora Record.
2º lugar: Rodrigo Lacerda, com a obra Outra vida, publicada pela Editora Alfaguara.
3º lugar: Bernardo Ajzenberg, com a obra Olhos secos, publicada pela Editora Rocco.


Prêmio Clarice Lispector
Categoria: Conto
Comissão Julgadora:
Mário Bezerra Pontes
Moacyr Jaime Scliar
Mànya Dias Millen

Vencedor: Beatriz Bracher, com a obra Meu amor, publicada pela Editora 34.
2º lugar: José Rezende Jr., com a obra Eu perguntei pro velho se ele queria morrer, publicada pela Editora 7 Letras.
3º lugar: Antônio Carlos Viana, com a obra Cine Privê, publicada pela Companhia das Letras.

4. Prêmio Mário de Andrade
Categoria: Ensaio Literário
Comissão Julgadora:
Vera Lúcia de Oliveira Lins
Walnice Nogueira Galvão
Frederico Augusto Liberalli de Góes

Vencedor: Luiz Costa Lima, com a obra O Controle do Imaginário & A Afirmação do Romance – Dom Quixote, As relações perigosas, Moll Flanders, Tristram Shandy, publicada pela Editora Companhia das Letras.
2º lugar: Marcus Mota, com a obra A Dramaturgia Musical de Ésquilo – Investigação sobre composição, realização e recepção de ficção audiovisual, publicada pela Editora da UNB.
3º lugar: Ronaldes de Melo e Souza com a obra A Geopoética de Euclides da Cunha, publicada pela EDUERJ.


5. Prêmio Sérgio Buarque de Holanda
Categoria: Ensaio Social
Comissão Julgadora:
· Carlos Guilherme Santos Serôa da Mota
· Elias Thomé Saliba
· Carlos Fico da Silva Júnior

Vencedor: Ronaldo Vainfas e Lúcia Bastos Pereira das Neves, com a obra Dicionário do Brasil Joanino, 1808-1821, publicada pela Editora Objetiva.
2º lugar: Mary Del Priore, com a obra Condessa de Barral, a Paixão do Imperador, publicada pela Editora Objetiva.
3º lugar: Demétrio Magnoli, com a obra Uma Gota de Sangue. História do Pensamento Racial, publicada pela Editora Contexto.


Prêmio Paulo Rónai
Categoria: Tradução
Comissão Julgadora:
· Leonardo Fróes da Silva
· Ivo do Nascimento Barroso
· Per Johns

Vencedor: Erick Ramalho, com a obra Poemata, poemas em latim e em grego, publicada pela Editora Tessitura.
2º lugar: Paulo Werneck, com a obra Zazie no Metrô, publicada pela Editora Cosac Naify.
3º lugar: Luís Antônio Martinez Corrêa, com a obra O Percevejo, publicada pela Editora 34.


Prêmio Aloísio Magalhães
Categoria: Projeto Gráfico
Comissão Julgadora:
Sônia Virgínia Moreira
Amaury Fernandes
Rodolfo Capeto

Vencedor: Marina Carolina Sampaio, com a obra Lina por escrito: textos escolhidos de Lina Bo Bardi de Silvana Rubino e Marina Grinover, publicada pela Editora Cosac Naify.
2º lugar: Ângela Lago, com a obra Bichos, de Ronaldo Simões Coelho, publicada pela Editora Aletria.
3º lugar: Luciana Facchini, de Décio Pignatari, com a obra Bili com limão verde na mão, publicada pela Editora Cosac Naify.


Prêmio Glória Pondé
Categoria: Literatura Infantil e Juvenil
Comissão Julgadora:
· Neide Medeiros Santos
· Mariza de Almeida Borba
· Elizabeth d´Angelo Serra
Vencedor: Bartolomeu Campos de Queirós com a obra Tempo de Voo, publicada pela Editora Comboio de Corda.
2º lugar: Ronaldo Simões Lopes com a obra Bichos publicada pela Editora Aletria.
3º lugar: Graziela Bozzano Hetzel com a obra O Lobo publicada pela Editora Manati.



MUNIZ SODRÉ
Presidente
Fundação Biblioteca Nacional

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

2046 DE WONG KAR WAI: ERA UMA VEZ O AMOR

O tema do amor é um dos mais explorados em toda a história do cinema. Chega a ser quase um recurso menor por ser tão universal e, ao mesmo tempo, tão passível de ser endossado sem grandes crises de consciência do espectador em geral, que tende a se identificar de saída com a proposta, seja ela qual for. De Casablanca a toda sorte de terapia amorosa grupal a que os produtores de Hollywood chamam de cinema, dos mais antigos registros cinematográficos, passando pelas abordagens mais eróticas, até toda série de filmes cuja tônica recai sobre alguma relação amorosa, vai uma floresta negra de infindáveis títulos que não cabe recensear aqui. O interessante é notar (e aqui vem uma distinção essencial) que muitas vezes esses filmes não tematizam o amor, mas uma relação amorosa em específico. Alguns diretores e filmes se propuseram enfaticamente a isso: Antonioni, Truffaut, Bergman e até mesmo aquele explícito Elogio do Amor, mais um dos tantos equívocos de Godard. Também recentemente tivemos o belo Amor em Cinco Tempos de François Ozon. Mas, muitas vezes, aborda-se o tema mais num nível teórico do que propriamente fílmico. Em geral, por mais abrangente que seja o enquadramento e por mais que nos identifiquemos com o que transcorre na tela, não é o amor propriamente o principal agente do espetáculo. Os atores o encarnam e o individualizam em personagens. Não nos remetem à sua causa primeira, ao seu mistério, à sua condição.
Em um sentido bastante diverso podemos entender o novo filme de Wong Kar Wai: 2046. O diretor já havia mergulhado no tema em um belo filme anterior, Amor à Flor da Pele, do qual este seria uma espécie de continuação. Mas aqui ele o leva às raias do paroxismo. Na atual maré rala do cinema, mesmo o europeu, que oscila entre grandes produções que dizem pouco ou quase nada e os filmes competentes, o famoso (e entediante) mito tecnocrata da competência, não deixa de ser um grande frescor respirar um filme como este. Façamos um resumo sucinto de seu enredo, pois não é ele que realmente importa. Nos anos 1960, em plena tensão de conflitos políticos, Chow vive de escrever pequenos contos ficcionais para um jornal. Decepcionado por uma desilusão amorosa, sai de Cingapura e se refugia em um quarto pobre de hotel. Escolhe o número que dá título ao filme, por ali ter morado um antigo amor, que nele foi assassinada por um de seus amantes. A partir de então sua vida é a de uma completa dissolução. Aquilo que podemos chamar de uma promiscuidade regrada, sem grandes arroubos ou perversões, mas com uma alta rotatividade de parceiras. O fato é que a vida do hotel começa a se entrelaçar à sua. Passa a ser o receptáculo das cartas apócrifas endereçadas à filha do dono, apaixonada impossivelmente por um japonês. A filha mais nova, adolescente lúbrica, quer tê-lo a qualquer custo e acaba fugindo de casa. A vizinha da frente, uma espécie sutil de prostituta, reluta muito em se entregar a ele, pois sabe que acabará se apaixonando. Como de fato acontece. E uma grande série de conluios amorosos se dá, até que o protagonista parte de volta para Cingapura e passa a ganhar a vida na noite, com o jogo de cartas. É quando conhece uma mulher misteriosa que tem exatamente o nome da amante que lhe fizera perder o rumo e fugir da cidade. Mais um amor em aberto, uma possibilidade que não se concretiza, e Chow parte enfim de volta para Hong Kong. Subentende-se que o faz para retomar a sua vida de dissolução, sem qualquer perspectiva mais sólida.
Não importam os desdobramentos da história. Aliás, no grande cinema, a história é o que menos interessa. É sempre um pretexto para acionar potências, forças, intensidades, afetos, singularidades, dar-nos, enfim, a fina flor da imagem-tempo, como bem o definiu Deleuze. O que temos, na verdade, no desenrolar dessas cerca de duas horas de uma discreta obra-prima, é uma das mais contundentes encenações do amor. Porém, não de seu apogeu, mas de seu eclipse. Em mimetismo com a impossibilidade do amor num futuro de máquinas, numa hipotética era de 2046, cujas relações amorosas se desdobram em um plano de ficção científica, saído todos os dias da caneta desse escritor-personagem, Kar Wai nos dá uma antecipação da ruína futura do amor, que se faz presente. E, no nosso caso, também passado. Eis a estratégia narrativa que suspende a contingência temporal. O amor que não poderá ser já não o é. E, para nós, já não o é desde há muito tempo. Nesse sentido, ao recorrer à ficção científica, que é parodiada e desmontada para demonstrar, em um fundo artificialmente atemporal, a impossibilidade do afeto e a incomunicabilidade entre as pessoas, 2046 se filia quase que explicitamente ao Solaris de Tarkovski, provavelmente um dos maiores artistas do século XX.
Porém, diferente da proposta do diretor russo, há aqui um apelo sexual. No filme de Kar Wai, a sensação de vazio e incomunicabilidade se reveste do mais transparente hedonismo e pode ser entendida de muitas maneiras. As mais diretas dizem respeito à própria gama de situações que o afeto pode nos proporcionar. Mas há uma leitura mais fina, sub-reptícia. Ela se relaciona ao próprio estado atual da sociedade e da cultura, e não se trata de um fenômeno ocidental ou oriental, mas do mundo todo. Resumindo grosseiramente aqui as idéias de Zygmunt Bauman, se a modernidade pode ser definida como a instauração da fluidez como a grande moeda do mercado de bens materiais e simbólicos, nesse contexto o ocaso do amor era não só esperado, mas inadiável. Se também as relações humanas passam a ser subsumidas à transação e à transitoriedade de um mundo líquido, não é de se espantar que a liquidez dos corpos no mercado do amor seja desde há muitas décadas um fenômeno inexorável. Para usar a expressão do sociólogo polonês, é a era do amor líquido. Estaríamos hoje vivendo o ápice desse processo de fluidez em todas as instâncias de nossa vida, da qual a mais notável e, dir-se-ia, mais polêmica e fatídica, seria a das relações amorosas.
Ora, o amor líquido, ao contrário do que possa parecer, não é um manancial inesgotável de virtualidades e possibilidades de novos vínculos e de novas formas de amor. Pelo contrário, é a suspensão, a impossibilidade de todo vínculo, tido como obsoleto, a mesma suspensão reivindicada pela tão aclamada liberdade sexual, que hoje em dia só ilude idiotas. Por outro lado, vivamos ou não em um mundo de idiotas (há boas almas que acreditam que não), as estruturas que o regem são sustentadas na impermanência, na fugacidade, na transitoriedade, em uma palavra, na liquidez. Em uma constante luta pela legitimação da paixão em uma realidade dominada pela hipocrisia das formas sociais enrijecidas pelo hábito e pelas instituições, a modernidade flexibilizou as relações e, com elas, também o amor. Agora, entrincheirada, vitimada por sua própria criação, oscila indefinidamente entre o desespero pela substituição rápida de parceiros e a hipótese cosmética de uma vida a dois perfeita, moeda das mais correntes na mídia. Entre o real descartável, porque sempre insuficiente, e o ideal fraudulento, porque totalmente estéril em sua perfeição, nunca fomos tão críticos, nunca fomos tão livres em relação ao amor. E, ao mesmo tempo, nunca fomos tão solitários. Diante dessa situação, em meio a esse hiato, essa mesma vida moderna não consegue nos oferecer nada mais do que três saídas alternativas no que lhe diz respeito: o cinismo, a farsa ou a hipoteca.
No primeiro caso, temos a opção pelo hedonismo, como faz o personagem principal de 2046. Mas mesmo nele, vive-se no inferno. E não é necessária grande abstração filosófica nem recorrer a complicadas engenhocas metafísicas para entender que se a experiência não é passível de singularização, resulta daí que ela mesma se anule como experiência, perdendo sua espessura simbólica, e até mesmo sua própria definição ontológica. Reduzida a um caos amorfo de sensações que já não se distinguem, acaba por se transformar em um conjunto de realidades puramente nominais. Vive-se em um universo onde tudo se passa, mas nada acontece. É o spleen, o tédio, a massa das sensações, a liberdade total do sujeito diante do mundo que o circunda, mas que é igualmente desencantado e desinteressante em toda a parte. Em uma palavra, é o gosto da novidade.
Mas o filme de Kar Wai é fino nesse aspecto. Diz-nos que o prazer é, a um só tempo, liberdade e túmulo, ponto de fuga do imaginário e dilapidação de todo recurso amoroso. Nesse contexto, a vida do libertino, em tempos modernos e mais especialmente pós, como o nosso, não goza nem do benefício da ampliação das práticas como recurso para potencializar o prazer diante da sua inescapável neutralização, do incontornável esvaziamento da experiência tomada em si mesma, como seria em Sade, por exemplo. Porque hoje, mesmo a transgressão já vem prevista e prescrita pelo modelo que ela tente quebrar e, ao refutá-lo, o repropõe, em chave inversa. Toda novidade já vem prevista pelo cardápio que a assimilará, para que também ela possa ser trocada, aceita, consumida. Mesmo o que tenta se fixar, acaba por se desmanchar, no fluxo líquido dos valores e práticas que não se sustentam em nada e não sustentam nada. E nada é mais gritante nesse sentido do que a impossibilidade de se lidar com o amor em liberdade, vivida justamente por todos aqueles que mais padeceram das agruras dos limites e da rigidez. Dito em outras palavras, hoje em dia o perfeito cínico é aquele que pensa que o amor será redimido pelo hedonismo. É cínico porque quer transformar uma energia diáfana em algo quantificável, na estatística dos corpos que se encontram e se cruzam, para depois se dissiparem em uma forma qualquer de desprezo ou indiferença.
Na segunda hipótese, temos a manutenção das formas mais tradicionais dos relacionamentos. Sem pensar em qualquer positividade, em maneiras mais ou menos corretas de se viver no interior do rio mutável da história, ela também não deixa de apresentar suas dificuldades. Não que a história se repita como farsa, como queria Marx, mas a experiência mesma engendra suas formas históricas, em todos os quadrantes de nossa vida. Como eixo de sustentação, como âncora de um mundo líquido, a melhor saída seria o casamento, revisto e repensado como forma autêntica de viver o amor em toda a sua potência. Porém, mesmo ele se tornou uma miragem. Não como defesa de causa ou impossibilidade a priori, mas como uma realidade deslocada, excêntrica dentro de uma vigência histórica que age como um rio caudaloso: transborda, nos varre e arrasta consigo tudo em seu curso. É contra esse rio que se tem que lutar. E, nesse caso, mesmo a fixidez almejada por um sujeito isolado acaba redundando em idiossincrasia, deslocamento, desajuste. Exatamente o que o personagem de Kar Wai vive em relação àquelas mulheres que ele poderia potencialmente amar. Arritmia e distopia: o amor líquido, como valor coletivo, não desfaz apenas a fixidez do amor, mas engendra a própria impossibilidade desta fixidez no âmbito individual, produzindo, à sua revelia, a excentricidade e a marginalidade dos sujeitos que a queiram.
Por fim, temos a aposta lançada por Bauman: a hipoteca. A possibilidade do vínculo amoroso lançada ao acaso, já que apenas no acaso é possível a esperança. Um futuro previamente conquistado por nossa vontade, onde possamos viver o amor como amor, a despeito da transitoriedade ou da fixidez do mesmo, e não como um entorpecimento coletivo, seja ele regido pela pura experiência ou pela pura idealização, pelo mais cru hedonismo ou pela renúncia, na mais completa fixidez ou na mais eufórica dissolução. Também onde possamos vivê-lo à revelia dos códigos morais e, mais que isso, também de princípios imorais ou amorais que existam apenas para rompê-los. Que seja sempre visto como uma potência, no que essa palavra traz de mais profundo, ou seja, uma mescla de possibilidade e força. Mas tal transformação exige uma mudança das práticas, dos valores, das crenças. Em suma, de quase tudo. Parece que mesmo aqui estamos diante de uma visão do amor como algo virtual, algo que não é acessível ainda, que se desdobra como um horizonte tão almejado quanto intangível.


Sim. E talvez seja essa, em termos, a aparente (e pessimista) resposta de Kar Wai. Porque mesmo a substância mais “espiritual” do amor, que poderia por ventura sair ilesa desse combate, hoje em dia se nos afigura confiscada pela melancólica impossibilidade de ser equacionada com a fluidez do mundo. Este, em todas as suas instâncias, sejam simbólicas ou materiais, é sempre vazado pela luz fantasmal das estatísticas, da perfeição, das performances e do desempenho mensurável. Mais que isso: da possibilidade iminente de troca, que também permeia o imaginário e todas as relações sociais. Ao introjetar a ética da troca nas relações e o valor da perfeição, que regra a dinâmica do capitalismo, na parcela mais íntima de nossas vidas, ao fazê-los se espraiar em todas as suas capilaridades, o mundo moderno retirou a potência do amor. E o fez, paradoxalmente, porque dessa forma retirou a sua pobreza, como nos diz Platão na sua famosa definição do deus no Banquete. Amor é pobreza, não perfeição, e só o recurso pode saná-la provisoriamente. Quanto mais falta há, mais pleno ele é.
Elementar. Sabendo-se que, ao contrário da falta, que lhe é constitutiva, o caráter fluido da força em questão não é algo que nasça da prática amorosa, não é algo próprio do amor, mas sim a ele agregado, por um mecanismo mais amplo de trocas materiais, não há como sequer tocar a sua natureza mais primária sem antes ter que passar por uma longa jornada noite adentro, para lembrar aqui o belíssimo A Noite de Antonioni. Não há como redimi-lo, sem se despir das muitas e muitas camadas de preconceitos criados pela liberdade. E isso evidencia por que essa jornada culmina, cada vez mais, para a maior parte das pessoas e na maioria das vezes, não no erotismo ou no apogeu do sexo, como se espera. Mas sim na solidão dividida entre dois corpos numa mesma cama, numa mesma cidade, num mesmo país, no mesmo mundo. O princípio da esterilidade compartilhada é vivido em seu esplendor, quase como um resultado previsível. Trata-se da glorificação maior da modernidade, corolário natural de seu sonho de subverter todos os tabus.
Não espanta que o tema do amor, ele mesmo, não o da desilusão pequeno-burguesa de pequenos casais amuados em seu desespero e gigantes em sua insignificância, tenha ficado tanto tempo em suspenso. E principalmente passado à larga de boa parte da produção cinematográfica. Também é deveras compreensível que a era do amor líquido, a era do maior e mais efetivo liberalismo econômico, sexual, político, religioso e adjacentes, seja também a era do imaginário mais domesticado e a dos artistas mais covardes de que se tem notícia. Por seu turno, em sua forma histórica, as instituições mais tradicionais, como o casamento, têm dificuldade de dar conta do amor em sua nascente líquida. Estão contra a parede e muitas vezes ainda continuam sendo maneiras que a Igreja encontrou de se desintoxicar do amor, como queria Nietzsche. Já a realidade desse afeto potente, em nosso tempo, se transformou a ponto de ser identificada a práticas, meios, modos, usos, formas, gêneros, opções, fetiches, grupos, preferências, panfletos e toda uma sonolenta, insuportável lista que diz respeito apenas e exclusivamente às modalidades amorosas, mas que cala, estrategicamente, no que concerne à natureza do amor, ao seu mistério, ao seu enigma, ao seu milagre. Coisa tão previsível como o encontro físico de dois corpos. Porque os corpos querem apenas queimar e nós, consumir. Não há espaço aqui para reflexão, porque ela obsta a troca; muito menos para uma experiência que vise a essência, pois ela será, com toda certeza, contraproducente para a economia amorosa.
Pode-se objetar que o filme às vezes resvala no kitsch, sobretudo nas cenas de ficção científica, que mesclam alta passionalidade a um ambiente futurista de robôs. Mas tal transbordamento perde o aspecto negativo se o entendermos como um recurso mesmo que Kar Wai encontrou para mostrar o amor em sua pulsão mais primária, em seu grau passional mais elevado, e que por isso mesmo não pode (e não deve) evitar o excesso. Outra crítica seria à aparente fraqueza do universo feminino que é encenada na tela. Porém, aos poucos, ela se dilui nos contornos mais especificamente humanos dos personagens. E sentimos que todos estão na mesma sintonia, se equivalem na distância, na mesma arritmia que promove o encontro, mas impossibilita a união.
À guisa de parêntese, em um dado momento do filme somos informados que um andróide é incapaz do amor. Coisa a princípio óbvia. Mas que deixa de ser no momento seguinte, com a explicação do motivo, que é elucidativa. É incapaz, não por uma característica de seu sistema técnico, posto que já amara antes. Mas por uma impossibilidade ontológica do próprio afeto. Nossa miséria não é fruto da perda da sensibilidade por conta da tecnologia ou de uma perda de nossa humanidade diante da modernização, mas de uma perda da potência mesma da entrega, uma atrofia do próprio mecanismo sensível e de doação, seja ela vivida em um paraíso de máquinas ou no inferno solitário de um quarto escuro. Essa condição só nos evidencia uma coisa: somos reféns daquilo que nos liberta. E esperamos indefinidamente viver em plenitude aquilo que nos libertará. Quem sabe, um dia?
O amor absoluto de que falavam os surrealistas, entendido como o princípio mesmo da revolução, deixou de ser uma utopia e se transformou em uma miragem, em um completo fantasma. Se a anomia amorosa já nem se ocupa mais dos afetos, quem dirá de seu sentido político mais amplo. Porém, uma coisa é certa. Essa tão propalada revolução não virá pela economia, pela política, pela ideologia, nem por quaisquer dessas grandes abstrações com a qual o Ocidente vem se entorpecendo há séculos. Mas de algo bem mais diáfano e pouco palpável, algo tanto mais impossível quanto provável. Por ora, resta-nos o consolo dessa mulher fumando ao lado de uma grande placa de néon do Oriental Hotel, contra um céu simultaneamente absurdo e real. Ao fundo, a voz alienígena de Connie Francis cantando Siboney. Em 2046, o diretor chinês Wong Kar Wai fez algo muito mais insólito do que uma ficção científica e, a um só tempo, algo mais real que a própria realidade. Ele filmou o que efetivamente não existe: o amor.

O LIVRO MUDO DO MUNDO

Marcelo Coelho


Não dá para postar na íntegra “Assinatura”, o belo poema que leio em Pedra de Luz, de Rodrigo Petronio, (editora A Girafa), mas as estrofes que reproduzo abaixo já são suficientes, acho, para dar idéia da grande imaginação poética do autor, nascido em 1975.

Ele não tem medo dos poemas longos, das palavras “nobres”, como “amaranto”, “vinhas”, “alfombra”, “safira”, nem dos versos que são bonitos, bonitos sozinhos, sonoramente, e antiquadamente, como

Âmbar diáfano que teu coração irriga
(“Música natural”)

ou

Em algumas carícias breves abatida

(“Estampas de Minas)

Rodrigo Petrônio também não procura esconder as influências variadas (Rilke, Augusto dos Anjos, Dora Ferreira da Silva, Augusto Frederico Schmidt) que retornam com freqüência aos seus poemas, e que muitas vezes são o ponto de partida para um diálogo explícito com algumas obras que lhe servem de inspiração. Assim, “Memórias de um Século” começa com uma menção a Apollinaire:

Está cansado desse mundo antigo (...)?

E o fantasma de Drummond é invocado repetidamente, por exemplo em “Quetzalcoátl” (“Sou apenas um homem americano...”), em “Sobre a folha de água corrente” (“Quem se lembra de dinamitar Manhattan?”), assim como em “Assinatura” (a lua “diurética”). Mas vamos às estrofes de “Assinatura”.

Olho no céu essa lua
Essa esférica bacia
Que molha todo esse mundo
Com sua prata derretida

Olho no céu essa lua
O que é que nela palpita?
Seria o sonho dos vivos
Que pra ela à noite migra?

Olho no céu essa lua
Poética e radioativa
A mesma que sobre Herodes
Pousou suas asas de brisa

Olho no céu essa lua
Que esparge sua bênção fria
Sobre todas as criaturas
Cospe sua ração líqüida

...

Olho no céu essa lua
Que ilumina São João
Com a cabeça separada
Do corpo em putrefação

...

Olho no céu essa lua
Esse disco de algodão
Que o discóbolo lançou
Há dois mil anos do chão

...

Olho no céu essa lua
Em seu alcoólico elixir
Seus mil dedos de anêmona
Afagam o que está por vir

...

Olho no céu essa lua
Não é aérea ou mineral
Sua compleição feminina
Sua coloração de hospital

Olho no céu essa lua
Canteiro de turmalina
Despeja luz sobre tudo
Com tinta branca se assina

No livro mudo do mundo.


Leia:
http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/arch2008-01-01_2008-01-31.html

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

NAS TRILHAS DE UM PAÍS SELVAGEM

Entrevista cedida a Victor del Franco

Editor da Revista Celuzlose

Celuzlose − A sua poesia dialoga bastante com temas e autores de natureza "mítica-mística". De que maneira surgiu essa aproximação? As suas leituras da adolescência já indicavam esse percurso?

Rodrigo Petronio − Gosto muito dessa relação da poesia com o mito e com a mística. No caso do mito, acredito que toda a poesia e toda a arte partam de uma abertura mítica. Esta é a raiz de onde nasce a criação. Para ser mais claro, acredito que o mito seja o princípio de inteligibilidade do mundo. O mito é a clareira que soma em si todas as perspectivas possíveis de acesso ao real, como aquela floresta de Ortega y Gasset, que uniria em si a soma de todas as veredas contidas nela. Por isso, a poesia é mítica e a sua realidade se mostra como um afastamento ou aproximação de uma perspectiva originária, espécie de nascente da linguagem. Mas para tratarmos disso, seria preciso uma digressão que não cabe neste diálogo. No caso da mística creio que seja uma modalidade de compreensão e da linguagem um pouco mais específica, e tenho me interessado muito por ela. Faço parte do Núcleo de Estudos de Mística e Santidade (Nemes), coordenado pelo Luiz Felipe Pondé, e que tem me trazido muitos ensinamentos valiosos nesse sentido. O interesse talvez tenha vindo de minhas primeiras leituras de Blake ou mesmo da ideia de uma mística da transgressão, contida em Bataille e em autores modernos que seriam, na expressão dele, místicos de um mundo sem Deus. Só fui compreender melhor Allen Ginsberg, por exemplo, quando percebi a sua conexão com a mística hassídica, e, do ponto de vista formal, o quanto Kaddish e O Uivo tinham a ver com a essa tradição judaica de cunho mais “profano” e popular. Porém, por mais aberta que possa ser a incorporação do termo mística pela arte e pela literatura, esse diálogo pode transbordar a pertinência da mística e acabar gerando meras mistificações e equívocos. Além disso, acabei criando algumas dúvidas em relação à primazia da transgressão na arte moderna, se ela não nos levaria inevitavelmente a um impasse. Por isso, de tempos para cá, tenho me afastado dessas concepções livres demais da mística, e me dedicado a estudar a tradição e a literatura da mística ortodoxa, se é que podemos dizer assim, sobretudo a chamada mística especulativa, derivada da teologia negativa ou teologia apofática. Nos primeiros padres da igreja grega, como Nemésio, Gregório Nazianzeno, Gregório de Nissa, pelos quais tenho uma grande admiração, já encontramos uma teologia mística, que transcende os princípios racionais da filosofia que lhes serviu de base. Depois temos os neoplatônicos, como Porfírio, Jâmblico e, sobretudo, Plotino, e o Pseudo-Dioniso Areopagita, dos quais nascem os fundamentos da teologia negativa. A obra do Pseudo-Dioniso é uma maravilha, um épico do espírito em sua busca tateante da luz. É um ponto de clivagem tanto a ocidente quanto a oriente. E ela será de novo o elo perdido de união entre a filosofia e a teologia gregas e latinas no trabalho colossal de Scotus Erígena, que além de tudo faz também a ponte entre a mística antiga e toda a mística moderna, seja como tradutor do Pseudo-Dioniso, seja como um dos maiores representantes da teologia negativa no Ocidente. É desse eixo que nasce a mística da luz do século XII, sobretudo em Chartres, com Bernardo de Clairvaux e Hugo de Saint Victor, e, um século depois, São Boaventura. É desse eixo que floresce Ruysbroeck e a mística renana, com Tauler, Suso e o insuperável Mestre Eckhart. Deles se vai a San Juan de la Cruz, a Santa Teresa D’Ávila, a Silesius. Há também a tradição sufi da mística persa. Creio que Attar, Ibn Arabî e Rûmî estejam entre os maiores poetas de todos os tempos, além de terem escrito obra que tangencia os limites da compreensão e da linguagem, que singra sempre no limiar entre a consciência de si e a luz do mundo. E o caminho da mística não se esgota aí, não pode ser entendido como uma etapa superada do pensamento, como querem os positivistas de todas as latitudes. O exemplo de Simone Weil, no século XX, o demonstra, com proposta e forma muito distintas, mas ainda assim ancorada no fundo sem fundo da mística, bem como os de Heidegger e Wittgenstein, para mencionar casos extremos, na filosofia. A apophasis (impossibilidade de dizer), a kenosis (esvaziamento de si), a metanoia (transformação interna radical), as ideias do homo viator e do itinerarium mentis in Deum, o grau zero da consciência, a relação simétrica entre vazio da consciência e plenitude do mundo, a linguagem que busca uma excentricidade de si mesma, o fundo sem fundo (Ungrund) de que fala Eckhart, o desprendimento radical, no qual o próprio Deus se desprende de si e deixa de ser Deus: os temas da mística já são poesia em estado bruto.

Celuzlose − Aproveitando que você faz uma referência à teologia negativa, li um comentário seu sobre a obra de Augusto dos Anjos em que você desenvolve um conceito denominado “princípio de negatividade” ou “afirmação negativa”. Fale um pouco desse conceito.

Rodrigo Petronio - Augusto dos Anjos é um dos poetas brasileiros mais importantes para mim, embora sinta pouco a sua marca naquilo que escrevo. Às vezes temos admiração por um autor, ou até mesmo incorporamos elementos seus à nossa revelia, mas eles acabam não sendo centrais para o conjunto do que escrevemos ou para a nossa poética. O que gosto nele é a sua falta absoluta de definição, que é fruto de uma postura selvagem em relação à poesia, esta sim, mais moderna do que muitos modernismos. Sua forma é de cunho parnasiano; seus temas científicos poderiam ser tidos como naturalistas, ou como um enciclopedismo tardio, de almanaque, à moda do século XVIII, mas acabam sendo talhados em pinceladas grossas que se aproximam mais de alguns simbolistas excêntricos; algumas de suas paisagens são francamente baudelaireanas, mas ao mesmo tempo nada nele soa a spleen ou a tédio decadentista, estando mais próximo da podridão estelar e dos movimentos recônditos de pólipos e moneras do que de uma afetação finissecular de uma consciência crítica parisiense; por fim, em seus melhores momentos, creio que Augusto dos Anjos se aproxime de uma das poucas definições convincentes que lhe servem: um poeta expressionista. Um dos poucos, talvez o único expressionista brasileiro. Um expressionista sui generis que, obviamente, não chega aos voos de um Gottfried Benn nem à genialidade de um Trakl. Mas que assim mostra o seu lugar absolutamente excêntrico e, por isso mesmo, dos mais enraizados no imaginário brasileiro, com suas idiossincrasias e equívocos, com seus desenvolvimentos regressivos, plenos de contradições que, em arte, são um sinal de mais, não de menos. Quanto ao princípio de negatividade, é um conceito que tenho desenvolvido e que noto na arte sobretudo a partir do século XVII, especialmente a partir do Dom Quixote, mas que retroage ao século XII e até um pouco antes. Ele tem relação com um esvaziamento dos núcleos provisórios de sentido da realidade. Não é um conceito de ordem mística, pois a kenosis da mística acaba por reafirmar a transcendência divina. Esse conceito diz respeito, sim, aos níveis de articulação entre a linguagem e o mundo. Acredito que esse princípio negativo esteja no cerne da poesia de Augusto dos Anjos, e sinto que, em razão dessa especificidade, seja muito difícil vinculá-lo à mística sem forçar demais o que tradicionalmente se entende por mística, como eu disse anteriormente. Dos Anjos identifica o movimento de nossa consciência à vida infracelular e à pulsação cósmica, feita de geração e corrupção, de devir e de decomposição; em alguns poemas, faz desse movimento uma espécie de apostasia do sentido não manifesto do mundo. Mas essa sua visão nunca nos conduz a uma transcendência da consciência em relação à linguagem, da linguagem em relação ao mundo e de Deus em relação à consciência, à linguagem e ao mundo, como se propõe no horizonte da mística. Para Dos Anjos, esse percurso se dá como intensividade e extensividade da matéria; ele, entretanto (e essa é uma das ironias de sua obra), o simula como ato divino, como se Deus estivesse presente no drama cósmico da criação e também no verme, no esterco, na podridão, no húmus e em cada um dos órgãos e secreções de nosso corpo, sem metáforas holísticas e sem totalizações simbólicas, tão ao gosto da nossa Nova Era. Para o Mestre Eckhart, o Universo é o movimento de editus e reditus, ou seja, a respiração de Deus; para Dos Anjos, é a sístole e a diástole do corpo de um Deus morto, de um Deus de tal modo humilhado pela matéria e subjugado pela degradação que o constitui, que sua potência praticamente consiste em confessar seu fracasso, sua glória e seu corpo glorioso se reduzem à sua mais confessa, suja e irredimível materialidade. Nesse sentido, Dos Anjos é profundamente cristão, pois ele realiza, em uma lógica ad absurdum, a descensão do Verbo no corpo até a sua consumação, de modo que sequer a carne ressuscita. Já o movimento da mística é praticamente oposto. A impotência é sempre e em primeiro lugar do sujeito que conhece, do intelecto arrogante em seus disfarces e miserável em sua clara e distinta estupidez. E quando a impotência é de Deus, o é para revelar um mais-além, que não é nunca material, mas sempre um abismar-se no Nada que é Deus e que é o que está além de Deus. O movimento místico quer ultrapassar o Deus concebido como substância, acessar o que se encontra além de toda a substância, inclusive das substâncias divinas. Daí sua especulação chegar aos limites do compreensível e também do existente, ao abismo sem forma e aos fundamentos sem fundos da alma, que é o Nada divino. Em Dos Anjos, essa viagem da alma estanca na plenificação absoluta da matéria e em sua imanência, além da qual não há absolutamente nada.

Celuzlose – Este conceito também está presente em sua poética?

R.P. − Creio que sim, mas talvez em um sentido mais amplo. Este livro mais recente, Venho de um país selvagem, por exemplo, é um livro que ronda uma atmosfera de conflito entre o positivo e o negativo, entre a floresta e o deserto, entre a afirmação da terra e o exílio. Há nele uma abertura para a transcendência, mas ela parece que nunca se completa, pois há também um conflito de base em todos os poemas. Isso foi intencional. Mais que isso: foi involuntário. Precisava ser assim. Na verdade, esse é um dos pontos que gostaria de superar em um próximo livro. Precisava dar nome à abjeção, tocar a ferida, incorporá-la, vivê-la. As imagens de capa e quarta capa, do Farnese de Andrade, foram meticulosamente escolhidas. Quis incorporar a figura da vítima sacrificial. Falar dela em primeira pessoa, para depois ressuscitar, ao fim da travessia. Talvez meu próximo livro comece pelo fim deste. Tenho sentido necessidade de chegar a uma síntese de vivências e da linguagem. Não tenho dúvida de que para haver o milagre da vida é preciso que nos defrontemos com o Mal, que o incorporemos, que o conheçamos, cada vez mais. A passagem pelo Inferno para chegar ao Paraíso não é meramente nominal ou um simples epos literário. Tampouco é uma tola superação, entendida e catalogada em nossas cabeças quadradas, sejam elas católicas, iluministas, marxistas ou positivistas. Essa passagem é necessária, essencial. A Queda não foi um erro, mas a primeira etapa da salvação. Os místicos, os avatares, os santos, todos eles só foram o que foram porque perceberam o Mal, a abjeção, a miséria, a falta de sentido, o absurdo. E souberam amar o Mal, para poder transfigurá-lo. Cristo era espiritualizado? Pois bem: traduziu sua espiritualidade em chagas e pústulas pelo seu corpo. Foi pregado numa estaca entre dois bandidos. E ao fim abandonado pelo Pai. Tudo isso também faz parte da mensagem de Cristo, e não pode nunca ser ignorado. Buda só se iluminou quando se deu conta do nojo de existir, da infâmia que é estar vivo, do asco que é o sem-sentido da vida. Não adianta querermos ficar apenas com o lado compassivo de sua mensagem, de seu amor infinito pelas criaturas sofredoras. Teremos apenas metade de Buda. É preciso passar pelo Nada para chegar ao ser. Esse caminho não é reversível nem tem atalhos. Creio que em tempos de religiões de bidê, de holismo, de Nova Era, de sínteses de não sei o quê com não sei o quê, de massagens coletivas, em que o sagrado está cada vez mais sendo reduzido a funções terapêuticas, essa mensagem terrível das grandes religiões deve estar cada vez mais viva. Isso não quer dizer que não se busque a luz. Se não houver integração, os conflitos se transformam em espelhamentos. Viram miragens intelectuais. Repetições infernais e obsessivas. Como se acreditássemos no mundo das representações, como se as máscaras fossem a realidade última. Assim nos afastamos do Espírito e chegamos à psicanálise. E aí tudo se perde. Embora Venho de um país selvagem sinalize a morte das representações, tente tocar a inocência e atingir uma suposta nudez, há nele um conflito de fundo entre desgraça e redenção. Ao passo que para o Espírito, não há cisão. Agora estou num trânsito, tentando achar as sínteses possíveis depois da experiência do Nada.

Celuzlose – Nesse contexto, a poesia está mais relacionada com uma forma de revelação ou de loucura?

RP – Há uma frase de que gosto, segundo a qual há apenas uma diferença entre o poeta e o louco. Ambos vão em direção ao abismo, mas o poeta desvia, enquanto o louco cai. Essa frase é um pouco descritiva demais; na vida, as coisas não são tão nítidas. Algumas vezes o poeta pode cair... Mas há uma distinção, sim, entre o delírio da criação e a autodestruição. Embora o poeta possa em momentos de fúria ou de possessão ser tomado por esta última. A loucura é uma das coisas de que mais tenho medo. Algumas vezes já me senti prestes a enlouquecer. Isso não chega assim de uma hora pra outra; a loucura vai se infiltrando, percebendo o ambiente, convive contigo, bebe do teu copo, come da tua comida. Quando mal percebemos, o pensamento está prestes a perder o prumo, e os valores, a verdade, a moral, o hábito, o medo, as convenções, enfim, tudo isso parece irremediavelmente ridículo. Por isso, muitas vezes temos a sensação perigosa de que a loucura é uma hiperlucidez. Bom, toda a literatura, de Orfeu a Sófocles e a Shakespeare, de Cervantes a Dostoiévski e a Kafka, não é nada mais do que uma variação gigantesca em torno desse tema, nada mais do que jogos e espelhamentos entre o avesso e o direito, vistos sob um olhar que vem de fora.

Celuzlose – Você também atua como editor, professor, pesquisador e ensaísta. Como essas atividades se relacionam entre si e como elas interferem (ou não) na sua criação poética?

R.P. – Sinto que são todas atividades complementares. Tenho gostado cada vez mais dos trabalhos de edição. Eles nos colocam em contato com a feitura material do livro, que é muito bonita. Há uma série de detalhes um pouco chatos, mas que também lançam outra luz sobre o livro, e pode-se dizer mesmo sobre o texto, entendidos como fenômeno cultural. Isso também me interessa. A pesquisa e as aulas também são algo que me alimentam muito. Tenho gostado de trabalhar com cursos livres, pois assim tenho a possibilidade de criá-los, sobre temas e autores que gosto, e para os quais haja um público interessado. Desse modo consigo me realizar de diversas formas, seja do ponto de vista intelectual, por estar em contato com esses temas e autores, seja ao sentir que assim faço circular as ideias nas quais acredito. O ensaio é o complemento literário do estudo e da pesquisa. Toda aula é um ensaio, até certo ponto. Às vezes tenho um ímpeto reflexivo que pode, num certo sentido, contaminar a poesia. Preciso estar atento a isso. Mas ao mesmo tempo gosto muito do ensaio e da reflexão filosófica, entendidos como literatura. Ultimamente estou um pouco afastado da poesia, sinto que com a publicação de Venho de um país selvagem preciso ficar um pouco quieto. Ando em silêncio, não estou escrevendo. Percebo que estou maturando uma nova fase, uma nova escrita, que minha percepção da poesia tem mudado. E creio que seja melhor ficar recolhido por um tempo. Também, um dos motivos desse silêncio é que estou estudando e recolhendo material para escrever um trabalho ensaístico de mais fôlego. Além do que, tenho pesquisado e estudado alguns assuntos para criar novos cursos. O que me enriquece como leitor, e isso é o fundamental.

Celuzlose – Esse trabalho ensaístico de mais fôlego ao qual você se refere é uma continuidade do livro Transversal do Tempo, ou você vai por outros caminhos?

RP – Não. Vou por outros caminhos. O Transversal do Tempo é um livro mais monográfico e mais centrado na literatura. Um livro pouco autoral, de um sujeito de vinte e poucos anos. Cada capítulo é sobre um escritor, e eles acabam dialogando superficialmente entre si a partir de um pano de fundo que une todos eles. Mas essa unidade não chega a ser explicitada. Estou com um novo livro de ensaios inéditos no qual tento abrir mais o esquadro, e propor uma visão mais temática, na qual a unidade existente entre as obras se sobressaia, se destaque da leitura focada de cada uma delas. Algo mais aberto, mais temático, mais amplo. Primeiro pensei em criar uma linha que amarrasse todos esses ensaios já escritos, um horizonte comum no qual eles se inscrevam; creio que farei isso. Mas esse trabalho ensaístico que estou preparando é mais ambicioso e talvez consiga reunir nele todas as minhas leituras e interesses desenvolvidos até agora. Gostaria de escrever uma história da alma. Que no fundo seria uma história da imortalidade. Tenho me convencido de que a invenção da imortalidade foi uma das maiores, talvez a maior revolução operada pela humanidade. Maior que a invenção do fogo, da roda ou do alfabeto. Muito maior do que a da filosofia. Excepcionalmente maior do que a da imprensa. Até mesmo o nascimento da consciência é subsidiário ao nascimento da imortalidade, porque a alma é muito mais abrangente do que consciência. Sinto que nos desenvolvemos em um movimento centrípeto, em espiral, sempre em virtude da proximidade e do afastamento desse eixo. Alguns filósofos atuais têm tentado sínteses interessantes, mas partindo de outros núcleos de sentido. Peter Sloterdijk propõe algo semelhante em Esferas, obra monumental, em três tomos, que traça o percurso imaginário, filosófico, político e artístico da esfera na história da representação. No caso, me interessa rastrear quando a concepção de imortalidade nasce, as principais mudanças em seu sentido e, sobretudo, quando ela começa a declinar, até chegar à sua quase completa extinção nos dias de hoje. E as implicações disso. Trata-se de uma crença, compartilhada por todos os homens, não de um conceito filosófico ou de um assunto universitário. Sendo assim, é o tipo de núcleo que gera outros núcleos periféricos, que produz práticas e valores, orienta formas de vida e de organização da sociedade, da sexualidade, do imaginário. Intuo que a mutação nessa crença produziu uma alteração antropológica das mais significativas. É um trabalho muito difícil, cheio de ciladas e abismos, que vai levar alguns anos. É preciso um diálogo entre filosofia, antropologia, história, teoria da literatura, história das religiões, até arqueologia. Como o assunto é muito grande, se conseguir dar uma pequena contribuição para ele já me darei por satisfeito. Isso é o que mais tem me motivado ultimamente.

Celuzlose – Em relação a sua atividade de editor, fale um pouco sobre as Edições Rumi. Qual é a proposta editorial?

RP – Por enquanto a Edições Rumi ainda é uma empresa que tenho e com a qual presto serviços a outras editoras. Publiquei há pouco uma antologia de poemas da Maiara Gouveia, Pleno Deserto, em uma edição simples e de tiragem pequena, que me deu muita alegria fazer. Além de ótima poeta, ela é minha mulher, o que dá uma dupla realização. Projetos editoriais não faltam. Gostaria de publicar principalmente poesia e ensaio. Mas por ora não tenho estrutura pra isso. Quem sabe em breve? Vamos ver como as coisas andam.

Celuzlose – Atualmente a Biblioteca Brasiliana do José Mindlin está passando por um processo de digitalização que é realizado na USP e algumas obras já estão disponíveis na Internet (http://www.brasiliana.usp.br). Da mesma forma, outras iniciativas semelhantes são realizadas ao redor do mundo. Como você vê essa transferência do conteúdo impresso para o meio digital?

RP – Vejo com otimismo e com muitos bons olhos. Faz pouco tempo houve a polêmica envolvendo o projeto da Google, de disponibilizar material digitalizado das bibliotecas e de centralizar as compras de livros pela internet. O ponto delicado está em definir a diferença entre ter acesso a um livro físico em uma biblioteca pública e baixá-lo de um site. São espaços públicos distintos e maneiras distintas de apropriação de um material, concordo. Mas quase sempre esses pruridos morais relativos à propriedade intelectual e às patentes estão mais ligados aos interesses das corporações do que aos produtores e ao valor cultural objetivo das obras. Também se desconsidera a possibilidade bastante realista de convivência pacífica das obras em dois suportes diferentes. Imagino que apenas um masoquista leria Proust na tela do computador ou imprimiria a Busca do tempo perdido em sua HP. Essas mídias vão forçosamente mudar. Seu valor, seu sentido, sua acessibilidade. Mas não haverá superação de uma pela outra. Por isso, se disponibilizarem todas as obras do planeta na internet, eu apoiarei.

Celuzlose – Você esteve recentemente no México e participou de alguns encontros literários. Como foi esse intercâmbio?



RP – Foi uma das melhores viagens que já fiz, um intercâmbio muito rico. Fiz leituras em Puebla, uma pequena cidade próxima da Cidade do México, na qual há a Casa do Escritor, um espaço público que recebe escritores de vários lugares do mundo. Fui para Mérida, uma das cidades mais antigas da América, ao sul, na Península de Yucatán, que é uma zona maia, e ali fiz alguns dias de oficinas e leituras. Depois voltei ao DF e participei de um bate-papo e leitura na Unam (Universidade Nacional Autônoma do México). Por fim dei um breve curso sobre Guimarães Rosa na Fundación para las Letras Mexicanas, antiga Fundação Octavio Paz. Além de ter conhecido o país, a cultura mexicana e os mexicanos, um povo que adorei, e de ter conversado muito e conhecido um pouco mais da sua literatura, voltei com uma série de ideias e projetos concretos de estreitamento de relações entre os dois países. A poesia mexicana é acintosamente desconhecida no Brasil. E vice-versa. Isso decorre da posição insular que o Brasil assume frente aos demais países hispânicos, que nos faz mais próximos dos EUA e de outros países europeus do que dos nossos vizinhos e da Península Ibérica. Curiosamente, o mesmo descaso se passa com relação à poesia portuguesa, que é de nossa mesma matriz cultural e da mesma língua, além de ser uma das melhores poesias do mundo. E, no entanto, a ignoramos ostensivamente. Nunca saímos de Fernando Pessoa. A cultura popular brasileira tem traços medievais, com expressões, símbolos e vocabulário que vêm do século X e foram se transformando e se sedimentando com o tempo. Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, João Cabral e Ariano Suassuna perceberam isso muito bem. É uma linha evolutiva, uma das mais fortes e longas tradições culturais europeias que ainda se preservam sem se romper. Mas os meios intelectuais brasileiros são muito afrancesados. Isso parece ter removido do horizonte essa nossa herança ibérica, que é riquíssima. E demonstra que a Missão Francesa de fato foi vitoriosa. Com relação ao México, chegamos em Octavio Paz e paramos. Sendo que eles têm uma poesia de muita qualidade, tanto nas gerações anteriores a Paz, como a do grupo Contemporâneos (Xavier Villaurrutia, Carlos Pellicer, Jorge Cuesta, José Gorostiza), quanto nas gerações um pouco posteriores, com nomes como Eduardo Lizalde e Eduardo Langagne, entre outros. E isso não só no que diz respeito ao México. Enquanto esse isolamento brasileiro perseverar, nossa poesia se empobrecerá, pois se manterá alheia às experiências artísticas mais interessantes que há em países cuja expressão cultual, linguística e política é muito semelhante à nossa. E tampouco saberá o que fazer com a herança ibérica, que é o coração de tudo o que chamamos de Brasil.

Leia:
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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A EXUBERÊNCIA E O REQUINTE

2º post deste link http://maiaragouveia.blogspot.com/search/label/Dirceu%20Villa



cantiga 353 - Afonso X



Publicado em 2006, no suplemento cultural do Jornal da Paraíba, O Augusto, editado na ocasião por Astier Basílio, o seguinte artigo aborda alguns elementos da poética de Rodrigo Petronio e Dirceu Villa, respectivamente. Procurei frisar aquilo que considero mais patente no trabalho de ambos. Ressaltei o fato de serem dois poetas jovens, produzindo literatura consistente, com linguagens muito distintas.



A Exuberância & o Requinte






RODRIGO PETRONIO. O exílio na carne e a luz que vem do chão. Os signos da natureza e o exterior em sua vastidão inconsciente. Rodrigo Petronio nos coloca diante do movimento que constantemente nos une e nos separa; da mudança incessante que não nos permite crer em nenhuma permanência, pois está imerso nos sentidos e estes só oferecem fluxo, reviravolta, enigma. A natureza não procura resposta alguma, a natureza é cega e sua força aniquila tudo o que inventa e recupera tudo o que aniquila. Através de imagens singulares e da exuberância da escrita, o poeta reflete essa premissa em variedade de formas que se deformam, se transformam e se mesclam umas às outras na vertigem causada por um mundo cujo cerne é a ausência de sentido.
A fusão entre o próprio corpo e a pulsão do tempo nos coloca, reiteradamente, diante do abismo. Mergulho em um corpo sem verbo, diz no poema de abertura do livro Pedra de Luz (Girafa, 2005), “No sentido da terra”. E mais adiante: Não projeto um mundo fora do mundo/ Apenas rumo para o deus viscoso. Ao vazio da lua sou enfim entregue. A aderência ao interior, ao vórtice profundo do corpo. A aderência à carne e sua realidade opaca leva à convulsão dos sentidos, ponto de contato com a voragem da existência. O corpo é a fronteira entre o ser e o mundo, fronteira e aparato vivo com o qual absorvemos, sentimos, tocamos o que nos rodeia. Ao mesmo tempo distanciamento e aproximação do outro, o que nos define, e, por nos definir, nos espolia da totalidade. E se a fronteira se dissolve, por um instante, naquele ponto em que a presença da morte nos sopra aos ouvidos o segredo da comunhão entre os seres, mais clara se torna a precariedade e o valor desse reino. O corpo: tudo o que temos.

DIRCEU VILLA. A ironia: sim, ela surge no trabalho do poeta sobre o qual discorremos nessas poucas linhas. Mas nosso comentário não ficará em torno desse artifício utilizado tão bem pelo autor de poemas como “Ninho de Vespas”, em Descort (Hedra, 2000) e “angst brasileira I” do livro curiosamente inédito Icterofagia, no qual lemos: Ceci tinha só/ o sêmen de orvalho/ que passava em Peri/ por caralho, entre outros versos não menos desconcertantes. Na verdade, iniciamos desse modo para chegarmos ao seguinte: “a ironia recobre a ferida”, como diz Octavio Paz em Sade - Um mais além Erótico (Mandarim, 1999), e a ferida é estar num mundo em que as sutilezas, tão caras à linguagem poética, são raridade tanto nos homens quanto nesses livros que andam pelas estantes das livrarias: a tinta, fresca. E é disso que eu quero falar, embora sem poder me deter muito à análise, por enquanto.
Bem, Dirceu Villa nos brinda muitas vezes com poemas delicados, por exemplo, “Cosméticos para o corpo”, que inicia do seguinte modo: que perfume prefiro/esta noite?/resina, madeira/o dulçor de um floral. Em “Lyra aragonesa: refram de abril”, temos uma bela canção de amor, e vai buscá-la na fonte, quero dizer, na fonte do amor como o conhecemos (e apenas essa afirmação é assunto para um ensaio), mas enfim, acreditem: nas formas provençais estão as bases do amor modus hodierno, e ele (o poeta) nos canta daquele que não pode/ mal fazer/nenhum.
Fruição da beleza oferecida a quem está disposto a entregar-se.
Maiara Gouveia, 2006.


*


domingo, 29 de novembro de 2009

A EXUBERÂNCIA & O REQUINTE

Maiara Gouveia
Ambos nascidos em 1975, Dirceu Villa e Rodrigo Petronio são dois poetas jovens, com poéticas distintas, produzindo literatura consistente.

RODRIGO PETRONIO. O exílio na carne e a luz que vem do chão. Os signos da natureza e o exterior em sua vastidão inconsciente. Rodrigo Petronio nos coloca diante do movimento que constantemente nos une e nos separa; da mudança incessante que não nos permite crer em nenhuma permanência, pois está imerso nos sentidos e estes só oferecem fluxo, reviravolta, enigma. A natureza não procura resposta alguma, a natureza é cega e sua força aniquila tudo o que inventa e recupera tudo o que aniquila. Através de imagens singulares e da exuberância da escrita, o poeta reflete essa premissa em variedade de formas que se deformam, se transformam e se mesclam umas às outras na vertigem causada por um mundo cujo cerne é a ausência de sentido.
A fusão entre o próprio corpo e a pulsão do tempo nos coloca, reiteradamente, diante do abismo. No mergulho em um corpo sem verbo, diz no poema de abertura do livro Pedra de Luz (Girafa, 2005), "No sentido da terra". E mais adiante: Não projeto um mundo fora do mundo/ Apenas rumo para o deus viscoso. Ao vazio da lua sou enfim entregue . A aderência ao interior, ao vórtice profundo do corpo. A aderência à carne e sua realidade opaca leva à convulsão dos sentidos, ponto de contato com a voragem da existência. O corpo é a fronteira entre o ser e o mundo, fronteira e aparato vivo com o qual absorvemos, sentimos, tocamos o que nos rodeia. Ao mesmo tempo distanciamento e aproximação do outro, o que nos define, e, por nos definir, nos espolia da totalidade. E se a fronteira se dissolve, por um instante, naquele ponto em que a presença da morte nos sopra aos ouvidos o segredo da comunhão entre os seres, mais clara se torna a precariedade e o valor desse reino. O corpo: tudo o que temos.

DIRCEU VILLA. A ironia é uma mordida na testa, mas um bom autor faz desse recurso uma forma de marcar a testa do outro, e certamente arderá (onde houver substância). Sim, ela surge no trabalho do poeta sobre o qual discorreremos nessas poucas linhas. Mas nosso comentário não ficará em torno desse artifício utilizado tão bem pelo autor de poemas como "Ninho de Vespas", em Descort (Hedra, 2003) e "angst brasileira I-" do livro curiosamente inédito Icterofagia, no qual lemos: Ceci tinha só/ o sêmen de orvalho/ que passava em Peri/ por caralho, entre outros versos não menos desconcertantes. Na verdade, iniciamos desse modo para chegarmos ao seguinte: "a ironia recobre a ferida", como diz Octavio Paz em Sade - Um mais além Erótico (Mandarim, 1999), e a ferida é estar num mundo em que as sutilezas, tão caras à linguagem poética, são raras tanto nos homens quanto na literatura. E é disso que eu quero falar, embora sem poder me deter muito à análise por ora. Bem, Dirceu Villa também nos brinda com poemas delicados, por exemplo, "Cosméticos para o corpo", que inicia do seguinte modo: que perfume prefiro/esta noite?/resina, madeira/o dulçor de um floral. Em "Lyra aragonesa: refram de abril", temos uma bela canção de amor, e vai buscá-lo na fonte, quero dizer, na fonte do amor como o conhecemos (e apenas essa afirmação é assunto para um ensaio), mas enfim, acreditem: nas formas provençais estão as bases do amor moderno, e ele (o poeta) nos canta daquele que não pode/ mal fazer/nenhum. A fruição da beleza oferecida a quem, por ela, está disposto a entregar-se.

A MORTE DE UM CONTINENTE


Se a transfiguração da história em forma artística, no sentido mais profundo deste termo, é um dos imperativos de toda grande obra, isso raramente se deve aos argumentos fornecidos pela crítica, que procura em vão demonstrar a pertinência de uma obra por meio de suas implicações sociológicas ou formais, ou seja, seus hipotéticos compromissos, seja com o que for. A grande arte é irresponsável. E só assim pode angariar o posto que lhe cabe, não como corolário de experiências formais nem como antídoto ou sintoma de nossas mazelas, mas sim como salto livre no abismo. Devemos a seu suicídio a nossa salvação.
Nesses termos, é legítimo ver no romance Zama (Editora Globo, 2006) do argentino Antonio di Benedetto, publicado originalmente em 1956, um dos marcos importantes da moderna ficção hispano-americana. E isso porque ele questiona essas premissas justamente a partir de sua própria estrutura. Sendo um romance ambientado no século XVIII, guarda pouco ou quase nada do modelo convencional dos romances históricos. Nele a perspectiva léxica, embora rica, é secundária, e se fôssemos pensar em sua paternidade estilística, teríamos que concordar com o que diz Juan José Saer no prefácio: ela se liga mais à prosa do Siglo de Oro do que aos padrões setecentistas. Mesmo o dado histórico imediato não ressoa nele como seria de se esperar. E esse assessor letrado do governador do Paraguai chamado dom Diego de Zama, à espera de retornar para uma cidade mais importante do continente, está mais próximo do emblema do destino e da decadência de um homem do que do modelo exemplar de uma época, seja ele tópico ou típico.
Também em termos políticos o lugar de Zama é híbrido e de difícil localização. Não há heroísmo ou anti-heroísmo em suas linhas. Muito menos acidentes pícaros ou aventuras para além do real, sejam elas maravilhosas ou fantásticas, embora ao longo do seu andamento a fronteira entre delírio e realidade tenda a se atenuar gravemente. Porém, diferente da tradição do realismo mágico, o ar que se respira aqui é opressivo, mais próximo de um enquadramento de tipo existencial, cuja ação está eternamente em vias de se realizar. Nesse ambiente, nem mesmo o amor pode superar a zona de interdição que nos cerca, pois a paixão que impulsiona dom Diego a Luciana ou sua dívida abstrata para com a sua esposa só servem para fortalecer o caráter inconcluso, dir-se-ia inviável, da existência. Em meio a esse andamento sonâmbulo, irrompem aqui e ali pequenas alegorias e metáforas. São elas que conferem ao real o teor discrepante que lhe caracteriza além da mera constatação e moldam a especificidade da situação americana, em contraste com a Europa, contraste simultaneamente velado e desvelado pelo romance.
É assim que a sua abertura forte, com a cena de um macaco morto boiando no ir-e-vir das águas de um píer, já nos lança em seu horizonte imaginário. Seria essa a chave de nossa condição e mesmo da condição humana? São muitas as alegoreses que se seguem como pontos luminosos na trama da narrativa: a mulher que foi ceifada (morta) pelo homem que sonhou seu corpo como se ele fosse a asa de um morcego, as aranhas que aparecem em momentos os mais imprevistos, a reflexão ociosa sobre o deus criador que Zama realiza ao lado de sua nova esposa, as duas mulheres enigmáticas da sua nova hospedagem, essa insólita expedição de guerra em busca desse igualmente insólito Vicuña Porto, em um clima de delírio e de entorpecimento coletivo, e o seu desfecho: a reaparição fantasmal do menino loiro, que pontua diversos momentos do livro.
Em vão o leitor procurará semelhanças entre Zama e outras obras hispano-americanas. Não há nele o transbordamento admirável do senhor barroco Lezama Lima, tampouco a frieza cínica dos contos de Virgilio Piñera. Não estamos nos meandros intelectuais de Borges, nos labirintos frondosos de Cabrera Infante ou no campo efabulador de García Márquez. E, se não há espaço aqui para o engajamento político explícito, tampouco há para o culto à forma romanesca, ecoando nouveau roman. Talvez sua remissão mais direta seja, ao contrário, mais longínqua, e lance raízes em dois precursores de toda a tradição americana: Horacio Quiroga e Juan Rulfo.
Dividido em três partes, Zama compõe um diagrama de três datas: 1790, 1794 e 1799. Nada mais vazio e, no entanto, mais esclarecedor. Pois sua radicação histórica, ao transcender o espírito de época, devolve a história do continente ao presente. E se a América Latina é mesmo uma ficção, como queria Borges, a recusa ao fechamento ideológico que reverbera em Zama diz-nos algo mais profundo do que mera renúncia ou pessimismo. Dedicada às vítimas da espera, por esse mesmo motivo a obra de Di Benedetto pode ser lida em todos os seus níveis possíveis, sejam eles políticos, históricos ou existenciais. E assim, mais do que compor a sinfonia patética de nossas ilusões, faz sim é agravar o sentido vivo e pulsante de nosso desespero.