segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A EXUBERÊNCIA E O REQUINTE

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cantiga 353 - Afonso X



Publicado em 2006, no suplemento cultural do Jornal da Paraíba, O Augusto, editado na ocasião por Astier Basílio, o seguinte artigo aborda alguns elementos da poética de Rodrigo Petronio e Dirceu Villa, respectivamente. Procurei frisar aquilo que considero mais patente no trabalho de ambos. Ressaltei o fato de serem dois poetas jovens, produzindo literatura consistente, com linguagens muito distintas.



A Exuberância & o Requinte






RODRIGO PETRONIO. O exílio na carne e a luz que vem do chão. Os signos da natureza e o exterior em sua vastidão inconsciente. Rodrigo Petronio nos coloca diante do movimento que constantemente nos une e nos separa; da mudança incessante que não nos permite crer em nenhuma permanência, pois está imerso nos sentidos e estes só oferecem fluxo, reviravolta, enigma. A natureza não procura resposta alguma, a natureza é cega e sua força aniquila tudo o que inventa e recupera tudo o que aniquila. Através de imagens singulares e da exuberância da escrita, o poeta reflete essa premissa em variedade de formas que se deformam, se transformam e se mesclam umas às outras na vertigem causada por um mundo cujo cerne é a ausência de sentido.
A fusão entre o próprio corpo e a pulsão do tempo nos coloca, reiteradamente, diante do abismo. Mergulho em um corpo sem verbo, diz no poema de abertura do livro Pedra de Luz (Girafa, 2005), “No sentido da terra”. E mais adiante: Não projeto um mundo fora do mundo/ Apenas rumo para o deus viscoso. Ao vazio da lua sou enfim entregue. A aderência ao interior, ao vórtice profundo do corpo. A aderência à carne e sua realidade opaca leva à convulsão dos sentidos, ponto de contato com a voragem da existência. O corpo é a fronteira entre o ser e o mundo, fronteira e aparato vivo com o qual absorvemos, sentimos, tocamos o que nos rodeia. Ao mesmo tempo distanciamento e aproximação do outro, o que nos define, e, por nos definir, nos espolia da totalidade. E se a fronteira se dissolve, por um instante, naquele ponto em que a presença da morte nos sopra aos ouvidos o segredo da comunhão entre os seres, mais clara se torna a precariedade e o valor desse reino. O corpo: tudo o que temos.

DIRCEU VILLA. A ironia: sim, ela surge no trabalho do poeta sobre o qual discorremos nessas poucas linhas. Mas nosso comentário não ficará em torno desse artifício utilizado tão bem pelo autor de poemas como “Ninho de Vespas”, em Descort (Hedra, 2000) e “angst brasileira I” do livro curiosamente inédito Icterofagia, no qual lemos: Ceci tinha só/ o sêmen de orvalho/ que passava em Peri/ por caralho, entre outros versos não menos desconcertantes. Na verdade, iniciamos desse modo para chegarmos ao seguinte: “a ironia recobre a ferida”, como diz Octavio Paz em Sade - Um mais além Erótico (Mandarim, 1999), e a ferida é estar num mundo em que as sutilezas, tão caras à linguagem poética, são raridade tanto nos homens quanto nesses livros que andam pelas estantes das livrarias: a tinta, fresca. E é disso que eu quero falar, embora sem poder me deter muito à análise, por enquanto.
Bem, Dirceu Villa nos brinda muitas vezes com poemas delicados, por exemplo, “Cosméticos para o corpo”, que inicia do seguinte modo: que perfume prefiro/esta noite?/resina, madeira/o dulçor de um floral. Em “Lyra aragonesa: refram de abril”, temos uma bela canção de amor, e vai buscá-la na fonte, quero dizer, na fonte do amor como o conhecemos (e apenas essa afirmação é assunto para um ensaio), mas enfim, acreditem: nas formas provençais estão as bases do amor modus hodierno, e ele (o poeta) nos canta daquele que não pode/ mal fazer/nenhum.
Fruição da beleza oferecida a quem está disposto a entregar-se.
Maiara Gouveia, 2006.


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